Revezamento de Histórias

Essa é mais uma história sobre contar histórias. É uma história sobre um Brasil dividido. É uma história que tem origem lá na Grécia Antiga. Essa é a história de quando eu participei do Revezamento de Tocha Olímpica dos Jogos Rio2016.


Não sei ao certo sobre como acabei no Revezamento. Lembro que era uma noite de 5ª feira quando eu trabalhava no meu computador no Comitê Organizador dos Jogos e uma diretora me perguntou:

- Stefano, você estará ocupado no final de semana?

Sim, eu estaria. Tinha um encontro, um casamento, muita bebida para consumir e esperava fazer sexo pelo menos algumas vezes. Mas infelizmente não podia responder isso...

- Nada muito importante, chefe. Por quê?!

- Vamos realizar um evento-teste de Revezamento de Tocha. Você pode ir?

Me senti como um ator de peças infantis ou filmes para adultos que recebe a oportunidade de fazer uma audição para o papel principal de uma novela da Globo. Minha resposta obviamente foi sim. E eu dei tudo de mim naquele final de semana.

Resultado: um mês depois ganhei um malão bege e um uniforme verde e estava pronto para cair na estrada.

Após um bate-volta de uma ação de comunicação na Suíça para buscar a Chama Olímpica, cheguei em Brasília no dia 03/05/2016. Fiz questão de escrever a data exata aqui por um único motivo: porque no dia 17/04/2016 a Câmara aprovou o processo de impeachment de Dilma que seria afastada da presidência no dia 12/05/2016 pelo Senado. Ou seja, a Chama Olímpica estava chegando no olho do furacão... e eu estava junto.

Depois de Brasília, tive que voltar ao RJ por razões profissionais e só voltaria para o revezamento de novo no dia 13/05. Isso mesmo, um dia depois de Dilma ser afastada da presidência. Parece até que eu estava procurando confusão.

Minha rota começou em BH e só terminaria em Teresina, para depois continuar em Cuiabá e seguir até Porto Alegre. Em média eu trabalharia doze horas por dia e não teria folga. Sofrido?! Um pouco, mas eu estaria viajando pelo Brasil em um momento histórico. Aquele era o emprego dos sonhos para mim. Motivação era o que não me faltava. Mas eu tinha um problema. Meus superiores queriam que eu fizesse um trabalho jornalístico e eu fui para a estrada com cabeça de publicitário.

Nessa vida já tive uma enorme variedade de profissões. Já fui lenhador no Canadá, jardineiro, barman, garçom, militar, representante de vendas, publicitário, promoter de balada, gogo-boy, RP, ajudante de marinheiro, entre outras... Mas nunca jornalista. E, além de eu nunca ter feito uma entrevista na vida, tinha uma grande oposição a esse tipo de cobertura durante o Revezamento de Tocha Olímpica. Pensava que deveríamos visar uma cobertura de entretenimento e engajamento pelas nossas mídias sociais, enquanto o material jornalístico seria produzido pelos grandes canais consolidados no mercado de informação que estariam presentes durante o percurso. Mesmo assim, manda quem pode e obedece quem tem juízo, ou seja, eu tinha que fazer o que me mandavam se quisesse manter meu “emprego dos sonhos”.

Conforme começaram a surgir críticas à minha entrega, tive que bolar uma alternativa rápida. Minha solução foi ousada. Eu não tinha como virar jornalista da noite para o dia e nem queria isso. Então resolvi fazer tudo do meu jeito. Eu seria um storyteller itinerante.

Comecei a ligar o foda-se para minha pauta. Lia somente o nome e número de identificação dos condutores da Tocha a serem entrevistados e ignorava as informações complementares, que geralmente me atrapalhavam mais do que ajudavam. Eu me apresentava a quem quer que fosse e fazia apenas um pedido:

- Eu quero que você me conte sua história.

Assim sendo, rodando o Brasil, escutei as mais diversas histórias. Escutava tudo até o final, às vezes de olhos fechados, para conseguir visualizar a história que tinha que passar adiante. Conforme as palavras saíam da boca de quem as estivesse contando, eu enxergava personagens, cenários, plots e enredos que mandaria para a base no Rio de Janeiro, e a base subiria o material para nosso site ou mandaria como nota para a imprensa.

Meu plano deu certo! As críticas sumiram e os elogios começaram a aparecer cada vez mais. Apesar de a minha estratégia ter sido ousada, não foi completamente estúpida. Eu tinha um material muito rico a ser explorado e acreditava no que estava fazendo. Acho que “acreditar” foi a parte mais importante de tudo, do começo ao fim.

O Brasil é um país dividido. Não dá para falar que o Brasil é o mesmo no Nordeste e no Sul. Ou no Norte e no Sudeste. A natureza e a cultura são completamente diferentes de região para região. As danças, os ritmos, as comidas, as bebidas, as roupas, as tradições... é tudo muito diferente. Menos o povo. O povo é o mesmo, com algumas variações. É como a língua portuguesa, que mesmo falada com diferentes sotaques em diferentes estados, continua sendo língua portuguesa. E o povo do Brasil não poderia ser outro além do brasileiro.

O brasileiro é alegre, sorridente, esforçado, determinado, rítmico, carinhoso e caridoso. Gosta de festas, de dançar, de namorar, de esportes e de histórias, tanto de ouvi-las quanto de contá-las. Seriam histórias desse povo que eu contaria em um dos momentos mais críticos do país. Como se não bastasse nossas divisões culturais e geográficas, agora também estamos politicamente divididos. Exatamente por isso eu acreditava tanto no que estava fazendo e usava minha crença como combustível. Porque o Brasil precisava e precisa de exemplos! Exemplos que fujam do que vemos na TV e nos façam lembrar o que significa ser brasileiro.

Em BH conheci e conversei com a modelo Paola Antonini, que teve a perna amputada após um acidente, mas nunca perdeu a beleza, a graça e o sorriso. Em Vila Velha (ES) levei a Chama Olímpica até o senhor João José Bracony, que representou o Brasil na modalidade de vela nos Jogos Olímpicos de Londres em 1948 e vi seus vizinhos aplaudindo pela janela enquanto ele conduzia a Tocha pelo piso térreo de seu prédio. Seu João faleceu aos 97 anos, quase dois meses depois daquele dia. Lembro bem da expressão em seu rosto quando olhou para Chama e disse: “Achei que nunca mais fosse vê-la”.

Ainda no ES, mas agora em Vitória, tive o prazer de falar com dois futuros medalhistas de ouro dos Jogos Olímpicos, a dupla de vôlei de praia Alison Ceruti e Bruno Schmidt, e de ir para a celebração da cidade com a Miss Brasil 2010, Débora Lyra, que calou minha boca e me deixou babando ao mesmo tempo. Quando Débora surgiu na minha pauta para um take-over, eu imaginava que ela seria apenas uma modelo fútil e fresca, e quase gonguei a ação. Depois que a conheci pessoalmente, vi que por trás de toda aquela beleza e pose existia uma menina dedicada, esforçada, humilde e incrivelmente gente boa. Quase me apaixonei... e usei aquilo como lição para lembrar a nunca julgar ninguém pelas aparências.

Em Riachão do Jacuípe, na Bahia, conheci e escutei a história do cantor e compositor Del Feliz. Del foi um dos cordelistas mais jovens da Bahia, começando suas estofes e versos aos 11 de idade. De origem humilde, também foi catador de lixo, faxineiro, camelô, pintor, entre outras coisas, até o sucesso musical finalmente chegar com prêmios e sua participação no The Voice Brasil. 

Foi ainda na Bahia que escutei a história que mais me emocionou na minha trajetória. Na cidade de Jaguarari, no interior do estado, conheci Antonio Bonfim, o “Ferreirinha”, criador de um projeto social de atletismo que serve de inspiração para as crianças e os moradores da cidade. Ferreirinha era o primeiro condutor da cidade, enquanto Lucas Jesus, o “Chiquinho”, seria o último. Chiquinho era morador de rua, foi resgatado por Ferreirinha e hoje é maratonista. Eu perguntei qual era o significado da Tocha Olímpica para eles. Em meio a um choro emocionado, carregado de felicidade, Ferreirinha respondeu: “Um menino de rua tem sua vida transformada pelo esporte e hoje conduz o maior símbolo esportivo mundial. Esse é o significado.”

Em Poço Redondo (SE) vi, fotografei e narrei a personificação do sertanejo, no corpo do professor e escritor Beto Patriota, conduzindo a Tocha Olímpica. Em Campina Grande (PB) cheguei um dia antes do maior São João do mundo e conheci um fã do qual virei fã: Patrick Dornelles, um menino de 19 anos portador de uma doença degenerativa que é ativista dos direitos das pessoas deficientes da cidade e vive a vida pelo lado bom. Em Piripiri (PI) aprendi poesia com o grande poeta de cordel, Chico do Romance, de 77 anos, que rodou o Brasil como trovador sertanejo. E em Teresina voltei para o RJ para alguns dias de descanso.

Continuei meu caminho em Cuiabá, onde conheci o judoca David Moura e o homem que o inspirou, seu pai. Foi lá perto que conheci também o cerrado e a Chapada dos Guimarães, e entendi o significado do fogo para a região pela boca da minha guia, Manu. Em Maracaju (MS)conheci outro David, dessa vez Cardoso, o rei da pornochanchada, que me contou sobre ter comido a Vera Fischer e a Dercy Gonçalvez, numa narrativa metafórica sobre como a vida dá voltas. Continuando minha descida, conversei com Walcyr Carrasco em Presidente Prudente (SP) e entendi o motivo por ele escrever tão bem suas novelas: ele é  o que escreve, simples assim. Em Londrina (PR) conheci o Galvão Bueno e entendi o motivo de tanta gente achar ele um babaca. E em São Lourenço do Sul (RS) conheci Fernando Aguzzoli, que me contou sobre quando tinha 21 anos de idade e largou seus estudos para cuidar da avó com Alzheimer. Fernando escreveu um livro sobre o tema que terminou pouco depois que a avó faleceu e hoje dá palestras para auxiliar os outros no convívio com a doença.

Como escrevi anteriormente, tive um material bruto muito rico a ser trabalhado. Esses foram apenas alguns poucos exemplos de histórias que ouvi e contei pelo meu caminho. Exemplos que acredito que ilustrarão muito bem minhas palavras e que me marcaram. Eu realmente acreditei no que estava fazendo, assim como acredito no brasileiro e acredito em histórias. Talvez por isso que eu tenha sido muito bem sucedido e ao final da minha história, como prescreve a ideologia aristotélica de storytelling, fui merecedor de um final feliz: virei um de meus personagens e conduzi a Tocha Olímpica.


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