O que aprendi com uma criança de 3 anos sobre Storytelling

Há duas semanas minha filha de três anos me pede para contar a mesma história na hora de dormir. Ela faz questão que eu mantenha os personagens e seja o máximo fiel ao roteiro todas as vezes. Sabe por quê? Pesquisei e descobri que sem noção exata do tempo a criança tem na repetição a segurança de que o mundo vai continuar a acontecer da mesma forma como sempre aconteceu. É como se dissesse:
“A noite vai chegar, papai vai me colocar para dormir e, veja que ótimo, sei perfeitamente o que ele vai contar. Tenho controle sobre a ordem das coisas e assim elas não me ameaçam”.
Nessas horas que minha filha me pede para contar histórias, gosto de testar na prática algumas das principais técnicas de Storytelling. De uns tempos para cá, comecei a incluir um “conflito” logo no começo da narrativa. O conflito tem o poder de mobilizar a atenção da audiência, gerando uma expectativa pela solução que vai aparecer (ou não) até o fim da história. É assim no cinema, na literatura e no teatro. A primeira vez que lancei mão do conflito foi uma ocasião bem propícia. Minha filha havia passado uma manhã de atividades intensas na praia, tinha acabado de almoçar e estava com muito sono.
Então inventei um sapo que gostava de tocar violão, só que havia um problema. O instrumento estava quebrado e ele precisava de alguém para consertá-lo. Ao longo da história, o sapo deu um passeio pela floresta perguntando aos outros animais se algum deles seria capaz de consertar o tal violão – até a Galinha Pintadinha foi consultada. Minha filha tentava se manter acordada a todo custo e depois de o sapo conversar com uns cinco animais ela interrompeu a história um tanto impaciente:
 “Papai, você não sabe consertar esse violão, não?”. 
A pergunta marcou o sucesso da experiência. Minha filha ficou tão ansiosa para descobrir a sequencia dos fatos que não se conteve e precisou interferir na história. Claro que depois de eu dizer que consertaria o violão do sapo ela se virou para o lado e dormiu. A lição que fica é: se quiser despertar o público, arrume um conflito para o seu roteiro. 

A barata que espirrava

O Storytelling na construção de marcas pode incentivar hábitos de consumo, impactar culturas e moldar comportamentos. Com isso na cabeça, inventei a história de uma baratinha que queria passear no parque com a família. No entanto, como estava muito resfriada, toda vez que tentava falar com a mamãe barata a única coisa que conseguia fazer era espirrar:
– Mamãe, hoje quero... Atchiiiim!– O que foi, filha?– É que... Atchiiiim!– Não entendi. – Ah, mamãe, to falando que... Atchiiim! Atchiiim! Atchiiim!
Percebendo que a filha estava resfriada – uma situação comum entre as crianças – mamãe barata disse que antes de passear ou brincar a baratinha precisaria fazer três coisas: tomar suco de laranja, tomar uma colher de mel e comer um sanduíche de queijo. A partir daí como num passe de mágica a baratinha começou a melhorar e se recuperou totalmente. Ela então pediu à mãe para ir ao parque e enfim conseguiu se divertir.
Repeti essa história algumas vezes até o dia em que no elevador do prédio onde moramos minha filha viveu uma situação parecida. Por duas vezes, tentou me dizer algo, mas foi impedida por uma sequencia de espirros, logo rindo e lembrando nosso personagem:
Ih, papai, igual à baratinha!

É fascinante a associação que o ser humano faz da vida de um personagem com a sua própria vida, desde muito cedo. Não tenho como dizer se o gosto da minha filha por suco de laranja e mel estão ligados a essa história. Posso afirmar, porém, que ela aceita ambos com muita facilidade quando os ofereço para curar seus resfriados.

Que história o seu público deseja ouvir?

Crianças pequenas não costumam dedicar muito tempo a uma tarefa. Para manterem o foco, precisam se sentir sinceramente atraídas pelo que estão vendo ou fazendo. Se a história que conto não interessar, minha filha vai pedir para que eu conte outra história, ou vai desistir das histórias e pegar um brinquedo. O mesmo vai acontecer com o consumidor, que antes do primeiro bocejo vai trocar a comunicação com a marca por algo mais interessante. Daí a importância de planejar o que você deseja contar para ele.

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