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Não! Nenhuma palavra é por acaso. Isso eu te garanto. Do cinema hollywoodiano ao mais amador dos poemas, eu posso garantir que, experiente ou não, nenhum escritor, seja ele um adolescente apaixonado ou um redator publicitário, coloca palavras em vão no papel.

Aliás, escrever em si já é um ato consciente, não nascemos sabendo idiomas, regras gramaticais e muito menos os significados sutis das palavras, portanto, nem que seja a consciência da “força que nos domina” ao escrever, estamos sempre conscientes de alguma forma.

Há quem diga que o que está no papel é ficção, por isso cunhamos o “baseado em fatos reais” e não o “essa é uma história real”. Se estamos conscientes é porque temos alguma, nem que seja pouca, experiência de vida. E dizem os especialistas, filósofos, sociólogos e até alguns pensadores de boteco que são essas experiências que criam, no fim das contas, as lentes pelas quais enxergamos o mundo.
Hitchcock já dizia que a “história é a vida sem as partes chatas” e para quem assistiu Storytelling, o filme,  a mensagem é clara: não importa quão baseada em fatos reais seja a sua história, ela será, sempre que posta no papel, uma ficção.

Esse é, no fim das contas, o trabalho de muitos de nós, a descoberta das palavras, a brincadeira despretensiosa com a linha de equilíbrio entre a realidade e a ficção. A válvula de escape do que está preso dentro de nós. A nossa profissão é a constante busca pelo poder de transformar uma sala de cinema em uma máquina de viagens intercorporais. Um livro é uma porta para o outro lado da janela, o lado de dentro dos olhos de outra pessoa.

Assusta-me o espanto das pessoas quanto a descoberta da ficção na publicidade. Não consigo entender como é que podemos esperar realidade em anúncios que tem por objetivo maior alterá-la e torna-la palatável. Não estamos falando de mentiras, estamos falando de um ato natural de mostrar o melhor que podemos sobre os nossos produtos e marcas, apenas isso. É como uma conquista qualquer, ninguém sai por ai demonstrando todos os seus defeitos no primeiro encontro.  

Há entre o acordo de suspensão da realidade e uma redação publicitária, muito mais do que a nossa vã filosofia é capaz de imaginar. “Abrir a felicidade” é tão ficção quanto a história do avô que veio da França com sua receita de sorvetes na qual um dos principais ingredientes é a neve. Usar neve para fazer sorvetes não é absurdo o bastante para que entendamos que a história é uma ficção? Ou quando abrimos uma lata de Coca, saem dela raios da cor do arco-íris recheados de felicidade?


Não! Nenhuma palavra é por acaso. Ainda mais quando escritas por mais de 4 mãos e 2 cabeças. Ainda mais quando admitimos que entidades corporativas não humanas, símbolos artificiais com significados cuidadosamente criados através da utilização de ciências que vão desde etimologia e semiótica até a física das cores e química das tintas, todas resumidas como “branding”. Não entendo, enquanto sento na frente do meu computador de onde é que veio a expectativa de que o sorvete de neve era real. Realmente, não entendo. Houve, é claro, um erro na criação da história. Algo que a tenha a feito parecer um pouco mais absurda, ou seja, ficcional, talvez fosse a solução. Talvez se na histórias houvessem monstros e elfos o mercado não estaria tão inconformado. O que nos leva ao ponto mais curioso de toda a discussão entorno da ética do storytelling: vivemos em um tempo no qual para ser verdadeiro, talvez precisemos ser fantásticos. 




O “Primeiro de Abril” é, antes de tudo, um grande erro de tradução quando chamado de “dia da mentira”. Conhecido nos Estados Unidos como “April Fools”, lá e em diversos outros países de outras línguas este não é lembrado como um dia de mentir, mas sim de pregar peças, sacanear.
Segundo conta a história, o dia primeiro de Abril marcava o fim das festas de passagem de ano no calendário Juliano – junto à chegada da primavera na França. Foi aí que o rei Carlos IX determinou a mudança para o calendário Gregoriano, mudando o dia da passagem de ano para como conhecemos e comemoramos hoje. Em meio a essa mudança, se aproveitando dos mais desinformados, havia os que enviavam convites falsos a festas de passagem de ano no dia um de Abril. E assim surgiu a tradição do “Dia dos Tolos”.
Verdadeira ou mentirosa, ou ainda mais profundo que isso: real ou ficcional, essa versão da história nos parece passível de acreditar porque acima de tudo é convincente, relevante e principalmente condizente com os valores que a tradição do “Dia dos Tolos” quer transmitir. E assim também funciona com as histórias que as marcas querem contar.

Se a marca de roupas Hollister foi de fato fundada em 1922 por um aventureiro americano que se opunha a vida quadrada de seu pai ou se a primeira loja só passou a existir no ano 2000, 78 anos de ficção pouco importa se eles foram imaginados da mesma forma que o imaginário do consumidor funciona em relação aos produtos da marca.
Para os mais desconfiados que insistem em achar que histórias inventadas são mentiras bem como o “Primeiro de Abril” é o dia da mentira, a neurociência rebate e comprova que nosso cérebro é sim programado para inventar informações que não existem “realmente” conforme se faz necessário.

E que a tradução agora correta de “April Fools” para “Dia dos Tolos” nos sirva como metáfora pra entender que uma história ficcional de uma marca só é mentira quando é contada como se fosse dia primeiro de Abril, ou seja, fazendo o consumidor de tolo.