Durante semanas, pessoas reais usaram horas reais tentando ajudar um personagem que não existia.

A Nokia havia lançado um vídeo. Um rapaz olhando para a câmera, explicando com detalhes que havia conhecido uma garota numa balada, que haviam trocado contato, que o papel com o número desaparecera até a manhã seguinte. Ele descrevia o rosto dela. A altura. A roupa. Pedia ajuda para encontrá-la.

A maioria do público acreditou. Escreveram para o rapaz. Criaram fanpages para identificar a moça. Comunidades inteiras se mobilizaram para resolver o caso como se fosse real.

No terceiro vídeo, a revelação: era publicidade. Um outro rapaz, presente na mesma balada, havia fotografado a cena com um celular Nokia de alta resolução. Com zoom, deu para ler o número no papel. O produto anunciado: câmera com muitos megapixels.

A campanha era tecnicamente elegante. A história, narrativamente sólida. O engajamento, real.

Só que uma parte significativa do público se sentiu usada. Com razão.

Não porque a Nokia contou uma história. Mas porque ela não avisou que era história.


Existe uma distinção que precisa ser dita com clareza, antes que a confusão se instale.

Ficção não é mentira.

Quando você entra numa sala de cinema, faz um pacto. Sabe que vai assistir a algo inventado. Sabe que os personagens não existem. E mesmo assim chora, ri, prende a respiração. O pacto funciona exatamente porque é voluntário. A ficção tem poder sobre nós porque escolhemos nos deixar afetar por ela.

Quando uma marca usa a realidade como disfarce sem avisar, ela não está fazendo storytelling. Está retirando da plateia a possibilidade de fazer o pacto. O engajamento que vem daí não é conquista narrativa. É captura por engano.

Seria muito mais honesto a Nokia ter anunciado: "Uma mini-novela em três capítulos." Se a história fosse boa, o público teria se engajado do mesmo jeito.


O Diletto inventou um avô italiano que nunca existiu. Os Sucos do Bem criaram um fazendeiro que nunca pisou num campo. Ambos apresentaram ficção como fato. O Conar investigou. A reputação saiu arranhada.

Isso não é storytelling. É fraude com embalagem narrativa.

A confusão começa quando se trata os dois casos como se fossem a mesma coisa que marcas que contam histórias reais com criatividade, ou que criam ficções declaradas como ficção.

A Intel se uniu à Toshiba para criar uma história sobre um homem que acorda todos os dias em um corpo diferente. Às vezes jovem e bonito, às vezes uma senhora cansada. A metáfora de um processador que roda em máquinas completamente diferentes virou algo mais: uma geração de jovens disse que a história os ajudou a se sentirem compreendidos num mundo em que a identidade é fluida.

Era mentira? Sim. Mas todo mundo sabia que era ficção. Essa é a diferença entre técnica e armadilha.

A Chipotle criou um espantalho que se rebelava contra a crueldade da indústria de fast-food. Depois, uma websérie com vacas sendo alimentadas com petróleo. Ficção declarada. Reflexão real. Ninguém se sentiu enganado porque a ficção fez o que boa ficção sempre fez: propôs uma verdade emocional usando uma mentira assumida.

A lista dos cem filmes mais assistidos da história do cinema é inteirinha feita de histórias inventadas. A plateia não se importa com ficção. Se importa com traição.


Há um segundo equívoco que vale nomear.

Contar que um produto tem origem específica, que foi feito de uma certa forma, que carrega uma certa história real, não é a mesma coisa que inventar uma ficção e apresentá-la como fato. A água Fiji vem das Ilhas Fiji. O vinho de uma denominação de origem específica foi produzido naquela região. Um chef que conta de onde vem o ingrediente não está inventando nada.

Tratar as duas situações como equivalentes não é crítica. É preguiça analítica.

O storytelling que vale a pena defender é aquele que, mesmo quando ficcional, honra o pacto com a plateia. O que merece crítica é o storytelling que usa a confiança da plateia como matéria-prima para entregar uma revelação que ela não autorizou.


O storytelling pune. Não porque não gosta de ficção.

Porque a plateia tem boa memória. E não perdoa quem a tratou como idiota.

Abraços do Palacios.

Existe uma diferença entre conhecer o nome de uma coisa e entender como ela funciona.

Storytelling virou moda. Todo mundo usa a palavra. Poucos dominam o conceito. E menos ainda sabem aplicar.

Esses 10 posts foram escritos ao longo dos anos exatamente para resolver esse conflito. Não são introduções suaves. São entradas diretas nos aspectos que mais geram confusão, resistência e vacilos na prática.

Se você vai ler um, leia o 8. Se vai ler dois, adicione o 3. Se vai ler todos, a ordem abaixo faz sentido.


1. O primeiro estudo acadêmico de storytelling no Brasil

Por anos, o primeiro trabalho acadêmico relacionando storytelling e comunicação corporativa defendido na USP ficou fora do alcance de quem precisava dele. Esse post corrige essa falha. [Ler →]


2. Tipos de storytelling: da caverna à transmídia

Storytelling não é uma ferramenta de marketing. É a forma que a humanidade usa para transmitir qualquer coisa relevante, desde as primeiras pinturas rupestres. Leonardo da Vinci escrevia seus quadros antes de pintá-los. Isso já é roteiro. Esse post mapeia o território. [Ler →]


3. Storytelling não existe sem autenticidade

Adotar storytelling pode beneficiar uma empresa. Pode também destruí-la, se a comunicação não estiver alinhada com o que a metodologia exige. Os erros mais comuns não são de técnica. São de posicionamento. Ler →


4. Storytelling ou stellytoring?

Há uma versão falsa do storytelling que circula por aí com o mesmo nome que a original. Parece, soa igual e até tenta funcionar da mesma forma. Mas não é. Esse post ensina a distinguir as duas. Ler →


5. Para desbloquear a escrita

A síndrome da página em branco não é falta de ideia. É excesso de barreira. Esse post não dá a resposta fácil. Dá o que funciona. Ler →


6. Por onde começar a ser storyteller

O ato de narrar é o centro de todas as formas artísticas e um processo de aprendizado que dura a vida toda. Voltei um século no tempo: cinema mal existia. Hoje existe transmídia. Se há tanta transformação, por onde começar? Esse post responde. Ler →


7. High-Concept: o conceito que Hollywood exige antes de qualquer roteiro

Nenhum estúdio de Hollywood avalia um roteiro sem High-Concept. Quando o storytelling entrou nas agências e empresas, o High-Concept entrou junto, como co-piloto indispensável. O que é, como funciona e por que você precisa de um. Ler →


8. Story vs. Telling: a distinção que muda tudo

Story é história. Telling é narrativa. Parecem sinônimos. Não são. Entender a diferença entre os dois é a virada que separa quem usa o nome do conceito de quem usa o método. O post mais fundamental desta lista. Ler →


9. A fórmula do storytelling

Você está sozinho no elevador. A velocidade diminui. A porta se abre. Do lado de fora, um zumbi aguardava esse momento. O que acontece a seguir tem tudo a ver com storytelling e nada a ver com zumbis. Ler →


10. Os sete erros do storytelling corporativo

A professora Jennifer Aaker mapeou os sete pontos que separam uma história para amigos de uma história para consumidores. Não são os mesmos. E confundir os dois é o vacilo mais comum de quem começa. Ler →


Dez leituras. Uma direção.

Quando terminar, você vai olhar diferente para qualquer comunicação que cruzar seu caminho.


Fernando Palacios é fundador da Storytellers, a primeira empresa de storytelling do Brasil. Há 20 anos transforma a forma como profissionais entendem e contam histórias. Conheça os cursos da Storytellers.

Narração ao vivo. Estádio cheio. O texto que você está lendo agora é uma partida.


A bola entrou.

Não o gol. A bola. Ela entrou no campo antes de qualquer coisa. Antes da torcida sentar. Antes do apito. Antes de você saber para qual lado vai torcer.

Brasil e Itália. Azteca. Copa de 1970. Quatro a um. O jogo que parou o planeta inteiro.

No dia seguinte, os arquivos da Rede Globo registraram algo que ninguém esperava: a audiência daquela final histórica não foi a maior do ano.

Uma novela ganhou no Ibope.

 

Todo mundo tem uma cicatriz que ninguém nunca viu.

Não porque ficou escondida. Porque nunca foi contada.


A pergunta mais comum que recebo de quem quer começar a escrever não é "como escrever". É "sobre o que escrever". A diferença entre as duas é enorme.

"Como" é técnica. "Sobre o que" é permissão.

Quem pergunta "sobre o que" já tem a história. Só ainda não acredita que ela merece ser contada.


CEO como Chief Storyteller: executivo sentado na cadeira de diretor de cinema liderando reunião de board usando narrativa como ferramenta de decisão estratégica

CEO como Chief Storyteller é o papel que o líder máximo não pode delegar. Definir o tom, encarnar cultura e propósito em cada decisão e falar diretamente nos momentos que definem a empresa. A McKinsey formalizou o conceito em 2025. A Storytellers opera sob essa premissa desde 2006, e já entregava antes de eles publicarem.

Em 2001 eu trabalhava diretamente com Ramiro Prudencio, então CEO da Burson-Marsteller na América Latina. Já naquela época uma coisa era óbvia na prática: CEO que terceiriza a narrativa da empresa está assinando um cheque em branco para o futuro. Narrativa delegada é narrativa morta.

Cinco anos depois fundei a Storytellers para transformar isso em método.

Em 30 de junho de 2025 a McKinsey publicou “The CEO’s role as chief storyteller”. Ramiro é um dos co-autores. O mercado chamou de novidade. Eu chamo de reconhecimento tardio.

O conceito não nasceu em Londres em 2025. Nasceu na prática que venho sistematizando desde 2006.