Cobra Kai - Storytelling sem misericórdia

Demorou, mas finalmente consegui escrever esse post. Ontem a noite acabei a primeira temporada de Cobra Kai, no YouTube Red, e não consigo pensar em outra coisa. Foi uma das melhores coisas que assisti na vida!

Cobra Kai revive a antiga rivalidade dos anos 80 de Daniel Larusso e Johnny Lawrence, do filme Karatê Kid: A Hora da Verdade, nos dias de hoje. Ao mesmo tempo que a série é nostálgica, também revoluciona a história original do filme ao mostrá-la por outro ângulo. Junte isso a personagens bem construídos, músicas dos anos 80, plot twists inteligentes e um enredo muito bem amarrado e dá para entender o sucesso de Cobra Kai. Mas vamos colocar o olhar do Storytelling para entender tudo isso um pouquinho melhor.



ALERTA SPOILERS

A série começa em 19 de dezembro de 1984, na final do torneio de karatê do filme Karatê Kid: A Hora da Verdade, quando Daniel Larusso vence de Johnny Lawrence usando os ensinamentos do senhor Miyagi. Essa vitória consagra Daniel como herói e Johnny como perdedor, não apenas do torneio, mas do resto de suas vidas.

Logo na cena seguinte o público vê que Johnny nunca se levantou da queda que levou na final do torneio. Ele está jogado em um apartamento minúsculo e acorda para mais um dia medíocre de uma vida que ele detesta, com um emprego insatisfatório, falta de dinheiro, um casamento terminado em divórcio e um filho que o odeia e o ignora. Esse é o primeiro level da Jornada do Herói (Joseph Campbell) de Johnny: o lugar comum. Seu objetivo é deixar de ser um fracassado para ser bem sucedido, e ele encontra no karatê um meio de alcançar isso, reabrindo o dojo Cobra Kai. É a partir disso que a série se desenvolve em um primeiro level.


Enquanto Johnny tem uma vida medíocre por nunca ter se recuperado do chute de Daniel e do destino no passado, seu antigo rival se encontra em uma situação totalmente diferente. Daniel Larusso é um homem profissionalmente bem sucedido, que vive em uma casa grande e confortável com uma família estilo comercial de margarina. Entretanto, logo também vemos que o personagem tem seus pequenos conflitos, bem menores do que os de Johnny, mas não menos importantes. Daniel sente falta de um discípulo, como ele foi para o senhor Miyagi. Além disso, está em constante dúvida e preocupação sobre o modo que educa seus filhos. Se Johnny é inicialmente mostrado como o protagonista que vai percorrer um tipo de Jornada do Herói, Daniel pode até ser seu antagonista, mas não pode ser considerado como "vilão" da série, como no formato original de Karatê Kid. Apesar de Daniel se opor a reabertura do dojo Cobra Kai, seu objetivo na história é ser um bom pai e passar seus conhecimentos de karatê a diante, e isso não entra em conflito com o objetivo final de Johnny.

Com os dois personagens principais da série sendo opostos, mas inspirando simpatia do público por terem caminhos diferentes a percorrer, a audiência precisa de alguém para odiar. Afinal, se todo mundo torcesse a favor de todo mundo em um caminho linear, a história fica chata. Não haveria conflito ou desafio para ela se desenrolar de forma interessante. No filme original Daniel é a personificação de bondade e coragem que precisa derrotar Johnny, a personificação da prática de bullying e covardia. Em Cobra Kai esse dualismo se desenvolve em um segundo level, a partir de um jovem latino chamado Miguel, que é perseguido por Keene, um garoto popular e babaca do colégio. É quando Johnny dá uma surra em Keene e seus amigos que estavam humilhando Miguel que ocorre o segundo passo da Jornada do Herói: o chamado para a aventura, tanto de Johnny quanto de Miguel.


Uma coisa que achei extremamente irônica na série é que ao mesmo tempo que Johnny vira o mentor de Miguel na trama, Miguel vira o mentor de Johnny na Jornada do Herói. Enquanto Johnny ensina karatê Cobra Kai para Miguel, que vai muito além dos golpes da arte marcial, Miguel ensina Johnny a ser uma pessoa melhor e, a partir disso, um homem bem sucedido. O chamado da aventura de Johnny vem de Miguel, que inspira a abertura do dojo Cobra Kai. Em compensação, Miguel também tem sua própria Jornada do Herói para percorrer em um modelo dualístico muito mais próximo ao filme original que a relação de Daniel e Johnny na série atual. Daí a história se desenvolve em dois leveis interligados.

Se na história original de Karatê Kid temos uma luta clara do bem contra o mal, em Cobra Kai a coisa não é mais assim. A luta de Cobra Kai não é mais uma doutrina de ódio contra uma doutrina de paz porque a vitória de um dos lados pode amplificar a força do outro. Por exemplo, ao vencer torneios no passado, Daniel acabou sem discípulos para passar seus aprendizados no futuro e o "ódio" saiu dos tatames para curtir festas do colegial. E, ao seguir a doutrina de "sem misericórdia", Johnny acabou fracassando em todo o resto de sua vida. A questão aqui é equilíbrio, e isso pode ser melhor explicado pelo psicoanalista junguiano Robert A. Johnson. Para Johnson, nosso "lado sombrio" não é algo a ser dominado ou expelido. Essa repressão causa um acumulo de "trevas" que cria uma divisão de ego, pela qual se projeta tudo que é ruim em si em uma outra pessoa , o que resulta em uma luta sem fim, como na rivalidade de Karatê Kid. Na história original do filme essa projeção é feita de forma muito literal na luta dos personagens, com Daniel usando um quimono branco com o símbolo pacífico de uma árvore enquanto Johnny vestia quimono escuro com o símbolo de uma cobra prestes a atacar.


Ao invés de manter a distinção do que é bom e o que é mal (ambas dentro dos personagens), Cobra Kai adapta a fórmula básica junguiana. Afinal, se Jung sugeria que nós devemos reconciliar nosso lado sombrio com o resto de nossa personalidade, o dojo Cobra Kai não deveria voltar para o vale?

Sendo assim, os acontecimentos do filme Karatê Kid: A Hora da Verdade são recontados a partir do ponto de vista de Johnny, o que faz o personagem, antigo vilão e praticante de bullying, ganhar simpatia e admiração do público. A partir de relatos, sonhos e lembranças, vemos que Johnny não era um garoto rico e mimado, mas que sofria maus tratos de seu padrasto e por isso encontrou no karatê Cobra Kai um estilo de vida e uma forma de autoproteção. E também vemos que ele não estava agredindo Daniel de forma gratuita ou praticando bullying. Para Johnny, ele estava apenas se defendendo e lutando pela garota que amava. E, por incrível que pareça, suas atitudes na história original tornam-se justificáveis e compreensíveis. Do ponto de vista do Storytelling, isso é muito importante. Afinal, a audiência precisa torcer pelo protagonista. E ficaria meio difícil torcer para um babaca praticante de bullying, não é?

Em compensação a essa releitura do passado, Johnny apresenta uma mentalidade agressiva e ultrapassada para a atualidade. Ele não mostra compaixão, compreensão ou maturidade diversas vezes no começo da série e tenta resolver as coisas como fazia nos anos 80. É Miguel quem o ensina a viver na atualidade e no ambiente digital. Por outro lado, Miguel também adquire conhecimentos dos anos 80/90 que são benéficos para sua trajetória na série (como a sugestão de local do seu primeiro encontro). Essa troca é um ponto alto da série, já que toca em um ponto sensível a audiência. Os fãs da versão original de Karatê Kid vivem ou viveram essa readaptação de tempos. Afinal, muito mudou desde os anos 80. E, apesar e muita coisa ter mudado para o bem, outras coisas deixaram saudades.


Conforme desafios e conflitos são superados, outros surgem dando movimento e fluidez à série. Miguel se envolve amorosamente com a filha de Daniel em uma espécie de romance proibido. O filho delinquente de Johnny vira discípulo de Daniel. Os alunos de Johnny deixam de ser perseguidos no colégio para se tornarem aqueles que perseguem. É no andar dessa carruagem que a primeira temporada acaba em uma espécie de cliff hanger que está me fazendo contar os dias para o lançamento da continuação. Entretanto, apesar do cliff hanger, o episódio final mostra que Johnny aprendeu uma valiosa lição: uma vitória suja não é uma vitória. E seu desafio para temporada seguinte será ensinar isso para seus alunos ao mesmo tempo que mantendo-os prontos para o combate contra o dojo Miyagi, prestes a ser reaberto por Daniel. O dojo Cobra Kai pode não querer mais uma vitória suja, mas também não vai querer ficar sem vitória. Se nessa primeira temporada os caminhos de Johnny e Daniel não eram conflitantes, as aparências indicam que na segunda temporada as coisas serão diferentes.

Em suma, Cobra Kai é uma série nostálgica sobre uma antiga rivalidade que passa duas mensagens poderosas: 1- nunca é tarde para se recuperar de chutes do passado; 2- encontre seu equilíbrio. Ambas as mensagens se encaixam perfeitamente em necessidades do público em um momento de mudanças radicais e busca por identidade diante de um cenário mundial binário. Sendo assim, aguardemos a o futuro da série. Mas, de um modo geral, a primeira temporada foi um show de Storytelling.


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