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Todo mundo tem uma cicatriz que ninguém nunca viu.

Não porque ficou escondida. Porque nunca foi contada.


A pergunta mais comum que recebo de quem quer começar a escrever não é "como escrever". É "sobre o que escrever". A diferença entre as duas é enorme.

"Como" é técnica. "Sobre o que" é permissão.

Quem pergunta "sobre o que" já tem a história. Só ainda não acredita que ela merece ser contada.


Tem um equívoco silencioso que vive na cabeça de quase toda pessoa que quer escrever: a crença de que histórias boas acontecem para outras pessoas.

Para os que viajaram mais. Sofreram mais. Arriscaram mais. Viveram mais intensamente do que você.

É mentira.

A história mais poderosa que você pode contar é exatamente aquela que só você viveu. Não apesar de ser específica demais. Por causa disso.

Existe um paradoxo no coração da narrativa: quanto mais particular uma história, mais universal ela ressoa. O pão com azeite e sal que seu avô preparava antes das refeições não é detalhe pequeno demais para ser contado. É detalhe preciso demais para ser esquecido. A diferença é tudo.


Escreva sobre aquela cicatriz que você tem. Mesmo que seja aquela que ninguém nunca viu, porque não fica na pele.

Escreva sobre o seu melhor amigo de infância, aquele que só você conhecia.

Escreva sobre a baleia que está presa na sua imaginação e louca para sair.

Escreva sobre o que te fascina. As maravilhas do mundo, as maravilhas da vida. Mesmo que seja o cheiro de uma cozinha num domingo de manhã ou o som de uma porta que sua memória ainda reconhece.

Escreva sobre o seu primeiro beijo. Sobre a primeira vez que suas pernas tremeram na presença de alguém. Sobre o último beijo seu que alguém recebeu.

Escreva sobre aquela viagem por um país que ninguém esperava de você. Conte os detalhes do cenário. Mesmo que a jornada tenha acontecido dentro de um sonho.

Escreva sobre um belo dia de sol que começou a chover.

Escreva sobre a chuva que parou.

Escreva sobre escrever.


A cicatriz que ninguém viu é mais poderosa do que a que todo mundo conhece.

Porque a cicatriz conhecida já foi explicada. Já teve contexto, já teve conclusão. Alguém já fez as pazes com ela.

A que ficou invisível ainda está viva. Ainda tem peso. Ainda carrega a tensão de algo que não terminou de ser dito.

É exatamente aí que mora uma boa história.


A pergunta "sobre o que escrevo?" não é falta de material.

É falta de permissão.

Dê a si mesmo essa permissão.

Escreva.


Fernando Palacios é fundador da Storytellers, a primeira empresa de storytelling do Brasil. Há 20 anos transforma histórias em resultado. Se você quer aprender a contar as suas, os cursos da Storytellers são o próximo passo.

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