Storytelling e Imperialismo Cultural - quando algumas histórias falam mais alto



Durante a primeira Cruzada da Igreja Católica aconteceu um feito bem curioso. Imagine, os cruzados estavam sitiados pelo exército Muçulmano durante alguns meses. A fome e a desolação da esperança já habitava o coração e a mente daqueles homens - incontáveis guerras eram vencidas apenas por sítio.

Já não havia o que fazer, senão esperar a morte dentro das paredes ou encará-la no campo de batalha além dos portões, mas pra que? 


Foi quando Pedro Bartolomeu retirou do bolso (na verdade de uma escavação) um artifício milagroso, a Lança do Destino. A relíquia que teria perfurado o peito do Cristo na cruz. Ninguém sabe se foi pela visão turva ou histeria coletiva, mas ele brandou ela no alto e disse algo como "ninguém pode com a gente, bora lá".  E aquela guerra foi vencida.

Essa é uma história muito curiosa, mas que expressa o que eu gostaria de trazer para a discussão: Histórias fantásticas sempre estiveram a frente de guerras.  Júlio César era outro, enviava seus arautos espiões que disseminavam entre seus inimigos feitos horrendos de batalhas (degolações, estupros e toda qualidade de tortura possível).  Assim, quando encarava o exército oposto, ele estava abalado de algum modo, tendendo fugir com mais facilidade.

Uma boa historia era capaz de influenciar legiões sem levantar uma espada. Então se um grande rei quisesse mudar a cultura de um lugar, ele começava a contar as suas. Já ouviu falar da verdade humana? Quando alguém encontrava uma verdade poderosa e usava uma boa estrutura arquetípica, a revolução era infalível.



Voltemos a religião cristã para entender isso. Quando Roma se tornou oficialmente cristã, eles tinham centenas de cultos politeístas, templos, calendários, símbolos que o povo cultuava. Confrontar isso poderia custar o império. Ao contrário, foram ressignificando tudo...

"Sabe aquele Deus Sol? Então vou te contar a história de quando ele nasceu em Jerusalém e a mensagem que ele deixou... é coisa nova, os homens acabaram de entender".

Assimilando e moldado novas culturas a igreja foi se instalando em Roma e propagando sua fé sobre todos os outros povos. A expansão da Igreja Romana foi uma forma de imperialismo cultural, que obliterou inúmeras culturas e histórias pelo seu caminho.  Depois de um tempo a própria igreja foi vitima disso, assimilada por todos símbolos, linguagem e sistema político europeu. Chegando a 2017 em países como o Brasil que ainda usam uma forma de canto gregoriano em rituais religiosos.



Agora que entendemos um pouco de como uma história pode cobrir uma cultura em toda sua extensão podemos levar essa discussão para outra dimensão, a dimensão comercial aonde as histórias mais vendidas e contadas por todo o globo são as Holywoodianas.

Quando o presidente americano Herbert Hoover, nos anos 20, promoveu os filmes americanos entre os outros países ele esboçou a famosa frase:"aonde quer que um filme americano penetre, nós venderemos mais automóveis, mais bonés e mais vitrolas americanas"

Historicamente, o país estava consolidando também o que foi chamado de Estilo de Vida Americano, que foi carregado junto com todo o cinema - sem contar a parte racista, afinal o primeiro grande filme do país "O Nascimento de uma nação" mostrava a Ku Klux Klan como heroína. 

Faturamento passou a ser um termo importante para o entretenimento e o Storytelling, as fórmulas surgiram e se adaptaram. A jornada do herói de Holywood foi reproduzida pela Disney, Universal, Warner e todos os outros estúdios que procuram morder esse bolo.  Daí que surgem aquelas conversas sobre os filmes da Marvel sempre puxar para o humor. O alívio cómico, aliás, é uma figura que Vogler trouxe á luz em sua obra "a jornada do escritor" como um dos principais arquétipos de um bom filme.



O passar dos anos foi juntando essas estruturas com um comportamento social padrão, um novo reino e uma nova religião conhecida como Cultura Pop. Vocês devem reconhecer seus símbolos e suas músicas.  Eles foram imprimidos no nosso DNA cultural de forma tão intensa, que muitas novas gerações nascem sem conhecer sua identidade local, apenas se alimentando das histórias pop, blockbusters e games AAA.

Vogler dedicou parte da segunda edição dos eu livro a discutir sobre isso, será que a generalização das histórias está matando as histórias que não seguem a estrutura da jornada do herói de holywood?  Definitivamente não, basta ligar a TV aberta no SBT por exemplo e ver as novelas latinas, que tem sua própria estrutura e arquétipos ou mesmo sucessos internacionais como Bahubali de Bolywood ou qualquer bom filme Chinês.

Mas de fato se você não prestar atenção vai ficar nadando eternamente nas histórias que propagam o império cultural popular. Isso não deve ser problema algum para a audiência, mas como escritor você precisa mergulhar mais fundo para ter ideias mais originais ou com conexões culturais verdadeiras em seu país.



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