A HISTÓRIA DE DUAS BRIGAS

No sábado levei duas garrafadas, uma na cabeça e outra na cara. Eu ganhei uma luta e perdi uma briga. E, talvez, tenha aprendido uma valiosa lição no final dessa história que quero compartilhar com você. Afinal, é para isso que servem histórias, para aprendermos lições.

Eram 19h00 quando saí da agência onde trabalho. Cansado depois de terminar um projeto importante, mas com aquela sensação de dever cumprido, tinha certeza que voltaria direto para casa e deixaria meu primeiro bloquinho de carnaval de rua da Vila Madalena para outro dia. Entretanto, enquanto eu caminhava até a estação Fradique Coutinho do metrô, uma multidão levando glitter por onde passava me fez acreditar que eu poderia tentar espremer o bagaço da laranja para ver o que restava.

Mandei mensagens para alguns amigos e comecei a caminhar no contra fluxo. Encontrei conhecidos boêmios pelas ruas e paixões antigas que minha memória não era capaz de me dizer se foram concretizadas ou apenas platônicas. A cada passo que eu dava, saía cada vez mais do meu trabalho e entrava no Carnaval. Ou melhor, o Carnaval entrava em mim.



Quando menos percebi, estava sem camisa brilhando (tanto literal quanto metaforicamente falando) no meio de uma multidão de foliões. Pela mão esquerda virava uma garrafa de Catuaba e pela direita uma de vodka. Quando não estava com a boca cheia de bebida, aproveitava para flertar aleatoriamente com algumas meninas que se mostravam interessadas em mim ao mesmo tempo que eu me mostrava interessado nelas. Foi em um desses momentos de troca de interesse que aconteceu a primeira briga.

Eu e meus amigos conversávamos tranquilamente com um grupo de meninas tentando descolar um copo com gelo de um vendedor ambulante quando duas outras meninas, que tinham se distanciado do grupo, voltaram extremamente irritadas.

         - Meu, vocês não vão acreditar! - gritava uma delas. - Aquele cuzão de máscara passou a mão na minha bunda.

         - E ainda me chamou de filha da puta quando eu não quis ficar com ele - complementou a outra.

Eu olhei na direção de onde as duas tinham vindo e vi o cara de máscara que, coincidentemente, incomodava mais duas outras meninas.

          - Que cara babaca - eu disse, tentando servir de consolo.

          - Gente, eu não posso deixar isso assim - continuou a primeira menina. - Eu vou tacar um copo de bebida nele. Mas... e se ele vier para cima de mim...?

Ela tinha razão de fazer o que queria. E não deveria se sentir nenhum pouco intimidada por repreender um filho da puta daqueles. Quem deveria se sentir intimidado era ele.

          - Vai fundo - incentivei. - Se ele fizer alguma coisa, deixa com a gente.

Ela jogou o copo. O mascarado, para a minha surpresa, não ficou envergonhado e jogou o copo dele de volta. Aquilo foi demais.

          - Você tá louco?! - eu gritei, indo em direção a ele. - Vai passar a mão na bunda de mulher, chamar outra que não quis ficar contigo de filha da puta e ainda quer jogar copo de bebida?! Você tá louco, cuzão?!

Uma roda se abriu formando um ringue provisório comigo e o mascarado no centro. E o mascarado resolveu retrucar.

          - Você se acha forte porque está sem camisa? - disse ele me encarando e tirando sua máscara e sua camiseta. - Eu também sou forte.

Em seguida, meio que imitando uma cena de briga de rua de filme B de artes marciais, começou a chutar o ar achando que fosse me intimidar. Não funcionou. Especialmente porque, naquele momento, vendo que a treta estava para começar, o público ao redor começou a gritar: "Jesus! Jesus! Jesus!". Não, eles não eram religiosos ou algo do tipo. É que eu sou barbudo e cabeludo e muita gente me chama assim em festas no geral.

Eu esperei até o Van Damme do bloquinho parar sua sequência de espacamento de ar e fui para cima. Com um chute na bunda dele, a briga acabou. Ele simplesmente não esperava por aquilo.

           - Oh, mano! - disse com a mão no rabo e o rabo entre as pernas - Para com isso. Não quero brigar...

           - Então respeita as minas, caralho! - quando falei isso, a galera foi ao delírio.

Voltei para o grupo onde eu estava antes e a menina que jogou o copo de bebida no mascarado me deu um abraçado bem apertado, me agradecendo com lágrimas nos olhos. Nós não ficamos, nem trocamos telefone e muito menos flertamos. O que aconteceu foi algo totalmente livre de segundas intenções. Eu comprei aquela briga porque ela realmente valia a pena ser comprada (presta atenção porque a moral da história tem a ver com isso). Porque pensei no que eu gostaria que alguém fizesse se aquela desconhecida fosse minha amiga, minha namorada, minha mãe ou minha filha. Porque já estou de saco cheio de escutar mulheres dizendo (cobertas de razão) que deixam de ir em lugares por causa desse tipo de comportamento. E porque eu odiaria passar pela mesma situação. Então foi algo que valeu a pena.

Saí dali aclamado como um herói, recebendo cantada de tudo quanto era canto e gente vindo me cumprimentar. E isso mexeu comigo. Mexeu de um jeito que tentarei explicar usando um processo neuroquímico de lagostas (não é zuera).

Recentemente assisti a uma palestra de um professor e psicológo canadense chamado Jordan Peterson, autor do livro 12 Rules for Life. No começo dessa palestra, Peterson afirma que serotonina rege status, regula emoções e postura em humanos de forma similar ao que faz por lagostas. Então, de acordo com ele, se uma lagosta é derrotada em uma batalha de domínio de grupo, você pode dar a ela antidepressivos para que lute de novo. E, assim sendo, uma lagosta líder tem naturalmente altos níveis de serotonina, enquanto lagostas em níveis hierárquicos baixos tem baixos níveis de serotonina. Logo, você pode mudar a hierarquia em um grupo de lagostas simplesmente manipulando seus níveis de serotonina. E, seguindo essa linha de estudos e raciocínio, Peterson faz uma correlação biológica com as "batalhas" humanas pelo domínio e ascenção em hierarquias. Segundo ele, essas "batalhas" afetam como o sistema das pessoas envolvidas responde ao mundo através de processos neuroquímicos, fazendo-as experimentarem mais ou menos emoções positivas e negativas de acordo com suas "vitórias", de uma forma similar ao que ocorre com as lagostas. Exatamente por isso pessoas defendem tão ferozmente suas ideias, de forma a estabelecerem sua autoridade em diferentes cadeias hierárquicas para não passarem por processos neuroquímicos que as coloque para baixo (expliquei de forma resumida, mas você pode entender melhor vendo o vídeo abaixo).



Depois daquela primeira briga, eu me sentia uma lagosta alpha. Falando de forma grosseira, eu era a lagosta fodona com quem as outras queriam acasalar ou respeitavam a posição (tipo gorilão da bola azul). Foi por isso que entrei na segunda briga. E foi também por isso que perdi a segunda briga.

Eu andava para cima e para baixo da Aspicuelta fazendo novas amizades e me divertindo com meus amigos. Foi em uma dessas andaças eu esbarrei em um pivete. Ou talvez nem tenha esbarrado (pelo menos um dos meus amigos disse depois que não esbarramos em ninguém). O pivete veio atrás de mim me apontou um dedo e disse:

            - Você vai trombar com os moleques da quebrada? A gente vai te arrebentar!

Eu, em meu estado lagosta alpha, ouvi aquilo e nem pensei antes de responder:

            - Escuta aqui, seu pivete de merda, se você falar mais alguma coisa dessas eu te enterro com um soco no chão.

Grande erro. Não que não fosse verdade, mas foi algo totalmente desnecessário, movido por ego e bebida.

O primeiro pivete estava acompanhado por outros cinco caras que não me intimidavam nenhum pouco, apesar de eu estar acompanhado por apenas mais dois amigos que não são de brigar. De repente, começaram a surgir outros membors do grupo de "moleques da quebrada", que também não me metiam medo.

           - A gente é bandido da quebrada, vai tirar? - gritou outro, chegando perto demais da minha cara.

Eu tirei. Meti um soco no meio da cara dele. E meti um soco no cara do lado também. E acho que chutei um terceiro. Briga de rua, na vida real, é bem diferente dos filmes. Tudo parece muito mais rápido e lento ao mesmo tempo. Como em um sonho, que você lembra de imagens, mas esquece o contexto. Um dos meus amigos, que estava ficando com uma menina na hora que tudo aconteceu, disse que me viu longe, estrangulando um cara enquanto usava o mesmo de escudo para outros dois não me acertarem. Eu lembro que soltei o "bandido da quebrada" para me defender de um outro que tentou me atacar por trás. Fiz isso de um jeito rápido, fácil e eficaz e até achei que a briga tinha acabado e que eu tinha vencido de novo quando meus amigos começaram a separar a confusão. Mas eu estava enganado. O "bandido da quebrada", livre do meu estrangulamento, foi até um vendedor ambulante, pegou uma garrafa de cerveja e jogou na minha cabeça. Eu passei a mão no couro cabeludo para ver se estava sangrando, e foi quando abaixei a guarda desse jeito que o filho da puta jogou a segunda garrafa. Essa acertou em cheio na minha cara e abriu minha sombrancelha.

Se você já jogou Call of Duty vai entender minha sensação naquele momento. Eu senti que meu avatar estava prestes a "morrer", vi tudo mais lento com gotas de sangue embassando minha visão, a única coisa que conseguia escutar era um zumbido chato pra cacete e sabia que tinha que ir para um lugar seguro. Por praticamente um milagre, nenhuma outra garrafa me acertou, ninguém conseguiu ir atrás de mim graças aos meus amigos e eu fiquei em um lugar seguro onde eles me encontraram pouco tempo depois para me levarem para o hospital.


O preço dessa segunda briga foi um corte na minha sombrancela, que me deixará com uma cicatriz parecida com a do Aquaman e um hematoma no meu olho que vai durar pelo menos dez dias até desaparecer. E o que eu ganhei foi uma lição muito importante, que vou contar logo depois de usar um exemplo de um filme para ilustrá-la melhor.


No domingo, enquanto estava de repouso obrigatório após o episódio aqui narrado, vi War Machine, no Netflix. Apesar do filme ter sido considerado fraco pela crítica, confesso que achei sensacional. Talvez pela temática que muito me agrada ou pela atuação caricata do Brad Pitt. A história é uma sátira de guerra inspirada no general Stanley McChrystal, ex-comandante dos EUA no Afeganistão. Uma das críticas mais fortes do filme é contra a visão e estratégias usadas na guerra contra insurgentes que, segundo o narrador, é travar uma guerra contra o povo de um país que você não deveria ter invadido e tentar convencê-los de que você é o mocinho da história. Na minha segunda briga, eu fiz o que os Estados Unidos fez ao invadir o Afeganistão. Eu me senti ameaçado, ataquei, praticamente venci (tirando a parte do meu rosto atingida pela garrafada, eu não tenho nenhuma outra marca ou machucado) e depois tomei um prejuízo enorme que poderia ter simplesmente sido evitado não entrando naquela confusão. E, como o general Glen McMahon (personagem de Brad Pitt em War Machine), fui derrotado pelo meu ego. Os EUA perderam homens, bilhões de doláres, reputação e tempo. Eu quase perdi um olho.



A lição que aprendi e que quero passar para você contando essa história é: saiba escolher suas batalhas, e eu não me refiro apenas a "brigas de rua". Saiba escolher também suas batalhas pessoais, profissionais, acadêmicas, amorosas ou em qualquer outra vertente que seja. Existem motivos que pedem para a gente se impor e existem motivos que pedem para a gente dar as costas e sair andando. Reprimir um comportamento machista e babaca, por exemplo, foi uma causa que valeu a pena comprar uma briga, mesmo se eu tivesse apanhado. Brigar com "moleques" da quebrada simplesmente porque eles queriam brigar foi um erro, e teria sido um erro mesmo se eu tivesse batido. Quando entrei na primeira briga, venci. Quando entrei na segunda, perdi. E o preço para aprender essa lição pode ser alto. Ás vezes um emprego, outras um amor ou até mesmo uma amizade. No meu caso, saiu barato. Vou ficar com uma cicatriz maneira e só. Mas poderia ter perdido meu olho, como ainda posso perder se não aprender a lição que essa história tentou me ensinar.

É olhando minha vida através do Storytelling que eu percebi esse ensinamento. E é a partir dessa mesma ótica que vou colocá-lo em prática. Final de semana tem bloco e eu pretendo escrever uma história com um final muito diferente do último sábado.

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