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Antes de sua função puramente artística a narrativa já estava entre os primeiros grupos sociais humanos como um modo de transmissão de ideologia e regras de comportamento. Antes das HQ's modernas e da indústria cinematográfica, o ser humano já contava histórias para ensinar suas sociedades as regras e determinar o que se esperava de cada um de seus cidadãos. Não é a toa que os mitos Gregos e Romanos estão recheados, quase transbordando, de personagens com grande respeito as regras, tanto de seus deuses, quanto de seus imperadores. Afinal, era isso que se esperava de todo cidadão Grego ou Romano, heroísmo e honra em nome de suas crenças.

Já foi discutido e eu diria até comprovado o fato de que tais narrativas faziam parte de um importante kit de processos usados por tais sociedades para manter seus soldados motivados a morrer pelas ordens do império, sua mulheres orgulhosas dos homens que se distanciavam cada vez mais de suas famílias para defender a honra de sua sociedade e os filhos desses homens, que ouviam essas mesmas histórias, se mantinham motivados e treinar e se tornar mais um soldado, cheio de honra.

Concorde ou não comigo, concorde ou não com o vídeo a baixo, o importante aqui é perceber que a narrativa tem uma função social. As histórias que contamos de certa maneira representam as histórias que vivemos, ou que queremos viver, no sentido em que tais histórias representam os valores do grupo que as conta, mesmo que nem todos do grupo concordem com isso. A partir da consciência de que as histórias que contamos influenciam nos valores que ensinamos para a nossa própria sociedade, fica difícil pensar no storytelling sem considerar a força da narrativa. O vídeo abaixo trata de assunto com um visão bastante interessante, focando principalmente nas histórias contadas pela indústria do entretenimento, mas a discussão é importante para qualquer tipo de contador de histórias, de professores a roteiristas, devemos todos considerar a importância social das narrativas. 






Há muitas maneiras de se olhar para o trabalho de um escritor, seja ele literário, publicitário ou apenas amador. Mas a escrita é uma arte complexa cheia de estruturas, segredos e técnicas e a única maneira de tentar, pelo menos, alcançar um nível de controle disso tudo é através do estudo e do conhecimento do processo criativo de quem admiramos, ou de quem os outros admiram.

J.J. Abrams é um dos caras mais respeitados (e mais malucos) que eu conheço no mundo de contar histórias. Fascinado por como as coisas são feitas e como elas funcionam o produtor e roteirista norte americano atribui a estrutura de suas narrativas ao conceito de uma caixa de mistérios. Pensando assim fica fácil entender de onde vem tantas perguntas e tantos mistérios para quem assiste Lost, por exemplo. 
Para entender melhor o processo criativo de J.J. Abrams é só dar o play no vídeo ai de baixo e se preparar pra 18 minutos de mágica, mistério e segredos das narrativas.






Ultimamente tenho pesquisado histórias africanas. De repente, um interesse foi despertado. Talvez seja pela descendência, uma vez que meu avô materno é filho de uma escrava com um português. Comecei a pensar o que eu sei sobre a África. Fiquei envergonhada... É pouco demais... E você, o que sabe sobre esse continente?

Nessas buscas reencontrei esse TED, que já tinha visto há um tempo, mas nem de longe naquela época ele fez o sentido que hoje ele faz. Está aí um dos atributos do storytelling: as histórias são capazes de ressignificar e quando se encontra um significado que faz sentido a atenção é capturada.




NO TED a romancista nigeriana Chimamanda Adichie nos faz um alerta: "A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história."

Assim como muitos de vocês, eu também tinha uma única história sobre a África antes de começar a pesquisar as histórias daquele continente, que são riquíssimas e inspiradoras, diga-se. Chimamanda tem uma fala que me remete à única história que os estrangeiros têm do nosso país: samba, futebol, carnaval, favelas, corruptos... É o retrato boa parte dos filmes nacionais passa. E esse retrato é o que fica também para nós, afinal o país tem dimensões continentais e nem todos têm a possibilidade (e até interesse) de conhecer tudo.  

Nas andanças pelo universo das histórias conheci uma escritora tocantinense. E lá veio a pergunta martelando internamente: o que eu sei sobre o Tocantins, seu povo, sua história? Mais uma vez era pouco... Com a leitura de dois de seus livros descobri algumas coisas, inclusive que o pirarucu -- um peixe típico da região -- pode chegar a 250 quilos! 

Para alguns isso pode soar como cultura inútil. Eu não acredito nisso. Acho que o storyteller tem o dever de saber mais e mais sobre tudo e sobre todos. Quanto mais referência, melhor. E como bem pontuado nesse TED, que sejam referências diversas e não apenas uma única história, imposta como verdade absoluta e enfiada goela abaixo. 


Carminha andava de um lado pro outro no corredor, todo pintado de branco, ansiosa como quem espera o resultado de um importante exame médico. Mas a verdade é que naquele prédio não havia médico algum, dentro da sala estavam os dois avaliadores de arte que a moça mandou vir da Europa para analisar o quadro que encontrara na garagem de sua avó. Dizia uma lenda familiar que aquele quadro tinha se perdido e que era uma grande obra de Van Gogh que a família Couto trouxera ao Brasil há várias gerações.

O Bizavô de Carminha era um grande negociador de arte e teria conseguido esse quadro com um excêntrico milionário que possuía em seu porão uma vasta coleção de arte. De acordo com os relatos de sua avó o milionário teria dado o quadro para o amigo como retribuição por um favor, mas ninguém nunca soube que favor era esse.

Quando sua avó faleceu Carminha já conhecia a história, mas acreditava na versão de que o quadro teria sido vendido, ou se perdido entre as gerações há anos e jamais esperava encontrá-lo na garagem, enrolado em velho cobertor.

Se aquele quadro fosse o original a vida de Carminha ia mudar e ela sabia disso.
– “Calma Carmem, ninguém vai morrer por causa desse quadro!” – Dizia Caio o marido da moça nervosa
– “Não entendo! Qual é a diferença se o quadro é verdadeiro ou não? Você disse que nem vender vai!” – completava o rapaz tentando acalmá-la.

Carmen pensava sem responder ao marido – “Não vou vender! Claro que não! É o quadro da minha família! Mas se for verdadeiro, ah... se for verdadeiro”

- as últimas palavras de seu pensamento escaparam pela boca em um tom de ânimo, deixando o marido ainda mais confuso e sem entender qual era a importância do quadro ser ou não verdadeiro se ela nem iria aproveitar de seu valor.

Afinal, qual é a diferença na beleza do quadro se foi ou não Van Gogh quem o pintou? 





http://www.ted.com/talks/lang/en/paul_bloom_the_origins_of_pleasure.html