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Existe uma coisa que todos os gestores de marketing querem e nenhum orçamento garante.

Atenção.

Você pode comprar espaço. Pode comprar alcance. Pode comprar impressões, clicks, horário nobre, patrocínio de evento. Mas você não pode comprar o momento em que uma pessoa para tudo que está fazendo, esquece o celular na mão e fica completamente presente no que você tem a dizer.

Isso não se compra. Isso se conquista.

E existe exatamente uma tecnologia humana capaz de criar esse estado com regularidade. Não é nova. Não é digital. Não veio com a internet. Ela tem aproximadamente cem mil anos, e o cérebro humano foi literalmente moldado para responder a ela.

Histórias.


Mas aqui preciso fazer uma distinção que muda tudo.

Não existe "storytelling" de um lado e "contar histórias" de outro, como se fossem primos distantes. A diferença é mais cirúrgica: Story é a matéria-prima. Telling é a engenharia de entrega.

Story é tudo que existe na sua cabeça antes de você abrir a boca: o universo que você criou, os personagens, os conflitos, a cronologia. É a substância.

Telling é a seleção estratégica do que mostrar, quando mostrar, em qual plataforma, com qual tom. É a tesoura. Não a impressora.

O ponto de falha mais comum no storytelling corporativo não é falta de história. É excesso de Telling sem Story. Slides bonitos aplicados a uma mensagem vazia. Produção cara embalando uma narrativa sem nenhuma tensão interna.

A regra mais contraintuitiva do método: Story maior que Telling.

A história que existe na sua cabeça mas que você não mostra completamente é o que dá peso ao que você mostra. Quando o Telling entrega exatamente o suficiente para acionar a imaginação da plateia, ela vira co-autora. E ninguém discute uma história que ajudou a construir.


Em 1987, Washington Olivetto fez um comercial para a Valisère que até hoje é estudado em cursos de comunicação. "O Primeiro Sutiã a Gente Nunca Esquece."

O produto foi apresentado como personagem. A chegada da maturidade de uma menina, com toda a mistura de nervosismo, orgulho e curiosidade que qualquer mulher reconhece. Não havia argumentos de venda. Havia uma história que as espectadoras completavam com suas próprias memórias.

Isso é o que Jerome Bruner, pesquisador de Harvard, encontrou em seus estudos sobre memória e cognição: um fato tem 20 vezes mais chance de ser lembrado se estiver ancorado em uma narrativa. Não porque histórias são mais bonitas. Mas porque o cérebro não armazena dados, armazena contextos. Quando você ancora uma informação em uma história, ela encontra um lugar de residência permanente.

O comercial da Valisère não vendeu sutiã. Vendeu um momento universal. O produto foi a consequência.


Mas existe uma distância perigosa entre marcas que entendem storytelling e marcas que acham que entenderam.

As que entenderam percebem que conquistar atenção é diferente de comprar exposição. As que pensam que entenderam investem em produção cara de um conteúdo que a plateia nunca pediu, e ficam surpresas quando ninguém assiste voluntariamente.

Em 2010, no intervalo do Super Bowl, o comercial mais lembrado do evento foi produzido pela empresa com certeza menor orçamento de produção entre todos os anunciantes. O Google mostrou, em dois minutos, a história de um jovem americano que vai estudar em Paris, conhece uma francesa, se apaixona, volta para os Estados Unidos, mantém o relacionamento à distância e um dia busca no Google como dizer "eu te amo" para alguém especial.

Não havia atores famosos. Não havia efeitos especiais. Havia uma história de amor contada inteiramente pelas buscas do Google.

A plateia não assistiu a um anúncio. Ela acompanhou uma vida inteira em dois minutos, com a interface do produto como palco. Isso é storyplacement: a marca não interrompe a história. A marca é o ambiente onde a história acontece.


O storytelling transmídia aplica esse mesmo princípio em múltiplas plataformas simultaneamente. Não é "o mesmo conteúdo em vários canais." É uma história que se expande de forma diferente em cada meio, como um sistema solar onde cada planeta tem sua gravidade própria mas todos orbitam a mesma estrela.

A C&A fez isso com "Poderosas do Brasil": na televisão, o glamour da passarela. Na web, a história individual de cada garota que estava começando a modelar. Eram tellings diferentes da mesma story. Quem via só a TV tinha uma experiência. Quem migrava para a web descobria outra camada. Quem acompanhava os dois tinha uma terceira coisa, maior que a soma das partes.

A consistência da mensagem em todas as plataformas é o que garante que o universo não se fragmente. Contradição narrativa cria ruído. Coerência narrativa cria mundo. E quando você cria um mundo, a plateia quer habitá-lo.


Empresas de todos os tamanhos têm acesso a essa mesma tecnologia. O maior investimento em storytelling não é dinheiro. É tempo: para entender qual história você tem para contar, para quem ela é relevante, e em qual formato ela encontra sua melhor forma.

Isso não favorece as grandes. Favorece as que sabem o que querem dizer.

Uma startup tem algo que uma multinacional raramente tem: o protagonista da história ainda está na empresa, com o peito aberto, com cicatrizes visíveis, com razões reais para existir. Essa autenticidade não pode ser comprada por nenhum orçamento de comunicação.

A pergunta que vale fazer antes de qualquer campanha, post ou apresentação é a mesma:

Por que alguém, voluntariamente, escolheria parar tudo e prestar atenção nisso que você está prestes a contar?

Se a resposta vier fácil, você provavelmente ainda está pensando em exposição.

Se a pergunta for difícil, você está no lugar certo.

Abraços do Palacios.

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