Segredos de um ghost writer sobre storytelling!




Entender que o storyteller é como um mago que captura a atenção e causa curiosidade, truque por truque, página por página, é um bom começo para chegarmos à conclusão de que, apesar de sabermos que sexo, comida e violência chamam a atenção das pessoas, uma narrativa não precisa necessariamente ser mantida por essas características. No livro Jogos Vorazes, por exemplo, a narrativa é inteiramente mantida pela personalidade da protagonista, uma menina de dezesseis anos, moradora da região mais pobre do “distrito 12”, que se oferece para participar de uma batalha promovida pela “Capital” (cidade tecnológica que governa todos os distritos do mundo pós-apocalíptico em que se passa a história) no lugar de sua irmã. O evento que é promovido anualmente pela Capital, que escolhe um casal de representantes de cada distrito que deverão se enfrentar em uma arena até que apenas um sobreviva. Apesar desse plano de fundo a narrativa não apresenta um ambiente violento e sanguinário como imaginamos que poderia ser, pelo contrário, somos levados para dentro da história através do ponto de vista da protagonista que narra sua jornada nessa aventura na qual entrou para proteger sua irmã mais nova. Com essa narrativa podemos perceber que um bom personagem já é o suficiente para segurar uma história por bastante tempo. Mas existem alguns truques para que isso seja possível.

A primeira regra é que o storyteller deve ser um especialista em reter informação. Diferente de um publicitário ou um jornalista o objetivo do storyteller não é passar a mensagem de maneira rápida e sim fazer com que o atento fique curioso, fisgar sua atenção no começo de tudo para que ele queira buscar por essa informação nas próximas páginas e nos próximos capítulos. “Gostou disso? Então espere só para ver a próxima página!” Dizia Allen R. Kates em sua palestra via streaming para o curso de Inovação em Storytelling do CIC – ESPM.  É esse raciocínio que nos leva ao mote de “sempre criar mais perguntas do que respostas”, mas sempre com o cuidado de eventualmente responder, mesmo que não por inteiro, a algumas dessas perguntas durante a história e a todas elas no fim.

Podemos usar como exemplo disso o Livro “The Girl with the Dragon Tattoo” (traduzido oficialmente como “O homem que não amava as mulheres!”) onde a personagem principal, a menina com a tatuagem de dragão citada no título original em inglês, só aparece depois de 30 páginas de narrativa. É importante dizer também que toda narrativa precisa de um ponto de vista, uma espécie de binóculo pelo qual estaremos olhando para aquele universo, no caso de Jogos Vorazes o autor usa a visão da personagem principal que conta os acontecimentos como se estivessem acontecendo no presente, deixando o leitor sempre suspenso no tempo, sem saber o que acontece no futuro, ou até mesmo até quando vai esse futuro. No livro Firmin, de Sam Sevage, somos guiados pelo ponto de vista de um rato que vive em uma biblioteca e dá sua opinião sobre os livros com base no que sente ao comer suas páginas.

Citando a pergunta: “Por onde devo começar a minha história?” como uma das perguntas que mais recebe, nosso convidado, Allen Kates, diz que devemos começar por aquilo que mais nos empolga na história, já que toda história é escrita para alguém, e se você está empolgado com o que está contando as chances de que outras pessoas também fiquem empolgadas com aquilo são grandes. Desse pensamento tiramos duas importantes lições para um storyteller, a primeira é que devemos sempre ter alguém em mente enquanto escrevemos, um amigo, um parente, ou até um desconhecido, alguém para quem gostaríamos de contar aquela história acreditando que essa pessoa possa se interessar pelo que estamos contando. Assim saberemos como contá-la, afinal, podemos contar a mesma história para uma criança e para nossos avós, mas nunca o faríamos da mesma maneira. E a segunda lição importante desse pensamento é que tudo o que escrevemos carrega um pouco de nossas experiências e é bem possível que o nosso humor, no caso a empolgação, seja transmitido ao texto.

Por fim, somos advertidos enfaticamente a evitarmos clichês, afinal quando algo é repetido por vezes demais acabamos por perder o significado daquilo que estamos dizendo e caindo em uma expressão sem apelo emocional que dificilmente irá chamar a atenção de qualquer pessoa, fazendo com que a narrativa perca o poder de causar aquele sentimento de ser única e inovadora. 

Gostaríamos de agradecer ao Sr. Allen R. Kates pelo prazer de tê-lo conosco dividindo seu expertise e deixando dicas tão valiosas para nossos novos storytellers!


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