A gente quer comida, diversão e histórias

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Era quase meia-noite e eu voltava de um desses compromissos noturnos que acontecem no meio da semana. Compromissos profissionais, diga-se de passagem. Quase sempre isso significa trocar um jantar de verdade por algum petisco, e uma bebida saudável por algo alcóolico. Como se essa quebra de rotina não tivesse um lado bastante prazeroso. A quem estou tentando enganar?

No caminho, dirigindo por uma grande avenida de São Paulo, me deparo com um Habib´s. A relação entre o cérebro e o estômago, ligeiramente abalada por causa do chopp, faz com que eu ligue os pontos apenas um quarteirão depois. Sim, eu definitivamente estava com fome.

"Obrigado" a retroceder em marcha ré pelo quarteirão a mais, como se a possibilidade de dar a volta fosse instransponível, finalmente estaciono o carro e, algumas chances de acidente depois, já estou dentro do restaurante esperando pelo pedido. Quatro esfihas, duas de carne, duas de queijo.

Impressionante como um pedido simples pode demorar tanto. Quanto maior a fome e a vontade de chegar em casa logo, mais tempo tem um minuto. Mas de repente meu fluxo de pensamentos inúteis é interrompido por um garçom que nota minha camisa e faz uma pergunta.

"Essa camiseta é daquele filme Laranja Mecânica?" Considerando que parecia ser um cara humilde, do tipo que nunca imaginamos vendo um filme desses, tomei um susto. Preconceituoso? Pode ser, mas as vezes a vida prega boas surpresas.

E segue o diálogo:
- Você já viu esse filme?
- Nunca vi.
- Então como você sabe?
- Ah, já ouvi falar muito sobre o laranja lá na Galeria do Rock.
- Legal, você deveria ver, é muito bom.
- É, mas não passa na Globo, eles não passam filme bom, né?

Deveria ter anotado seu nome e levado uma cópia do filme no dia seguinte. Ainda fui ingênuo em indicar uma locadora ali do lado cujo aluguel custa quase 10 reais. Eu matando a fome com quatro esfihas, e uma população inteira por aí com fome de boas histórias.

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  1. Po, devíamos criar um movimento que distribuisse bons filmes pirateados pela cidade, nos lugares onde não encontraríamos fãs, mas potenciais e "esquecidos pelo sistema", pessoas que podem ser acordadas...

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  2. Isso me lembrou a história de um camarada cineasta, documentarista, montador, essas coisas todas , em Cuba. Câmera na mão no Malecón de Havana, eis que surge em quadro uma moça lendo sentada na amurada. A subjetiva vai se chegando e em dado momento a pergunta " Tá lendo o que ? " e a moça, cara humilde, roupa humilde, jeito humilde, no Rio ou São Paulo a estética estaria associada a uma faxineira mal paga , uma doméstica salário mínimo , meio assim.."Ah , uma história romântica.." e era dessas revistas livros, tipo Sabrina. E o nosso intelectual da imagem "Você gosta de histórias de amor ?" e ela " Sim sim, leio uns três , quatro desses por dia. Mas gosto mesmo é de Dostoiévsky." Tomou ?

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