Aristóteles, Procurando Nemo e o Final que Eu Quero

O garçom serviu a cerveja e saiu de perto da mesa.

– E agora? – me perguntou meu mestre em Storytelling. – O que é que você vai fazer?

– A única coisa que me resta. Eu vou em busca do meu final feliz.

Tomei um gole de cerveja gelada do meu copo. O amargor era doce comparado ao gosto da incompletude que estava na minha boca. Eu tinha chegado tão perto. Mas tão perto mesmo.
Eu andei até Jerusalém sem dinheiro e cheguei lá na Páscoa, exatamente quando eu queria. Venci meu desafio. Em Ibiza eu comecei trabalhando de noite em um puteiro e saí de lá com uma proposta para ser gerente de marketing em uma das melhores baladas da ilha. Outra vitória esmagadora. E em Londres eu conheci a família da princesa com quem minha história terminaria. Eu tinha dinheiro, uma namorada e amigos lá. Praticamente tinha conseguido meu final feliz. Praticamente...


Em uma mensagem de texto, tudo foi por água abaixo. A menina terminou comigo enquanto viajava pela Tailândia. Eu não tinha onde morar. Eu gastava mais dinheiro do que ganhava (e isso passando fome). Meus amigos estavam em situações tão desesperadoras que não poderiam me ajudar e logo nos distanciamos. Londres era supostamente meu prêmio. Mas na verdade foi minha aniquilação. Um supercombo que me levou para a lona. Sozinho naquela cidade depressiva, meu coração estava em pedaços do outro lado do mundo. Logo ficou claro que não haveria final feliz ali para mim.

– Eu cheguei tão perto, Mestrão – disse depois de engolir a cerveja goela abaixo. – Mas tão perto mesmo...

Calmo tomando um gole da sua cerveja, o Mestrão me encarava sabendo exatamente o que tinha acontecido.

– Talvez você não tenha aprendido sua lição – ele sugeriu.

A frase me atingiu como um tapa na cara, me tirando do meu estado de desgosto e me levando a um novo caminho de raciocino que eu não havia trilhado antes.

– Como assim? – indaguei curioso.

Eu tinha encontrado Deus na estrada. Tinha mudado completamente minha vida. Tinha aprendido lições que seriam impossíveis serem aprendidas de outra forma. Do que será que ele estava falando?

– Histórias têm um poder ímpar de nos ensinar alguma coisa. Vamos pegar uma parte da premissa de storytelling aristotélica:

“Um personagem passa por uma situação familiar com a vida real. Ele pode evoluir, aprender a lição que a história quer passar e assim se tornar merecedor de um final feliz. Caso o personagem não aprenda essa lição, ele terá um final trágico. Sabe o símbolo do teatro?, a máscara feliz e a máscara triste? Então, elas vêm daí.”

Eu não tinha aprendido minha lição? Seria mesmo?

– Mas que lição seria essa?

– Não sei – respondeu o Mestrão. – Talvez a como ser menos cafajeste. Ou como ser menos emotivo. Ou como selecionar melhor seu foco. Ou como ser mais independente...

Eu não disse nada. Fiquei pensativo por um momento, confuso e perdido pelas minhas memórias tentando desvendar o que poderia ter me escapado. E o Mestrão percebeu isso depressa.

– Vamos pegar um exemplo que talvez possa te ajudar – continuou ele. – Em “Procurando Nemo” Marlin, o personagem principal, precisa aprender a como ser um pai melhor. Ele perdeu a mulher e todos os outros filhos de uma forma trágica, deixando-o apenas com Nemo. E por isso ele acaba sendo super protetor, sufocando o peixinho.

“O Nemo, no caso, é o objeto de estudo. É o filho super protegido que não suporta mais a relação com o pai. A história se desenvolve quando em um ato de rebeldia, causado numa tentativa de se rebelar contra Marlin, Nemo é levado embora do coral aonde vive para o consultório de um dentista.”

“Assim sendo, Marlin sai numa busca. E não tarda muito até ele encontrar um personagem que é seu oposto, a peixe sem memória chamada Dory. É ela que vai mostrar a Marlin uma realidade totalmente diferente e vai ensiná-lo a ser mais relaxado.”

“Mas, por ser seu total oposto, Dory não representa a personalidade para Marlin aprender sua lição e virar um pai melhor. Essa personalidade é algo no meio termo entre os dois. Não tão preocupado, mas também não tão relaxado.”

“A personalidade ideal para Marlin se espelhar só aparece próximo ao final da história, quando ele já está mais bem preparado para recebê-la, após vivenciar diferentes aventuras e desafios.  Essa personalidade vem com Crush, a tartaruga que está na corrente indo para a Austrália. Ele deixa o filho se aventurar, mas está atento. É nesse contato que Marlin aprende sua lição. E, sendo assim, é merecedor de um final feliz, resgatando seu filho e voltando ao seu coral como um pai muito melhor.”


Quando ele parou de falar, eu fiquei quieto. Rapidamente pensei numa lição que a vida poderia querer me ensinar. E algo posto no meu caminho para que eu me mobilizasse para aprender. E também nas pessoas que conheci na minha trajetória. O Mestrão estava certo, eu não tinha aprendido a lição.

Não pude deixar de rir. Eu, que vivi três meses na estrada contando histórias, me julgava ser um storyteller completo. E em um simples gole de cerveja o cara na minha frente me mostrou que eu ainda tenho muito a aprender.

Eu ainda não aprendi a lição que me escapou em Londres. Muito pelo contrário. Acho que preciso de uma aventura completamente nova para aprendê-la. Mas, pelo menos, essa nova lição de storytelling eu absorvi para criar minhas próximas histórias.


Enquanto a história acaba, a vida continua. E eu vou atrás do final que eu quero. E você, o que aprendeu ultimamente?

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