Produtores e histórias - (dar) vida

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Eu tenho sorte, muita sorte, de ter feito parte da vida de alguém que vivia das histórias. Uma de suas músicas favoritas, It’s a Long Way to Tipperary, tem para mim o mesmo efeito que o biscoito madaleine teve para o escritor Marcel Proust: basta entrar em contato que um relâmpago mnemônico busca lá do fundo minhas recordações mais preciosas, que começam a se remontar, uma puxando a outra, até o momento em que me vejo de volta à infância. Logo estou entre suas mãos, num rápido vôo até seu colo, local de onde partiremos nossa viagem de balão pelo país dos sorvetes, ou então à nossa mais nova aventura com o Burrico Sarapico.

Essa pessoa que vive tão intensamente em minhas lembranças é meu avô, Alfredo Palacios. Sem dúvida, um dos maiores contadores de história que já conheci. Sua carreira começou como crítico de jornal, passou pelo teatro, foi pioneiro nas radionovelas, depois tornou-se cineasta e depois de muitos filmes e sucesso, foi para a TV.

Sempre me impressionou sua habilidade de prever o que aconteceria na cena a seguir ou de desvendar o final do filme antes mesmo de ter chegado à metade. E foi assim que ele me ensinou a gostar de histórias, entendê-las, estudá-las, decodificá-las e construí-las.

No cinema e na TV executou todas as tarefas do processo: escreveu, dirigiu e até mesmo chegou a atuar. Mas seus típicos comentários como “dos filmes americanos, só prestam as cenas de perseguição” ilustram bem sua visão de produtor: sempre gostou de ver as histórias ganharem vida.

Normalmente o produtor materializa as histórias de outros; e mesmo não sendo aquele que concebe, cuidam delas como se fossem suas. Um verdadeiro ato de doação (exceto quando é o inverso e ao invés de "se doar" eles optam por "adotar", o que via de regra gera muita tensão com os roteiristas). Uma associação lógica permite ampliar esse papel de "produtor" para: companhias de teatro, estúdios de televisão, produtoras de audiovisual e até mesmo por editoras editoras.

E assim os produtores entendem a história por um ângulo inverso ao do escritor, de fora pra dentro. Graças a essa visão externa, conseguem enxergar qual o formato artístico mais adequado para potencializar as qualidades de cada tipo de história.

Não é por acaso que muitas das grandes inovações tenham partido deles. Em 1961, meu avô lançou a primeira série da TV brasileira, que também veio a ser nosso primeiro herói: o Vigilante Rodoviário! É muito fácil saber quem assistia, pois basta falar o nome e que começam a cantar “de noite ou de dia / firme no volante / vai pela rodovia / o bravo vigilante”.



Nos dias de hoje, são produtores como Tim Kring de Heroes e JJAbrams de Lost (também muito influenciado por seu avô) que estão revolucionando com o conceito de Transmídia. Trata-se de uma forma mais completa de contar histórias e que inclusive já chegou ao Brasil pelas mãos da produtora Coração da Selva.

A nós cabe agradecer por eles existirem, especialmente eu.

Meu avô não está mais por aqui para me contar suas histórias e nem eu posso contar a ele a minha história pessoal que - junto com meus sócios - resume-se a desenvolver uma forma diferente de comunicação por meio da criação de ficções.

Talvez seja essa saga minha maior homenagem.

Atualização em fevereiro de 2009 - a partir de março, o Canal Brasil vai exibir 37 episódios remasterizados da série. Mais informações aqui.

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