A Knight of the Seven Kingdoms é a série derivada de Game of Thrones que atingiu nota 10/10 no IMDb em 2026, provocando uma guerra de votos com fãs de Breaking Bad. Além da polêmica, a série ilustra um princípio fundamental de storytelling: ao reduzir o escopo narrativo (de guerras continentais para a jornada pessoal de um cavaleiro errante), A Knight multiplicou a conexão emocional da plateia. O princípio é o mesmo que George R. R. Martin aplicou desde 1996: Story é o universo imenso, Telling é o recorte humano que você escolhe dentro dele.
📑 Neste artigo
A série que chegou a 10/10 no IMDb (e a guerra que tentou impedir)
Tem algo acontecendo em Westeros que vai além de dragões e duelos.
Na semana passada, um episódio de A Knight of the Seven Kingdoms atingiu nota 10/10 no IMDb logo após a estreia. Dez. A nota máxima. Em seguida, fãs de Breaking Bad entraram em campo para proteger Ozymandias, o episódio mais bem avaliado de toda a história da série. E aí começou uma guerra de votos que derrubou a nota perfeita de Westeros para 9,8/10 e, de quebra, tirou um décimo de Ozymandias também.
Dois lados brigando por uma nota. Nenhum dos dois percebendo que estavam discutindo storytelling.
O que acontece quando você retira a grandiosidade
A Knight of the Seven Kingdoms faz uma escolha narrativa que parece suicida: nada de batalhas épicas de abertura, nada de geopolítica continental, nada de dragão dominando o frame.
A série começa com um cavaleiro pobre desmontando da estrada.
Isso não é preguiça de produção. É decisão dramatúrgica. Ao trocar a grandiosidade pelo cotidiano, a série reprogramou a expectativa da plateia. E uma plateia com expectativa recalibrada se conecta diferente. Se importa diferente. Sente mais.
O grand finale: episódios individuais na casa dos 9,7/10, um deles tocando o máximo histórico.
O princípio que explica isso é o mesmo que George R. R. Martin aplicou lá em 1996 quando criou Westeros: Story é o universo. Telling é o recorte que você escolhe dentro dele.
Martin construiu mais de 12.000 anos de história de Westeros. E usou apenas "os últimos três anos" para contar sua saga. A Knight faz isso de novo, mas vai mais fundo: pega o mesmo Story imenso e escolhe um recorte minúsculo. Poucos dias. Um torneio. Um cavaleiro e seu escudeiro.
Menos escopo, mais alma.
Essa distinção entre Story e Telling é um dos conceitos centrais do Guia Completo do Storytelling. O Story é a construção mental feita de memórias e imaginações que cada pessoa tem sobre uma determinada história. O Telling é a versão expressa por um narrador, que ganha vida em atuações, filmagens e publicações. A Knight prova que o poder está na escolha do Telling, não no tamanho do Story.
Por que "baixa aposta" cria o maior impacto
A crítica disse que A Knight é "baixa aposta" como se fosse elogio bacana. Mas o que está por trás dessa frase?
Quando as apostas são altas demais (tronos, continentes, morte de civilizações), a plateia processa a história como espetáculo. Quando as apostas são pessoais (respeito, pertencimento, um cavaleiro sem lar tentando fazer o bem), a plateia processa como experiência.
Espetáculo impressiona. Experiência transforma.
Foi exatamente o que aconteceu nas primeiras temporadas de Game of Thrones, antes do enredo começar a perder a coerência: cada morte tinha peso porque cada personagem tinha profundidade. A nota foi lá pra cima. Depois, quando as decisões começaram a acontecer por conveniência de roteiro em vez de consistência de personagem, a plateia sentiu. E as notas foram junto. Essa é uma das técnicas de storytelling mais antigas e mais ignoradas: consequências reais para decisões de personagem.
A Knight lembrou Westeros do que Westeros sabe fazer melhor.
Tudo o que já analisamos sobre esse universo
O storytelling de Game of Thrones e seus spin-offs é território que a Storytellers explora há mais de uma década. Se você quer entrar fundo nos princípios que fazem esse universo funcionar (e nos que fizeram ele vacilar), esses são os posts:
O Story de Martin: como criar um universo épico
O post Como fazer uma história épica baseada em Game of Thrones explica a distinção entre Story e Telling e como Martin construiu milênios de contexto para narrar apenas alguns anos. É o fundamento de tudo.
O segredo do autor
Qual o segredo do autor de Game of Thrones vai às decisões de construção de universo que tornam a saga tão absorvente.
Quando o enredo morreu antes dos personagens
A análise mais honesta que fizemos sobre a derrocada da série: Game of Thrones: mataram quem não poderia morrer. O enredo, não os personagens, foi quem morreu primeiro. E isso explica tudo.
O momento em que a série começou a vacilar
Por que a 5ª temporada de Game of Thrones foi decepcionante documenta o ponto de inflexão: quando eventos dramáticos pararam de gerar consequências reais, a adrenalina foi embora junto.
Sansa e o conflito que não gerou arco
Sansa Stark e o porquê da frustração com o Black Wedding analisa a diferença entre choque dramático e choque gratuito. Uma das análises mais precisas do acervo.
O que Hemingway tem a ver com tudo isso
Duas versões de um mesmo post que liga a escrita de Hemingway às decisões de GoT: aqui e aqui. O que escritores literários e showrunners têm em comum, e o que as marcas podem aprender com isso.
GoT na anatomia das grandes histórias
Game of Thrones aparece como referência central em Anatomia de Grandes Histórias: 25 obras que definiram o Storytelling, associado a uma técnica específica: consequências reais. Quando personagens morrem e decisões têm peso, o que está funcionando é o mesmo princípio que A Knight reativou agora.
O que a guerra de notas ensina
A plateia que votou em A Knight e a que respondeu com review bombing não estavam brigando por uma série. Estavam expressando o que querem de uma história.
Querem personagens que importam.
Querem que decisões tenham consequências.
Querem escala humana dentro de um universo imenso.
Isso não é específico de Westeros. É o que funciona em qualquer narrativa, dentro ou fora de uma série de TV. Em marcas, em apresentações, em comunicação corporativa.
A lição de A Knight é simples e difícil ao mesmo tempo: quanto mais você reduz o escopo, mais você aumenta a conexão.
Você não precisa de 12.000 anos de Story para emocionar alguém.
Às vezes basta um cavaleiro pobre na estrada.
Já analisamos GoT mais de uma vez aqui no blog. Mas a guerra de fãs de 2026 mostrou que o assunto ainda tem muito o que ensinar. Compartilhe com alguém que acha que storytelling é sobre grandiosidade.
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Perguntas frequentes
Por que A Knight of the Seven Kingdoms atingiu nota 10 no IMDb?
A Knight of the Seven Kingdoms atingiu nota 10/10 no IMDb pela combinação de storytelling de alta qualidade com uma decisão narrativa específica: reduzir o escopo épico de Westeros para a escala humana de um cavaleiro errante. Ao trocar batalhas continentais por conflitos pessoais (pertencimento, honra, identidade), a série ativou um tipo de conexão emocional que grandes produções raramente conseguem. A nota perfeita foi parcialmente revertida por uma guerra de votos com fãs de Breaking Bad, estabilizando em 9,8/10.
O que é a guerra de notas entre A Knight e Breaking Bad?
Quando um episódio de A Knight of the Seven Kingdoms atingiu nota 10/10 no IMDb em 2026, fãs de Breaking Bad iniciaram uma campanha de review bombing para proteger o recorde de Ozymandias, o episódio mais bem avaliado da história do site. O conflito cruzado derrubou ambas as notas: A Knight caiu para 9,8 e Ozymandias também perdeu um décimo. O fenômeno revelou como a plateia não briga por séries, mas por o que espera de uma boa história.
O que significa "Story vs Telling" em storytelling?
Story é o universo completo de uma narrativa, incluindo todo o contexto, história e possibilidades. Telling é o recorte específico que o narrador escolhe contar dentro desse universo. George R. R. Martin, por exemplo, construiu 12.000 anos de história de Westeros (Story) mas narrou apenas cerca de três anos (Telling). A Knight of the Seven Kingdoms leva esse princípio ao extremo: usa o mesmo Story imenso mas escolhe um Telling minúsculo, focando em poucos dias na vida de um cavaleiro. O conceito é um dos fundamentos do livro O Guia Completo do Storytelling.
Por que histórias de "baixa aposta" funcionam melhor que épicos grandiosos?
Histórias de baixa aposta funcionam porque a plateia processa narrativas pessoais como experiência, não como espetáculo. Quando as apostas são continentais (tronos, guerras, fim do mundo), o cérebro observa de fora. Quando são pessoais (respeito, pertencimento, identidade), o cérebro se coloca dentro. Esse princípio se aplica além de séries de TV: em storytelling corporativo, as histórias que mais conectam são as de escala humana dentro de contextos imensos.
O que fez Game of Thrones perder qualidade nas últimas temporadas?
A principal causa narrativa da queda de qualidade de Game of Thrones foi a perda de consequências reais. Nas primeiras temporadas, cada decisão de personagem gerava repercussões irreversíveis. Nas temporadas finais, decisões passaram a acontecer por conveniência de roteiro em vez de consistência de personagem. A plateia sente quando isso acontece, mesmo sem conseguir articular tecnicamente. A Knight of the Seven Kingdoms representa um retorno ao princípio original: personagens com profundidade tomando decisões que importam.
📖 Glossário: termos-chave deste artigo
Story vs. Telling: Story é o universo completo de uma narrativa (todo o contexto, história e possibilidades). Telling é o recorte específico que o narrador escolhe contar dentro desse universo. Conceito central do Guia Completo do Storytelling.
Baixa aposta narrativa: Estratégia de storytelling que reduz o escopo do conflito para a escala pessoal (pertencimento, identidade, honra) em vez de escala épica (guerras, tronos, civilizações). Gera conexão mais profunda porque a plateia processa como experiência, não como espetáculo.
Review bombing: Prática de votar massivamente contra uma obra em plataformas como IMDb, Rotten Tomatoes ou Metacritic, não por avaliação de qualidade, mas por motivação competitiva, ideológica ou tribal.
Consequências reais: Princípio narrativo em que as decisões dos personagens geram repercussões irreversíveis na história. É o que diferencia storytelling com peso de storytelling de conveniência. Game of Thrones aplicou isso nas primeiras temporadas e perdeu nas finais.
Recorte narrativo: A decisão editorial de qual parte de um Story imenso será transformada em Telling. A Knight of the Seven Kingdoms escolheu poucos dias na vida de um cavaleiro dentro de 12.000 anos de história de Westeros.
Sobre o autor
Fernando Palacios
- 2x World's Best Storyteller (World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018), único brasileiro bicampeão mundial
- Fundador da Storytellers (2006), a primeira empresa de storytelling do Brasil
- Autor do bestseller "O Guia Completo do Storytelling" (Alta Books, 2016)
- Criador do Método Palacios, do Entretenimento Estratégico, da Inteligência Narrativa e do Talk de Midas
- +30 mil profissionais treinados em 10 países
- Projetos com Nike, Coca-Cola, Pfizer, Itaú, Swarovski, Yamaha
- Professor em FGV, ESPM, FIA e IED
Em 2026, a Storytellers completa 20 anos transformando negócios com histórias.

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