O Real Poder das Histórias Reais

Histórias reais fazem um enorme sucesso. Isso porque elas nos mostram que podemos vivê-las, que não são impossíveis ou inatingíveis. E quanto mais inacreditáveis são, maior é o sucesso que fazem com o público. Afinal, elas dão uma esperança de que poderiam acontecer na vida de qualquer um já que são reais, e esse é o seu grande poder.


Existem histórias que são contadas como reais, mas que são de fato falsas e admitem isso. Entretanto, por parecerem reais demais, passam uma sensação muito cativante para quem são contadas. Um exemplo disso é o primeiro filme de Atividade Paranormal. O filme dá medo, sem nenhum elemento realmente assustador. O assustador é pensar estar assistindo uma história real, com a morte de uma pessoa e a possessão demoníaca de outra. O assustador é pensar que se isso aconteceu com o casal do filme, poderia muito bem acontecer com você.


Agora, existem histórias ditas como “reais” que são tão distorcidas que se tornam praticamente ficcionais. Eu poderia falar do filme “Dor e Ganho” com o Mark Walhberg e o The Rock, que conta a história de uma gangue de fisiculturistas que sequestra um “babaca” para roubar todo o seu dinheiro. No filme, os sequestradores são carismáticos e o sequestrado é o cara mais nojento e babaca do mundo. Na realidade, não foi bem assim. Mas eu entendo que essa parte da história tinha que ser distorcida para ganhar o carisma do público. Em compensação, seus elementos inacreditáveis e absurdos são reais. Tão reais e absurdos que, segundo as minhas pesquisas, o juiz do caso começava a rir em determinados momentos do julgamento dos criminosos, de tão idiotas que eram as coisas que eles faziam (se fantasiarem de ninjas em uma tentativa de sequestro, por exemplo) e que a polícia não acreditou no sequestrado real em seu primeiro relato.


Já o filme Horror em Amityville é o contrário. Todos os elementos incríveis da história são distorcidos e tidos como falsos pelas suas testemunhas, exceto pela família Lutz que detinha os direitos autorais da história. Ou seja, é uma história que, apesar de muito bem contada, te desaponta quando você descobre a verdade e perde parte de seu poder.

Por último existem as histórias genuinamente reais, que têm algumas alterações de roteiro para se adaptarem à audiência. O último Oscar foi recheado delas: O Lobo de Wall Street, Clube de Compras Dallas, 12 Anos de Escravidão, e por aí vai. Não é à toa que essas histórias foram tão prestigiadas. São genuinamente incríveis, e muito bem contadas em suas adaptações para o cinema.

Apesar de ter gostado muito das outras duas histórias, a que mais me fascinou foi a do Lobo de Wall Street. Sério, a história foi tão boa que Tommy Chong, da dupla “Cheech e Chong”, insistiu para que Jordan Belfort (personagem de Leonardo DiCaprio) a escrevesse em um livro. Então, o naufrágio do navio, a raspagem de cabelo de uma funcionária, as loucuras com drogas e prostitutas, tudo era real!  Acho que foi isso o que mais me cativou nessa história toda.

Para demonstrar o poder das histórias reais, sejam elas genuinamente reais ou não, vou usar um exemplo de uma história que criei e contei nessa última Páscoa. Essa é a história do meu amigo Mário Mariano, o pior traficante de drogas do mundo.

Nessa Páscoa fui para o Economíadas e fiquei no alojamento de uma faculdade. Tinha acabado de terminar um namoro de forma desastrosa, então, estava arrasado. Por isso mesmo, decidi que não teria limites no feriado. Queria viver 96 horas direto na loucura. Queria viver de excessos, e vivi.

Em um determinado momento da minha viagem, eu e meu melhor amigo Chico Piscina estávamos tão retardados que resolvemos "zuar" nosso outro grande amigo, Mário Mariano. Nós inventamos uma história sobre ele ter levado uma maleta de drogas para o alojamento onde estávamos, com todas as drogas imagináveis, incluindo um coquetel de loló e crack que só ele sabia preparar. Muitas das pessoas que ouviram essa história ficaram fascinadas por ela. Como eu e o Chico estávamos mais loucos que o Batman o tempo todo, até nós mesmo começamos a acreditar nela e a contávamos como se realmente fosse verdade. Não havia mentira nas nossas vozes em nenhum momento enquanto falávamos sobre a fantástica maleta de drogas de Mário Mariano. 

Não demorou muito para algumas pessoas começarem a procurar Mário Mariano em busca de drogas. Mas, detalhe, o Mário não tinha droga nenhuma. Ele não é muito dessas coisas. Então, as pessoas em busca de drogas achavam que ele estava “regulando” quando dizia não ter nada, e ficavam realmente putas com ele. Por isso, eu e o Chico demos continuidade à história.

Nós começamos a espalhar que o Mário Mariano era um traficante tão ruim que ele tinha queimado praticamente seu estoque inteiro de drogas no primeiro dia da viagem. E, depois de muitas e muitas pessoas irem procurá-lo, ele foi vencido pelo cansaço e começou a admitir nossa versão da história. E isso continuou até o domingo de Páscoa.

No domingo de Páscoa, eu e o Chico estávamos totalmente malucos pela manhã. E o Chico começou a abraçar todo mundo e desejar Feliz Páscoa, perguntando se as pessoas tinham procurado ovinhos enterrados pelo alojamento. Foi aí que surgiu a etapa final da história de Mário Mariano. Em determinado momento enquanto o Chico fazia suas piadas com os ovinhos de Páscoa eu o interrompi e disse: “Pessoal, vocês souberam do Kinder Drogas?”.

A reação das pessoas ao redor foi instantânea. Todos ficaram curiosos. Então, eu contei que nosso amigo Mário Mariano tinha colocado todo o resto do seu estoque de drogas dentro de um Kinder Ovo, e enterrado ele em algum lugar do alojamento. Para criar uma áurea ainda mais mística para a história, eu ainda acrescentei o fato de que Mário Mariano estava totalmente chapado quando fez isso. Então, ele não se lembrava de onde tinha enterrado seu “Kinder Drogas”.


Eu e o Chico espalhamos essa história para o máximo de pessoas que conseguimos, pedindo para nos devolverem o ovo caso achassem. Até oferecemos dividi-lo com quem quer que nos devolvesse ele.

Dia seguinte, a gente perdeu a conta de quantas pessoas nos pararam para perguntar se tínhamos achado o ovo. Até achamos buracos em determinados lugares do alojamento (prováveis tentativas de busca pelo ovo, nós supomos).

Resumindo, o que nós fizemos foi pegar um interesse em comum de muitas pessoas, criar uma história absurda, e contá-la como real para sacanear um amigo. E isso mexeu com a imaginação de muita gente., especialmente pelo modo que nós a contamos (afinal, o Telling é metade de Storytelling).

Esse exemplo ilustra perfeitamente o poder de uma história “real”. As pessoas ficam contagiadas por esse tipo de histórias. Afinal, elas são contagiantes. Todos que ouviram a história de Mário Mariano ficaram envolvidos por ela, curiosos e entretidos.


Então, quando estiver criando uma história para sua marca, aqui vai mais um aspecto a se considerar. Tente tornar essa história real! Se eu e meu amigo chapado conseguimos contagiar um alojamento no Economiadas, imagine o que você e sua marca não podem fazer com o mercado!

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