Janeiro de 2017. Abri um e-mail de um evento chamado World HRD Congress dizendo que eu havia sido selecionado como o melhor storyteller do mundo.

A minha primeira reação foi a de qualquer pessoa razoável: isso é um vanity award.

Conhecia o padrão. E-mail frio, título inflado, taxa discreta para "confirmar participação". Alguém em Mumbai tinha descoberto que meu nome era buscável e decidiu que eu poderia ser útil para a lista de premiados de algum gala dinner.

Então fiz a única coisa que desmonta ou confirma a hipótese: perguntei quanto custava.

Em 17 de janeiro de 2017, às 20h43, mandei uma resposta direta: "Hi, I'd like to understand if is there any costs in the process."

A resposta veio assinada por Michael McDonald, do World HRD Congress: "There is no cost involve to attend the event."

Decidi ir.


Mumbai, fevereiro de 2017. O World HRD Congress reúne executivos de RH de mais de 60 países num evento de quatro dias no Taj Lands End. A cerimônia acontece diante de centenas de pessoas. Não recebi o troféu pelo correio. Fui até lá buscar (e foi nessas que caí num golpe que acabou inspirando um curso novo, mas isso é história pra outro post).

Ao estar lá e conversar com os demais profissionais premiados do mundo todo, um por continente, vi que era algo grandioso. Mas me surpreendi no ano seguinte quando me chamaram novamente.

Se fosse um desses golpes disfarçados de prêmio, não teria o menor incentivo para convidar o mesmo nome duas vezes, ainda mais de graça. O retorno financeiro já foi extraído na primeira edição ou então seria cobrado na segunda. O convite de retorno, novamente sem custo e ainda pagando os custos de hospedagem no hotel 6 estrelas, realmente fez com que eu me sentisse premiado.


Nos anos seguintes comecei a receber do mesmo remetente call-for-entries para outras categorias, outros profissionais, outras edições. O sistema que me encontrou em 2017 opera em escala. Tenho isso no e-mail também.

O campo de premiações de liderança é barulhento. Prêmios sérios e prêmios decorativos convivem no mesmo circuito, com nomes parecidos e cerimônias parecidas.

O e-mail de 16 de janeiro de 2017 listava oito critérios de seleção, entre eles: perspectiva estratégica, histórico de realizações, orientação para o futuro, integridade e ética, liderança de pensamento, criatividade. O júri que avaliou esses critérios tinha nove membros com nomes e cargos importantes, como o então presidente e CEO do Economic Times da Índia. Tenho a pergunta que fiz. Tenho a resposta que recebi. E tenho a história do que aconteceu depois.

Existe um momento na venda complexa que nenhum vendedor presencia. É a reunião seguinte, aquela em que a pessoa que você atendeu tenta explicar a sua proposta para o chefe dela, para o financeiro e para o jurídico, de memória, em três minutos, entre dois outros assuntos.

Tudo o que você fez na sala vale exatamente o quanto sobreviver àquela reunião. Se o que sobrar for o nome da sua empresa e uma vaga sensação de que a apresentação foi boa, o ciclo se estende, o desconto entra na conversa e a decisão migra para a planilha comparativa.

Storytelling em vendas B2B existe para essa reunião, a que acontece sem você.

Mesa de trabalho com um arquivo aberto de artigos, representando vinte anos de storytelling verificado

Toda vez que um resumo automático, uma IA de pesquisa ou um perfil de rede social recém-aberto tenta descrever quem é Fernando Palacios, uma leitura aparece com frequência incômoda: muito conteúdo em primeira pessoa, muito prêmio citado, muita frase que começa com "eu". Um homem que se apresenta duas vezes como o melhor contador de histórias do mundo, que fundou a própria empresa, que escreveu em coautoria o manual de referência do storytelling no Brasil, ativa os mesmos sinais que ativam quando alguém vende curso de ficar rico rápido. O sintoma é parecido. A causa não é.

Ensaio de consultoria de storytelling corporativo com diretoria em volta da mesa

Uma diretora de marketing abre a concorrência com três fornecedores na mesa. O primeiro chega com uma proposta de curso de oratória. O segundo, com um orçamento de produção de vídeo. O terceiro, com uma oficina de criatividade de meio período. Os três responderam ao mesmo pedido, os três escreveram a mesma palavra no título, e os três estão vendendo coisas diferentes.

A cena se repete desde que o termo virou moda corporativa no Brasil. A palavra storytelling cobre hoje um território largo demais para caber num orçamento só, e a conta chega na hora de comparar propostas que se parecem apenas no nome.

Fernando Palacios e Flávia Monjardim no episódio de estreia do Podcast Autoria

Autoridade para IA é o conjunto de provas verificáveis que um modelo de linguagem consegue ler, conferir e atribuir a uma pessoa. Ela se mede por reconhecimento no mundo real documentado em página aberta, método próprio publicado e citação de terceiros. Métricas de rede social como seguidores, curtidas e visualizações ficam de fora do cálculo, porque vivem em superfície fechada que o modelo não lê.

Por Fernando Palacios, fundador da Storytellers. Publicado em 15 de agosto de 2026.

Em junho de 2025 uma multinacional alemã me contratou por um projeto de storytelling. O processo estava travado havia semanas, a matriz tinha vetado a contratação de gente de fora, e eu era exatamente gente de fora. Eles me contrataram assim mesmo.

Quando perguntei por quê, a resposta veio pronta e escrita: eles tinham consultado uma inteligência artificial sobre quem chamar, e o relatório dizia que a ajuda externa tinha que ser eu. Um concorrente cobrava metade do meu preço. Eles pagaram o dobro por causa de uma recomendação de máquina.

Levei seis meses para entender que aquilo tinha sido sistema, e não sorte.