STORYTELLING: MAIS DO QUE "SÓ ESCREVER"



Eu estava no escritório, pendurando uma porção de papeis colados um no outro na parede, olhando para o esquema cheio de parágrafos tortos, gráficos e desenhos com esquemas de quem gosta, ou não, de quem. Joyce entra na sala. A jovem de 18 anos olha para mim com uma cara de estranheza que só não é superada pela careta que ela faz ao olhar para os papéis.

- Luis, o que é isso?

- É uma história Joyce, só uma história.

- Uma história? – diz a moça com cara de quem está ainda mais confusa – Em que língua? – completa com ar cômico.

- É uma história para a nova campanha da Corretora. Eu tenho que organizar ela pra ver se está tudo certinho.

- Mas... – silencia tentando entender o que estava acontecendo – Como assim organizar, não é só escrever?

- Só escrever? – pensei duas vezes antes de continuar com um discurso de valorização do meu trabalho e continuei – Mais ou menos, eu escrevo também, mas antes de escrever tudo, ou durante, depende, eu faço isso... é como se fosse um manual da minha história, eu coloco quem são os personagens, o que eles fazem, quem gosta de quem e o que vai acontecer na história. Aí, quando eu vou escrever eu não me perco, e se eu me perder olho aqui e já sei o que tenho que fazer.

- Entendi... complicado isso, né? Achei que você só escrevia...

- Eu escrevo – eu disse enquanto tentava ignorar o “só” que se repetia no discurso dela – mas escrever é uma parte do processo, antes de escrever eu preciso pensar, organizar e até “desenhar” a história... e depois de escrever eu ainda tenho um monte de trabalho.

- Entendi, quero ver como vai ficar isso no final, posso ver?

- Claro que pode, todo mundo vai poder ver... e eu espero que bastante gente veja mesmo, é pra isso que eu estou escrevendo.

A moça foi embora e eu fiquei na minha mesa, com os meus papeis pendurados na parede com uma fita branca, da cor da tela do computador. O “só” não saia da minha cabeça, eu ficava cada vez mais bravo, não com ela, mas comigo, porque até pouco tempo era eu quem achava que escrever era “só escrever”.   

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