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Antes de qualquer reunião, antes de qualquer software aberto, antes de escolher entre Reels ou carrossel, alguém sentou e tomou uma decisão que vai determinar o resultado de tudo.

Não foi a decisão do formato.

Foi a decisão sobre o quê contar.

Se você não percebeu que isso é uma decisão, é exatamente aí onde mora o problema.


O que é criação de storytelling, tecnicamente?

Criação de storytelling é o processo de construir, em sequência obrigatória, primeiro o Story (a substância: personagem, conflito, transformação) e depois o Telling (a forma: formato, plataforma, linguagem).

Inverter essa ordem é o vacilo mais comum e mais caro do mercado.

Story é o fogo. Telling são os troncos.

Fogo sem troncos: bonito por três minutos, apaga. Troncos sem fogo: você tem madeira empilhada. Não tem história.


Numa sala de reunião, três pessoas passaram duas horas discutindo o formato ideal para comunicar o lançamento de um produto.

Reels ou carrossel? Série ou post único? Tom institucional ou descontraído?

No final de duas horas, alguém fez a pergunta que deveria ter sido a primeira:

"Mas qual é a história que a gente quer contar?"

Silêncio.

Não havia história. Havia mensagem. Havia produto. Havia prazo.

Eles tinham passado duas horas escolhendo a moldura antes de existir o quadro.


Diz que Jorge Luís Borges escreveu que "arte é fogo mais álgebra." 

Fogo, a parte que não se controla. Álgebra, a parte que organiza.

Quem trabalha com comunicação tende a adorar a álgebra. Planilhas, formatos, calendários editoriais, paletas de cor. A álgebra é reconfortante porque dá a sensação de controle.

O problema é que álgebra sem fogo é só operação.

Na metodologia que desenvolvemos ao longo de 20 anos de storytelling corporativo, a distinção entre Story e Telling não é apenas didática. É estrutural. É a diferença entre criar uma história e montar um comunicado com cara de história.

Story é tudo aquilo que acontece na cabeça de quem vai receber: o personagem que você vai amar ou odiar, o conflito que vai gerar tensão, a transformação que vai fazer o momento valer a pena. Story é memória mais imaginação. Story não se improvisa no Canva.

Telling é como esse fogo sai da cabeça e ganha forma no mundo real. Texto, vídeo, evento, game, performance. O Telling é infinitamente variável. É técnica. É ferramenta. E sim, pode ser melhorado, substituído, atualizado.

A regra que rege tudo: Story é inegociável. Telling varia sempre.

Quando o processo de criação começa pelo Telling, o que acontece é previsível: as pessoas preenchem o formato com o que têm disponível. Informação. Produto. Dados. Mensagens institucionais. E chamam de história porque adicionaram um personagem genérico no começo e uma frase inspiracional no fim.

Isso não é storytelling. Isso é conteúdo vestido de storytelling.

A diferença aparece na recepção. Conteúdo bem formatado provoca uma reação: "que legal." Storytelling real provoca outra: "isso aconteceu comigo também." Ou: "nunca tinha pensado assim." Ou, o mais raro e mais valioso: "preciso compartilhar isso."

Essa reação não nasce do Telling. Nasce do Story que o Telling carrega.


A Pepita de Ouro

Quem começa pelo Telling está construindo a moldura antes de ter o quadro.

O quadro pode ser uma obra-prima. Mas numa moldura vazia, ninguém para para olhar.


Aplicação

Antes de abrir qualquer ferramenta de criação, responda três perguntas. São as perguntas que o Story exige:

1. Quem é o protagonista? Não o produto. Não a empresa. Uma pessoa com nome, com desejo, com conflito.

2. Qual é o conflito? Não o problema que o produto resolve. O conflito que impede o protagonista de chegar onde quer ir.

3. Qual é a transformação? O que muda para o protagonista quando a história termina? O que ele sabe, sente ou faz de diferente?

Se você conseguiu responder as três, tem Story.

Agora, e só agora, faz sentido abrir o Canva.


Provocação Final

Pense na última peça de comunicação que você criou ou aprovou.

Qual foi a primeira decisão tomada: o formato ou a história?

Se foi o formato, você tem uma hipótese a testar.

→ No próximo post desta série: a planta que todo arquiteto narrativo desenha antes de qualquer tijolo. Os 8 elementos que precisam existir antes da execução começar.


Abraços do Palacios.

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