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Bloqueio criativo: mãos sobre teclado diante de tela em branco, representando o desafio de desbloquear a escrita mesmo com IA

Bloqueio criativo é a incapacidade de começar ou continuar um trabalho de escrita, não por falta de talento ou ferramenta, mas por medo de ser visto no próprio texto.

Em 2026, com acesso a inteligência artificial que escreve parágrafos inteiros em segundos, milhões de pessoas ainda travam diante da tela. A prova definitiva de que o conflito nunca foi técnico.

Isso já se tornou um padrão nos últimos 20 anos. Muitas pessoas me procuram dizendo que estão com um conflito danado na hora de começar a escrever: simplesmente não conseguem. Em 2006, quando fundei a Storytellers, a desculpa era falta de tempo. Em 2015, falta de técnica. Em 2020, falta de inspiração.

Em 2026, a desculpa mais sofisticada de todas: "tenho IA, mas ainda não consigo."

O bloqueio nunca foi sobre capacidade

Pense nisso. Você tem acesso a ferramentas que escrevem parágrafos inteiros em segundos. E mesmo assim trava diante da tela. Isso deveria te aliviar, não assustar. Porque prova que o bloqueio nunca foi sobre capacidade técnica. Nunca foi sobre vocabulário, gramática ou estrutura.

O bloqueio é sobre coragem. Sobre se permitir ser visto no texto.

A IA escreve por você. Mas não escreve você.

E é justamente por isso que a saída é escrever. Escrever apesar de tudo.

Escreva apesar de tudo

Fazer outra coisa só vai te distanciar daquilo que você deveria estar fazendo. Escrevendo. Escrevendo já sabendo que todas aquelas palavras que estão sendo digitadas em breve serão deletadas. Escrevendo mesmo achando que a sua história não valha nada. Escrevendo até mesmo seus pensamentos negativos sobre a sua escrita. Escrevendo até que do meio de tudo aquilo que você considera esterco vire adubo.

Uma hora algo floresce.

A verdade é que quase todas as palavras escritas ficarão no escuro da lixeira, sem jamais ver a luz do dia.

O que escritores profissionais não contam

Mesmo os romancistas mais consagrados, com 30 anos de profissão e prêmios mundiais de literatura, trabalham em média dez horas para produzir uma página publicável. E é óbvio que eles não escrevem devagar. O ponto é que de tudo o que escrevem apenas uma página se salva. É um ofício de garimpo, esse do autor. O autor passa as horas minerando a própria mente até encontrar uma frase ou ideia preciosa.

Percebe a ironia? O escritor profissional já tem o talento e ainda assim descarta 90% do que produz. Você, que está começando, quer acertar de primeira. Quer que cada frase saia perfeita antes de tocar o teclado. Ou pior: quer que a IA entregue a versão final sem que você precise transpirar.

Não funciona assim. Nunca funcionou.

Existe uma razão neurológica para isso: o cérebro precisa do processo de escrita para organizar o pensamento. Pular essa etapa é como tentar colher sem ter plantado.

O aquecimento de 100 páginas

Existe um conto do Richard McKenna, o autor americano que passou duas décadas na Marinha antes de se tornar escritor, em que ele diz que precisou escrever 100 páginas de texto para só então começar a escrever a primeira página do seu primeiro livro. McKenna sabia o que era encarar uma folha em branco depois de anos sem praticar. E mesmo assim: 100 páginas de aquecimento.

Escrever é isso mesmo. É explorar seu mundo imaginário com palavras. É uma expedição sem a menor garantia de grand finale. Até por isso o grande talento de um autor não é a habilidade de criar ou de contar uma boa história, mas essa espécie de perseverança inexplicável.

A disposição para acordar todos os dias pronto para travar mais um duelo contra a página em branco.

"To write is to write is to write is to write."
Gertrude Stein

Dê férias para o editor interno

Então faça como ela e escreva. Escreva tendo em mente os escritores que datilografavam suas histórias em máquinas Olivetti e enchiam os cestos de lixo com bolas de papel. Escreva pensando que você ainda não deve pensar na qualidade. Escreva sabendo que uma hora você vai ter que voltar, reler e editar tudo.

Escreva, mas escreva sem o editor do seu lado. Dê férias para ele, ou ele te trava.

Escreva com a criatividade infantil e descompromissada. Agora é hora de brincar com a criança interior e deixar para mais tarde o editor adulto.

E a IA nessa história?

Use. Só não use como muleta. Use como sparring.

Escreva primeiro, com suas palavras, seus vacilos, seu esterco. Depois jogue o texto para a máquina e deixe ela devolver de um ângulo diferente. Deixe ela te provocar, te questionar, te mostrar o que você disse sem perceber que disse. A IA é um espelho que fala de volta. E espelho serve para você se ver, não para se substituir.

O perigo não é usar IA. O perigo é pular a parte em que você transpira. Porque é na transpiração que o texto vira seu. A IA pode polir, pode amplificar, pode reorganizar. Mas não pode suar por você. E é no suor que mora a voz.

Se quer se aprofundar nessa relação entre o humano e a máquina na escrita, leia Storytelling com IA e sem.

Sua única arma

Então escreva. Escreva bêbado de criatividade, sem censura, sem filtro. Depois edite sóbrio, com rigor, com bisturi. E lembre: toda vez que você se deparar com um bloqueio criativo, eis mais um motivo para encarar o papel ou o computador e escrever. Escrever nem que seja por escrever. Escrever até cansar de se irritar por estar escrevendo tanta bobagem. Escrever até a câimbra afligir os dedos e chamar isso de aquecimento. Escrever até o editor em você concluir que a única explicação para você ignorar seus berros seja que seus ouvidos já não funcionam.

Escrever sabendo que sua única arma é escrever.

E que nenhuma inteligência artificial substitui isso.


Perguntas frequentes sobre bloqueio criativo

Bloqueio criativo é falta de talento?

Não. Escritores profissionais com décadas de carreira e prêmios internacionais descartam 90% do que produzem. O bloqueio não é ausência de capacidade, é medo de produzir algo imperfeito. A resolução está em aceitar que a escrita é um ofício de garimpo: você minera até encontrar algo que valha.

A inteligência artificial resolve o bloqueio de escritor?

Não, e essa é a prova mais intrigante de 2026. Milhões de pessoas têm acesso a IA que gera textos instantaneamente e ainda assim não conseguem escrever. Porque o bloqueio é sobre coragem de se expor no texto, não sobre falta de ferramenta. A IA escreve por você, mas não escreve você. Use como sparring, não como muleta.

Escrever todo dia realmente ajuda a superar o bloqueio?

Sim. O autor Richard McKenna precisou escrever 100 páginas antes de conseguir produzir a primeira página publicável do seu primeiro livro. Escrever é aquecimento. Quanto mais você pratica, mais rápido acessa a camada onde mora o material que vale a pena. Não é disciplina por disciplina: é prática que constrói um caminho neural para a criatividade.

Qual a relação entre storytelling e superar o bloqueio criativo?

Storytelling é método, não dom. Quando você aprende a estruturar uma história, o bloqueio diminui porque você tem um esqueleto para preencher. A página em branco assusta menos quando você sabe que toda boa história precisa de conflito, transformação e resolução. O método substitui a dependência de inspiração.


Próximos passos

Se esse texto te provocou, aqui estão caminhos para continuar:


Sobre o Autor

Fernando Palacios

  • 2x World's Best Storyteller (único brasileiro bicampeão mundial, World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018)
  • Fundador da Storytellers (2006), primeira empresa de storytelling do Brasil, completando 20 anos em 2026
  • Autor do bestseller "O Guia Completo do Storytelling"
  • Mentor de Nike, Coca-Cola, Pfizer, Itaú, Google, Yamaha
  • Mais de 30 mil profissionais treinados em 10 países
  • Professor em FIA, ESPM, FGV, IED


Existe uma variedade enorme de gêneros e sub-gêneros de escrita, seja para cinema, games ou literatura. E dentro deles ainda é possível notar uma infinidade de estilos, cada escritor pode ter o seu com sua personalidade. 

Quem está começando costuma se inspirar em alguém (e claro, isso também serve para os nomes famosos que tiveram suas próprias referências no começo da carreira).   Você já pensou sobre, qual tipo de autor você é? Do tipo Tarantino ou do tipo Anne Rice?

Vamos dar uma mãozinha nesse processo de descoberta.  Curta a nossa fanpage e faça nosso teste para descobrir qual é o seu perfil. Acessem pelo link -  bit.ly/StoryTeste



O herói galanteador dos tempos modernos Barney Stinson tem muito mais à oferecer para os storytellers de plantão do que apenas "jogadas" para conquistar mulheres. Suas complexas estratégias contém importantes lições de como se construir um bom personagem.

1. BACKSTORIES 

A primeira coisa que um personagem precisa é uma história, algo que justifique o seu comportamento e que possa ser usado, de tempos em tempos, para revelar mais sobre ele e tornar os espectadores mais íntimos. De onde ele vem? O que ele faz? Qual é o seu nome? E o sobrenome? Onde ele mora? Como é a sua casa? Do que ele gosta? O que ele fazia quando era criança?

Todas essas perguntas devem ser respondidas, mesmo que seja só para o autor. Eu costumo dizer que um personagem é bom quando o conhecemos como conhecemos o nosso melhor amigo, quando sabemos como ele reagiria nas mais diversas situações. Quanto mais você conhece o personagem, mais fácil fica de saber o que ele faria se o mundo fosse acabar amanhã, ou se o amor da sua vida estivesse mudando para outro continente. Além disso, quanto mais o espectador conhecer do personagem, mais íntimo eles estarão e maior será o interesse do espectador na vida do personagem. Faça com que o espectador acredite que o personagem é um de seus amigos e ele sempre terá um motivo para vê-lo.

2. O DIFERENTE É ATRAENTE 

Não é a toa que os personagens de Barney Stinson tem nomes peculiares, profissões curiosas e hábitos quase absurdos. Nós somos seres naturalmente curiosos, quanto mais estranha for uma situação, mais iremos querer saber sobre ela. Crie nomes que chamem a atenção e sobrenomes que possam conter histórias. Usar sobrenomes estrangeiros pode ser uma boa pedida.

Elementos que não deveriam pertencer mas pertencem, como latas de sopa em galerias de arte, ou carros em janelas de prédio tem sido usados pela publicidade para chamar a atenção há muito tempo e ainda funciona com os seus personagens. Use o seu estilo de roupas para torná-lo único, seja um cara que só veste ternos ou um jovem cientista da década de 90 que só veste jalécos, assim como na vida real, na ficção a sua roupa diz muito sobre você.

3. PENSE NAS VARIÁVEIS 

Criar um personagem para a ficção é como criar um personagem para conquistar as garotas do bar. Há muitos fatores externos que podem atrapalhar o seu personagem, dificultar a sua atuação ou, até mesmo, destruir o personagem por inteiro. Pense nos fatores externos que podem afetar o seu personagem. Seus amigos, o trânsito da cidade ou a bolsa de valores. Se o seu objetivo é criar um personagem verossímel, em algum momento o mundo tem que afetá-lo. Não adianta dizer que ele é um economista e deixá-lo simplesmente alienado ao seu mundo profissional, são esse links com a realidade, essas diversas possibilidades que fazem um personagem funcionar ou não, seja no papel de um livro, na tela da TV ou na mesa de bar.



Muitas vezes falamos de Storytelling como a mais nova descoberta da humanidade, outras como a coisa mais antiga que existe no mundo. A verdade é que contar histórias é algo tão complexo e poderoso e acaba tornando realidade esse paradoxo.

Para entender melhor isso tudo é preciso partir da ideia de que storytelling é uma tecnologia, ou seja, uma forma de um técnica (narrativa) que encontrou a ciência e se tornou um processo capaz de ser reproduzido. A técnica, que podemos chamar de "contar histórias" está realmente acompanhando a humanidade desde os nosso primórdios, mas não faz muito tempo que a ciência da comunicação virou seus olhos para essa técnica e finalmente passou a transformá-la em tecnologia, e isso sim é novo, a tecnologia da comunicação conhecida como storytelling é absolutamente nova no mundo da comunicação e estamos todos batalhando para tentar entender toda a sua complexidade.

Uma das notícias mais interessantes que eu vi nos últimos tempos sobre storytelling enquanto tecnologia chegou até mim pelo Fernando Palacios em um link para o The Guardian, um dos jornais britânicos de maior importância internacional. A manchete lê-se Penny Bailey sobre escrita científica: "Você precisa saber contar uma  boa história."

A matéria que se inicia com a afirmação de Penny Bailey de que "é fácil se enrolar com as especificações científicas e esquecer da história que trás tudo aquilo a vida" quando se está escrevendo sobre ciência, mostra que os cientistas também se apoiam em certas formas narrativas para potencializar a compreensão de seus artigos e explicações. Para Bailey existem alguns fatores importantes que devem estar presentes em uma boa história científica, entre esses fatores estão também alguns dos aspectos mais importantes do storytelling na comunicação, coisas como "aspecto humano" que torna todo o texto vivo de certa maneira, a novidade científica que gera curiosidade e os conflitos que tiveram que ser superados.

Durante sua entrevista Bailey dá X dicas importantes sobre escrita científica que podem servir de lição de casa para qualquer storyteller.

1. Saiba contar a sua história e conheça o conteúdo do qual está falando.

2. As metáforas podem ser usadas para dar explicações difíceis ou oferecer um ponto de vista diferente durante o texto.

3. Cuidado para não se perder nos detalhes do conteúdo, dê ao expectador o que realmente importa.

Para mais detalhes sobre a relação entre storytelling e a escrita científica vocês podem acessar a entrevista original em inglês aqui http://www.guardian.co.uk/science/2013/mar/27/penny-bailey-science-writing-wellcome





Escrevo contos e alguns poemas há um tempo, com a intenção de expressar o que estou sentido e, às vezes, tentar responder algumas perguntas que estão me rondando. Porém, fazia isso naturalmente, por “instinto”, sem me atentar necessariamente para técnicas. Então, em determinado momento descobri que era possível, de certa forma, “racionalizar” essa escrita - e sendo o meu primeiro texto aqui, escrevo sobre isso que foi o que me despertou interesse em Storytelling.
Apesar de a escrita autoral ser uma descarga do que se está sentindo, de experiências vividas, referências pessoais, ou seja, em essência particular e criada naturalmente, é possível encarar a criação como um projeto, com etapas definidas e com elementos narrativos que, se não necessários, são aconselháveis que sejam incluídos no texto. Assim, fazer uso de um “plano de escrita”.
Um plano de escrita, fazendo uso das técnicas de storytelling, deve considerar alguns aspectos como, por exemplo, a existência de “brain rules”, que nos dão um caminho de como capturar a atenção das pessoas, nos mostrando que estamos mais propensos a nos atentar a questões de ameaça (instinto de sobrevivência), sexo (instinto de reprodução) e emoções (que é aquilo que nos faz humano).
Com esses elementos chamando atenção das pessoas, alguma coisa tem que acontecer na história. Algo tem que ser transformado: o personagem, o universo onde ele está inserido, um modelo pelo qual ele lutou contra etc. Se uma história merece ser contada, é porque algo aconteceu, é porque alguma coisa mudou do início para o seu fim.
Essa mudança pode ser a superação de uma rivalidade que o personagem enfrenta no decorrer da história, podendo ser com outro personagem, com um objeto, com o status quo, entre outros.
Outro elemento auxiliador é o cronograma. Podemos tirar dos projetos empresarias esse ensinamento, que conta com um cronograma em todo projeto bem estruturado. Encarar a escrita como algo planejado, então, faz necessário uma pequena organização das datas: o que pretendo ter em determinado dia, quais avanços devo fazer hoje, quando pretendo ter o projeto finalizado etc.
Vale lembrar que na criação de uma história não existe fórmula e nada está totalmente certo nem errado, e que as técnicas não se esgotam nessa breve pincelada apresentada. Até as brain rules podem ser desconsideradas. Também, mesmo que com um projeto estruturado, o “instinto” pode tomar conta e se entregar a ele seja o melhor caminho para a sua história. Contudo, pensar a escrita como um projeto pode ajudar na medida em que torna o processo, de certa maneira, mais estruturado.




Há pouco tempo um amigo enviou um e-mail para mim e para mais algumas pessoas, pedindo ajuda na divulgação de uma vaga para redator publicitário em sua agência. Na descrição da vaga lia-se: "Precisamos de alguém que não se atenha a títulos e chamadas, alguém que goste mesmo de escrever". Dentre tantas outras coisas foi essa frase que me chamou mais a atenção por um motivo simples.

Quando uma agência começa a salientar a importância do desenvolvimento de textos e não apenas de títulos e chamadas para uma vaga de redator, podemos ver, a partir desse pedido um sintoma de algo que está acontecendo na publicidade. Não cabe a mim, com a minha pouca experiência avaliar os motivos pelos quais isso ocorre, mas o fato é que, os redatores, ao que me parece, sofrem de um vício, ou mania, de contenção de palavras. Vários foram os livros que eu li sobre o assunto em que o autor enfatiza a importância do talento de dizer muito com poucas palavras no mundo publicitário. Acho até que é ai que entra o talento do redator, o poder de economizar o tempo do consumidor sem deixar de dizer o que deve ser dito.

Já o escritor literário, aquele que investe seu tempo e trabalho sob o olhar e os cuidado da imaginação, sofre da síndrome oposta. A arte é difícil de ser controlada e muitas vezes a economia de texto não é o forte de um romancista. Apesar de ser uma habilidade bastante salientada pelos maiores mestres da literatura. Como já devo ter mencionado nesse mesmo blog em algum outro post, Hemingway dizia que o bom escritor publica apenas 10% daquilo que escreveu sem deixar nada importante de fora, é claro.

Quando falamos do storyteller, tratamos de uma criatura curiosa, que vive entre os desafios mercadológicos enfrentados pelo redator publicitário e as nuances imprevisíveis da imaginação. Um romancista, acostumado a liberdade da arte teria dificuldades em se manter dentro das linhas bem definidas de um briefing, assim como, um desses publicitários de títulos apenas, talvez se demorasse para encontrar seu caminho por entre tantos parágrafos e capítulos que se fazem necessários para um conto ou romance.

Devo dizer, que é corajoso esse tal storyteller que escolhe se aventurar em uma jornada em um lugar de riscos mil, divididos entre a imaginação do romancista e a criatividade econômica do redator. O escritor que se aventura a dar vida aos cinquenta anos de uma empresa, sem perder de vista a complexidade de um herói romântico capaz de tirar das pessoas, ao unir ambas as habilidades, não apenas suas emoções mais profundas como também o desejo ao consumo. 

Esse post faz parte de uma série de posts que irão ser publicados por mim aqui no storieswelike durante a semana, o tema da semana é "realidade e ficção".




Essa é a história do filho de um famoso mágico, que aprendeu tudo com o pai antes de sua morte. Porém, ninguém levava a sério uma criança ilusionista e por isso o garoto começou a fazer seus truques dizendo que era mágica. Sem saber onde estava sua mãe ele partiu, ainda criança, em uma longa viagem pelo país em busca da única família que lhe restava e deixou no caminho uma longa lista de amigos e inimigos, pessoas que o amavam e o odiavam por sua mágica.

Certa manhã ele chegou em uma cidade e só sairia de lá ao entardecer, então pegou sua mochila, suas cartas e foi para a praça central. Era assim que ele ganhava dinheiro para comprar comida. Fazendo mágica em praça pública. No início ninguém parou pra assistir, até uma criança, um garoto mais jovem do que ele, sentou no chão, do outro lado da rua e ficou admirado pelos truques de um ilusionista tão novo.

O dia passou e o jovem já estava cansado de suas próprias brincadeiras, o chapéu no chão já devia ter dinheiro o suficiente para uma refeição e se não partisse logo, ele perderia sua carona. Então deu o show por encerrado e agradeceu a bondade de todos. Esperou que estivesse sozinho e começou a arrumar suas coisas, ao abaixar  para pegar sua mochila deixou cair uma carta da manga de sua jaqueta. Assustado recolheu a carta do chão e percebeu que do outro lado da rua, estava o menino que havia passado a tarde inteira sentado, assistindo sua apresentação. O olhar triste do garoto o emocionou, ele foi até lá e perguntou o que estava o deixando triste, qual era o problema.

- O problema é que você não faz mágica, apenas truques... - disse a criança muito triste.

- Claro! Ninguém faz mágica amiguinho, mágica não existe... - disse ele ao perceber que o menino vira a carta cair de sua manga.

- Eu sei que não... mas, enquanto você se apresentava parecia mágica, era bonito, agora que eu sei como você faz, me sinto enganado.

Confuso pelo que estava acontecendo o garoto foi embora, não entendia como alguém podia gostar de ser enganado, nem como a verdade podia deixar alguém tão triste. Aquilo não fazia sentido para ele. Já na estrada novamente ele contou ao seu companheiro de viagens o que tinha acontecido e o senhor, de voz calma e com a face sorridente lhe respondeu. "Meu jovem, ninguém gosta de ser enganado, mas todos gostam de acreditar em mágica."

Foi ai que ele percebeu que o seu desafio não era fazer truques e sim, fazê-los de maneira que não enganasse ninguém, sem dizer se era mágica ou não, sua função era apenas deixar que as pessoas sonhassem com o que preferissem sonhar. É como um escritor, ou um contador de histórias, que busca mais honestidade do que realidade.