A broadwaificação das histórias

Não é um desafio encontrar alguém que não conheça a trama empolgante da nova série de TV, o universo pós-apocalíptico do novo livro lançado, ou o protagonista apaixonado do novo filme em cartaz. Mas quando estamos à procura de alguém que não conheça, por exemplo, qual freira rebelde é interpretada por Whoopi Goldberg, de quem o Sancho Pança é o fiel escudeiro, ou que família mórbida tem um tio pálido e careca chamado Chico, a tarefa fica bem mais difícil. Ainda assim, os teatros lotam e continuam a lotar produções como Mudança de Hábito, O Homem de la Mancha e A Família Adams, mesmo que essas histórias sejam tão conhecidas. Ao ponto de que a revelação de que o dragão é na verdade um moinho de vento seja o spoiler mais bem aceito da humanidade.


Mas por quê as pessoas insistem em reassistir a histórias que já conhecem de cor? Por quê querem ver a mesma coisa?

As histórias

Porque não são a mesma coisa. Tudo bem, o Quixote pode continuar imprudente, a irmã Mary pode continuar rebelde e a Wandinha pode continuar mal-humorada, mas as suas versões teatrais sempre criam experiências diferentes das originais, ainda que a trama seja a mesma. Isso acontece pois as histórias, como linguagem, dependem da materialidade por onde chegam aos nossos olhos e ouvidos: elas apenas se fazem histórias quando são projetadas a partir dos estímulos do meio.

Por isso, enquanto os estímulos visuais e sonoros de uma caixinha de luzes ou das milhares de palavrinhas de um amontoado de papéis são capazes de nos levar por maravilhosas viagens em universos imaginários, a performance de atores em um palco pode nos levar para as mesmas viagens, com os mesmos roteiros, e ainda assim proporcionando uma experiência totalmente singular, que cada “meio de transporte” pode oferecer. Assim, quando visitamos aquele mundo imaginário, podemos viajar em um avião que garante uma vista panorâmica e rápida, em uma trilha a pé que explora cada detalhe e demora o dobro do tempo, ou em um ônibus de excursão onde o motorista vai cantando músicas e fazendo coreografias para cada lugar que passamos.


O teatro

A materialidade que nos leva pelas tramas e universos paralelos encontra seu potencial máximo no teatro. Não apenas pelos cenários super produzidos, os atores famosos, e as coreografias impecáveis, mas pelo apelo como ritual. O teatro tem a capacidade ritualística de instaurar um espaço-tempo diferente do cotidiano, e assim, empresta da força do espaço e do tempo real para construir uma história ficcional e imaginativa de grande potência. Por isso, dizer que os espetáculos trazem os personagens que amamos à vida não é de toda ingenuidade. Enquanto na televisão vemos a imagem de uma mulher de vestido longo e nos enganamos a acreditar que ela é uma a mãe de uma família mórbida, no teatro, mesmo com a consciência de que ela não é real, essa “auto-enganação” é mais espontânea e intensa, porque vemos essa mulher viva, presente. Assim, somos afetados por uma outra variedade de estímulos, que estreita ainda mais a divertida ponte entre nossa realidade e a ficção alheia.



            A broadwaificação

O sucesso dos espetáculos musicais das histórias que já foram contadas e recontadas inúmeras vezes tem muito a dizer sobre o poder do meio sobre as narrativas. Nenhuma história é completa em si mesma, já que depende dos pedacinhos de contato do meio com o espectador (que nunca são absolutos a ponto de esgotar as possibilidades de viagens dentro de uma determinada história). Isso permite que que cada tipo de estímulo proporcione uma experiência única, e, em consequência, permite reinventar as narrativas.

Quem diz que a chave de uma boa história se encontra nas reviravoltas e imprevisibilidade está enganado. A chave das histórias está em como contá-las, de modo que as pessoas estejam dispostas a ouvi-la de novo e de novo, por vozes diferentes e complementares. Os musicais parecem ser mestres nisso, pois além de contar com seus atores, cenários e coreografias espetaculares, já têm as histórias que as pessoas adoram. E, mais uma vez, não precisam se preocupar com spoilers.



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