As pessoas e as histórias – uma composição essencial

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Alta madrugada e dentro do bar todos se amontoam, de pé, entre as mesas e o palco improvisado. Mesmo com o visível desconforto, quem está lá gosta e diz que é pela qualidade da banda e seu samba raiz; mas talvez seja pelo ambiente que relembra a sensação de estar em um CA universitário ou então pelo deslumbrante janelão que dá para a rua (e para o cemitério ao cruzá-la) que, inclusive, exibe agora uma movimentação estranha aos olhos mais atentos: dois carros mais negros que a própria madrugada e equipados com vidros igualmente escuros estacionam como se nada houvesse ali na frente, local demarcado como proibido pela prefeitura. Desembarcam pessoas tão intimidativamente destoantes quanto os próprios veículos, sendo visível tratar-se de seguranças oito dos dez corpos estranhos que rapidamente se deslocam das portas dos carros à do bar.

Lá dentro, aqueles dotados de olhos atentos resolvem usar as mãos para avisar os mais distraídos; e muito rapidamente murmurinhos podem ser sentidos como um vírus se espalhando pelo salão, passando a se tornar uma massa de som, que concorre com a música, que cessa. Todo o barulho que preenchia o ar foi empurrado pelo silêncio para dentro de cada um dos presentes em forma de apreensão.


A tensão é quebrada pela voz familiar do vocalista da banda, que informa entusiasmadamente:

-Senhoras e senhores, é com grande orgulho que em nossa casa temos hoje a presença de um rei!

A história teria parado por aí, não fosse a presença de alguém que considero um grande (ainda que recente) amigo. Apesar de ter o apelido de “Chinês”, ele é um verdadeiro cidadão do mundo, daqueles que já morou nos 5 continentes. Com o oportunismo de quem já viveu muitas histórias, resolveu tirar o máximo dessa quebra de rotina incendiando o arredor ao insuflar perguntas como “e aí, é rei mesmo?” sobre a curiosidade dos amigos. Motivado pela comoção que tomou conta do pessoal, foi então conversar com os funcionários do estabelecimento, dizendo que “pagaria uma pinga pro rei se fosse verdade”. O funcionário falou com o segurança, que fez sinal para que o nosso amigo se aproximasse. Sim, eles falavam inglês; sim, era um rei africano e, não bastasse, estava acompanhado pelo seu filho e, sim, ele pagou um dose de pinga para cada: o príncipe bicou a bebida como um pássaro diante de um lago, já o rei virou o copo como um errante quando encontra água. Mas o que mais impressionou nosso amigo não foi nada disso.

O que fez o nosso amigo tão vivido nos contar essa história foi o fato de que, quando a música voltou a tocar, nem o mais carrancudo dos seguranças ficou inerte: cada nota despertava pelo menos um ligeiro movimento de pés ou batucadas de mão sobre a mesa. Não importa a posição social, o cargo, a região em que nasceu ou foi criado, somos todos incontrolavelmente tomados por uma boa melodia.



A conclusão óbvia é: dançar está no sangue. E o fato é que a mesma coisa que corre por nossas veias e nos compele a entrar no ritmo da música, também nos faz contar e ouvir histórias. Ao contar uma história, revelamos um pouco daquilo que carregamos em nossa essência, daquilo em que acreditamos, daquilo que somos. Da mesma forma, quando nos projetamos em uma narrativa, ela nos afeta e nos transforma, soma algo à nossa essência. Isso porque sempre que nos identificamos em uma história, ela ajuda a mostrar quem somos.

É como se a nossa identidade fosse um acúmulo de histórias: nossas e dos outros. São elas que têm o poder de baixar nossa guarda, de driblar nossa defensiva, e nos fazer enxergar um outro ponto de vista e, quem sabe até talvez mudar uma opinião. É de nossa natureza brincar de decodificar falas e ações passeando pelos porquês por detrás das escolhas dos personagens, refletir sobre o intrínseco e assim ler as entrelinhas. E a partir daí, estabelecer conexões com nosso próprio background produzindo conclusões.

Quanto mais conexões possíveis entre um assunto e o nosso arcabouço referencial, mais interessante este assunto se torna. Então o interesse por um assunto depende muito do referencial que já possuímos. E aí está o truque das histórias: elas podem introduzir um assunto totalmente novo em meio a assuntos conhecidos e assim gerar uma familiaridade - ou como chamam os estudiosos: contextualizar.

Todo esse emaranhado de assuntos se unem em um mesmo universo ficcional (lugares, personagens, tramas...). Boas histórias são recortes de universos ficcionais interessantes, ou seja, compostos por assuntos que atraiam nossa atenção e estimulem nossos pensamentos. Elas têm esse poder de se estender em sua ausência (quando interrompida ou mesmo depois de terminada), fazendo com que continuemos a repeti-las mentalmente, desenvolvê-las, compará-las, comunicá-las, traduzi-las, rir de piadas sobre elas, usá-las para entender outras coisas, estabelecer memes como “zero-meia o senhor é um fanfarrão”, imaginar derivações a partir delas, buscar mais informações e, finalmente, elas nos faz querer nos comunicar com outras pessoas que também as ache interessante.

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  1. Interessnte, Fernando! Quando comecei a ler o seu texto me prendi mais lentamente nas palavras
    como se estivesse ouvindo a vós de Pedro Bial nos meus ouvidos, pausadamente. Depois,quando você começa a falar da chegada do rei, vem uma animação mais efusente (?), mais aguçante, que parece você falando (rsrsr). Conheço o tom da vós da "Bial", mas, o seu... Gostei do texto! Parabéns!

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