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(Mas tinha medo de perguntar, porque e se a resposta fosse decepcionante? E se descobrisse que você nunca vai ser bom nisso? Minha analista diz que esse medo é meu tema central. Ela pode estar certa. Ela quase sempre está.)

Este é o FAQ mais completo sobre storytelling em português.

Reuni aqui as 50 perguntas que mais respondi em entrevistas, cursos e consultorias ao longo de 20 anos. Cada resposta é direta, prática e baseada em experiência real com Nike, Pfizer, Coca-Cola e mais de 200 projetos corporativos. Vinte anos. Quando comecei, o Brasil não sabia o que era storytelling. Agora sabe, e eu ainda acordo às 3 da manhã pensando se expliquei direito.

Se sua dúvida não estiver aqui, mande pelo WhatsApp que eu adiciono. Ou não adiciono. Depende do estado da minha alma naquele dia.


Definição e Significado

O que é Storytelling?

Storytelling é a capacidade de transmitir significado através de enredos, emoção e autenticidade.

Vai além de "contar histórias": é uma disciplina técnica para transformar informação em experiência memorável. Toda vez que digo isso em palestra, alguém na plateia faz cara de "é só contar história mesmo". Essas pessoas me assombram à noite.

Tem dois elementos inseparáveis:

Story: o acontecimento extraordinário, a matéria-prima bruta, o núcleo que não pode ser negociado.

Telling: a técnica de apresentação, a estrutura que direciona, o formato que pode variar infinitamente.

Ninguém passa um único dia sem contar e consumir histórias. No café, no almoço em família, até com desconhecidos na fila do banco. A diferença é fazer isso com método e propósito. A maioria das pessoas, devo dizer, faz sem o menor propósito. E ainda assim são mais felizes do que eu.


Qual o significado de Storytelling em português?

A tradução literal é "contar histórias". Mas existe uma distinção que muda tudo:

storytelling (minúsculo): o ato natural de contar histórias, que todo ser humano faz desde que aprendeu a falar.

Storytelling (maiúsculo): a habilidade de encontrar ou criar histórias com propósitos específicos e contá-las de forma que gerem conexão emocional e resultados mensuráveis.

A maior parte das pessoas conta histórias no café da manhã, no bebedouro, nas reuniões. Mas sem educação narrativa, tem dificuldade de contar a própria história numa palestra ou entrevista de emprego. Conhece o conteúdo. Não domina o método. É como conhecer todas as notas do piano e não conseguir tocar nem Parabéns pra Você sem transformar em constrangimento coletivo.


Qual a diferença entre storytelling e contar histórias?

Contar histórias é algo que fazemos naturalmente. Storytelling é fazer isso com técnica. A diferença é basicamente a mesma entre caminhar e dançar. Todo mundo caminha. Nem todo mundo dança. E quem dança mal às vezes é pior do que não dançar.

Toda história é um dado rumo a um alvo. Um autor quer passar uma mensagem, expressar um sentimento, explicar algo da alma humana. Então faz filmes, livros, peças, músicas, games, quadros e o que mais for necessário.

A diferença está no método. Um bom autor dedica anos estudando técnicas narrativas e analisando histórias de outros escritores. Essa dedicação permite encontrar a história certa e contá-la sem que uma única frase no lugar errado faça a plateia abandonar. Isso é exatamente o tipo de coisa que me impede de dormir. Sempre há uma frase no lugar errado.


Storytelling é só para comunicação e marketing?

Não. Os usos do Storytelling servem a qualquer profissional que precise transmitir uma mensagem e ser lembrado por ela:

Advogado conta histórias para defender seu cliente. Médico sensibiliza o paciente para a importância do tratamento. O médico que me acompanhou por anos era terrível nisso. "Você precisa mudar sua alimentação." Ponto. Sem jornada do herói, sem personagem, sem nada. Continuo comendo o que quero. Conselheiro financeiro narra melhor a história por trás dos números. Empreendedor explica mais rápido a história da startup. Educador ensina de forma clara, prática e intrigante. Líder inspira equipes e aponta todos para a mesma direção.

Qualquer pessoa que precise que outra pessoa faça alguma coisa precisa de Storytelling. Isso inclui praticamente todos. Exceto talvez os eremitas. E eles têm seus próprios problemas.


Origem e História

De onde surgiu o Storytelling?

Storytelling é uma das atividades mais antigas da humanidade.

Remonta aos nossos ancestrais que se reuniam ao redor de fogueiras e contavam histórias uns para os outros. Essa cultura está enraizada no ser humano. Antes da escrita, era o único mecanismo disponível para transmitir conhecimento entre gerações. Eles não tinham PowerPoint. Tinham só o fogo, as estrelas e a urgência de não morrer. O que, convenhamos, é uma estrutura dramática perfeita.

Nos dias de hoje, Hollywood depende tanto de Storytelling quanto uma tribo na Amazônia. O formato mudou. O princípio não. A ansiedade que precede toda boa narrativa, suspeito, também não.


Há quanto tempo existem técnicas de Storytelling?

Mais de dois mil anos.

Aristóteles, na Grécia, e Bharata, na Índia, escreveram manuais de Storytelling para o teatro. Em culturas separadas por oceanos e séculos, os mesmos princípios apareciam. Esse conhecimento foi se aprimorando ao longo dos milênios até chegar onde está hoje. O que significa que você pode ter crescido achando que não sabe contar histórias quando na verdade a humanidade levou dois mil anos para descobrir como. Seja mais gentil com você mesmo. Minha analista também diz isso. Estou trabalhando nisso.


Quando começou o Storytelling corporativo no Brasil?

O tema chegou ao mundo corporativo brasileiro em 2007, com o primeiro trabalho acadêmico que relaciona histórias ao universo empresarial. No ano seguinte apareceram os primeiros cases.

Mas marcas brasileiras já usavam storytelling intuitivamente muito antes disso. O que é um consolo e uma tragédia ao mesmo tempo: a intuição funciona, mas você não consegue ensiná-la, escalá-la ou cobrar mais por ela.

Em 1924, Monteiro Lobato criou uma história para os Laboratórios Fontoura. O processo era espontâneo e intuitivo. A partir de 2009, as empresas passaram a buscar métodos e processos. O storytelling saiu do instinto e entrou na estratégia. Para alguns, foi libertação. Para os intuitivos, foi como aprender que o salto que eles davam por pura coragem tinha um nome técnico e eles poderiam ter se machucado menos.


Desde quando as marcas usam Storytelling?

Desde os primórdios do comércio.

O sapateiro do Império Romano já contava que tinha a matéria-prima de couro mais bem selecionada, ou que usava técnicas aprendidas com antepassados e afinadas por gerações, ou que seus produtos eram usados e aprovados pela elite. Ou seja: o storytelling de origem da marca e o apelo à autoridade existem há dois mil anos. A humanidade não inventou nada novo. Apenas tornou mais caro.

O conceito de marca anda lado a lado com o de Storytelling. A diferença é que agora existe método onde antes havia apenas intuição, e consultores onde antes havia apenas sapateiros.


O que fez as empresas perceberem a necessidade de Storytelling?

Do controle remoto ao adblock.

Quando a plateia passou a escolher o que assistir e onde dedicar atenção, as empresas perceberam a necessidade crescente por conteúdo interessante. Esse foi o momento em que a publicidade teve um colapso existencial. Não o único. Haverá outros.

A internet entregou o poder nas mãos de quem assiste. Se o conteúdo for tedioso, será pulado.

Storytelling certeiro passa a mensagem e ao mesmo tempo entretém. É a única comunicação que a plateia não foge quando tem escolha. Todos os outros formatos dependem de algum grau de sequestro da atenção. Storytelling é o único que convida.


Storytelling é bastante conhecido fora de São Paulo?

O Brasil tem cultura muito aberta às histórias.

Um século atrás, éramos bons com folhetins. Depois vieram as radionovelas, que evoluíram para um formato tipicamente brasileiro: a telenovela. Sem falar no repente ou no samba-enredo. Somos um país de contadores de histórias. O que significa que quando alguém aparece com método para o que todo mundo já faz por instinto, a reação é de reconhecimento, não de descoberta. Você não está ensinando algo novo. Está nomeando algo antigo. Isso, descobri, é o trabalho mais digno que existe.

Curiosidade: o primeiro estado a investir em Storytelling corporativo foi o Ceará, com J.Macêdo e depois M.Dias Branco. São Paulo demorou mais. São Paulo frequentemente demora mais nas coisas que realmente importam, mas chega lá e cobra por isso retroativamente.


Como Fazer Storytelling

Por onde começar um Storytelling?

Sempre pelo texto. Nem que seja um roteiro.

Seja seriado, livro, slides ou roteiro de atendimento, o Storytelling sempre começa com palavras escritas. Antes das imagens, antes do palco, antes do designer entrar em cena com suas opiniões não solicitadas sobre tipografia. Palavras primeiro.

Primeiro defina a mensagem que deseja transmitir. Existem várias formas de determinar essa mensagem. Uma delas é partir de um processo de solução de conflitos. Outra é ligar para alguém de confiança às 11 da noite e fazer perguntas até a resposta aparecer. Eu recomendo a primeira abordagem. Preserva relacionamentos.


Qual o passo a passo do Storytelling?

Passo 1: Defina o objetivo. A história deve ser contada para quem e com qual expectativa? Se você pular esse passo, que é o que a maioria faz, você vai trabalhar muito e chegar em algum lugar que não era o destino. Isso tem nome em mapas. Em narrativa, chamamos de catástrofe.

Passo 2: Encontre ou crie personagens. No mínimo quatro: herói, mentor, vilão e vítima.

Passo 3: Estruture a trama. Use a estrutura de 3 ou 4 atos.

Passo 4: Defina o formato final. Isso define linguagem e ritmo. Definir o formato depois de criar o conteúdo é como escolher o caixão depois do velório. Caro e inútil.

Passo 5: Desenvolva o roteiro com técnicas narrativas.


Quais personagens são necessários?

A estrutura dramática básica precisa de quatro:

Herói: aquele que vai lutar por uma transformação, mas que para isso precisa aprender algo importante. Todo mundo se identifica com o herói. Isso porque todo mundo acredita secretamente que é o protagonista de uma história épica. Especialmente as pessoas que são claramente figurantes.

Mentor: aquele que vai ensinar a lição.

Vilão: quem vai causar a necessidade de mudança. O vilão, devo dizer, é frequentemente o personagem mais honesto da história. Ele pelo menos sabe o que quer.

Vítima: alguém na situação de vulnerabilidade que precisa da ajuda do herói.

Essa estrutura funciona para histórias heroicas, comédias românticas e até histórias de startups. Afinal, quando alguém empreende é porque encontrou oportunidade de resolver a necessidade de algum consumidor que é vítima de um sistema imperfeito. O que é uma forma elegante de dizer que todo negócio começa com alguém sofrendo.


O personagem precisa ser bonzinho?

Não.

Não quer dizer que o personagem tenha que ser bonzinho. Também não quer dizer que tenha que viver obrigatoriamente uma grande aventura épica.

Só quer dizer que a jornada dessa personagem precisa ser dotada de verdade. Personagem verdadeiro com falha real prende mais do que herói perfeito em missão impecável. Walter White é um vilão. Tony Soprano é um monstro. Eu os acompanhei durante anos como se fossem família. Família complicada, admito. Mas família.


Estrutura e Técnicas

Qual a estrutura básica do Storytelling?

A estrutura atômica de 4 atos:

  1. Alguém com um conflito
  2. Percebe que sua situação ficou ainda pior
  3. Chega a um beco sem saída
  4. Moral da história: máscara triste ou feliz?

Essa é a estrutura de toda boa história e, não por coincidência, de toda sessão de terapia produtiva. Para quem está em terapia: você é o herói. O conflito você já sabe. O beco sem saída é aquela conversa que você ainda não teve. A moral vai depender da coragem de ter.

Para estrutura mais avançada, use a Jornada do Herói. Quanto mais longa for a obra narrativa, mais complexa será a estrutura necessária.


O que é a Jornada do Herói?

Estrutura narrativa descoberta por Joseph Campbell ao estudar mitologia comparada.

Mitos de culturas que nunca tiveram contato, separadas por oceanos e milênios, compartilhavam a mesma estrutura: herói comum no mundo normal, chamado à aventura, com ajuda de mentor cruza o limiar, enfrenta provações, conquista recompensa, retorna transformado.

Star Wars segue isso. Harry Potter. Matrix. O Rei Leão. A maioria dos blockbusters. Não é coincidência. É que essa estrutura ecoa algo biologicamente humano. Somos programados para essa narrativa. O que, quando você pensa bem, é ao mesmo tempo libertador e ligeiramente perturbador. Não somos tão originais quanto achamos.


Quais são as principais técnicas de Storytelling?

Uma história profissional aplica dezenas de técnicas. As principais:

Jornada do Herói (Campbell), Estrutura de 3 Atos (setup, confrontação, resolução), In Medias Res (começar pelo meio da ação), Técnica do Gap (criar lacunas de curiosidade), 8 Passos do Palacios (para performances executivas) e a Regra do Midpoint (se está bem no meio, o final será ruim; se está mal, o final será bom).

Bons autores dedicam anos mergulhados em estudar técnicas e analisar histórias de outros escritores. Não existe atalho. Existe ilusão de atalho, que é diferente e mais cara.


Qual a regra de ouro do Storytelling?

A história na mente da plateia deve ser maior do que o que você conta.

Quando conta uma história, não entregue tudo. Deixe espaços. Lacunas. Vazios propositais. A imaginação de quem ouve completa. Essa é a regra que mais quebro quando estou nervoso, e provavelmente a que mais importa.

Quando explica demais, você mata a magia. A plateia quer participar. Quer ser coautora. Quer sentir que descobriu algo, não que foi informada. Deixe-os ter a experiência de chegar lá. É o presente mais generoso que um contador de histórias pode dar.


Preciso contratar um profissional?

Para histórias profissionais, sim.

Uma história profissional aplica centenas de decisões técnicas em sua concepção. Por isso sempre sugiro que alunos e mecenas contratem um escritor ou roteirista para lidar com a parte técnica. Mesmo histórias reais dependem de ser bem contadas para encantar.

Affonso Romano de Sant'Ana colocou bem: Jorge Amado se inspirou numa matéria de jornal para criar uma de suas melhores histórias. O jornal embrulhou peixe na feira. O livro foi traduzido para mais de 70 línguas. Deixe isso assentar por um momento. A história estava lá, no jornal, embrulhando peixe. Quantas histórias extraordinárias estão neste exato momento embrulhando peixe em algum lugar do Brasil? Essa pergunta me tira o sono. No bom sentido.


Marketing e Vendas

Como usar Storytelling no marketing?

O objetivo mais ambicioso: fazer com que as pessoas paguem para ver o anúncio e depois ainda comprem o produto. Quando explico isso para executivos de marketing pela primeira vez, a maioria ri nervosamente. O riso nervoso é sinal de que entenderam. A maioria dos anúncios que fazem são tão ruins que as pessoas ativamente fogem deles. É uma indústria bilionária construída sobre conteúdo que ninguém quer.

Histórias influenciam comportamentos e consumo. Toda vez que Woody Allen faz filme com cenário marcante, ajuda a aumentar o turismo da cidade. O homem faz publicidade sem perceber. O que é, de longe, o jeito mais eficiente de fazê-la, e provavelmente o motivo pelo qual ele nunca vai parar.

Técnicas para marketing: narrativa de origem da marca, protagonista que é o mecenas, demonstração de transformação antes e depois, bastidores que humanizam, personagens com quem a plateia se identifica.


Como usar Storytelling em vendas?

Não procure "a narrativa comercial". Mapeie as vinte histórias de valor.

Pode ser história para que mecenas se sintam à vontade. Pode ser tema que diferencie da concorrência. Pode ser história que ressalte o que há de especial no produto. Pode ser história para treinar equipe comercial a entreter o cliente enquanto executa o processo de vendas.

O segredo dos mercadores de todos os tempos: venda a jornada, não o destino. Ninguém compra um produto. Compra quem vai ser depois de ter o produto. Venda esse personagem futuro. Faça-o desejável. Faça-o inevitável.


Como usar Storytelling em apresentações?

Toda plateia aplaude uma performance de impacto que prende a atenção do começo ao fim.

Por incrível que pareça, até uma apresentação de resultados financeiros trimestrais pode ter essa característica. Sei disso porque transformei uma. O CFO chorou. Provavelmente de alívio, porque não entendia os próprios números há dois trimestres e finalmente alguém contou a história direito.

Uma técnica muito valiosa nesse contexto é os Oito Passos do Palacios.

É possível transformar centenas de slides num espetáculo teatral. O case "As Filhas do Dodô" é estudado internacionalmente: uma apresentação que virou espetáculo teatral. Toda a empresa entendeu o novo posicionamento estratégico das marcas. Ninguém dormiu. Que já é uma conquista extraordinária em eventos corporativos.


Storytelling pode fazer o mecenas comprar mais?

Sim. Para entender como, pense no Sherlock Holmes.

Sempre que ele está trabalhando em um caso, ficamos na ponta da cadeira torcendo para que desvende o mistério. Costuma ter um momento em que ele fica perdido. Talvez toque violino. Talvez ande pelas ruas de Londres. Talvez tome um leite de caixinha e, ao ver algo na embalagem, tenha um insight.

Nessa hora ficamos felizes com o leite. Somos capazes de lembrar dessa cena no supermercado ao ver a mesma embalagem. Isso é branding. Acontece na mente da plateia sem que ela perceba. A forma mais eficiente de influência é aquela que parece entretenimento.

Da mesma forma, quando James Bond usa uma marca de relógio ou roupa, nos imaginamos usando as mesmas peças. Há estudo sobre o crescimento da vodka nos Estados Unidos após os filmes do 007. Um espião fictício moveu o mercado real de bebidas. Se isso não convence do poder das histórias, nada mais vai.


Storytelling funciona para branding?

Marca é algo abstrato. As ferramentas de Storytelling resolvem a abstração ao representá-las através de personagens.

Se você assistiu ao filme Náufrago, torceu pelo Chuck Noland e sentiu o peso da cena quando ele perdeu seu aliado, a bola de vôlei Wilson, então você entende branding emocional. Você chorou por uma bola. Uma bola de borracha com cara desenhada em sangue. Isso não é manipulação. É que a história funcionou. A distinção, reconheço, pode ser tênue.

Para algumas marcas, o Storytelling já virou algo maior do que o produto inicial. A Lego lucrou mais com a bilheteria do filme do que com a venda das peças plásticas. Em algum ponto da história corporativa da Lego, alguém teve um insight extraordinário. Essa pessoa provavelmente não recebeu o bônus que merecia.


Empresas e Negócios

Qualquer empresa pode usar Storytelling?

Sim. Desde secretarias de turismo até pequenos estabelecimentos.

Para cada tipo de empreendimento, um tipo diferente de história.

Uma loja de artigos esportivos conta histórias de superação. Padarias precisam de histórias ligadas à tradição das receitas e à origem dos ingredientes. A padaria do meu bairro descobriu isso instintivamente. Tem um quadro contando a história do bisavô imigrante. Não sei se a história é verdadeira. Sei que o pão de queijo é extraordinário e que nunca vou perguntar. Uma pequena empresa pode contar a história do fundador. Uma startup pode contar a origem da ideia, o conflito que ela veio resolver.


Quais são os tipos de Storytelling empresarial?

Endotelling (para dentro da empresa):

Storytelling em liderança, em performances e reuniões, em RH e desenvolvimento de talentos. É a história que a empresa conta para si mesma. Surpreendentemente, muitas empresas não sabem qual é essa história. É como perguntar a alguém quem ela é e receber o currículo como resposta.

Exotelling (para fora da empresa):

Storytelling em vendas, em branding, no atendimento, no marketing, em publicidade, em eventos de estreia, em conteúdo digital. É a história que a empresa conta para o mundo. Geralmente mais polida do que a anterior. Igualmente distante da realidade.

O objetivo é que as duas estejam alinhadas. Quando não estão, chama-se de crise de comunicação. Ou de segunda-feira.


Storytelling é uma substituição ou nova camada?

É uma nova camada.

A empresa tem que fazer tudo o que sempre fez para depois chegar na história. Por exemplo: se quiser deixar uma reunião mais dinâmica e apresentar a mensagem em formato teatral, ainda precisa organizar os dados como se fosse apresentar slides. Depois disso, há todo um processo de dramatização que demanda tempo e energia.

Poucas empresas têm recursos adicionais para isso. Não por acaso, a maioria dos projetos começa pequena e vai crescendo com os resultados. O que é, também, uma boa estrutura narrativa: começa sem recursos, encontra o método, os resultados chegam. A ironia de um negócio de storytelling que só se prova através de uma boa história não me escapa.


Como um pequeno empresário pode começar?

Primeira coisa: identificar qual o objetivo daquela história.

Para quem ela deve ser contada e com qual expectativa?

É história para mecenas se sentirem à vontade no estabelecimento? É tema para diferenciar da concorrência? É história para ressaltar ingredientes especiais e aumentar margens? É resgate de valores e tradição? É história intrigante no cardápio para entreter enquanto o pedido é preparado?

A partir do objetivo, escolha a história certa. A história errada, contada com toda a técnica do mundo, é um erro tecnicamente perfeito. Existem muitos por aí. São os equivalentes narrativos de uma cirurgia bem-sucedida no paciente errado.


Exemplos e Cases

Quais são os melhores exemplos mundiais de Storytelling?

Bonequinha de Luxo popularizou a joalheria Tiffany's. Se Meu Fusca Falasse humanizou o carro. Náufrago demonstrou que mesmo se um avião da FedEx cair, a encomenda vai chegar. A estratégia de reasseguramento mais cara da história da publicidade. E a mais eficiente. Piratas do Caribe nasceu para divulgar uma atração de parque de diversões. O Lego Movie foi um filme publicitário de 90 minutos que as pessoas pagaram para assistir.

Nenhum desses exemplos foi planejado como "campanha de marketing". Foram histórias. Que é exatamente o ponto.


Qual o melhor exemplo brasileiro de Storytelling?

O livro Jeca Tatuzinho, escrito por Monteiro Lobato em 1924.

Conta a jornada de um homem preguiçoso que, ao tomar o remédio dos Laboratórios Fontoura, se torna apto a embarcar numa jornada dos trapos à riqueza e termina como grande fazendeiro.

É considerada a melhor e mais efetiva peça publicitária brasileira. Deu tão certo que se tornou campanha de saúde e ajudou a erradicar a doença que o Jeca representava. Um livro de marketing que virou instrumento de saúde pública. Monteiro Lobato não sabia que estava fazendo publicidade. Sabia que estava contando uma história. A diferença entre as duas intenções produziu resultados que nenhuma das duas, sozinha, teria alcançado. Isso é o tipo de coisa que me faz acreditar que o universo tem senso de humor.


Storytelling pode ser mentira?

Vale ficção, não vale mentira.

Ficção é diferente de mentira. Quando marcas inventam histórias de origem e afirmam que são reais, acabam no tribunal.

Diletto e Do Bem aprenderam isso da pior forma. Criaram narrativas de fundação que não existiam. Foram processadas. A história virou pesadelo de relações públicas. O pior uso possível de storytelling é enganar, porque quando a mentira é revelada, a confiança vai junto. E confiança, ao contrário de leite condensado, não tem data de validade impressa. Quando acaba, você sente antes que o prazo apareça.

Storytelling funciona com verdade. Com ficção declarada. Nunca com mentira disfarçada de fato. A diferença, para quem tem dúvida, é simples: ficção sabe que é ficção. Mentira finge não saber.


Tem exemplo de Storytelling em evento B2B?

O case do IT Fórum é o maior exemplo do gênero.

Encontro de executivos com a indústria de tecnologia que existe há mais de duas décadas. Foram 8 meses de desenvolvimento de Storytelling para criar o universo da Saga do Tempo.

A mudança foi visível: além da transformação estética, a narrativa permitiu a implementação de um game que tornou a experiência radicalmente mais engajante. Profissionais de TI, naturalmente tímidos, passaram a interagir com uma naturalidade que nunca tinham demonstrado antes. Isso sempre me comove. Porque não é sobre tecnologia ou formato. É sobre pessoas que finalmente se sentiram autorizadas a ser pessoas num ambiente que costumava tratá-las como funções.

Na prática: aumento de 50% no faturamento, mais 16% em reuniões de negócio realizadas no evento e recorde histórico de satisfação. Durante três edições consecutivas. Os números são reais. Posso mostrar os contratos. Embora prefira contar a história.


Como Aprender Storytelling

Precisa ter dom para fazer Storytelling?

Não.

Storytelling não é restrito a quem nasceu com dom. Mesmo quem não se considera uma pessoa criativa pode desenvolver a habilidade de contar histórias.

Da mesma forma que você aprendeu a falar, pode aprender a estruturar narrativas. Dom acelera. Método garante. Conheço pessoas com talento extraordinário que nunca entregaram nada. E pessoas sem nenhum dom aparente que produziram trabalhos que vão durar décadas. O dom sem método é um potencial em espera. O método sem dom é uma entrega consistente. Adivinhe qual paga as contas.


Como aprender Storytelling?

Quando você começa a aprender, percebe as vantagens logo de cara. Mas também percebe que ainda vai ter muito o que aprender. Isso nunca muda. É a natureza de qualquer ofício real.

Mesmo depois de vinte anos contando histórias, de ter lido mais de duzentos livros sobre roteiro, de ter treinado mais de 30 mil profissionais em 10 países, fico cada vez mais ciente: quando o assunto é contar histórias, existe um oceano inexplorado. Quanto mais você aprende, mais sabe que não sabe. Isso seria deprimente se não fosse exatamente o sinal de que você está aprendendo de verdade.

Existem muitas fontes. Livros, treinamentos, e a prática constante de analisar histórias de outros autores. Especialmente as que falharam. As histórias que falharam ensinam mais do que as que triunfaram. Porque as que triunfaram já chegaram editadas. As que falharam chegaram cruas.


Quais os benefícios de aprender Storytelling?

Estudos de construção de marcas mostram que são necessários meses e até anos para gerar vínculo emocional entre pessoas e marcas.

Filmes e seriados comprovam que bastam algumas horas para nos apegarmos a personagens como se fossem amigos reais. Já senti mais pela morte de um personagem fictício do que por algumas notícias reais. Fico com isso comigo.

Storytelling é a melhor forma de passar uma mensagem capaz de influenciar a plateia e ao mesmo tempo entreter. Não somos mais obrigados a ver anúncios. Os anunciantes é que estão obrigados a nos intrigar com uma boa narrativa. O poder virou de lado. Quem percebeu isso primeiro está à frente. Quem ainda não percebeu ainda está comprando espaço publicitário esperando que alguém olhe.


O que é preciso para criar histórias que geram fãs?

A melhor palavra não é fidelizar. É gerar fãs.

Pense em adolescentes vestidos de personagens do Harry Potter. Pense em adultos que viajam ao exterior para visitar cenários de séries. Pense em pessoas que tatuam logos de marcas no corpo. Esse último grupo sempre me intrigou profundamente. A dedicação é admirável. A permanência é o que me assombra. Afinal, marcas mudam de identidade visual. O cliente tatuado não.

Gerar fãs não é um objetivo em si. É o principal resultado para confirmar que o Storytelling funcionou. Quando isso acontece, você não precisa mais convencer ninguém de nada. Os fãs fazem isso por você. Com uma dedicação que nenhum orçamento de marketing consegue comprar.


Próximos Passos

Quer se aprofundar? Leia O Que É Storytelling: Guia Definitivo, e também 17 Técnicas de Storytelling e Storytelling para Empresas.

Quer aplicar na sua empresa? A Storytellers, primeira empresa de storytelling do Brasil, há 20 anos transformando negócios com histórias, oferece treinamentos in-company, palestras e consultoria. Duas décadas. Quatro governos. Três crises econômicas. Uma pandemia. Ainda aqui, ainda contando histórias, ainda convencido de que é o trabalho mais importante que existe.

Fernando Palacios é fundador da Storytellers, primeira empresa de storytelling do Brasil, e duas vezes campeão mundial de storytelling (World's Best Storyteller, World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018). Quando não está contando histórias sobre contar histórias, está pensando em contar histórias sobre outras coisas. Minha analista diz que isso é integração. Estou inclinado a concordar.


Abraços do Palacios.

(E não, não tenho medo do que você vai perguntar. Tenho medo do que vou responder.)

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