Há uma cena que sempre me intrigava nos camelôs.
Compre um DVD pirata de qualquer série americana. Abra. Assista. Os comerciais foram cortados.
O pirata não tem contrato com a emissora. Não tem obrigação legal. Não tem nenhuma razão para gastar tempo editando anúncios fora do conteúdo. E mesmo assim faz questão de removê-los.
Por quê?
Para agregar valor ao produto dele. Porque ele sabe, na prática, o que muitas empresas ainda não entenderam na teoria: conteúdo chato é pior do que ausência de conteúdo. Ele não prejudica só quem assiste. Prejudica quem assina embaixo.
Se até o pirata se preocupa em tirar o seu anúncio do produto dele, talvez seja hora de perguntar com seriedade o que está errado com o conteúdo que sua empresa produz.
Três diagnósticos que vejo se repetir há 20 anos:
Erro 1: Tratar branded content como categoria especial
Existe uma ilusão confortável de que branded content é algo que marcas descoladas fazem. Projetos premiados em Cannes, séries originais, ações fora do padrão.
E enquanto isso, a empresa faz "comunicação normal".
Não existe comunicação normal.
Toda vez que você contrata um redator para escrever o texto do site, um designer para fazer a embalagem, um estagiário para postar nas redes sociais, você está produzindo conteúdo de marca. Branded content. Sem exceção.
A pergunta não é "fazemos branded content?" A pergunta é "o conteúdo que fazemos merece atenção?"
A Red Bull entendeu isso tão a fundo que criou duas empresas com CNPJs separados. Uma fabrica o líquido. A outra produz apenas conteúdo sobre esportes radicais, cultura, aventura. Se amanhã descobrissem que a bebida faz mal e fechassem a fábrica, a segunda empresa sobrevivia sozinha. Porque a Red Bull já virou sinônimo de estilo de vida antes de ser sinônimo de lata.
Essa é a estratégia mais ambiciosa possível: transformar o custo de marketing em frente de negócios.
Erro 2: Confundir seriedade com solenidade
Tem uma crença que assombra os departamentos de marketing: conteúdo sério precisa ser sisudo.
A lógica é compreensível. Quem não pode errar não pode experimentar. Quem não pode experimentar repete o que funcionou antes. E o que funcionou antes, num contexto que não existe mais, produz conteúdo que ninguém pede para ver.
O resultado são peças que competem por atenção contra videoclipes, memes e séries de streaming. E perdem em todos os formatos.
O exemplo que derruba a premissa é exatamente o que deveria ser o mais difícil: comunicação governamental.
A prefeitura de Curitiba transformou o perfil das redes sociais num estudo de caso internacional. Não porque o assunto ficou menos sério. Porque a forma de tratá-lo ficou mais humana. Assunto difícil e tom acessível não são incompatíveis. São, na maioria dos casos, a única combinação que funciona.
A regra mudou. Entreter não é mais opcional para quem quer ser ouvido. É o pedágio de entrada.
Erro 3: Ignorar as regras de placement quando a marca é dona do conteúdo
Quando uma marca entra no conteúdo de outra pessoa, existe um processo elaborado para definir como a inserção será feita. Tamanho, duração, contexto, tom. Profissionais com expertise em narrativa mediam essa conversa.
Quando a marca é dona do próprio conteúdo, muitas vezes esse processo desaparece. A lógica parece ser: "é nosso, podemos fazer o que quisermos".
Podem. E a plateia vai embora.
Não por falta de interesse no assunto. Por excesso de marca na história.
O oposto também acontece. Alguns executivos percebem que estão irritando a plateia e reagem cortando toda presença da marca. Aí o conteúdo fica interessante, mas ninguém sabe quem produziu.
A Johnnie Walker resolveu esse conflito com precisão cirúrgica. Em Gentleman's Wager, a marca está presente em cada cena, em cada detalhe de cenário e comportamento, sem que nenhum momento pareça um intervalo comercial disfarçado de filme. Não porque a marca sumiu. Porque ela entrou na narrativa em vez de interrompê-la.
Esse é o princípio do storyplacement: a marca como elemento da história, não como patrocinadora dela.
Os três erros têm um denominador comum.
Em todos eles, a empresa age como se o conteúdo existisse para servir à marca.
A lógica correta é o inverso: o conteúdo existe para servir à plateia. E quando serve bem à plateia, a marca se beneficia como consequência.
Inverter essa equação não é humildade. É estratégia.
Abraços do Palacios.

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