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POR UM FINAL FELIZ

E não é que eu tinha encontrado o final para o meu livro?! Lá estava eu, com a inglesa por quem eu tinha me apaixonado, deixando Ibiza em uma balsa a caminho de Barcelona.

Eu tinha passado por muita coisa. Muita mesmo. Fui de Roma a Jerusalém só pegando carona, quase morri congelado nas montanhas da Toscana, morei em uma comunidade anarquista em um castelo abandonado, fui preso pulando trens, solto e quase preso de novo logo em seguida, caí de um penhasco na Capadócia, passei a noite com contrabandistas de ouro no sul da Turquia, lutei por dinheiro em Chipre, fui para a farra duas horas de distância do ISIS, e cheguei na cidade mais sagrada do mundo bem quando eu queria chegar: no meio de três Páscoas (Católica, Judaica e Grega Ortodoxa).


Eu vi o Fogo Sagrado que desce dos céus no domingo de Páscoa (Grega Ortodoxa) na Igreja do Santo Sepulcro. E o que o Fogo me disse? Que o vento sopra... ou seja, nada.

Minha história não poderia acabar ali. Então eu pedi um favor para Deus. Que Ele me deixasse pecar um pouco.
E depois de dois meses de peregrinação, parti rumo a Ibiza, com um desvio intencional na Dinamarca.

Vamos fazer uma pausa. Eu sempre fui um pouco frustrado por meus pais ou minhas avós nunca lerem os meus textos publicados aqui ou em outros lugares. Mas, nessa continuação, acho que até vou ficar um pouco feliz por isso...

O caminho até Ibiza não foi tão pesado. Tirando um porre pesado na República Tcheca, outro na Dinamarca e uma putaria em Hamburgo com duas alemãs, nada que valha a pena ser detalhado.
Mas em Ibiza a coisa mudou. Na primeira noite eu peguei carona com um australiano e nós quase fizemos uma orgia no hotel com três inglesas. Fomos expulsos e a polícia foi chamada quando estávamos no elevador.

Depois de um começo conturbado trabalhando em uma boate stripper de noite e fazendo entrevistas durante o dia, consegui um dos melhores empregos da ilha. E aí virei um rockstar no sentido que as mulheres vinham fácil e as drogas vinham barato. Todo mundo me conhecia e todo mundo queria ser meu amigo. Eu transava com uma menina diferente por semana e ia para todas as festas sem pagar nada. Tinha uma certa fama e prestígio, ambas permeadas por uma mediocridade tingida de dourado.

Minha vida virou uma mistura de Lost com O Lobo de Wall Street. Como se o personagem do Leonardo DiCaprio tivesse sido escolhido pela ilha para estar no Oceanic 815. Já dava outro livro, não é?!

Mas ainda assim eu não tinha um final. Quero dizer, que tipo de história deturbada termina com “... e eu comi o monte de gostosas e usei droga pra caralho. O Fim.”?!  Faltava uma lição de moral, um pódio de chegada e um beijo de namorada. E ele veio bem a tempo.

A temporada acabou antes de acabar em si. A ilha esvaziou. Meus melhores amigos foram embora. E aquela vida de sexo, drogas e música eletrônica não estava mais me satisfazendo. Eu já tinha reduzido o ritmo depois de ter tomado uma facada durante uma briga por causa de uma noite de amor na praia (história engraçada, mas um pouco longa para eu contar aqui). E resolvi parar de vez depois que meu amigo Homeless Mike foi internado no hospício de Ibiza. Mas o final “e foi ai que eu resolvi parar com a putaria e as drogas” ainda não me soava bom. Muito... simplista... ou chato mesmo... Faltava alguma coisa.

Foi na noite que eu virei sem teto de novo que começou o final da minha história. Carlos Calhorda, o zelador do meu prédio, trocou minha fechadura porque meu aluguel tinha vencido. Eu estava na rua sem dinheiro e sem documentos, como um indigente. Mas eu vi uma luz no fim do túnel. Do túnel, não! Do meu corredor. Minha vizinha estava em casa, e ela tinha passado as duas últimas noites comigo. Achei que estava na hora de ela retribuir a hospitalidade.

– I am homeless – eu disse, comunicando minha situação depois que ela abriu a porta.

Ela resolveu me receber. Mas não só isso. Ao invés de ficarmos na casa dela e perdermos uma noite em Ibiza, nós resolvemos ir para a festa de encerramento da Flower Power, na Pacha. Umas das melhores nights do mundo!



É estranho o que faz algumas pessoas se apaixonarem. No dia anterior eu tinha transado com uma amiga de manhã e com aquela minha vizinha a noite (sim, eu sou um lixo, pode me julgar). Logo, eu posso concluir que exatamente uma noite antes eu não estava muito apaixonado. Entretanto, em 24 horas as coisas mudaram. Eu não sei se foi o fato de ela me acolher. Não sei se foi por nós ficarmos até às sete da manhã juntos dançando músicas dos anos 70. Ou se foi por nós virmos o nascer do sol de cima do castelo de Ibiza, ouvindo sertanejo universitário agarradinhos. Acho que me apaixonei pela história daquela noite. E Vanilla, a minha vizinha, era a parte central da história.

Nas últimas semanas em Ibiza, nós passamos por mais algumas coisas juntos. Coisas bem normais, como quando ela quase foi estuprada por um cara esquisito que andava com uma cobra no pescoço (não é zueira) ou quando eu descobri que ela tinha sangue real e era prima distante da rainha. Coisas bem normais que acontecem no dia a dia de qualquer pessoa. E tivemos também nossos altos e baixos. Mas no final, estávamos indo embora da ilha juntos.

O sol se punha quando nós embarcamos. Mas já estava escuro quando a balsa zarpou rumo a Barcelona. Na nossa frente não se via nada. Para trás, víamos luzes cada vez mais distantes. No último andar do navio, nós tínhamos só a companhia um do outro, enquanto terminávamos juntos aquela etapa das nossas vidas.


Um final lindo, não? Digno de filme. Vai ser o final do meu livro, isso já decidi. Ou melhor, iria...

O escritor do meu destino é um tipo de George Martin. Ele me faz ter medo de virar a página do dia seguinte. Mas como qualquer fã de Game of Thrones eu não posso parar de seguir adiante.

Depois de Barcelona, eu vim para Londres, atrás da menina por quem eu estava apaixonado. Eu liguei para ela, como ela tinha me pedido para fazer. A gente saiu, se divertiu, ela me apresentou para os pais e eu até dormi uma noite na casa dela. Ela estava com viagem marcada para a Tailândia, foi embora, mas antes me pediu para eu esperar, que nós ficaríamos juntos quando ela voltasse.


Se você chegou nesse ponto da história, deve pensar que já sabe o que aconteceu. Que eu fui cachorro e não consegui me segurar de novo. Mas como qualquer personagem de várias facetas, eu jamais seria tão simples assim. Quando dou para ser cachorro, sou o mais vira lata possível. Mas quando me apaixono... sou fiel, entrego café da manhã na cama, faço cafuné e todo o resto. Então eu estava esperando. Passando fome, frio, solidão, mas esperando. E depois de sete dias sem me mandar mensagem, minha inglesa de sangue real terminou comigo no momento que mais precisava de carinho e atenção.

Pode rir. Eu me fodi. E dessa vez foi ao quadrado. Se você já tomou um pé na bunda, sabe como é a situação. Agora forme uma equação elevando isso ao fato de você estar em um país estrangeiro triste, sem amigos, e com pouco dinheiro. Pois é... estou pagando por todos os meus pecados.
Então o final do meu livro mudou. Mas mudou para uma coisa que faz muito mais sentido com a minha história.

Sabe, muitas vezes fiquei decepcionado com os finais de diferentes histórias. Já usei o exemplo do Lost aqui, então vou variar, embora encaixasse perfeitamente no que eu queria dizer. Vou pegar a última trilogia do Batman e levantar a bola dizendo: que merda é aquela com o Bruce Wayne e a Mulher Gato no final? Não tem nada a ver com a história e os personagens construídos ao longo da trama. Aquele cara fodido e perturbado vai sair de casalzinho pelo mundo com uma ladra também psicologicamente instável?! Sério mesmo? Teriam tantos outros finais mais condizentes com a história que eu fiquei decepcionado...

Quando eu vim a caminho da Inglaterra, achei que finalmente minha história tinha terminado. Que meu final seria criando responsabilidade na cidade que mais move dinheiro no mundo e tendo um relacionamento sério que me serviria de apoio e ancora para minha nova vida. Era tudo nítido. A inglesa conhecia diversos Head Hunters e publicitários pela cidade, iria me ajudar, nós iriamos ficar juntos e o Alfred iria nos ver em um café em Firenze.


Pera aí... cadê o maluco que fugiu da rotina em São Paulo para uma vida de aventura? Que estava de saco cheio de tudo que era normal? Que viveu três meses sem dinheiro? Que criou gosto pela vida cigana? Porra, é mais fácil o Batman virar normal do que eu!
Por isso o final do meu livro mudou. Daquele lá que você leu alguns parágrafos acima, mudou para alguma coisa assim:

“O sol se punha quando nós embarcamos. Mas já estava escuro quando a balsa zarpou rumo a Barcelona. Na nossa frente não se via nada. Para trás, víamos luzes cada vez mais distantes. No último andar do navio, nós tínhamos só a companhia um do outro, enquanto terminávamos juntos aquela etapa das nossas vidas. Lá estava eu, abraçado com a inglesa que um mês depois partiria meu coração e me abandonaria na hora que eu mais precisasse. Mas naquele momento eu não sabia daquilo. E naquele momento a vida era muito mais simples e doce. O final da minha história é como o final de toda a história de aventureiro: apenas o começo de uma nova aventura.”

Muito mais contundente, não?  Então, pegue minha vida e minha estrada como exemplos quando estiver construindo seu final. Não force a barra. Não mude a natureza dos personagens para as coisas se encaixarem. Tente acabar com um gostinho de quero mais. Você não precisa fugir do clichê para fazer algo inesperado. E deixe o público de consciência tranquila quando a história acabar, sem achar que tem alguma coisa errada ou estranha. É isso. 

O Fim!


PS: Caso você ficou interessado na minha história e queira saber mais, não se preocupe, tem um livro vindo aí.

PS2: Caso você seja um editor ou coisa do gênero, sinta-se livre para entrar em contato.

A CAIXA DE MISTÉRIOS E OUTRAS DICAS DE J.J. ABRAMS



Há muitas maneiras de se olhar para o trabalho de um escritor, seja ele literário, publicitário ou apenas amador. Mas a escrita é uma arte complexa cheia de estruturas, segredos e técnicas e a única maneira de tentar, pelo menos, alcançar um nível de controle disso tudo é através do estudo e do conhecimento do processo criativo de quem admiramos, ou de quem os outros admiram.

J.J. Abrams é um dos caras mais respeitados (e mais malucos) que eu conheço no mundo de contar histórias. Fascinado por como as coisas são feitas e como elas funcionam o produtor e roteirista norte americano atribui a estrutura de suas narrativas ao conceito de uma caixa de mistérios. Pensando assim fica fácil entender de onde vem tantas perguntas e tantos mistérios para quem assiste Lost, por exemplo. 
Para entender melhor o processo criativo de J.J. Abrams é só dar o play no vídeo ai de baixo e se preparar pra 18 minutos de mágica, mistério e segredos das narrativas.



J.J. ABRAMS, E SE A LUZ ACABAR?

O J.J. Abrams é o rei do "e se..." e se você não se lembra de quem ele é vamos passar por algumas de suas ideias para refrescar a memória.



E se um avião caísse em uma ilha desconhecida pela humanidade e todos ficassem presos por lá? E se essa ilha fosse dominada por um empresa/instituição super-secreta? Mas, e se a ilha tivesse vida? Ou se houvessem dinossauros? Ou se eles acreditassem que era um dinossauro mas não era? 

A quantidade de "e se..." que podemos encontrar no roteiro de Lost é enorme, um adicionado ao outro formando uma trama de linhas bem costuradas e contadas. Uma narrativa forte e bastante polêmica, do jeitinho que o nosso querido Adams adora trabalhar. Bom, já lembramos quem ele é, então vamos ao seu último e mais recente "e se..."? 

Acredito que muitos de vocês tenham visto o superbowl, aquele show de comerciais e habilidades publicitárias interrompido por uns jogadores de futebol americano e um ou outro astro pop. Pois é, no último evento desses as luzes se apagaram no estádio e o evento ganhou um toque de escuridão completa. O que lembrou a equipe de Revolution, a mais recente série de J.J. Abrams sobre "e se o mundo ficasse sem energia elétrica" de que o evento de maior audiência mundial seria uma boa ideia para promover a série. Mas o evento era exibido pela CBS e a série é da NBC, #comofaz? 

Eles foram rápidos no gatilho, se aproveitaram do "e se..." tão bem dominado pelo J.J. Abrams e usaram o twítter para dizer "isso é só um gostinho do que está por vir em 25 de março" (data da estréia da segunda temporada da série) e para trazer um pouco da série ao mundo real, publicando esta imagem: 
Como quem diz "e se isso funcionasse no mundo real também?"


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AVENTURE-SE





Criar um personagem é uma jornada, precisamos conhecer o personagem como conhecemos aos nossos amigos mais íntimos, saber como eles reagiriam em certas situações. Imagine o Dr. House em uma festa infantil, por exemplo. O personagem é como uma pessoa qualquer e quanto mais íntimos estamos melhor sabemos o que a pessoa faria em certas situações. Mas não basta um personagem para termos uma história.  

O lugar é como um personagem, faz parte da sua história e deve ter suas características próprias. Imaginem Lost, por exemplo, se eles estivessem em uma ilha qualquer, ou o que seria de jogos mortais sem as salas especiais para tortura. O próprio House não poderia trabalhar em um hospital publico qualquer. O lugar é o espaço onde a sua história acontece e se o autor não souber o que está por detrás de cada uma das portas ninguém saberá o que acontece na história. Viaje pelo seu lugar, conheça os espaços, salas e caminhos pelos quais os personagens terão que passar. Assim, quando você quiser criar mistério, pode colocar o seu personagem em uma sala que o leitor não pode ver. 

O que seria de Willy Wonka sem a sua fábrica fantástica, repleta de surpresas, cada sala com uma função para a fabricação do chocolate e com uma função na história. Hemingway dizia que devemos deixar para os leitores 20% da história, o resto precisamos saber para o bem da veracidade. Quando falamos de lugares eu penso nisso, penso que se o meu personagem entrou em uma piscina eu não preciso mostrá-lo nadando, mas ele precisa sair molhado de lá. 

Eu gosto de acreditar que escrever é uma aventura, então eu gosto de me aventurar pelos lugares dos quais escrevo, reais ou não, é sempre bom saber o que nos espera na próxima esquina. 

Micro Histórias

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Depois do cão, o melhor amigo do Homem contemporâneo é a caixa com a temporada completa de uma série televisiva. Qual? Qualquer uma, e não é só porque a maioria seja muitíssimo bem escrita e produzida, prendendo a atenção do espectador. Isso obviamente acontece, mas há outro fator associado ao fenômeno: tempo.

Por mais ocupadas que estejam, as pessoas sempre arranjam tempo para ler um livro, ir ao cinema ou acompanhar a novela. A relação das pessoas com as histórias é algo que trascende o trabalho, as multinacionais, o neoliberalismo ou até mesmo a bolha imobiliária na economia americana. Não é exagerado dizer que as pessoas precisam de histórias como precisam de oxigênio. Mas se der para encurtá-las um pouco, melhor.


Nunca vi uma pesquisa nesse sentido, mas creio que o caso não seja a diminuição do tempo total que as pessoas dedicam às histórias, até mesmo porque há um mínimo vital de oxigênio que é preciso respirar para continuar vivendo. Mas o ponto é que a vida moderna nos força a fragmentar cada vez mais esse tempo.

Se você crê no apocalipse, peço muita calma nessa hora. O cinema NÃO VAI acabar, nem nas salas e muito menos no seu home theater. Mas que o tempo de duração dos episódios de seriados, variando entre 20 e 40 minutos, cabem como uma luva na vida da maioria das pessoas, ah, isso é um fato inegável.

A vantagem é que os seriados cabem nas janelas onde os filmes de 2 horas não se encaixam, ali entre o jantar e a necessidade de terminar aquela apresentação para a reunião do dia seguinte. Na soma o fã de seriado acaba investindo tanto ou mais tempo do que o fã de cinema, só que de forma mais fragmentada.

É interessante notar como essa necessidade de se criar histórias que se encaixem melhor no tempo das pessoas, que estão no trânsito, no metrô ou entre um compromisso e outro, começa a transformar outras mídias. Isso foi um dos temas da FLIP desse ano (comentado aqui).

O escritor Samir Mesquita, por exemplo, fez um livro de micro contos do tamanho de uma caixa de fósforo. Na verdade o livro é uma caixa de fósforos! Veja entrevista com o autor nesse post. Já no campo da internet são cada vez mais comuns os concurso de micro contos, como o 140 (número máximo permitido de caracteres) , pelo Twitter, que inclusive teve participação de 2 Storytellers.


Mas, em termos de encurtar histórias, os seriados americanos estão anos luz de à frente de qualquer outro formato, e com eles há uma lição importante a ser aprendida. Apesar de todas essas mudanças, comparativamente, o espectador do seriado se insere de forma muito mais profunda no universo ficcional da história. Esse pelo menos é o caso dos que têm continuidade entre um episódio em outro (e geralmente um fim), como Lost. Se cada episódio tem no máximo 40 minutos, multiplique isso por todas as temporadas... As histórias ficando mais curtas, e o universo ficando mais extenso.

Meia dúzia de graus - director's cut

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Observações: esse post é baseado em um contexto literário com a visão do autor. É possível acessar o mesmo conteúdo em um texto editado e mais conciso clicando aqui.


Era o toque do celular. Um emaranhado de coisas passou por sua cabeça, até que conseguiu perceber a situação com mais clareza: acabara de acordar. Mal começou o dia e já tinha uma chamada – não identificada – perdida. Mas como já estava quase na hora de o despertador cumprir sua função, antecipou-se e desligou-o. Ainda com o relativo breu, beijou burocraticamente sua mulher e levantou-se.

Pela claridade no banheiro, constatou que o dia seria de sol, muito sol. Foi preparar o café, mas a diarista já havia assumido a função. Enquanto esperava, acordou suas duas filhas e leu as principais notícias do jornal. Alimentado, com banho tomado e vestido, chamou a mais filha mais nova e o elevador. Pegou uma blusa e foi aguardar. Ao abrir a porta deu de cara com seu vizinho, que estava acompanhado por um gringo que era sueco e estava a passeio no Brasil.

Ao dar a partida, apreciou o ronco do motor... Era como se o dia só estivesse começando nesse momento. Cumprimentou o porteiro da garagem e seguiu viagem até a escola da filha. De lá rumou para a empresa. Deixou o carro no estacionamento, caminhou um pouco, conversou rapidamente com o pessoal que estava fumando no hall do prédio, deu um “olá” para a recepcionista e outro para a faxineira que estava ali perto, dirigiu-se à sua mesa e desejou um bom dia aos colegas.

Apesar do sol escaldante que estava lá fora, ao chegar e ligar seu computador vestiu rapidamente sua blusa. Desde que mudara de mesa estava um tanto adoecido e sentia uma espécie de dor ao engolir qualquer coisa, mesmo um gole d’água. Era o ar-condicionado que agora apontava em sua direção. Mas não adiantava tentar protestar: era novato e considerava que não valia a pena comprar uma briga, até porque já havia sido noticiado sobre a épica disputa entre todos que ficam posicionados naquela região contra o restante da sala, que fica abafada demais com o aparelho desligado.


Colocou sua senha e usuário. Enquanto aguardava o Windows carregar, desorganizou alguns papéis sobre a mesa. Sua lista de tarefas parece só ter aumentado de um dia para o outro. Mesmo assim, começou a rotina matinal com o mesmo ritual: leu os e-mails – pelo menos aqueles que parecerem ser mais importantes ou interessantes – e respondeu a alguns deles; em seguida, seguiu navegação por uma rota conhecida, sem muitas aventuras: portal de notícias, site de relacionamento pessoal e, por fim, acessou o RSSreader. Já estava pronto para começar a trabalhar, decidiu verificar os e-mails uma última vez e eis que recebeu uma nova mensagem.
O título era “Danou-se!” e havia sido enviada pelo seu estagiário, que havia ficado encarregado de fazer uma pesquisa para um projeto. Clicou para abrir a mensagem, que seguia:

“Danou-se! Estamos perdidos! Toda a base de conectividade do projeto está perdida! Estava pesquisando sobre aquilo lá dos seis graus de separação e encontrei em um blog da marketeiros da pesada um post sobre uma mulher que acaba com a teoria... Olha só, separei uns trechos pra você ler:

(...) A revista Discover (...) tem uma matéria que põe por terra a badalada teoria “small world” de Stanley Milgram sobre os tais “seis graus de separação”. (...) Mas infelizmente, como comprovou Judith Kleinfeld, uma professora de psicologia da Universidade do Alaska (também, né…no Alaska!), a teoria não se sustenta. (...) Após estudar a fundo o trabalho, descobriu que muitos dos resultados que Milgram reportou, simplesmente não eram verdadeiros. Por exemplo, do estudo original, apenas 3, dos 60 envelopes, chegaram ao destinatário. (...) Alega ainda que a distribuição dos envelopes não era randômica e utilizava indivíduos de classes privilegiadas, que possuem, ao menos teoricamente, networks de relacionamento mais amplas. A matéria conclui com duas questões divertidas:Se realmente estivéssemos a apenas seis graus de separação, porque Bin Laden é tão difícil de encontrar? E por que é tão sedutora a idéia de que estamos todos conectados?”

Após ler tal notícia, um pouco consternado, imbricou os dedos entre os cabelos. Havia baseado todo um projeto sobre a teoria e agora teria que pensá-lo novamente. Mas decidiu não pensar nisso ainda e tratou de resolver outros afazeres. Pensou em cancelar o almoço com o pessoal da agência, mas acabou achando que um pouco de pensamento jovem poderia ajudar a refrescar as idéias. Entre uma garfada e outra, explicou seu dilema. O redator, pouco impressionado pela tal pesquisa, contou um pouco sobre a mecânica da série Lost, em que o autor trabalha com a teoria dos 6 graus. Ainda não convencido, passou boa parte da tarde cogitando novas possibilidades de abordagem para o projeto, quando o presidente da empresa o chamou para sua sala. Dizia ele que tinha um evento importante à noite e queria sua companhia para buscar oportunidades de marketing – apesar de que ele sabia que era uma espécie de agrado pela sua ótima performance nos últimos meses. Durante o evento, reparou que os figurões todos se conheciam e estavam sempre em contato. Teve um insight! Ao chegar em casa, foi direto para o computador redigir o e-mail de resposta para o estagiário:

“Talvez os dados da pesquisa tenham sido errôneos, talvez a metodologia seja cientificamente questionável, mas o fato é que a teoria é sedutora simplesmente porque é da nossa natureza humana conectar... Conectamos fatos, idéias e pessoas e depois a gente ainda vai lá e cria uma história sobre isso. Mas por mais subconsciente que seja, sentimos essas conexões cada vez que encontramos um conhecido num local estranho e comentamos “que mundo pequeno”. E isso que estamos falando de conhecidos diretos... E os conhecidos dos conhecidos que não conhecemos?

A gente bem sabe que é fácil encomendar uma pesquisa ou um estudo pra comprovar ou embasar praticamente qualquer coisa. Assim como a gente sabe que o excesso de informações faz com as pessoas absorvam e repassem muitas coisas sem questionar ou refletir. Mas o fato é que a teoria dos 6 graus existe e as pessoas sentem isso, elas sabem que vivemos em uma grande e entrelaçada rede de conexões.

Um exemplo bobo e nada científico: Lost (você já viu até a terceira temporada pelo menos, né? Se não, desencana e vai direto pra conclusão). Imaginemos hipoteticamente que o Jack - antes de acusar o pai de bêbado - tivesse que entregar um desses “envelopes" para Claire (uma australiana do outro lado do mundo)... E aí, com quantas pessoas ele teria que falar? Mas o fato é que ele jamais saberia que bastaria 1 contato.

Os 6 graus consideram uma engenharia reversa e uma onisciência de conexões. Por isso que o JJ Abrams usa isso muito bem sempre: ele sabe que as pessoas jamais poderiam "usar" os 6 graus em benefício próprio... Mas que o autor de uma história pode.”