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Storytelling parece mágica.

E toda mágica tem truque.

O truque do storytelling são três elementos que, quando combinados, transformam informação em experiência. Ignore um e a história desmorona.

Este artigo complementa o Guia Definitivo de Storytelling. Se você ainda não leu, comece por lá.


O Triângulo Que Sustenta Tudo

Imagine um triângulo. Em cada vértice, um pilar:

Elemento Pergunta Função
STORYTELLER Quem conta? Define credibilidade
STORY O que contar? Define conteúdo
TELLING Como contar? Define experiência

Cada elemento tem suas regras. E cada um amplifica ou sabota os outros.


1. Storyteller: Quem Conta a História

O primeiro elemento não é a história. É você.

Não importa se você está contando algo que viveu ou algo que pesquisou. A forma como você se posiciona como narrador define se a plateia vai confiar em você.

O que define um bom storyteller:

Voz autoral. Não existe "jeito certo" de contar. Existe o seu jeito. Autenticidade bate perfeição técnica toda vez.

Curadoria. Você não precisa ter vivido todas as histórias que conta. Precisa saber escolher as histórias certas para sua plateia. Um curador de museu não pintou os quadros, mas sabe quais colocar na exposição.

Intenção clara. Por que você está contando essa história? Se você não sabe, sua plateia também não vai saber.

O erro fatal do storyteller:

Escrever para "todo mundo". Posts genéricos, e-mails que começam com "prezados", apresentações que não olham para ninguém específico.

A solução:

Escolha uma pessoa. Uma. Imagine que você está contando essa história para ela num café. Escreva como se estivesse falando diretamente com esse alguém.

Esse truque simples elimina a maioria dos problemas de conexão com a plateia.


2. Story: O Que Você Está Contando

Story é a matéria-prima. O acontecimento fora de série e seus desdobramentos.

Não confunda com "qualquer coisa que aconteceu". Story tem características específicas.

O que torna algo uma história:

Acontecimento improvável. Se acontece todo dia, não é história. É rotina. A história nasce quando algo quebra o padrão.

Um protagonista com desejo. Alguém quer algo. Esse "alguém" pode ser você, um cliente, uma personagem. O desejo cria movimento.

Obstáculos no caminho. Sem conflito, não há tensão. Sem tensão, não há atenção. Os perrengues são o combustível da narrativa.

Transformação. No final, algo mudou. O protagonista aprendeu, venceu, ou ignorou a lição e perdeu. Mas ele não é mais o mesmo.

O erro fatal na story:

Confundir história com histórico.

A IBM fez 100 anos e produziu um vídeo mostrando cada década. Ninguém conseguiu assistir até o fim.

Johnny Walker fez 100 anos e contou 6 momentos que definiam a marca. Todos lembram.

Mais material não significa melhor história. Significa mais trabalho de edição.

A solução:

Pergunte: qual é o acontecimento que justifica a atenção? Comece por ele. Depois adicione apenas o contexto necessário para entender. Corte o resto.


3. Telling: Como Você Apresenta

Telling é arquitetura. É a estrutura que transforma matéria-prima em experiência.

A mesma história pode ser contada de forma intrigante ou de forma que ninguém presta atenção. A diferença está no telling.

Os pilares do bom telling:

Começo que captura. Os primeiros segundos definem se alguém vai continuar ou desistir. O gancho não é opcional.

Progressão com tensão. A história precisa de altos e baixos. Subir a tensão, dar um respiro, subir mais. Até o clímax.

Final que ressignifica. O melhor final não é o mais surpreendente, é aquele que faz a plateia olhar para trás e ver toda a história com outros olhos.

O erro fatal no telling:

Entregar tudo de uma vez. Explicar demais. Não deixar espaço para a imaginação.

O segredo do telling eficaz não é contar tudo. É deixar de contar certas coisas para que a plateia preencha com a própria imaginação. Quando você obriga a plateia a imaginar, ela se torna co-autora. E ninguém abandona uma história que ajudou a criar.

A solução:

Revise seu texto e pergunte: o que posso cortar sem perder o essencial? O que posso sugerir em vez de explicar?

O telling poderoso é aquele que confia na inteligência da plateia.

Para técnicas práticas de telling, veja o Método Atômico e os 8 Passos Palacios.


Como os Três Elementos Se Conectam

Um storyteller medíocre com uma história incrível vai desperdiçar o material.

Uma história fraca com telling sofisticado vai parecer truque de mágico barato.

Uma narrativa tecnicamente perfeita, mas sem autenticidade do narrador, vai soar fake.

Os três precisam funcionar juntos.

  • Storyteller define a credibilidade.
  • Story define o conteúdo.
  • Telling define a experiência.

Quando os três se alinham, acontece algo que parece mágica.

A plateia esquece que está ouvindo uma história. Ela simplesmente vive.


Diagnóstico Rápido

Se sua história não está funcionando, faça três perguntas:

Sobre o Storyteller: Estou falando como eu mesmo ou tentando imitar alguém? Estou escrevendo para uma pessoa específica ou para "todo mundo"?

Sobre a Story: Qual é o acontecimento improvável? Quem é o protagonista e o que ele quer? Onde estão os obstáculos?

Sobre o Telling: O início captura atenção? A tensão aumenta ao longo da narrativa? O final transforma?

A resposta que você não conseguir dar é onde está o vacilo.


O Próximo Passo

Você não precisa dominar os três elementos de uma vez.

Escolha uma história que você já conta. Analise: qual dos três pilares está mais fraco?

Depois, trabalhe especificamente nele.

Progresso em storytelling não vem de grandes revelações. Vem de pequenas correções aplicadas consistentemente.

Comece por uma.


Aprofunde Seu Conhecimento


Fernando Palacios é fundador da Storytellers, primeira empresa de storytelling da América Latina, e duas vezes campeão mundial de storytelling.

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