Em 1902, um mágico francês chamado Georges Méliès gastou seis meses para fazer um filme de catorze minutos.
Ele construiu um foguete de papelão. Pintou estrelas no cenário. Colocou um selenita fantasiado de crustáceo. E mandou um grupo de cientistas de cartola para a Lua numa bala de canhão.
Uma Viagem Para a Lua foi o primeiro filme de ficção científica da história. Primeiro com efeitos especiais. Primeira narrativa com múltiplos atos no cinema.
Cento e vinte anos depois, o personagem de Méliès aparece num filme de Scorsese. O diretor mais premiado da Hollywood contemporânea dedicou Hugo Cabret a recuperar esse mágico da obscuridade. Clipes musicais referenciam a imagem do foguete na lua. Estudantes de cinema ainda assistem ao filme original inteiro em sala de aula.
Catorze minutos. Cento e vinte anos de reverberação.
Toda empresa produz conteúdo. Todo dia.
Textos, posts, vídeos, embalagens, apresentações, emails. A maior parte desse conteúdo não supera os trinta segundos de atenção ou a página dupla de uma revista. São gotas informativas: precisas, objetivas, e esquecidas com a mesma velocidade com que são exibidas.
Isso não é necessariamente vacilo. Alguns conteúdos existem para funcionar no presente e não precisam de mais do que isso. Uma notificação bem escrita cumpre seu papel em três segundos.
O conflito começa quando uma marca investe em algo com ambição de permanência e entrega algo com prazo de validade de terça-feira.
O que separou Méliès da produção descartável de sua época não foi o orçamento. Não foi a tecnologia, que era rudimentar por qualquer padrão. Foi uma decisão narrativa: contar uma história com começo, meio e fim, com personagens que queriam algo, com um universo que seguia suas próprias regras.
Esse é o princípio que ainda funciona hoje.
Quando a plateia se encontra dentro de uma história, quando ela reconhece o desejo do personagem como seu, quando ela sente a tensão do conflito antes da resolução, algo diferente acontece. O conteúdo não é apenas consumido. É guardado.
Não existe algoritmo que produza esse efeito. Existe estrutura narrativa.
A pergunta que toda empresa com algo a dizer precisa responder antes de criar qualquer conteúdo é simples, mas exige honestidade brutal:
Estamos fazendo algo para esta semana ou para esta geração?
As duas respostas são legítimas. O vacilo é confundir uma com a outra.
Abraços do Palacios.



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