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Existe uma frase de Josef Stalin que nenhum livro de branding cita, mas deveria.

"A morte de uma pessoa é uma tragédia. A morte de um milhão é uma estatística."

Cruel como fonte, preciso como insight: a mente humana não se conecta com abstrações. Se conecta com pessoas. Com rostos. Com nomes. Com histórias de alguém específico que passou por algo real.

Marcas são abstrações. E esse é o problema central de todo branding.


O que acontece quando você ignora isso

Você gasta meses em pesquisa. Contrata consultoria. Define arquétipo, personalidade, tom de voz, posicionamento. O brand book fica lindo.

E aí chega a hora de comunicar. E o que sai é um press release sem sal, uma campanha que fala de todos e não toca ninguém, um post que parece ter sido escrito para um consumidor genérico de 28 a 35 anos, AB, com filhos.

Só que ninguém tem entre 28 e 35 anos. Uma pessoa real tem 28 ou tem 35.

A persona é o mapa. O personagem é o território.

E território tem endereço, tem rua, tem signo, tem cicatriz. O teste que sempre proponho para quem me apresenta um personagem de marca é simples: me diz o signo do zodíaco. Pode parecer bobo, mas quem criou de verdade sabe. É como perguntar a data de aniversário do filho. Pai que não sabe não criou, copiou.


A solução que o entretenimento pratica há séculos

Há um fusca branco que ficou mais famoso do que a maioria dos atores de Hollywood. O Herbie. Um automóvel da Volkswagen que ganhou personalidade, falhou, se apaixonou, venceu corridas, perdeu corridas, foi protagonista de cinco filmes.

A minha madrinha comprou um fusca por causa do Herbie.

Não do fusca. Do Herbie.

Isso é o que acontece quando uma marca deixa de ser conceito e vira personagem. O mecenas não compra o produto. Compra a jornada do personagem. E como está comprando uma jornada, quer saber o próximo capítulo. Volta. Conta para os outros.

Mais recentemente, a Lego virou caso de estudo definitivo. The Lego Movie era, essencialmente, um comercial de cem minutos. Só que em vez de pagar para veicular esse comercial, a empresa recebeu por ele. Quase 470 milhões de dólares em bilheteria global. E os relatórios mostram crescimento de 14% nas vendas no primeiro ano, 25% no segundo.

O custo de marketing virou frente de negócio.


Por que duração nunca foi o conflito real

O original desse artigo menciona que publicitários têm medo de histórias longas. De perder a atenção do consumidor no caminho.

É o diagnóstico errado para o sintoma certo.

Xerazade segurou um rei por 1.001 noites. O mercador do Aladdin leva 90 minutos para vender uma lâmpada mágica. Novelas duram meses e a plateia maratona séries inteiras num fim de semana.

O conflito nunca é duração. É falta de tensão.

Quando a história tem tensão, o tempo desaparece. Quando não tem, dez segundos parecem uma eternidade.

Por isso o modelo de publicidade que apenas expõe uma marca morreu. Não por limitação de atenção, mas por ausência de narrativa. A plateia não ficou mais impaciente. Ficou mais exigente. E tinha razão.


O que branding e storytelling têm em comum

Branding define quem a marca é. Storytelling faz a plateia sentir quem a marca é.

Um sem o outro produz inconsistência ou invisibilidade. Branding sem storytelling é identidade sem expressão. Storytelling sem branding é expressão sem identidade.

A ponte entre os dois é o personagem.

No primeiro grande case da Storytellers, em 2008, uma empresa de alimentos precisava comunicar o reposicionamento de 27 marcas ao mesmo time que tinha construído essas marcas ao longo de décadas. Havia 1.248 slides de PPT esperando para ser apresentados.

A solução foi transformar cada marca em personagem. Cada uma ganhou nome, personalidade, relação com as outras. A marca-mãe virou o pai. As marcas secundárias viraram filhas com histórias próprias.

O resultado não foi uma apresentação. Foi um espetáculo teatral. Algumas pessoas revelaram na pesquisa de satisfação que teriam pago ingresso para assistir.

Não foi branding. Não foi storytelling. Foi a fusão dos dois.


A pergunta que fica

Seu brand book diz quem a marca é.

Mas existe alguém com nome, rua, signo e cicatriz que vive essa identidade na frente da plateia?

Se não existe, a marca continua sendo uma abstração elegante.

E abstrações elegantes não criam fãs.


Abraços do Palacios.

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