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Toda história, seja real ou ficcional tem dois lados, normalmente acompanhamos o ponto de vista de quem nos conta a história, no caso de uma narrativa podemos dizer que é essa a principal função de um protagonista. Nos apresentar o universo e os acontecimentos através do seu próprio ponto de vista, nos emprestar os seus olhos para vermos as coisas do mesmo jeito que ele vê.


A filosofia nos diz que o ponto de vista de uma pessoa é formado por sua experiência no mundo, a semiótica concorda ao explicar que o significado de algo vai além do que ele representa praticamente, significados são abstratos e dependem, também da sua experiência de vida. Por isso, para que uma narrativa seja crível, ou seja, verossímil, precisamos ter personagens bem desenvolvidos o suficiente para que o autor saiba qual é o ponto de vista do seu personagem, como ele irá reagir as situações que lhe impostas e qual será a sua opinião sobre os acontecimentos ao seu redor. 

De acordo com Syd Field há dua maneira de se construir uma narrativa, a primeira é ter uma ideia de acontecimento e a partir dai criar personagens que se encaixem nesse acontecimento e a segundo é criar um personagem e trabalhar nele o suficiente para ele mesmo lhe apresente uma história. Eu não sei dizer qual foi o método escolhido pelos produtores da Showtime, responsável pela série, o que eu posso afirmar é que eles com toda certeza sabem que o personagem é a alma da série. 

Como eu disse logo no começo, toda história tem os dois lados e nós estamos acostumados a conhecer apenas um deles, mas Homeland decidiu mudar essa história e nos apresentar dois pontos de vista partindo de um só personagem. Pois é, a grande crise do nosso protagonista é na verdade a metáfora na qual são baseados os acontecimentos da série. Para quem ainda não assistiu aqui vai uma pequena sinopse da série;

O Sargento Nicholas Brody foi dado como morto em combate enquanto cumpria seu dever na guerra do Iraque, porém, 8 anos depois, durante uma ação anti-terrorista, um grupo de soldados o resgata e ele volta para os Estados Unidos e para a sua família. Nesses 8 anos muita coisa aconteceu e todos estão mudados, mas ninguém mudou tanto quanto Brody, um soldado americano que aprendeu a ver a guerra anti-terrorista com os olhos dos próprios terroristas. 

Envolvido em um emocionante esquema Brody tem que aprender a lidar com suas novas e antigas crenças e é essa crise, entre ajudar a grande nação amaericana a se proteger dos terroristas ou defender a nação Árabe, vítima de preconceito e ataques um tanto desonestos que coloca Brody entre a facção terrorista mais desejada da CIA e a própria agência de inteligência americana. 

Além de apresentar bons persoangens com ótimos pontos de vista e profundo conhecimento de seu passado os roteristas da série fazem questão de não deixar um só acontecimento passar em vão, em ótimas cenas alternadas entre ação e drama pessoal, tudo o que acontece na série tem um significado, deixando o espectador sempre curioso, sempre nervoso e sempre querendo mais ação e mais drama. Um plot que está sempre te revelando novos segredos dos personagens ou criando novas situações que levam todos em direções diferentes é o segredo dessa série que ainda está em sua segunda temporada. Além disso o uso do velho lema proposto por Hemingway deixa a série ainda mais interessante. "Mostre, não conte" dizia o escritor norte americano no intuito de instruir escritores a criarem ações que revelem o que querem revelar ao invés de apenas relatar os acontecimentos.  





Começar uma história não é fácil, mas terminar parece sempre mais complicado. Fugir do desfecho óbvio e surpreender a audiência está entre os objetivos de todo storyteller. Nesse caso, o “foram felizes para sempre” não é a melhor alternativa. Para fugir do óbvio é preciso despistar a preguiça. Essa foi a primeira lição que aprendi com Hemingway.

O autor norte-americano, vencedor do Pulitzer de 1953 e do Nobel de Literatura em 1954, escreveu 47 finais para o romance A Farewell to Arms, publicado em 1929. Imagine a gama de possibilidades para a mesma história. Os desfechos variavam de uma ou duas curtas sentenças – bem característico do estilo enxuto de Hemingway – a diversos parágrafos. Em uma entrevista décadas depois, disse que tinha feito tantas tentativas para conseguir as palavras certas.

A segunda lição foi manter a capacidade de ouvir. Olhos atentos e ouvidos abertos. Assim é possível captar detalhes aqui e acolá, os quais um dia servirão para a história em que você estiver trabalhando. Hemingway falou sobre isso em uma carta que escreveu em resposta ao seu amigo F. Scott Fitzgerald, sobre um romance que ele acabara de publicar, em 1934.

“Há muito tempo você parou de ouvir, exceto as respostas às suas próprias perguntas. Isso é o que ‘seca’ um escritor, não ouvir. É de onde vem tudo, de ver, de ouvir. Você vê muito bem, mas parou de ouvir. [...] Apenas escreva sem se preocupar com o que vão dizer, se vai ser uma obra-prima ou não. Eu escrevo uma página de obra-prima depois de noventa páginas de merda e tento colocar essa merda no lixo.

Depois desse tapa na cara de Fitzgerald (e de qualquer um que se propôs a escrever uma história alguma vez na vida), Hemingway volta ao seu estilo conciso e finaliza:

Go on and write.

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