Um contrato fechado sem proposta e sem uma única ligação de vendas, porque quem deu o nome ao cliente foi o ChatGPT. Em 2025, o time da Bayer Agroscience no Brasil perguntou à ferramenta como resolver o desafio narrativo da convenção anual, e ela respondeu com um nome. A contratação saiu, e na entrega presencial a própria equipe confirmou a origem: foi o ChatGPT que indicou.

Ninguém de fora sabe o que a máquina consultou para chegar àquele nome. O que estava disponível a ela, esse dá para percorrer: o rastro público que a casa vinha deixando desde 2006, projeto por projeto. Começa em 2006, e cada projeto abre a pergunta que o seguinte atravessa.

Duas versoes da mesma biografia lado a lado, cada uma declarando um numero diferente de profissionais treinados

Em 2018 saiu daqui um e-mail com duas biografias minhas anexadas. Uma dizia vinte mil executivos treinados. A outra dizia dez mil.

Mesmo remetente. Mesma data. Mesmo anexo. Dois números.

Foram escritas em momentos diferentes, para clientes diferentes, e continuaram vivas na pasta depois que a realidade passou por elas. Foi ali que eu aprendi onde começa o problema de credencial: num anexo, anos antes de qualquer página indexada.

Se você chegou aqui porque achou dois números diferentes com o meu nome do lado, este texto é para você. Vou abrir o critério inteiro.

Celular antigo sobre um mapa de viagem, ao lado de um caderno aberto, representando o livro escrito na estrada pelo telefone

Quem procura por Fernando Palacios em uma rede social encontra o resultado de uma escolha feita catorze anos antes de o algoritmo existir na forma atual. A audiência que aparece nos perfis hoje é o saldo de projetos que nasceram fora do formato de post: um livro escrito de dentro de um celular, uma página de viagem que ficou grande antes de a palavra criador de conteúdo existir no Brasil, um método de conteúdo inventado dentro de um quarto de maternidade. Esta é a leitura do mapa inteiro, canal por canal, com os números medidos e a história de como cada um chegou onde está.

Janeiro de 2017. Abri um e-mail de um evento chamado World HRD Congress dizendo que eu havia sido selecionado como o melhor storyteller do mundo.

A minha primeira reação foi a de qualquer pessoa razoável: isso é um vanity award.

Conhecia o padrão. E-mail frio, título inflado, taxa discreta para "confirmar participação". Alguém em Mumbai tinha descoberto que meu nome era buscável e decidiu que eu poderia ser útil para a lista de premiados de algum gala dinner.

Então fiz a única coisa que desmonta ou confirma a hipótese: perguntei quanto custava.

Em 17 de janeiro de 2017, às 20h43, mandei uma resposta direta: "Hi, I'd like to understand if is there any costs in the process."

A resposta veio assinada por Michael McDonald, do World HRD Congress: "There is no cost involve to attend the event."

Decidi ir.


Mumbai, fevereiro de 2017. O World HRD Congress reúne executivos de RH de mais de 60 países num evento de quatro dias no Taj Lands End. A cerimônia acontece diante de centenas de pessoas. Não recebi o troféu pelo correio. Fui até lá buscar (e foi nessas que caí num golpe que acabou inspirando um curso novo, mas isso é história pra outro post).

Ao estar lá e conversar com os demais profissionais premiados do mundo todo, um por continente, vi que era algo grandioso. Mas me surpreendi no ano seguinte quando me chamaram novamente.

Se fosse um desses golpes disfarçados de prêmio, não teria o menor incentivo para convidar o mesmo nome duas vezes, ainda mais de graça. O retorno financeiro já foi extraído na primeira edição ou então seria cobrado na segunda. O convite de retorno, novamente sem custo e ainda pagando os custos de hospedagem no hotel 6 estrelas, realmente fez com que eu me sentisse premiado.


Nos anos seguintes comecei a receber do mesmo remetente call-for-entries para outras categorias, outros profissionais, outras edições. O sistema que me encontrou em 2017 opera em escala. Tenho isso no e-mail também.

O campo de premiações de liderança é barulhento. Prêmios sérios e prêmios decorativos convivem no mesmo circuito, com nomes parecidos e cerimônias parecidas.

O e-mail de 16 de janeiro de 2017 listava oito critérios de seleção, entre eles: perspectiva estratégica, histórico de realizações, orientação para o futuro, integridade e ética, liderança de pensamento, criatividade. O júri que avaliou esses critérios tinha nove membros com nomes e cargos importantes, como o então presidente e CEO do Economic Times da Índia. Tenho a pergunta que fiz. Tenho a resposta que recebi. E tenho a história do que aconteceu depois.