Mostrando postagens com marcador verossimilhança. Mostrar todas as postagens


Ingrediente básico de uma boa história, a "verossimilhança" não deve ser confundida com "veracidade" já que um fato não precisa ter acontecido para que pareça real. Para ser verossímil basta ter aceitação lógica, ser intuitivamente verdadeiro.

É um conceito simples, que torna complexa o ofício de escrever histórias. Dizem que o papel aceita tudo, mas uma história, não: não dá pra ser contraditório ou "forçado" sem arrancar da audiência protestos descrentes tais como "ah, vá; até parece que ele mergulhou nessa água gelada e não vai morrer de hipotermia...". É depois de um momento como esses que a Dulce levanta de seu sofazinho e vai ao banheiro, ou que Isa retorna o livro para repousar na prateleira.

E não é apenas culpa da audiência. Muitas vezes o autor gostaria que uma das tramas da história seguisse um rumo estratégico, que deixaria tudo mais fácil para a construção do climax. Para isso, bastaria que um de seus personagens tomasse uma determinada atitude. Mas o problema é que se essa atitude for inverossímil, o próprio personagem refuta.

É como burro quando empaca, não adianta, o Caio não vai adiante se não tiver uma boa justificativa e uma motivação real para sair correndo do restaurante e acabar sendo atropelado por um ônibus, para então ser levado às pressas para o hospital onde irá conhecer a não-tão-bela enfermeira Neide, por quem irá se apaixonar. Ainda mais ele, Caio Gama-Schwartz, considerado como "o mais centrado da família" pelos próprios parentes de classe média-alta.

Mas talvez seja a verossimilhança uma das grandes bênçãos para um autor, pois ela o obriga a explorar mais todos os assuntos tratados e também a mergulhar mais profundamente no universo interno da mente humana. E aí acaba construindo um universo muito maior e realizando descobertas; e são elas que acabam mostrando o caminho.

Afinal, se não fosse pela verossimilhança, o autor jamais saberia que a Neide - que trabalha no hospital das Clínicas e escolheu ser enfermeira porque perdeu os pais muito cedo e se sentiu culpada por não poder ajudar - visita semanalmente o cemitério Araçá para distribuir flores doadas pelo Chico do Box 4 da Dr. Arnaldo. Trata-se do mesmo cemitério em que está a tumba dos Gama-Schwartz.


Quer saber mais sobre Storytelling? Leia o artigo completo

Quer mais resumos? acesse o nosso canal

´
Ingrediente básico de uma boa história, a "verossimilhança" não deve ser confundida com "veracidade" já que um fato não precisa ter acontecido para que pareça real. Para ser verossímil basta ter aceitação lógica, ser intuitivamente verdadeiro.

É um conceito simples, que torna complexa o ofício de escrever histórias. Dizem que o papel aceita tudo, mas uma história, não: não dá pra ser contraditório ou "forçado" sem arrancar da audiência protestos descrentes tais como "ah, vá; até parece que ele mergulhou nessa água gelada e não vai morrer de hipotermia...". É depois de um momento como esses que a Dulce levanta de seu sofazinho e vai ao banheiro, ou que Isa retorna o livro para repousar na prateleira.

E não é apenas culpa da audiência. Muitas vezes o autor gostaria que uma das tramas da história seguisse um rumo estratégico, que deixaria tudo mais fácil para a construção do climax. Para isso, bastaria que um de seus personagens tomasse uma determinada atitude. Mas o problema é que se essa atitude for inverossímil, o próprio personagem refuta.

É como burro quando empaca, não adianta, o Caio não vai adiante se não tiver uma boa justificativa e uma motivação real para sair correndo do restaurante e acabar sendo atropelado por um ônibus, para então ser levado às pressas para o hospital onde irá conhecer a não-tão-bela enfermeira Neide, por quem irá se apaixonar. Ainda mais ele, Caio Gama-Schwartz, considerado como "o mais centrado da família" pelos próprios parentes de classe média-alta.

Mas talvez seja a verossimilhança uma das grandes bênçãos para um autor, pois ela o obriga a explorar mais todos os assuntos tratados e também a mergulhar mais profundamente no universo interno da mente humana. E aí acaba construindo um universo muito maior e realizando descobertas; e são elas que acabam mostrando o caminho.

Afinal, se não fosse pela verossimilhança, o autor jamais saberia que a Neide - que trabalha no hospital das Clínicas e escolheu ser enfermeira porque perdeu os pais muito cedo e se sentiu culpada por não poder ajudar - visita semanalmente o cemitério Araçá para distribuir flores doadas pelo Chico do Box 4 da Dr. Arnaldo. Trata-se do mesmo cemitério em que está a tumba dos Gama-Schwartz.

.


David Bodanis é um historiador e escritor que pegou o espírito storytelling em um de seus livros, Universo Elétrico.

Com o objetivo de mostrar a importância da eletricidade, ele optou por trocar a escrita técnica, e chata, por uma forma mais romanceada e gostosa de ler.

Não li esse livro, mas os comentários do Tiago Dória me chamaram bastante atenção:

"Sem ser técnico, apresenta os protagonistas dessa história como mocinhos ou vilões ou, em certos momentos, como uma mistura dos dois. O mais marcante na leitura do livro é o fato de Bodanis revelar os pontos mais obscuros de diversos inventos que surgiram em torno da eletricidade..."

Em outras palavras, o autor sabe que um mocinho só não faz verão. História é, dentre muitas coisas, conflito e verossimilhança. Uma história só de heróis se torna chata, e uma história só com heróis e vilões se torna caricata e inverossímil. Na vida todo mundo tem um pouco dos dois...

"O telefone foi criado, antes de tudo, por que Graham Bell queria se comunicar melhor com a sua namorada, que era surda. Ou seja, num primeiro momento, o telefone surgiu como um aparelho contra surdez."

Bom saber que Graham Bell não inventou o telefone do nada. Teve um motivo, e como tudo aquilo que nos motiva, foi bastante humano. Essa pequena narrativa já é capaz de tornar a informação de que um sujeito inventou o telefone muito mais interessante. Aposto que você nunca mais esquecerá disso.

Agora imagine se o telefone fosse um produto ou uma marca...