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DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL


Dia 18 de Abril! Dia nacional da literatura infantil!

Parabéns para você que lê histórias todos os dias antes do seu filho dormir, que já contou algum causo pra sua sobrinha, que chora ao lembrar da sua avó narrando as histórias do saci ou que simplesmente um dia sonhou nos contos que ouvia na infância.

A data foi escolhida em homenagem ao grande Monteiro Lobato, tantas vezes lembrado aqui no Blog. Lobato pode ser considerado o pai da literatura infantil brasileira pois na sua obra resgatava a identidade do povo sertanejo e ícones do folclore, sempre aliando com histórias lúdicas, divertidas e inteligentes.

Como o próprio sabiamente já dizia: Um país se faz com homens e com livros”. A literatura transforma o homem, transmite conhecimento. Mas se a literatura expande os universos do homem e traz novos horizontes, a literatura infantil pode ser considerada a base do ser humano e do seu imaginário.

Além da importância na alfabetização e da formação do vocabulário, os livros também levam às crianças repertório para a formação ética e racional de cada um.


A literatura infantil, mais que qualquer outra, faz uso de recursos linguísticos que permitem diversas interpretações e estimulam a imaginação do leitor, seja uma criança de idade ou de espírito.

Sempre gostei muito de ler livros infantis, mesmo quando já consideravam que tinha passado da idade. Por mais que tentassem me empurrar alguns livros juvenis, ainda que me dessem “Crepúsculo” de presente de aniversário, eu preferia leituras mais lúdicas, contos de fantasia, se tivesse uma ilustração então... Eu viajava!

Lembro de uma vez quando tinha aproximadamente 11 anos uma coleguinha entrou no meu quarto e começou a fazer brincadeiras com a quantidade de livros infantis que ainda guardava em minha estante. Senti muita vergonha na hora. A partir do episódio, passei a guardá-los escondido no armário, até coloquei uns livros de pré adolescente na decoração do quarto, mas nas horas vagas era o Monteiro Lobato e o Ziraldo que realmente me faziam companhia.

Hoje não só gosto de escrever textos infantis como ainda leio, mesmo que com a desculpa de fins acadêmicos ou para me inspirar.

UMA HISTÓRIA CENSURADA



Um assunto que está aquecendo o debate entre estudiosos de literatura infantojuvenil é a tentativa de censura a duas obras de Monteiro Lobato, sob a acusação de racismo. Gerações e mais gerações – a minha, inclusive – foram alimentadas, alfabetizadas e introduzidas ao (saudável e louvável) hábito da leitura a partir das peripécias passadas no Sítio do Picapau Amarelo.

Não me ocorre à memória ninguém que tenha crescido racista por conta de passar horas e horas deliciando-se com as travessuras de Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília. Assim como as pessoas não se tornam marginais porque cantam “Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu” quando crianças. 

Em vez de censurar a obra, não seria o caso fazer um estudo com os alunos da época em que ela foi escrita para entender seu contexto histórico e o porquê dessa ou daquela expressão?

Em busca de entender mais sobre a polêmica, encontrei a palavra de dois estudiosos que destacam pontos importantes. E a censura? Parece bastante questionável.    

A professora Nelly Novaes Coelho, autora de obras de referência na literatura infantojuvenil – em entrevista à Época – considera o veto uma tolice, uma vez que entre as funções da literatura está a de explorar a realidade. “A história brasileira tem a escravidão por base. Isso levou a um preconceito muito fundo e não se pode passar a borracha nisso nem colocar dentro de um armário e fechá-lo.”  

Já João Luís Ceccantini, pesquisador de literatura infantojuvenil e coautor do livro Monteiro Lobato  Livro a Livro, estuda a forma como as crianças assimilam a literatura. Em entrevista à Veja concluiu: "Eu tenho estudado a forma pela qual as crianças absorvem o que leem e minha conclusão é que elas sabem identificar os excessos dos livros. Elas se apegam ao que é bom, à essência das histórias – e, no caso de Lobato, essa essência não é racista."

Realmente não dá para passar uma borracha no passado. E querer censurar histórias – que podemos considerar como obras de arte – porque hoje algumas de suas expressões podem ser interpretadas como estereotipadas ou racistas soa exagerado. O que Lobato escreveu em 1920 era um retrato da época, o recorte da realidade, daquela realidade.

E se as histórias de Monteiro Lobato não tivessem sido publicadas sob a acusação de racismo? 

E se as próximas gerações não conhecerem essas histórias?

Promessa é dívida e substantivo comum

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Sou uma mulher de palavra. Então de presente nessa sexta-feira que é gelada mas não é 13, deixo vocês com mais um texto de Emília no País da Gramática, do Lobato, de quem tanto falamos aqui e aqui. É definitivamente uma deliciosa aula de português pra Pasquale nenhum botar defeito e um case Storyteller com todas as letras.

Pra recapitular: a turma do Sítio, guiada pelo doce rinoceronte Quindim, segue viagem aprendendo tudo sobre nossa língua. No capítulo, ou melhor, no bairro dos Substantivos, percebem a diferença entre os Nomes Próprios, que andam todo prosa, de mão no bolso, e os Nomes Comuns, que formam a plebe, o povo, o operariado. Os menos usados são mais gorduchos, ao contrário dos que são muito requisitados e andam pra lá e pra cá a queimar calorias. Um desses é o nome José, que bateu um papo com a turminha.


- Venha cá, senhor nome José! – chamou Emília.
O nome JOSÉ aproximou-se, arquejante, a limpar o suor da testa.
- Cansadinho, hein?
- Nem fale, menina! – disse ele. A todo momento nascem crianças que os pais querem que eu batize, de modo que vivo numa perpétua correria de igreja em igreja, a grudar-me em criancinhas que ficam josèzando até à morte. Eu e MARIA somos dois Nomes que não sabem o que quer dizer sossego...
Nem bem havia dito isso e – trrrlin!... soou a campainha de um rádio-telefone; a telefonista atendeu e depois berrou para a rua:
- O Nome JOSÉ está sendo chamado para batizar um menino em Curitiba, capital do Paraná. Depressa!
E o pobre nome JOSÉ lá se foi ventando para Curitiba, a fim de josèzar mais aquele Zezinho.
- Não vale a pena ser muito querido nesta cidade – observou Emília. Eu, se fosse palavra, queria ser a mais antipática de todas – para que ninguém me incomodasse, como incomodam a este pobre José.
- Disso estou eu livre! – murmurou uma palavra gorda, que estava sentada à soleira duma porta. Era o Nome URRACA.
- Sim – continuou ela. Como os homens me acham feia, não me incomodam com chamados assim quando têm filhas a batizar. Antigamente não era assim. Muitas meninas batizei em Portugal, e até princesas. Mas hoje, nada. Deixaram-me em paz duma vez. Desconfio que não existe no Brasil inteiro uma só menina com o meu nome.
- Por isso está gorda assim, sua vagabunda! – observou Emília.
- Que culpa tenho eu de ser feia, ou de os homens me acharem feia? Cada qual como Deus o fez.
- Nesse caso, se é inútil, se não tem o que fazer, se está sem emprego, a senhora não passa dum arcaísmo cujo lugar não é aqui e sim nos subúrbios. Está tomando o espaço de outras.
- Não seja tão sabida, bonequinha! Eu há muito que moro nos subúrbios, e se vim passear hoje aqui foi apenas para matar saudades. Esta casa não é minha.
- De quem é então?
- Duma diaba que veio de Galópolis e anda mais chamada que uma telefonista – uma tal ODETE. Volta e meia sai daqui correndo, a batizar meninas. Mas minha vingança é que está ficando magra que nem bacalhau de porta de venda, de tanto corre-corre.

O Poço do Lobato

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No começo de setembro, a respeito da polêmica da camada pré-sal e a possibilidade do Brasil ampliar a produção de petróleo de forma extraordinária, a Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, evocou o livro "O Poço do Visconde" (leia a notícia), obra de Monteiro Lobato que faz parte da coleção do Sítio do Picapau Amarelo.

A Úrsula também já havia evocado Monteiro Lobato e seu espírito Storyteller nesse post. Ainda hoje a obra de Monteiro Lobato vende e vende bem: no Brasil só perde para a bíblia. Não é à toa que as empresas se interessem pela obra. Dona Benta, a eterna personagem, inspirou aquele que veio a se tornar o best-seller dos livros de receitas, por exemplo. Uma empresa está licenciando os personagens para lançar uma linha de produtos baseada no Sítio do Picapau Amarelo e fomos chamados para coordenar uma série de coisas desse lançamento. Além de tudo aquilo que já sabíamos e já havíamos lido, são mais horas e horas de pesquisa. E quanto mais a gente se aprofunda, mais a gente admira o autor e sua obra.

Aproveitando toda a discussão sobre o petróleo, é impossível deixar de lado mais um aspecto curioso da vida de Lobato. Além de escritor de literatura infantil ele também se aventurou por outras áreas ao longo da vida. Foi promotor de justiça, tradutor, colunista, fazendeiro, pintor empresário e, em certo momento de sua vida, funcionário da embaixada brasileira em Nova York, a convite de Washington Luiz, presidente na época.

Maravilhado com o dinamismo da sociedade americana, o conceito de produção em série e mídias de massa, Lobato abastecia o governo brasileiro com idéias para modernizar o país. Numa dessas se convenceu de que o Brasil só seria plenamente soberano quando fosse capaz de produzir petróleo, e a partir daí lançou-se em uma saga à procura do ouro negro.

De volta ao Brasil ele funda uma companhia para procurar petróleo em nosso território, e até teve relativo sucesso. Depois de iniciar a perfuração de alguns poços, encontra um pequeno veio em 1933. Mas, tendo atingido interesses mais poderosos, como o das grandes petrolíferas multinacionais, entra em conflito com o governo acaba sendo preso. "Tenho medo dos que lutam com essa arma chamada talão de cheques. Nossa gente vende-se barato demais", disse Monteiro Lobato nessa época.

Embora haja controvérsias em relação à legitimidade de sua busca por petróleo, é fato que Monteiro Lobato era um homem que pensava grande, e essa grandeza estava quase sempre mais relacionada ao desenvolvimento do Brasil do que de seu próprio bolso. Era um patriota.

A motivação para sua obra infantil não foi simplesmente externar uma inspiração qualquer, deixar um legado para seus filhos ou qualquer motivo assim. Cansado de propor reflexões e soluções para o homem adulto, que parecia ser difícil de mudar, o Sítio do Picapau Amarelo era um ambicioso projeto de incutir sua visão de mundo, do que seria um país mais justo e desenvolvido, na cabeça das crianças. Se não era possível mudar sua própria geração, quem sabe a próxima.

E foi com esse espírito que Monteiro Lobato escreveu "O Poço do Visconde", história onde Visconde de Sabugosa, o sábio sabugo de milho falante, constrói um poço de petróleo ali mesmo, nas terras da Dona Benta. A história, dotada do peculiar realismo fantástico de Lobato, era uma forma de falar para as crianças sobre a importância do petróleo para o desenvolvimento do país.

Se Lobato estivesse vivo, provavelmente ficaria feliz de ser citado por uma ministra. Não que o governo de hoje seja muito diferente do de sua época, mas é bem possível que Dilma Rousseff tenha lido sua obra quando criança e, para falar da nova descoberta, fez a conexão. Assim como o autor deve ter influenciado a ministra nessa questão, ele certamente introduziu muitos outros assuntos, e fez muita criança conhecer e pensar sobre outras questões importantes.

Tudo isso, é bom ressaltar, trocando aulas chatas e sonolentas por livros, personagens e um universo ficcional que encantou e ainda encanta crianças e adultos. Monteiro Lobato foi um visionário.

Storytellers para crianças

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Monteiro Lobato é mesmo um fenômeno. Além de mestre da literatura nacional, consagrado principalmente pelo Sítio do Picapau Amarelo (que por sinal em importância só fica atrás da Bíblia para os leitores brasileiros), ele também tinha talento pra ser um Storyteller com letra maiúscula.

Storyteller com letra maiúscula é o autor que não cria uma história simplesmente a partir de sua imaginação, e sim de uma missão.

Em Emília no País da Gramática foi isso o que aconteceu. Nessa aventura com Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa e Quindim, o rinoceronte sábio, entender as coisas de nossa língua se transformou num divertido passeio feito na companhia desses incríveis personagens. Como se o Professor Pasquale fosse o cliente e o desafio fosse falar para crianças sobre substantivos concretos e abstratos, além de outras chateações da língua.

Abaixo vai uma pequena amostra. Depois de chegarem à Portugália, cidade onde vivem as palavras de origem portuguesa, Quindim cruza o centro da cidade, região em que vivem as palavras em uso (enquanto os arcaísmos, as gírias e os neologismos vivem nos subúrbios), e começa a explicação dos tais substantivos.

- Os nomes concretos são os que marcam coisas ou criaturas que existem mesmo de verdade, como HOMEM, NASTÁCIA, TATU, CEBOLA. E os Nomes Abstratos são os que marcam coisas que a gente quer que existam, ou imaginam que existem, como BONDADE, LEALDADE, JUSTIÇA, AMOR.
- E também dinheiro – sugeriu Emília.
- Dinheiro é concreto, porque dinheiro existe – contestou Quindim.
- Pra mim e pra Tia Nastácia é abstratíssimo. Ouço falar em dinheiro, como ouço falar em JUSTIÇA, LEALDADE, AMOR; mas ver, pegar, cheirar e botar no bolso dinheiro, isso nunca.
- E aquele tostão novo que dei a você no dia do circo? Lembrou o menino.
- Tostão não é dinheiro; é cuspo de dinheiro – retorquiu Emília.

Isso é ou não é muuuuito mais legal que aquele livro de gramática que você nem sabe que fim deu e que fazia parte da coleção “Os Intocáveis”?

E ó, se você for bonzinho, na semana que vem eu ponho um outro trecho bacana do livro. Até.