Comparação visual entre o marketing de 2008 e 2026: do Orkut ao storytelling corporativo, quase vinte anos de transformação na forma como marcas contam histórias

Este artigo é uma conversa entre dois textos separados por quase vinte anos. Em 2008, quando a Storytellers tinha apenas dois anos de existência e o blog acabava de nascer, Fernando Palacios publicou um post sobre marqueteiros e histórias que terminava com um convite para um grupo no Orkut. Em 2026, com a empresa completando 20 anos e mais de 850 artigos publicados, o argumento central daquele primeiro texto continua intacto: a oportunidade aparece disfarçada, e quem tem o poder de agarrá-la fica esperando confirmação de que não vai errar. O que mudou foi o cenário. O que não mudou foi o conflito.

Esse post é uma conversa com outro post

Um que escrevi em 2008, quando o blog da Storytellers acabava de nascer. A empresa já tinha dois anos nessa época, já tinha case, já estava ensinando storytelling para executivos que ainda não sabiam pronunciar a palavra direito. Mas o blog era novo. E eu terminei aquele primeiro texto com um link para um grupo no Orkut, pedindo para as pessoas participarem por lá.

Orkut.

Se você não sabe o que é isso, pergunte para alguém que tinha mais de quinze anos em 2008. Eles vão sorrir com saudade antes de responder.

Cena de A Knight of the Seven Kingdoms, série da HBO baseada no universo de Game of Thrones que atingiu nota 10 no IMDb e provocou uma guerra de votos com Breaking Bad

A Knight of the Seven Kingdoms é a série derivada de Game of Thrones que atingiu nota 10/10 no IMDb em 2026, provocando uma guerra de votos com fãs de Breaking Bad. Além da polêmica, a série ilustra um princípio fundamental de storytelling: ao reduzir o escopo narrativo (de guerras continentais para a jornada pessoal de um cavaleiro errante), A Knight multiplicou a conexão emocional da plateia. O princípio é o mesmo que George R. R. Martin aplicou desde 1996: Story é o universo imenso, Telling é o recorte humano que você escolhe dentro dele.

A série que chegou a 10/10 no IMDb (e a guerra que tentou impedir)

Tem algo acontecendo em Westeros que vai além de dragões e duelos.

Na semana passada, um episódio de A Knight of the Seven Kingdoms atingiu nota 10/10 no IMDb logo após a estreia. Dez. A nota máxima. Em seguida, fãs de Breaking Bad entraram em campo para proteger Ozymandias, o episódio mais bem avaliado de toda a história da série. E aí começou uma guerra de votos que derrubou a nota perfeita de Westeros para 9,8/10 e, de quebra, tirou um décimo de Ozymandias também.

Dois lados brigando por uma nota. Nenhum dos dois percebendo que estavam discutindo storytelling.

os poderes do storytelling: atenção, compreensão e memória, com os 8 Momentos Narrativos do Método Palacios que transformam qualquer ideia em história

Os poderes do storytelling são a capacidade de capturar atenção, gerar compreensão e tornar mensagens memoráveis através de narrativas estruturadas. Storytelling não é "contar historinhas": é uma tecnologia de comunicação estratégica que transforma ruído (dados isolados) em sinal (informação contextualizada), permitindo governar a atenção da plateia e direcionar decisões. O método pode ser aprendido por qualquer pessoa e aplicado em qualquer formato, palco ou plataforma.

Nos últimos 20 anos, treinei mais de 30 mil profissionais em 10 países. E posso garantir: nenhum deles chegou até mim querendo a definição de storytelling. Todos queriam resolver a mesma angústia silenciosa: "por que minhas ideias não grudam na cabeça das pessoas?"

Esse post é para você que já digitou "o que é storytelling" ou "como fazer storytelling" em algum buscador, em algum fórum, em alguma conversa com IA. Vou traduzir o que você realmente está perguntando, e mais importante: vou te dar o que procura.

livro O Guia Completo do Storytelling de Fernando Palacios e Martha Terenzzo, publicado pela Alta Books em 2016, ilustração mostrando 10 anos de impacto no storytelling corporativo brasileiro

O Guia Completo do Storytelling é o livro de referência sobre storytelling no Brasil, escrito por Fernando Palacios e Martha Terenzzo, publicado pela editora Alta Books em 2016. Com 448 páginas e 10 capítulos, o livro documenta metodologias de storytelling aplicáveis a negócios, marcas, apresentações e comunicação corporativa. Dez anos após sua estreia, continua sendo a principal porta de entrada para o storytelling profissional em língua portuguesa.

Em 2016, eu achava que estava escrevendo um ponto final.

Dez anos de estrada com a Storytellers, centenas de projetos entregues, milhares de profissionais treinados. O livro seria a síntese. O registro definitivo. A formalização de tudo o que eu e Martha Terenzzo havíamos descoberto, testado e validado com marcas como Nike, Coca-Cola e Yamaha desde que fundei a primeira empresa de storytelling do Brasil, em 2006.

448 páginas. 10 capítulos. Editora Alta Books. Noite de autógrafos na FNAC da Paulista.

Parecia um grand finale.

Não era.

Como o livro se tornou catalisador de uma carreira mundial

O que eu não sabia naquela noite de setembro, assinando exemplares com mãos suadas de tinta, é que o livro não era o fim de um arco narrativo. Era o gatilho de outro.

Formalizar uma metodologia faz algo estranho: obriga você a enxergar as lacunas. Cada capítulo que eu fechava abria três perguntas novas. Cada conceito que eu definia revelava um território que eu ainda não havia explorado. O Guia Completo do Storytelling, ironicamente, me mostrou tudo o que ainda estava incompleto.

E aí veio o que veio.

A década que o Guia Completo do Storytelling provocou

Um ano depois da estreia do livro, eu estava em Mumbai, na Índia, recebendo o prêmio de World's Best Storyteller no World HRD Congress. Não uma vez. Duas, consecutivas, em 2017 e 2018. O único brasileiro.

Se o livro não existisse, aquele palco não teria existido. Não porque o livro me ensinou algo novo, mas porque me obrigou a organizar o que eu sabia de um jeito que outras pessoas pudessem enxergar. A metodologia deixou de ser algo que eu fazia e virou algo que podia ser avaliado, comparado, premiado.

Nos anos seguintes, o método que o livro documentou foi testado em condições que eu não poderia imaginar em 2016.

Pfizer: quando um vacilo de comunicação custa vidas

Preparar o presidente da Pfizer Brasil para anunciar a vacina da COVID ao país. Bastaria um vacilo de comunicação e milhões deixariam de se vacinar. Com os 8 Passos Palacios, que no livro eram teoria com exemplos, viraram protocolo de comunicação em crise sanitária global. Storytelling para líderes é infraestrutura de confiança.

IT Mídia: quando entretenimento vira faturamento

Transformar o maior fórum de tecnologia da América Latina numa experiência narrativa que gerou +50% de faturamento. A Saga do Tempo, no ITForum, provou que Entretenimento Estratégico é alavanca de resultados, até por deixar tudo muito mais bonito e interessante.

Marcas pessoais: quando narrativa escala negócios reais

Levar uma marca de beleza de 16 mil para 236 mil seguidores, triplicando receita de 200 mil para 600 mil por mês em dois anos. Um case que mostra o poder da Inteligência Narrativa na escala de negócios reais, não apenas métricas de vaidade.

Yamaha: quando o Japão importa storytelling do Brasil

Criar 24 turmas de StoRYpitch em 8 anos para a Yamaha, até a matriz no Japão incorporar o método. Vinte e quatro turmas. O Japão. Um brasileiro ensinando japoneses a contar histórias de motos. Se isso não prova que storytelling é método e não dom, nada prova. Quer entender como isso funciona na prática? Veja as 17 técnicas de storytelling que sustentam esses resultados.

De 5 mil para 30 mil: o número que conta a história

Em 2016, quando o livro saiu, eu havia treinado cerca de 5 mil profissionais.

Hoje, em 2026, são mais de 30 mil. Em 10 países.

O livro não causou isso sozinho, claro. Mas funcionou como um amplificador de frequência. Antes dele, eu explicava o que fazia caso a caso. Depois dele, as pessoas chegavam já sabendo o vocabulário. Já entendendo a diferença entre Story e Telling. Já prontas para ir mais fundo.

O Guia virou a porta de entrada. E a porta de entrada mudou o tamanho da casa.

Essa distinção, aliás, é fundamental. Story é a construção mental feita de memórias e imaginações que cada pessoa tem sobre uma determinada história. Telling é uma versão da história expressa por um narrador, seja em forma de texto, roteiro ou relato, que ganha vida por meio de atuações, filmagens e publicações. Entender essa separação muda tudo: de como você estrutura uma performance a como você constrói uma marca.

O que o livro de 2016 não sabia sobre 2026

Relendo o post original de estreia, publicado aqui neste blog há exatamente dez anos, percebo algo revelador. O texto descrevia o livro como uma ferramenta para "capturar a atenção do público" e "instrumentalizar o leitor em diversas habilidades".

Não está errado. Mas está pequeno.

O que o livro realmente fez foi algo que nenhuma lista de tópicos na contracapa poderia prever: ele criou uma linguagem compartilhada. Quando um CEO me liga hoje e diz "preciso de um arco narrativo para minha convenção", ele aprendeu essa frase em algum lugar. Quando uma diretora de marketing escreve no mapa do tesouro "queremos storytelling atômico, não história-fumaça", ela está usando um vocabulário que não existia antes de 2016.

O livro não ensinou apenas técnicas. Ele instalou um sistema operacional narrativo na cabeça de milhares de profissionais. Se você quer entender como o storytelling age no cérebro, esse é o ponto de partida: não é só emoção, é arquitetura de pensamento.

Em 2026, a Storytellers completa 20 anos. Duas décadas transformando negócios com histórias, desde antes de o mercado brasileiro saber o que era storytelling. O livro foi o marco de metade dessa jornada. Resta saber o que a segunda metade vai provocar.

Storytelling Generativo: o próximo capítulo

Dez anos. Bestseller. Referência acadêmica. Porta de entrada para 30 mil profissionais.

Mas o mundo de 2026 não é o de 2016. A inteligência artificial reescreveu as regras do jogo. Qualquer pessoa pode gerar um "texto narrativo" em 30 segundos. O ChatGPT produz histórias no atacado.

E é exatamente por isso que o storytelling de verdade, aquele que vem de experiência vivida e não de prompt genérico, nunca valeu tanto.

O próximo capítulo não é sobre contar histórias melhor. É sobre extrair as histórias que já existem dentro de cada pessoa e organização: histórias que nenhuma IA inventaria porque são reais, específicas, intransferíveis.

É o que chamo de Storytelling Generativo: usar IA não para fabricar narrativas, mas para revelar as que já estão ali, esperando alguém com método para encontrá-las. Se você quer entender como essa fronteira está se formando, leia sobre storytelling com IA e as tendências de storytelling para 2026.

O Guia Completo do Storytelling foi escrito para documentar uma década. Acabou inaugurando outra.

Vamos ver o que os próximos dez anos provocam.

Perguntas frequentes sobre O Guia Completo do Storytelling

O Guia Completo do Storytelling ainda é relevante em 2026?

Sim. Os fundamentos de storytelling documentados no livro, como estrutura narrativa, construção de personagem, arco de transformação e técnicas de engajamento, são atemporais. O que mudou em dez anos foram os formatos e as plataformas, não os princípios. O método que o livro apresenta foi validado em mais de 30 mil profissionais e em projetos com Nike, Pfizer, Itaú e Yamaha após a publicação. A essência permanece: histórias bem contadas transformam a forma como pessoas compreendem, memorizam e agem.

Qual a diferença entre O Guia Completo do Storytelling e outros livros sobre storytelling?

O Guia Completo do Storytelling é o primeiro livro brasileiro a documentar uma metodologia completa de storytelling aplicado a negócios. Enquanto a maioria dos livros traduz autores americanos ou foca em storytelling pessoal, o Guia foi construído a partir de cases reais do mercado brasileiro e latino-americano, com aplicações em marketing, comunicação corporativa, treinamento, branding e apresentações. É referência acadêmica em instituições como FGV, ESPM e FIA.

O livro ensina storytelling para empresas ou é só teoria?

O livro combina conceitos com aplicação prática. Cada capítulo inclui cases corporativos reais e técnicas executáveis. Entre as aplicações documentadas estão: storytelling para apresentações, construção de marca, comunicação interna (Endotelling), comunicação externa (Exotelling), memória corporativa e estratégia mercadológica. O Método Palacios, que nasceu desse trabalho, já foi aplicado em empresas como Coca-Cola, Swarovski, Yamaha e Pfizer.

O que é Storytelling Generativo?

Storytelling Generativo é um conceito criado por Fernando Palacios que propõe o uso de inteligência artificial não para fabricar histórias, mas para revelar as narrativas que já existem dentro de pessoas e organizações. Em vez de usar IA como ghost writer, o Storytelling Generativo usa IA como ferramenta de escavação: encontra padrões, conexões e histórias ocultas em dados, memórias e experiências reais. É a evolução natural do storytelling para a era da IA.

Onde comprar O Guia Completo do Storytelling?

O livro está disponível em livrarias físicas e online em todo o Brasil, incluindo Amazon e Mercado Livre, onde mantém avaliação de 4.9 de 5.0. Para mais informações, acesse o site oficial: guiacompletodostorytelling.com.br. A editora é a Alta Books. ISBN: 978-85-7608-987-2.

📖 Glossário: termos-chave do livro

Story: A construção mental feita de memórias e imaginações que cada pessoa tem sobre uma determinada história.

Telling: A versão da história expressa por um narrador, em texto, roteiro ou relato, que ganha vida em atuações, filmagens e publicações.

Exotelling: Storytelling voltado para a comunicação externa da empresa, com foco em protagonistas, mercado e marca.

Endotelling: Storytelling voltado para comunicação interna, cultura organizacional e engajamento de colaboradores.

Storytelling Generativo: Uso de inteligência artificial para revelar narrativas reais ocultas em dados, memórias e experiências, em vez de fabricar histórias artificialmente.

Método Palacios (8 Passos): Metodologia proprietária de storytelling aplicado, desenvolvida por Fernando Palacios ao longo de 20 anos de prática com mais de 200 projetos corporativos.


Sobre o autor

Fernando Palacios

  • 2x World's Best Storyteller (World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018), único brasileiro bicampeão mundial
  • Fundador da Storytellers (2006), a primeira empresa de storytelling do Brasil
  • Autor do bestseller "O Guia Completo do Storytelling" (Alta Books, 2016)
  • Criador do Método Palacios, do Entretenimento Estratégico, da Inteligência Narrativa e do Talk de Midas
  • +30 mil profissionais treinados em 10 países
  • Projetos com Nike, Coca-Cola, Pfizer, Itaú, Swarovski, Yamaha
  • Professor em FGV, ESPM, FIA e IED

Em 2026, a Storytellers completa 20 anos transformando negócios com histórias.

Storytelling em Toy Story 5: brinquedos clássicos enfrentam tablet LilyPad enquanto indústria brasileira de brinquedos já vivia esse conflito na ABRIN 2024

Storytelling em Toy Story 5 é a aplicação das técnicas narrativas da Pixar ao conflito entre brinquedos e tecnologia: um tablet chamado LilyPad sequestra a atenção da protagonista Bonnie, e os brinquedos precisam reconquistar relevância. O filme, que estreia em junho de 2026, usa as mesmas estratégias de storytelling que fazem histórias capturarem atenção, gerarem compreensão e ficarem na memória. Esse conflito entre o analógico e o digital, porém, não é ficção: é o roteiro que a indústria brasileira de brinquedos já enfrentava dois anos antes da Pixar transformá-lo em filme.

Em fevereiro de 2026, a Disney divulgou o primeiro trailer completo de Toy Story 5. Woody, Buzz, Jessie e a turma inteira enfrentam uma ameaça que não usa armadura, não voa e não tem plano mirabolante de dominação mundial.

A vilã se chama LilyPad.

É um tablet em forma de sapo, com voz de Greta Lee, que chega ao quarto de Bonnie e transforma o espaço numa zona de silêncio digital. Os brinquedos ficam no fundo do baú, esquecidos, enquanto a tela brilha.

O material promocional provoca: "Will playtime ever be the same?" (O tempo de brincar ainda será o mesmo?)

Assisti ao trailer e sorri. Não de nostalgia. De reconhecimento.

Porque esse conflito não é ficção. É o roteiro que escrevemos para o mundo real.

Quando a realidade estreia antes do cinema

Em 2024, a ABRIN (Feira Internacional de Brinquedos), a maior do setor na América Latina e 5ª maior do mundo, completou 40 anos. Quatro décadas de uma indústria inteira precisando responder a uma pergunta que mudava de forma a cada geração, mas nunca de essência: como competir pela atenção de quem pode estar fazendo outra coisa?

Nos anos 80, o "outra coisa" era a TV. Nos 90, o videogame. Nos 2000, a internet. E de 2020 em diante, um retângulo luminoso que cabe na mão de uma criança de três anos.

A Storytellers foi convidada a construir a narrativa desse marco. Não uma retrospectiva. Uma narrativa. A diferença importa.

Uma retrospectiva olha para trás e documenta. Uma narrativa olha para trás, encontra o conflito que conecta tudo, e projeta para frente. Retrospectiva é álbum de fotos. Narrativa é roteiro com tensão, personagens e resolução.

O que construímos foi o que chamamos de Toy Storytelling: uma jornada em quatro atos que levava o visitante do resgate das raízes do brincar brasileiro até o confronto direto com a pergunta que a Pixar agora transformou em longa metragem.

A tela é a vilã?

O vilão errado: por que a tela não é a inimiga

Aqui está o ponto que separa storytelling de verdade de storytelling decorativo.

A resposta fácil para "brinquedo versus tecnologia" é pintar a tela como inimiga. O tablet é mau. O celular é tóxico. As crianças estão perdidas. Volta para o analógico que era melhor.

Toy Story 5 parece caminhar nessa direção. LilyPad é literalmente a antagonista. Ela monopoliza a atenção de Bonnie. Ela empurra os brinquedos para o esquecimento. Ela é brilhante, sedutora, onipresente. No trailer, Rex grita "Extinção, de novo não!", resumindo o pânico dos brinquedos diante do digital.

Mas o conflito real não é entre plástico e pixel. Nunca foi.

O conflito real é narrativo.

A tela vence quando oferece história. O brinquedo perde quando oferece apenas objeto. Não é o formato que captura atenção. É a promessa de que algo intrigante vai acontecer se você continuar prestando atenção.

Na construção do Toy Storytelling da ABRIN, essa foi a descoberta central. As marcas que sobreviveram a quatro décadas de transformação tecnológica não foram as que resistiram à tecnologia. Foram as que souberam contar histórias melhores do que a tecnologia contava.

O brinquedo que vem com um universo, com personagens, com narrativa, com possibilidade de coautoria da criança: esse não compete com o tablet. Ele complementa. Às vezes, supera.

A mesma lógica vale para qualquer empresa, em qualquer setor.

O paradoxo dos 23 minutos: um case real

Existe um número que prova esse princípio de forma brutal.

Em 2007, quando a Storytellers criou o universo narrativo do Mini Schin para a Schincariol, o tempo médio de permanência em sites de marca para crianças era de 30 segundos. Meio minuto. A atenção de uma criança na internet, medida em dados reais, durava o tempo de um suspiro.

O jogo que criamos reteve os jogadores por 23 minutos e 39 segundos. Mais de 3 milhões de crianças jogaram. 79% chegaram ao final da história. O projeto foi finalista em Cannes Lions.

Não porque a tecnologia era superior. A internet de 2007 era lenta, os gráficos eram limitados, a experiência era rudimentar comparada ao que um tablet oferece hoje.

Venceu porque tinha história.

Uma história onde a criança escolhia o caminho, tomava decisões, enfrentava um vilão com nome e motivação, e se tornava coautora do desfecho. Eram 42 telas, 4 minigames, 84 combinações diferentes de narrativas. Cada sessão era uma aventura diferente.

A fórmula não era "mais tecnologia". Era "mais história dentro da tecnologia".

Esse é o princípio que qualquer estratégia de storytelling no marketing digital precisa entender: a tecnologia é o meio, nunca o fim. O que retém atenção é sempre o conflito, o personagem, a promessa de transformação.

Dezenove anos depois, a Pixar está contando essa mesma lição. Só que em formato de longa metragem, com orçamento de centenas de milhões de dólares.

O que Toy Story 5 ensina sobre atenção corporativa

Agora troque "brinquedo" por "apresentação corporativa". Troque "tablet" por "celular do executivo na reunião". Troque "Bonnie" por "sua plateia".

O conflito é idêntico.

Toda empresa do mundo está competindo contra um retângulo luminoso que cabe no bolso de quem deveria estar prestando atenção. E a maioria responde do jeito errado: fala mais alto, coloca mais slides, aumenta a frequência, reduz o tempo.

Isso é o equivalente corporativo de Woody gritar "olhe para mim!" enquanto o tablet brilha em silêncio.

O storytelling corporativo resolve esse conflito de três formas, e as três estão presentes tanto na narrativa de Toy Story quanto nos cases que construímos no mundo real:

1. Atenção capturada por conflito, não por volume

O trailer de Toy Story 5 não começa mostrando todos os brinquedos. Começa com o casamento de Garfinho e Faquinha, um momento de leveza que é imediatamente interrompido pela chegada de LilyPad. Conflito. Tensão. Ruptura. É isso que faz alguém parar de rolar o feed e assistir. No mundo corporativo, a primeira frase de qualquer performance precisa criar esse mesmo incômodo.

2. Compreensão gerada por personagem, não por dados

A Pixar não fez um documentário sobre o impacto das telas na infância. Criou a LilyPad, deu nome ao fenômeno, transformou estatística em personagem. Na ABRIN, as marcas não apresentaram seus balanços de quatro décadas. Contaram as histórias dos fundadores, dos pontos de virada, dos momentos em que quase desistiram. Crises de mercado viraram antagonistas com nome. Decisões arriscadas viraram cenas de suspense.

3. Memória construída por emoção, não por repetição

Ninguém lembra de um dado. Todo mundo lembra de uma cena que fez sentir algo. Toy Story inteiro é construído sobre isso: a cena do incinerador em Toy Story 3 ficou na memória de uma geração não pelo perigo, mas pela mão que Woody estende para Buzz quando tudo parece perdido. Essa é a neurociência do storytelling em ação.

Esses são os três poderes do storytelling: atenção, compreensão e memória. Funcionam num filme da Pixar. Funcionam numa feira de brinquedos. Funcionam na sua próxima reunião de diretoria.

A lição que a ABRIN aprendeu antes da Pixar

O que fizemos na ABRIN não foi demonizar a tecnologia. Foi reposicionar o brinquedo como veículo narrativo. A tecnologia não era a vilã. Era uma nova camada de possibilidade para contar histórias.

Essa é a resolução que espero ver em Toy Story 5, se os roteiristas forem tão bons quanto o trailer sugere. Andrew Stanton, que dirige o filme (o mesmo de Wall-E e Procurando Nemo), já declarou que a história é menos sobre bem contra mal e mais sobre brinquedos enfrentando a obsolescência na era digital. LilyPad provavelmente não será derrotada. Será integrada. O tablet não vai embora do quarto de Bonnie. O que vai mudar é como os brinquedos e a tecnologia convivem.

Porque o brincar nunca foi sobre o objeto. Sempre foi sobre a história que a criança inventa com ele.

Do mesmo jeito que comunicação corporativa nunca foi sobre o PowerPoint. Sempre foi sobre a história que o apresentador conta com ele.

Na ABRIN, levamos esse princípio até as últimas consequências. Quatro atos. Entrevistas profundas com líderes que transformaram pequenos comércios em gigantes da indústria. Ativações sensoriais. Desafios narrativos que transformavam visitantes em exploradores. O visitante não era plateia. Era protagonista.

O resultado? Uma feira de negócios com mais de 19 mil visitantes em quatro dias, crescimento de 20% na circulação de lojistas, tratada como experiência narrativa imersiva, onde a atenção não precisou ser comprada. Foi conquistada.

A era dos brinquedos não acabou. A era da atenção fácil é que acabou.

Toy Story 5 estreia nos cinemas brasileiros em 18 de junho de 2026. Vai arrecadar centenas de milhões. Vai emocionar. Vai virar meme. Vai gerar debates sobre infância e tecnologia.

E quando alguém perguntar "mas isso funciona no mundo real?", a resposta já existe. Não precisa de animação.

Precisa de quem saiba transformar informação em história, dados em personagens, feiras em jornadas, e conflitos reais em narrativas que capturam, explicam e ficam.

20 anos fazemos isso. A Storytellers foi fundada em 2006, antes de o mercado brasileiro saber o que era storytelling. Dois anos antes da Pixar descobrir que um tablet pode ser vilão, já tínhamos provado que a história é sempre mais poderosa que a tela.

A questão nunca foi brinquedo ou tecnologia.

A questão sempre foi: quem conta a melhor história?

Se a resposta para sua empresa ainda não está clara, talvez seja hora de aprender como o storytelling funciona na prática.


Perguntas frequentes

Quais são as técnicas de storytelling da Pixar usadas em Toy Story 5?

As principais técnicas de storytelling da Pixar presentes em Toy Story 5 são: conflito como motor da atenção (brinquedos versus tablet LilyPad), arco de transformação do protagonista (Woody retorna mudado, inclusive com marcas físicas do tempo), stakes emocionais crescentes (a ameaça de se tornar irrelevante), empatia imediata por personagens imperfeitos, e a estrutura narrativa que abre com normalidade, rompe com um incidente disruptivo e progride por complicações até o clímax. A Pixar também usa humor como válvula de tensão e referências nostálgicas para engajar diferentes gerações de espectadores.

Quando Toy Story 5 estreia no Brasil?

Toy Story 5 estreia nos cinemas brasileiros em 18 de junho de 2026. A direção é de Andrew Stanton, responsável por Wall-E e Procurando Nemo, com codireção de Kenna Harris. O elenco de vozes inclui Tom Hanks (Woody), Tim Allen (Buzz Lightyear), Joan Cusack (Jessie) e Greta Lee como a vilã LilyPad, o tablet em forma de sapo que ameaça tornar os brinquedos obsoletos.

Quem é a vilã de Toy Story 5?

A vilã de Toy Story 5 é LilyPad, um tablet infantil em forma de sapo com voz de Greta Lee. Diferente dos antagonistas anteriores da franquia (Sid, Lotso, Gabby Gabby), LilyPad não é um brinquedo com más intenções: é a própria tecnologia digital disputando a atenção de Bonnie. O conflito não é entre bem e mal, mas entre o analógico e o digital, entre a imaginação livre e o entretenimento passivo.

Como aplicar storytelling da Pixar em empresas e apresentações?

O storytelling da Pixar se aplica ao mundo corporativo em três dimensões: capturar atenção por conflito (começar com uma pergunta ou tensão, não com logotipo), gerar compreensão por personagem (transformar dados em protagonistas com nome e história), e construir memória por emoção (criar momentos que façam a plateia sentir algo). Essas técnicas funcionam em apresentações, reuniões, propostas comerciais e treinamentos. A Storytellers aplica esses princípios há 20 anos com resultados documentados em empresas como Nike, Coca-Cola, Itaú e Pfizer.

O que foi a Exposição ABRIN 40 anos e qual sua relação com Toy Story?

A ABRIN (Feira Internacional de Brinquedos) celebrou 40 anos em 2024, sendo a maior feira do setor na América Latina e 5ª maior do mundo. A exposição comemorativa, realizada no Expo Center Norte em São Paulo com mais de 170 expositores e 19 mil visitantes, contou a trajetória do mercado de brinquedos brasileiro. A relação com Toy Story 5 é temática: dois anos antes do filme abordar o conflito entre brinquedos e tecnologia, a indústria real já vivia e narrava esse mesmo conflito na feira, com marcas que sobreviveram quatro décadas justamente por investir em narrativa, não apenas em produto.

O storytelling funciona mesmo contra a distração digital?

Sim, e há dados que comprovam. Em 2007, quando o tempo médio de atenção de crianças em sites de marca era de 30 segundos, o jogo narrativo Mini Schin, criado pela Storytellers para a Schincariol, reteve jogadores por 23 minutos e 39 segundos, com 3 milhões de jogadores e 79% de taxa de conclusão. O projeto foi finalista em Cannes Lions. A tecnologia era inferior à atual, mas a história era superior. A neurociência confirma: narrativas com conflito, personagem e emoção ativam áreas cerebrais que dados isolados não ativam, gerando atenção sustentada e memória de longo prazo.


Próximos passos


Sobre o autor

Fernando Palacios é fundador da Storytellers, a primeira empresa de storytelling corporativo do Brasil (2006), e duas vezes eleito melhor storyteller do mundo pelo World HRD Congress em Mumbai (2017 e 2018). Já treinou mais de 30 mil profissionais em 10 países e é autor do bestseller "O Guia Completo do Storytelling". Professor na FGV, ESPM, FIA e IED, tem cases com Nike, Coca-Cola, Itaú, Pfizer, Swarovski e Yamaha. Criador do Método Palacios, do Entretenimento Estratégico e da Inteligência Narrativa.