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RECONTANDO HISTÓRIAS


Diz o senso comum que "continuar o trabalho de outros pode ser muito mais árduo do que começar algo do zero", logo se você pretende repensar o trabalho de outras pessoas pode se preparar para arregaçar as mangas!

Reescrever histórias, ou mesmo mudar o ângulo da narrativa pode ser um excelente exercício de Storytelling, como no caso dos fanfictions. Há também histórias que são repensadas por outros autores de outras épocas, como é caso o livro O Último Anel de Kiril Yeskov.



Neste livro, a história do clássico O Senhor dos Anéis é repensada transformando o vilão Sauron em protagonista! Na trama, Mordor seria uma civilização tecnologicamente avançada que é vista de forma negativa pelas povos da Terra Média, que seriam na verdade fanáticos religiosos!


Há também exemplos recentes como Malévola, da Disney, que conta a história da bruxa vilã do conto de fadas Cinderela e acaba se tornando protagonista do seu próprio filme.

O fato é que, para recontar uma história, o Storyteller deve entender como ela foi feita, seu contexto histórico, a intenção do autor e o pano de fundo sociocultural no qual ela está inserida. É por isso que muitas vezes o trabalho de pesquisa por trás de um reboot ou mesmo um spinoff pode ser muito mais trabalhoso do que numa história convencional.

Outro fator é lidar com o público. Grandes histórias criam uma cultura em volta de si. Por isso o autor que pretende recontá-la também deve conhecer as expectativas dos fãs e a visão deles sobre aquela obra.

E aí? Pronto pra recontar uma história? O importante é praticar!

TOLKIEN, HISTÓRIAS E TRADUÇÃO

Vou começar dizendo que esse post é resultado do meu último post. Na verdade ele surgiu para corrigir um erro do último post, onde eu afirmo que o Tolkien era um "plotter". Pois é, o homem criou um mundo inteiro, diversos idiomas, vários povos e pensou até na cartografia do universo ficcional sem, na verdade, parar e planejar o que estava fazendo. 
Ao ler algumas de suas cartas para o seu editor Milton Waldman é possível perceber que a maior parte do trabalho criativo de Tolkien tem inspiração em seus estudos linguísticos. Inclusive o próprio Tolkien diz, em alguns momentos, que na verdade não escreveu nada, apenas traduziu o livro vermelho de Westmarch, que na verdade foi inspirado em um livro Galês do século 15 onde encontram-se uma série de histórias e poemas traduzidos por Tolkien posteriormente. 

Em uma de suas cartas para o editor, Tolkien diz ter começado a criar seu universo ficcional quando ainda era criança, como uma brincadeira de criar povos e idiomas em sua cabeça. Ele diz que nunca mais parou de fazê-lo, até que finalmente decidiu colocar tudo isso no papel. Talvez sejam todos esses anos de planejamento mental que tenham deixado a história organizada e com tamanha magnitude. Mas, na biografia de Tolkien podemos encontrar um truque do autor para que sua escrita se tornasse mais próxima de um "plotter". Transformar erros em parte de sua história parecia se tornar cada vez mais um hábito conforme ele avançava sua narrativa. 

Como exemplo dessa técnica podemos citar a passagem em que Gollum, no primeiro livro, aposta o seu precioso anel no resultado de um jogo de charadas, porém ao reler tal passagem que era importante enfatizar a relação de Gollum com o anel e que, na verdade, o personagem jamais apostaria seu bem mais precioso. Por isso Tolkien introduziu no segundo livro uma passagem que explicando que a tal da aposta de Gollum era uma mentira contada por Frodo por causa da influência do anel no Hobbit. 

Para terminar, devo admitir que o Tolkien e toda sua obra ficaram muito mais interessantes quando descobri que tudo foi feito ao modo "pantser" de ser, sem grandes planejamentos, nem arquiteturas. Mas a maior lição que eu aprendi é que mesmo que não exista um plano, com muita técnica e muita reescrita qualquer coisa é possível. 

PLOTTER, O ARQUITETO NARRATIVO


Douglas Adams 
Eu não lembro exatamente quando eu comecei a escrever, o que eu lembro de verdade são das folhas de caderno da escola que intercalavam contos pela metade, frases de efeito e poesias de adolescente com as matérias que eu copiava da lousa dos professores. Me lembro de como era (ainda é, na verdade) bom ficar  acordado de madrugada com a janela aberta como se a inspiração entrasse junto do vento fresco. Escrever era um exercício terapêutico entre eu e a inspiração e quando ela não vinha as folhas em branco eram preenchidas de extensas reclamações sobre como escrever era difícil. 


J. R. R. Tolkien
Dizem por ai que há dois 'tipos' de escritores (incluo redatores, jornalistas, roteiristas...): os Pantsers e os Plotters. Eu, em minha adolescência era um pantser, ou seja, aquele cara que senta na frente do computador, ou do caderno e começa a escrever, tudo vai para a folha do jeitinho que sai da cabeça. Você segue o seu texto até chegar em algum lugar e decidir que aquele era o final. Sem planejamento prévio, ou póstumo, um pantser escreve quase que pela "intuição". 

Hoje, cada vez mais me torno um plotter, ou seja, o tipo de cara que desenha a 'planta' da narrativa antes mesmo de ir colocar qualquer palavra no papel. Jornada do personagem, calendário da narrativa (com datas comemorativas selecionadas), às vezes até árvore genealógica, além é claro de mapas astrais simples e um breve histórico pessoal e profissional de cada um dos personagens. O plotter é o cara que escreve em desenhos, rabiscos, guardanapos, é o cara que demora uma semana por frase, um tipo meio obcecado de escritor. 

Antes que me julguem, não há nada de errado com nenhum dos dois, na verdade, cada um tem a sua vantagem e a sua desvantagem. O pantser por exemplo, pode ser mais autêntico, ter mais facilidade de encontrar um estilo, mas ao mesmo tempo corre sérios riscos de se perder na própria história e nunca encontrar o caminho para o fim. O plotter, em contrapartida, é o chato, o perfeccionista que pode demorar anos para começar a escrever uma história e décadas para terminá-la, mas ao mesmo tempo o plotter tem a vantagem de sempre saber pra onde a história está indo, mesmo que desvie no meio do caminho, ele já sabe por onde voltar. 

Você quer ver a diferença de dois trabalhos geniais, um de um dos maiores plotters conhecidos e o outro de um pantser que escreveu uma trilogia de 5 livros? Leia Senhor dos anéis e o Guia dos Mochileiros das Galáxias e compare o trabalho de Tolkien, tão plotter que criou idiomas e mapas para o seu mundo fictício, com o trabalho de Douglas Adams, tão pantser que precisou escrever mais dois livros para chegar no final do que deveria ser uma trilogia. Ambos são excelentes trabalhos, mas a diferença entre um e outro é fácil de ver, ou melhor ler. 

DE ONDE VÊM AS HISTÓRIAS...

http://migre.me/azULv



Desde que comecei a pesquisar storytelling, algo me intriga: de onde vêm as histórias?

Da criatividade do autor? Sim.
De suas experiências vividas e sonhadas? Sim.
Da pesquisa de arquétipos, mitos e lendas? Sim.

Para todas essas questões a resposta é sim, mas acima delas, está uma fonte onde todo bom contador de histórias ou storyteller, como queira, bebe: a tradição oral. É graças a essa passagem de sabedoria de geração em geração que conhecemos tantas histórias. Os contos de tradição oral não ser perderam no tempo porque preservam uma estrutura narrativa, a jornada do herói, descrita por Joseph Campbell em O Herói de Mil Faces. Em cada cultura os mitos, as lendas e os contos aparecem com detalhes específicos e em variadas versões, mas a estrutura, se mantém.

Em Acordais, Regina Machado, afirma: São tantos os escritores que beberam e continuam bebendo dessa fonte [os contos de tradição oral], que é impossível conhecê-los todos. Há também os afluentes na superfície da terra, representados pelos autores contemporâneos que escrevem histórias recriando a estrutura e os temas dos contos tradicionais. O grande romance épico Senhor dos Anéis, que Tolkien elaborou durante anos, tem a estrutura narrativa moldada no modelo do conto tradicional. Os episódios sucedem-se combinando rigorosa pesquisa de fontes com a criação de inúmeras imagens poéticas e situações de forte impacto narrativo. A influência dessa história se expandiu em outras inúmeras produções como jogos e desenhos. (Olha só a transmídia aparecendo aí...)  

Quem acredita que Cinderela foi uma criação de Walt Disney está enganado. A história dessa princesa é um conto da tradição oral. No século passado foram coletadas 345 versões desta história. Pesquisadores localizaram versões contadas até na China e no Vietnã. Talvez à Disney coube o mérito de popularizar uma versão, a sua versão. Mas a origem do conto vem de um tempo imemorial que assim como local de origem, não se pode precisar. É assim com tantas outras histórias.

A nós, storytellers, fica uma lição: beber na fonte das histórias para que possamos conhecer suas versões e suas nuances. Para que cada conto lido ou ouvido e cada filme assistido seja nossa fonte de inspiração para criar e contar nossas próprias histórias.