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Há quem defenda o uso de storytelling baseado apenas em histórias reais, há quem diga que a ficção pode ser enganosa, ou até desonesta. No entanto há também quem acredite no poder da ficção para engajar as pessoas, há aqueles que gostam dos mundos mágicos criados para as marcas.

Eu, bom, eu tenho um opinião bastante simples sobre o assunto. Acredito que seja o trabalho do storyteller saber rechear a realidade com a ficção, romancear, sem exageros, o histórico é uma habilidade que exige cuidado e conhecimento. Há cases em que a ficção pode mesmo atrapalhar a opinião pública em relação a um produto ou marca, a ficção pode gerar um certo desconforto se for tomada como real. Em um exemplo recente em que a ficção se confundiu com a realidade e resultou em uma euforia negativa dos consumidores podemos citar a Nokia, com o case "perdi o meu amor na balada". Porém como case de sucesso e totalmente ficcional podemos falar da coca-cola e do seu maravilhoso universo em "A Fábrica da felicidade", criado para fantasiar o que acontece dentro de uma de suas vending-machines, distribuídas por todo o mundo. 

Desde o começo de minha jornada o Fernando Palacios me diz que o que foi pro papel é, no mínimo, uma interpretação da realidade. Esse conceito, apesar de chegar até mim pelo Fernando, é trabalhado no filme Storytelling de maneira bastante forte e impactante. A verdade é que enquanto escritores e artistas fica difícil realmente afastar a obra do autor. Toda obra tem um pouco de quem a escreveu, seja no estilo, no enredo, ou em um personagem apenas, o que escrevemos é na verdade uma interpretação do que vemos, ou vivemos, mesmo que seja ficcional ou distante da nossa realidade. 

No fim das contas o que importa para que uma história seja boa, é a honestidade, tanto ética quanto literariamente, devemos ser honestos com nossos leitores sabendo onde está e como cruzar sem truques nem enganações a linha entre a realidade e a ficção. 


Para quem acompanhou  a história da Nokia na semana passada, leu o post com algumas considerações técnicas de storytelling do case, que não deu tão certo quanto podia ter dado. Aqui vai mais um exemplo de storytelling feito por marcas de celular. A Nokia já foi, agora é a vez da Samsung.

E se você acordasse da sua soneca diária no metrô e estivesse no futuro? - Já começamos com uma sinopse  bem elaborada. O vídeo começa com a fotografia típica de um sci-fi moderno, o azul, cor usada pela marca, está presente desde o começo, o que já nos ajuda com a inclusão da marca na história.

O rapaz se levanta e apresenta o universo, sem nenhuma palavra dita, andando pelo metrô, olhando para as pessoas e os lugares. Vocês lembram do "show, don't tell" tão importante no storytelling? Pois é, o vídeo faz isso muito bem.

Os personagens são bem desenvolvidos, desde as roupas até suas reações em relação as situações nas quais são colocados, as atitudes de cada um deles condizem com aquilo que esperamos desde suas apresentações. O malvado é malvado, mas tem seu motivos para ser, o mocinho é o mocinho e tem um desafio: entender o que está acontecendo. A mocinha é só a mocinha, mas tem um problema: a relação amorosa com o vilão. E no fim de tudo, mas não menos importante, o artefato (sim o Galaxy S III) é o único meio de comunicação entre o mocinho e a mocinha e que, para fazer a narrativa mais interessante é o celular do vilão que acabou se perdendo e parando na mão do nosso "herói".

Ficaram curiosos para saber como isso tudo acontece? Pois é, entrem na página do facebook e assistam ao vídeo, ou melhor, participem dele já que além de tudo, o vídeo é interativo. A parte da interatividade, na minha humilde opinião de aprendiz, poderia ter sido melhor explorada, mas no fim das contas a Samsung fez a lição de casa e apresentou uma ótima ação de storytelling, com uma boa história, bem contada, por personagens consistentes, um universo bem desenvolvido e, é claro, com uma boa apresentação do produto como artefato participante da história. Parabéns para a Samsung e para a CuboCC pela ação e pela história, mas agora fica a pergunta: será que eles vão continuar a história ou o universo fica por ai mesmo?



O vídeo a seguir é a história de um cara que perdeu o telefone de uma menina que conheceu na balada. Pois é, com uma sinopse dessas eu não imaginava o quanto de atenção ele conseguiria, mas depois de ignorar o link, que pipocava na minha timeline de tempos em tempos, comecei a ler sobre esse vídeo em blogs de publicidade e os números são assustadores, 706.270 views no youtube (até o momento em que escrevi este post), 78.793 pessoas no grupo do facebook e por aí vai. Até o segundo vídeo aparecer e tudo ficar um pouco estranho, os números baixaram e as teorias da conspiração (justificáveis) começaram a aparecer. 

Pensando bem, a história nem é tão ruim assim e está começando a ficar interessante, pelo menos a história de "de onde veio isso?" ou "qual é a marca responsável?". 

Assistam ao vídeo e vamos ao Story e Telling da coisa:


Daniel Alcantara, 20 e poucos anos de idade, é simples (talvez simples demais) e simpático, leva sua vida entre a balada com os amigos e o trabalho do dia-a-dia (Pelo menos é isso que o vídeo deu a entender). Até que um dia, numa noite de balada, damos início ao conto de fada dos tempos modernos, o jovem se apaixona pela moça (Até ai a história vai quase bem...) e pega o telefone dela, em um guardanapo (OPS! Tem coisa errada ai, afinal, alguém que frequenta um lugar como a "Casa 92" em 2012, com toda certeza do mundo tem um celular no bolso. Quando as ações de um personagem não condizem com as situações em que o colocamos a história fica confusa e o personagem superficial. (Sem contar que se o amor era tanto assim, mesmo que o número estivesse em um guardanapo o rapaz teria copiado pro celular, talvez até usando a câmera de 41 MP do novo aparelho da nokia...) Mas a história de amor dos tempos modernos cativou muita gente e por enquanto (mesmo sem aparecer nada da marca) é o que conta. 

Ainda falando de personagens podemos partir do amante para a amada e ai, meu amigo, temos um problema sério. A descrição da garota segue abaixo: 


Fernanda, pele clara, olhos verdes ou azuis, aproximadamente 1,70, magra, cabelos longos, lisos e escuros e idade APARENTE 28 anos. Tudo bem que para o bem da história ele realmente não teria muitas informações sobre a garota que conheceu na balada, mas espera um pouco, nenhum comentário sobre uma mania? Nenhuma tatuagem, cicatriz ou qualquer outra característica que a torne especial? Nem a cor do olho ele lembrava? (talvez isso seja justificável pelo fato deles estarem em uma balada, mas mesmo assim, sinto falta de algo especial na descrição da moça). Com essa descrição eu conheço milhões de garotas que poderiam ser a Fernanda. O objetivo do storytelling é sim fazer com as pessoas se relacionem com os personagens, podemos sim olhar para um personagem e pensar "nossa sou eu", mas será que alguém no mundo não quer ser especial? O que é que me faria querer ser essa Fernanda no final das contas?

A história continuou, o segundo vídeo forçou a barra, mas ainda deixou a dúvida na cabeça de muita gente: real ou não?

E é ai que entra outro erro da história, quando falamos de storytelling para marcas devemos ter em mente o objetivo principal de um publicitário: vender. Sim, é lindo poder ser artista e escrever belíssimas histórias com ótimas artes, mas não somos apenas escritores ou pintores, somos publicitários e comunicamos marcas. O celular, no terceiro vídeo (veja a abaixo) foi apresentado como um artefato solucionador de problemas. Usar o produto como artefato pode funcionar, mas um artefato também tem que ser especial, é só pensar na varinha do Harry Potter ou na lâmpada do Aladim. Ainda no terceiro vídeo houve outro erro e talvez o mais sério de todos eles: eles pararam de mostrar a história e começaram a contar uma história nova. (Show, don't tell é a primeira coisa que me vem a mente quando penso em storytelling). 



A história, que virou um vírus na internet pode acabar sendo uma gripe, das fortes para a Nokia, já que a falta de presença da marca desde o início da ação causou um sentimento de traição nos consumidores e ao invés de "Nokia, a marca daquele case muito bom de storytelling, uma linda história de amor" ganhamos um "A Nokia, aquela empresa que mentiu pra todo mundo no facebook."

Pois é, meus amigos, a ação da Nokia tinha tudo pra dar certo, mas o erro aconteceu no StoryPlacement e a maneira como a marca apareceu frustrou a atenção de todos, ou quase todos. Antes de terminar devo dizer que esse case me serviu de aviso sobre algo que eu ainda não tinha pensado:

Youtube, Facebook, Twitter e tantas outras redes podem ser ótimas mídias para publicarmos uma história, e o tom de realidade também, mas devemos tomar cuidado para não deixar a nossa história se perder entre todas as outras e por consequência a nossa marca perder a chance de virar um mito nesses novos e turbulentos tempos da publicidade.