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O QUE É STORYTELLING! - Um resumo em 10 passos

Da Série Desvendando o Storytelling #Post 5 (último Post)
Para ver o # Post 4: O QUE PODERIA SER Storytelling, MAS AINDA É storytelling
Para ver o # Post 3: O QUE TODO MUNDO DIZ SER STORYTELLING
Para ver o # Post 2: O QUE TENTA ENGANAR NO STORYTELLING
Para ver o # Post 1: O QUE NÃO É STORYTELLING
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A Surpresa
"Finalmente." - Pensou Lívia. Finalmente ela poderia viver em paz, sem chorar quase todas as noites  ao pensar em seu amado com outra. Assim que ele fosse dela, todas as lembranças sombrias antes dele ficariam para trás. Fazia agora seis anos desde o fatídico dia. Naquela época, ela era apenas uma jovem moça que nunca havia deixado sua cidade no interior. Vivia tranquilamente e pagava suas contas não muito altas com seu salário de gerente. Havia trabalhado para o seu Tônio desde que era adolescente e havia conquistado o cargo com merecimento. Namorava Hélio e todos os meses recebia dele trufas de morango e maracujá, junto a uma carta que trazia em verso os mais belos dizeres. Tudo ia conforme o planejado. Até que um dia, ao abrir a carta de Flávio, ela não encontrou juras de amor, mas sim um bilhete de despedida. Flávio a havia abandonado após três anos de namoro e nem tivera a coragem de lhe dizer adeus pessoalmente. Lívia precisava sair dali. Não conseguia viver em um lugar onde tudo lhe lembrava dor. Ela pegou sua mala rosa, ainda nova por nunca ter sido antes usada, e partiu para a cidade grande. Ela agora estava sozinha, mas era exatamente onde queria estar. 

Lívia não contava com as dificuldades em arranjar um emprego, conseguindo apenas trabalhar como dançarina em um dos clubes de São Paulo.  Mas não era isso o que ela havia planejado. Sabia que podia mais, mas ninguém parecia interessar-se por uma garota caipira. Exceto por Carlos. A primeira vez que ele a olhou, Lívia não sentiu julgamento da maneira como costumava sentir, mas sim compaixão. Os dois se aproximaram e começaram uma amizade doce. Foi apenas no dia em que essa amizade evoluiu para um romance que Carlos lhe revelou ser casado. Era tarde demais, Lívia já estava envolvida e optou por aceitar ser sua amante. Mas seu sofrimento continuava e o pouco de Carlos que tinha já não era mais suficiente. Ela tinha duas opções: ou desistia de seu amor por Carlos e tinha seu coração dilacerado mais uma vez, ou continuava a sofrer calada, aproveitando o pouco de amor que Carlos lhe dispunha. A decisão veio em um momento de raiva e loucura, algo que ela nunca havia considerado antes: Ela precisava contar a Amélia a verdade. Amélia era esposa de Carlos e nunca havia desconfiado de nada. Lívia podia ver a decepção em seus olhos quando bateu a sua porta. Mas tudo tinha valido a pena e agora Carlos seria só dela. Lívia havia pedido que lhe desse o presente de casamento que ele daria a esposa e quando viu aquela caixinha rosa, já sabendo o que tinha dentro, riu de felicidade. Agora ele seria inteiramente dela. Mas Carlos agia de um modo estranho. Enquanto Lívia sorria, ele permanecia sério e suor escorria de sua testa. 

Quando menos esperava, Carlos mostrou o que estava carregando por trás de suas costas. Era um machado. Lívia ficou completamente sem reação ao perceber que quem ela mais amava estava prestes a cometer uma grande atrocidade. Seus olhos começaram a arder e ela falou com a voz mais firme que conseguiu encontrar dentro de si. "Me perdoe, Carlos, pois eu também o perdôo." As palavras pareceram tocar Carlos, que largou a arma e se retirou, deixando Lívia com o presente que antes tanto queria. Agora nada daquilo fazia mais sentido. Ela percebeu havia tentado possuir Carlos do mesmo modo que havia desejado possuir aquele vestido de seda e o colar de pedras azul turquesa. Lívia nunca mais tentaria ser dona de ninguém e não deixaria mais ninguém ser seu dono. Agora, ela pertencia a si mesma.
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Chegamos ao último Post da série exemplificando o que é o Storytelling, restritos pelo espaço disponível. A partir dessa história conseguimos identificar do que uma narrativa precisa para ser considerada Storytelling. Então vamos a isso:

1) Storytelling é sobre alguém.
A história deve importar para uma pessoa ou para qualquer outra coisa que possua verdade humana. Pode ser um robô ou um peixe, mas ambos precisam ter os sentimentos, aflições e desejos humanos. No caso da nossa história, esse alguém é Lívia.

2) Esse alguém tem um desejo
Apresentamos em nossa história o desejo de nossa personagem de forma sutil. Ela estava feliz com sua vida no interior e orgulhosa de si mesma. Tinha um amor e pretendia continuar com ele por toda a vida. No Storytelling, o personagem precisa querer algo em todos os momentos.

3) Esse personagem deve ser multi lateral
Um personagem multi lateral significa um personagem que tem várias perspectivas de personalidade. Por exemplo, se analisássemos a história sob a perspectiva de Amélia, poderíamos cair no erro de julgar Lívia como uma pessoa sem caráter. Ao invés disso, colocamos o ponto de vista de Lívia para mostrar como ela também possui conflitos e desejos com os quais podemos nos relacionar.

4) Esse personagem precisa sofrer uma mudança em sua vida
Se nada acontece na história, Lívia continua com seu namorado e todos vivem felizes para sempre. Precisamos, então, de um evento que impulsione a transformação de Lívia. No caso, foi o término de seu relacionamento de forma brutal.

5) Esse personagem precisa enfrentar conflitos
Vemos aqui que ao reagir ao incidente do término de namoro, Lívia começa a arcar com dificuldades que impulsionam a história pra frente.

6) A maneira como o personagem lida com seus conflitos e as escolhas que ele faz dizem tudo sobre ele
Muitas vezes lemos que é preciso definir o signo, a cor dos olhos, dos cabelos, as roupas utilizadas pelo personagem.. Sim, tudo isso é importante, mas não essencial. O que diz mais sobre a personalidade de um personagem, é quando ele é colocado em uma encruzilhada e deve tomar uma decisão.

7) Depois de enfrentar os obstáculos o personagem deve fazer uma escolha
Colocamos Lívia em uma encruzilhada. Ela está amando um homem casado e não suporta a dor que isso está lhe trazendo. Pressionada por seus próprios sentimentos, ela decide, num ato de loucura, contar tudo à esposa de Carlos.

8) O personagem enfrenta as consequências da sua escolha
Nenhuma escolha deve ser fácil. Deve estar claro o que está sendo colocado em jogo. No caso de Lívia, ela poderia perder Carlos para sempre, como realmente aconteceu. Acrescentamos um agente agravante, colocando, também, a vida de Lívia em risco. 

9) O personagem sofre um insight
Experiências negativas não vem de graça para o personagem. Tudo é feito para que ele aprenda algo. No caso de Lívia, ao ver o que tinha causado a si mesma, ao ver o presente (a posse) que ela tinha conquistado com tudo aquilo, ela percebeu algo sobre como vinha agindo até então.

10) O personagem sofre uma transformação
Com o Storytelling, devemos ser capazes de ver claramente a diferença do personagem que começou a história do personagem que terminou a história. A jornada deve, de alguma maneira, mudar algo na forma do personagem perceber e viver sua vida. Esse personagem utilizará seu conhecimento servindo de exemplo para as pessoas ao seu redor. (A transformação pode ser tanto positiva quanto negativa, caso a história retrate uma corrupção do personagem)

Muito cuidado, pois esses elementos e muitos outros que utilizamos para compor histórias não funcionam separadamente. Tudo deve agir em uníssono consolidado o universo ficcional criado. Aliás, você percebeu que a história "A Surpresa" foi composta pelas informações dadas nos posts anteriores.?Será que poderíamos chamar isso de transmídia? A resposta é NÃO. ISSO NÃO É TRANSMÍDIA. Aguarde o próximo POST explicando o porquê!

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O QUE PODERIA SER Storytelling MAS AINDA É storytelling - 5 casos em que perguntas foram deixadas sem respostas

Da Série Desvendando o Storytelling: # Post 4
Para ver o # Post 5 O QUE É STORYTELLING
Para ver o # Post 3: O QUE TODO MUNDO DIZ SER STORYTELLING
Para ver o # Post 2: O QUE TENTA ENGANAR NO STORYTELLING
Para ver o # Post 1: O QUE NÃO É STORYTELLING
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A Decisão


Amélia estava rindo a aproximadamente cinco minutos, desde que Carlos havia lhe mostrado o presente. Mas o riso que levava lágrimas a brotar de seus olhos não era de alegria. Era indignação, raiva, nervosismo. Ela sempre tivera problemas em lidar com suas emoções. Parecia que seu corpo não entendia qual era a coisa certa a se fazer em cada ocasião. Em todos os cinco anos de casados, Carlos sempre havia lhe dado presentes caros. Agora, ela suspeitava que eram o modo encontrado por ele para se redimir de tudo o que fazia de errado sem que ela soubesse. Há seis anos atrás, eles eram dois jovens apaixonados. Carlos a havia incentivado a fazer coisas que ela nem sabia que seria capaz. Ele a ajudou a largar a faculdade, desafiando seus pais e os obstáculos foram enormes. Acabaria ficando sem dinheiro e sem lugar para morar naquela época, se não fosse por ele, sempre pronto para ajudá-la. Agora, ela se lembrava daquela garota assustada de anos atrás, mas ela lhe parecia distante, quase como um personagem em um livro.  Quanto ao garoto apaixonado, ainda era visível no rosto do homem que lhe encarava com olhos de súplica. A decisão parecia simples, perdoá-lo e salvar seu casamento, ou mandá-lo embora, recuperando seu orgulho próprio. Mas nada que machuca o coração é simples. Seria muito difícil esquecer a dor que estava sentindo e aceitá-lo, sabendo que poderia novamente traí-la, quebrando seu coração novamente em pedaços.  
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Muito bem. Agora temos uma história melhor estruturada. Temos um personagem principal, Amélia, que passa por dificuldades, obstáculos e consegue o que quer, até chegar em outro problema: uma traição. O conflito força Amélia a fazer uma escolha. Mas isso é Storytelling? Ainda não. Começamos a ter um resquício de Storytelling, mas ainda estamos longe disso. Seria o que chamamos de storytelling, com "s" minúsculo. Esse é feito de qualquer jeito, colocando apenas elementos da narrativa de uma forma equivocada. Por exemplo: No texto "A Decisão" apresentamos trechos de uma jornada, mas ainda estão expressos de modo confuso e destoante.

Mas o que falta?

Se fossemos estruturar isso como Storytelling, teríamos que separar o que foi colocado em dois momentos.

O primeiro seria sobre a jornada de Amélia de auto descobrimento, quando ela teve que abandonar o que a família acreditava ser bom e passar a escolher por si própria. O incidente que levou Amélia a uma mudança poderia ser Carlos, que impulsiona Amélia a sair de sua "zona de conforto". Teríamos que mostrar a transformação clara de "Amélia sem auto-confiança, sendo manipulada pelas opiniões de outros" e ao final "Amélia confiante, segura de si, fazendo escolhas por conta própria". Ao meio da jornada teríamos que fazer Amélia merecedora da auto-confiança para que sua transformação fosse crível. Para isso, ela teria que passar por grandes obstáculos e complicações ainda piores.

O segundo momento da história seria sobre o casamento de Amélia e Carlos.  Teríamos que definir o que fez Amélia chegar no momento em que deve fazer a escolha de perdoá-lo ou não. No que implica essa escolha? O que acontece com Amélia se ela o perdoa? E o que acontece se não perdoa. O que ela tem a perder precisamente? E por que o que ela perde é importante para ela. Qual a transformação que essa escolha gera?

São diversas perguntas a serem respondidas. Então vamos a 5 casos que não responderam perguntas como essas:

1)  O filme "Eu, Frankenstein" - Conflitos e escolhas fracas
Sabemos que re-leituras de histórias já contadas estão na moda e, com certeza, essas novas interpretações vendem. Mas não adianta ter um personagem conhecido e deixar o público  decepcionado. Esse é o caso do filme "Eu, Frankenstein". O filme fala sobre o conflito de Frankenstein, o único ser que não possui alma no mundo todo. A transformação é clara: No começo do filme, Frankenstein não tem alma; ao final, ele ganha uma alma. Mas ainda assim, a narrativa é fraca. Os personagens não parecem ter vida fora do momento em que estão na tela. A estrutura é seguida, mas as decisões feitas tornam-se sem sentido já que as alternativas carecem elaboração. Por exemplo, a mocinha, em determinado momento deve decidir entre ressuscitar seu colega de trabalho, que renascerá sem alma e será habitado por um demônio (isso também levará à destruição o mundo), ou simplesmente deixar seu colega morto sem que o mundo seja destruído e que ele seja habitado por um demônio. Estranhamente ela escolhe a primeira opção, desvalorizando o poder de discernimento da audiência. No caso, as proporções e as cargas das escolhas foram feitas de maneira equivocada.

Perguntas não respondidas: O que tem-se a perder com as escolhas e o que isso representa para esses personagens?


2) Comédias românticas que se perdem no clichê
Storytelling não é só estruturar de modo que o filme cumpra o "check list" de tudo o que tem que acontecer, é também inovar e dar voz artística ao como tudo vai acontecer. Sabemos que toda comédia romântica deve, sem exceção ter uma cena de "garoto encontra garota". É um fato que tal cena deve existir. Mas se o autor coloca em seu roteiro "Garota derruba papéis e garoto corre para ajudá-la", ele estará reproduzindo o que milhares de filmes já fizeram. Não basta a cena ter funcionado em outros filmes, ela precisa funcionar para essa história. Se depois de percorrer diversas alternativas sobre como a cena "garoto encontra garota" deve ser, o autor chegar a conclusão de que derrubar os papéis é o que se encaixa melhor no contexto dos personagens, daí sim, essa será uma cena que fará sentido para a audiência.

Perguntas não respondidas: Qual a relevância da escolha dessas cenas para os personagens?


3) Filmes Biografia e só
Vamos comparar dois filmes sobre o mesmo tema, só que construídos de maneira diferente. O filme "Chico Xavier" e o filme "Bezerra de Menezes - diário de um espírito". Os dois narram a trajetória de figuras do espiritismo. Independentemente do teor dos filmes, em questão de narrativa, um acerta e o outro erra. No filme sobre Chico Xavier, o autor de forma muito inteligente intercala a narrativa da vida de Chico com a história de uma família que ele influenciou. Mas por que isso foi tão inteligente? A vida inteira de uma pessoa é um âmbito muito grande para uma jornada. Devemos trabalhar sempre, no Storytelling, com recortes significativos. Além disso, tem-se a transformação necessária do personagem. Chico começa como uma criança boa e gentil e termina como um homem bom e gentil. Ele tem algumas questões e conflitos também trabalhados sobre a vida difícil que levou, porém, com um recorte tão extenso, esses conflitos não tem a chance de serem aprofundados. Já a família começa com um problema bem claro: são incapazes de perdoar o suposto assassino de seu filho. Ao final do filme, acabam salvando o menino da prisão.
Agora analisando a segunda biografia de Bezerra de Menezes. Temos no filme apenas uma narração de fatos. "E então isso aconteceu. Depois isso, e assim por diante". Uma biografia formada por narração de eventos, apesar de poder ser transformada em filme, não é Storytelling.

Perguntas não respondidas: Qual a transformação feita? O que exatamente foi superado?


4) Games com dissonância
Em alguns jogos que são permeados por uma narrativa, muitas vezes há uma dissonância entre o personagem da história contada na interação do Game e o personagem quando se transforma em jogador. Por exemplo, quando a história conta que o personagem em questão é um super herói que passou por diversos testes e superou desafios, espera-se que o jogo apresente tarefas a altura do personagem apresentado. Mas quando esse super herói cheio de poderes tem dificuldade até para abrir uma porta sozinho, acontece uma falha de narrativa. Não adianta fazer o Storytelling para animação do jogo, quando não é isso que o jogador está vivendo. Um dos jogos em que acontece isso é o Mortal Kombat vs DC Universe.


5) Percy Jackson - Adaptações mal sucedidas
Transformar um best seller em filme, nem sempre é certeza de sucesso. É preciso entender as diferenças entre um livro escrito e o filme de longa metragem que será apresentado na tela. Ao mesmo tempo deve-se ter em mente que alterar o formato não significa mudar a essência da história. Ocultar informações importantes pode fazer com que a narrativa tão aclamada pelos leitores, torne-se motivo de revolta. Nos filmes de Percy Jackson, os roteiristas e produtores ignoraram erros graves em relação à narrativa, que rendeu o cancelamento da filmagem do terceiro filme da série. No primeiro filme, um personagem importante que batia de frente com Percy(personagem principal) foi retirado, tirando também da trama um dos conflitos de Percy. Além disso o filme foi tratado de forma superficial, seguindo uma estrutura, mas sem capturar a essência do livro. No segundo filme, a história também ficou incompleta, já que muitas informações utilizadas na história eram continuações do que  deveria ter sido apresentado no primeiro filme. Para consertar, outras alterações foram feitas, bagunçando ainda mais os dados da história e revelando peças chaves em momentos não propícios para a trama.

Perguntas não respondidas: Como as circunstâncias apresentadas afetam na vida dos personagens? Como são relevantes? Como os eventos da série se interligam? Como estabelecem relação de causa e efeito?

Mais uma vez fica clara a minuciosidade necessária ao se pensar em Storytelling. Mesmo seguindo estruturas e receitas que já deram certo, podemos errar se não nos atentarmos para os mínimos detalhes e não trabalharmos bem com o universo que desejamos criar.

Quer desvendar os segredos de Storytelling também? Fique atento aos nossos cursos.
O próximo será dia 7 de Novembro no Rio de Janeiro.











O QUE TODO MUNDO DIZ SER STORYTELLING- 10 Casos Que Confundem No Storytelling

Da Série Desvendando o Storytelling #Post 3

Para ver o #Post 5: O QUE É STORYTELLING
Para ver o #Post 4: O QUE PODERIA SER Storytelling MAS AINDA É storytelling.
Para ver o #Post 2: O QUE TENTA ENGANAR NO STORYTELLING
Para ver o #Post 1: O QUE NÃO É STORYTELLING
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A Aprovação


Quando Carlos lhe mostrou o presente, Laura nem sabia o que dizer. Era perfeito. Ele havia acertado em cheio. Aquele homem era com certeza merecedor de sua irmã. O vestido preto de seda tinha o caimento ideal para o corpo de Amélia, de modo que Laura podia imaginá-lo, ajustando-se à silhueta longilínea da irmã. O colar de pedras azul turquesa davam o toque final.  Amélia ficaria extremamente elegante, como sempre. Laura se lembrava como se fosse ontem o dia em que a irmã apresentou Carlos para a família, e agora, depois de 5 anos casados, ele ainda a mimava como se fossem dois jovens apaixonados.
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Normalmente, quando perguntamos a alguém: "O que é Storytelling?", ouvimos ideias genéricas , baseadas em um senso comum. Talvez constituam até elementos que uma narrativa deve ter, porém, se trabalhadas de maneira rasa e individual tornam-se qualquer outra coisa que não uma narrativa, raríssimas vezes se atentando ao menos a como essa história deve ser contada. No texto "A Aprovação", escrevemos o que seria um fragmento de uma história. Esse trecho poderia ser um parágrafo de um capítulo de um livro, um relato, mas é apenas uma pequena porção do que a narrativa deve englobar. Abaixo, elegemos 10 itens que costumam ser confundidos com Storytelling:

1. Storytelling é algo com começo meio e fim

Colocar começo meio e fim em uma história pode ser o início do raciocínio para criar uma estrutura de atos, porém não é o suficiente para dar a história como completa. O autor deve saber o que deve estar presente no começo, o que impulsiona para o meio, como o meio será elaborado e como se dará a conclusão de seus pensamentos ao final. A ideia de começo, meio e fim é com certeza um ponto de partida interessante para o autor, não podendo ser seu ponto de chegada. Tendo a visão clara dessa estrutura, o autor consegue brincar com os elementos da história, mudando-os da ordem convencional, sem que fique confuso para a audiência. 

2. Storytelling é algo com diálogos

Mas do que valem diálogos sem nenhuma ação? Em qualquer estrutura narrativa, seja ela um romance, um roteiro de filme, série, ou qualquer outro; as ações dos personagens dizem mais do que suas palavras. Se coloco, por exemplo, um dos meus personagens tendo uma reação de raiva, quebrando objetos ao receber uma notícia, isso reflete mais sobre sua personalidade do que se colocasse ele conversando com um amigo, contando sobre a sua raiva. Mais do que ações, as escolhas de cada personagem definem quem ele é. Se colocamos alguém em uma encruzilhada em que um caminho deve ser escolhido, entendemos o modo como essa pessoa vê o mundo.

3. Storytelling é algo com conflito

Mas todo conflito precisa de uma conclusão. Seguindo a linha de que escolhas definem um personagem, se tenho um protagonista em que o conflito não é resolvido de nenhuma forma, tenho um protagonista que está em cima do muro. Sendo assim, sua história não tem como se desenvolver. O personagem vira apenas um ser reativo a tudo o que ocorre a sua volta. E a vitimização de um personagem não é Storytelling.

4. Storytelling é algo em que se tem que fazer uma escolha

Uma escolha não vale de nada se o personagem não tem um preço a pagar. Supondo-se que o autor seguiu como esperado, colocou um conflito, uma escolha e concluiu seu pensamento. De que vale tudo isso, se o conflito era fraco, a escolha fácil, e a conclusão superficial? Muitas vezes isso ocorre quando o preço a se pagar pelo que está sendo feito não é alto o suficiente. Assim como na vida, cada escolha carrega uma responsabilidade. Deve estar muito explícito para a audiência o que o personagem perde ao tomar uma decisão e como isso pode ser drástico em sua vida.

5. Storytelling é algo que segue a estrutura (modelo dos três atos, quatro atos, cinco atos, jornada do herói...)

De nada vale uma estrutura, se você tem personagens rasos. Quando criamos todos os personagem, devemos também imaginar como seria a história contada sob cada uma de suas perspectivas. Se não formos capazes de entender a trajetória, os conflitos, dúvidas e motivações de cada um de nossos personagens, perdemos força em nossa história. Acabamos, então, caindo no clichê do vilão que só queria dominar o mundo, da garota popular e metida do colégio que era apenas fútil e nada mais. O filme "Malévola" é um ótimo exemplo de um twist de percepção. Uma das mais temidas vilãs da Disney foi colocada como heroína e veja como ficou muito mais rica a história.

6. Storytelling é quando fazemos o personagem achar que não tem mais solução para seus problemas, e bem no final, mostramos uma saída.

Tudo bem, mas que tipo de saída? Esse pensamento gera a típica história em que o roteirista, na ânsia de colocar tantos obstáculos para o seu protagonista. só consegue resolver sua trama com um passe de mágica. É o helicóptero que surge sem explicação; é o time da S.W.A.T. que entra no último minuto, sendo que nunca antes havia sido mencionado; é o objeto que se transforma em portal, também sem nenhuma explicação plausível. Enfim, todos esses itens podem existir com tanto que façam sentido para a história e já tenham sido apresentados antes. Se surgem como um ato de desespero, podem deixar qualquer um duvidando de sua veracidade e não entendendo a história. 

7. Storytelling é quando o personagem tem uma mudança de comportamento ou de atitude.

O personagem deve sim ter uma mudança de atitude ou de percepção. Em algumas histórias, isso ocorre durante vários momentos durante a trama, mas ninguém simplesmente muda de atitude sem nenhum estímulo. Deve sempre haver algum impulso para que o personagem passe a pensar diferentemente do modo como estava pensando. Histórias em que o detetive depois de muito tentar solucionar o crime, simplesmente acorda um dia sabendo quem é o assassino, não colam. Insights devem seguir uma lógica. Um ótimo exemplo é da série "Homeland". Em um dos episódios, a detetive tem um insight de que um ex-soldado americano está mandando códigos para os terroristas. Essa percepção acontece apenas após ela observar um músico tocando seu instrumento e mexendo seus dedos de maneira semelhante a que o soldado fazia perante as câmeras. 

8. Storytelling é quando o personagem passa por uma jornada

Sim. Mas não adianta passar pela jornada, sem aprender nada. Na jornada do personagem, ele recebe um estímulo que vai incentivá-lo a mudar algo dentro de si. Se o personagem passa por todos os conflitos e complicações, voltando a ser o que era, de nada vale sua trajetória. Sabemos que em Sitcom's a graça está em ver os personagens sofrendo com os mesmos erros, intrínsecos às suas personalidades. No entanto, embora os personagens de séries de comédia cometam os mesmos erros, em algum aspecto eles acabam evoluindo, mesmo que muito mais lentamente do que em um filme de drama, por exemplo.

9. Storytelling é quando o personagem busca e consegue um Elixir

Um Elixir não compartilhado, é um elixir sem propósito. O elixir é o que o herói/protagonista consegue após percorrer toda sua jornada, antes de voltar ao seu cotidiano. Pode ser físico ou simbólico e representa o que foi aprendido pelo herói. Se o personagem guarda esse conhecimento para si, seu elixir perde o valor. Ele deve praticar o que foi aprendido e compartilhar com o mundo. Por exemplo, na comédia romântica "Alguém tem que Ceder", Érica deve aprender a se abrir para o mundo para que consiga amar. Sua mudança de atitude é refletida em todos a sua volta, quando ela dá conselhos a sua filha ensinando que o amor vale a pena, ou quando permite que alguém mais jovem se torne seu namorado.

10. Storytelling é ficção. Você pode inventar o que quiser, colocar alienígenas, super-heróis. Tudo pode.

Sim, com tanto que siga as regras estabelecidas pelo autor. Você já viu alguém falar "até parece" assistindo a um filme do Homem Aranha? Provavelmente não. Isso acontece pois o autor delimitou qual era o universo criado e quais as regras a serem seguidas nesse universo. No filme, Peter Parker é picado por uma aranha geneticamente modificada, adquirindo assim o poder de se lançar entre os prédios com sua teia. Aceitamos isso, pois o autor é fiel as delimitações colocadas para a criação. Monstros radioativos são aceitos nessa narrativa como algo normal. Agora, se colocarmos um humano , pilotando um carro que cai de um penhasco a 120km/hora e nada acontece ao carro nem ao motorista, daí passamos a infringir leis da física que se aplicam a esse universo criado. Funciona para filmes de ação? Claro. Para vários, mas sabemos que o propósito desses filmes não é a construção de uma boa narrativa.

Entendemos com esse tópicos que o problema central não é O QUE é Storytelling, mas COMO fazê-lo, COMO estruturá-lo e COMO criar uma narrativa forte e atrativa.

Para aprender a fazer Storytelling de verdade, dê uma olhada nos nossos cursos. O próximo será dia 7 de Novembro, no Rio de Janeiro.




O QUE TENTA ENGANAR NO STORYTELLING - 10 truques e floreios usados para fazer você aceitar a ausência de uma narrativa.

Da Série: Desvendando o Storytelling #Post 2
Veja o #Post 5: O QUE É STORYTELLING
Veja o #Post 4: O QUE PODERIA SER Storytelling, MAS AINDA É storytelling
Veja o #Post 3: O QUE TODO MUNDO DIZ SER STORYTELLING
Veja o #Post 1: O QUE NÃO É STORYTELLING
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A Entrega



Lívia abriu a porta e viu aquela caixinha familiar que recebia todas as semanas. Era rosa, com uma fita prateada, suas cores preferidas. Pegou o pacote e o colocou na cozinha, já imaginando as trufas que estariam lá dentro, junto da carta de amor que ele sempre lhe escrevia. Nem ela tinha tanta criatividade para tantos poemas. Ela estava feliz. Eles pertenciam um ao outro e nada podia atrapalhar seu amor. Em um ano, se mudariam para o mesmo apartamento, e dali a seis meses, casamento. Satisfeita, Lívia abriu seu pacote, e, como esperava, lá estavam as trufas de maracujá e morango ao lado de sua carta perfumada. Ela suspirou apaixonada, beijando o papel com delicadeza. Abriu a caixa de chocolates, e então lhe surgiu a dúvida: Qual sabor comeria primeiro?


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O texto “A entrega” não é Storytelling, porém tem o poder de mexer com o imaginário das pessoas ao trazer um artifício familiar. Consiste na utilização de personas representadas desde os tempos da Comédia Dell’Arte:  Os enamorados. Por ser um tema que traduz o desejo de diversas pessoas, consegue ganhar popularidade, mesmo sem ter uma narrativa forte por trás. 

Veja quais artifícios são usados para disfarçar a ausência de história e como são usados hoje em dia.

1. Um casal de apaixonados


Pode ser utilizado como apelo funcional ao público, como em comerciais de produtos diversos. Um exemplo são os comerciais de chocolate, que fazem uma abordagem mais romântica. Normalmente nesses comerciais, não há nenhum conflito e tudo funciona perfeitamente, sem nenhum empecilho.


2. Animais ou bebês


Quem nunca passou um tempo considerável vendo vídeos no Facebook sobre animais ou bebês fazendo o que fazem de melhor: sendo fofos?  Apesar de também não apresentar uma narrativa, esses artifícios funcionam, já que cativam uma grande audiência.



3. Muita ação e efeitos especiais


Alguns filmes de ação parecem ter gastado todo orçamento com o After Effects e cenas de destruição, esquecendo-se da importância de um roteiro consistente. Os resultados são personagens sem conflitos, escolhas sem sentido e fatos que não encaixam.



4. Gênero Sick Lit Crianças doentes ou qualquer coisa que faça te sentir culpado, se não gostar.


Artifício tipicamente usado pelas ONG’s. Ele funciona por tentar evocar compaixão por parte das pessoas e fazê-las ajudar em uma boa causa. No entanto, acabam atraindo pela tragédia, e muitas vezes se tornando inconvenientes, ao invés de explorar a comunicação de modo rico, através das histórias. 


5. O artístico demais – É tão artístico que acaba não dizendo nada.




Pode ser artístico? Pode. Pode investir em direção de arte e cenografia, deve. Funciona? Claro, mas depende para o quê. Se o objetivo for criar uma estética e uma atmosfera que represente o produto, está perfeito.. Mas estaria enganado a audiência se dissesse ser Storytelling.


6. O desabafo do escritor



Além das cenas em que o personagem resume o que aconteceu nos capítulos anteriores, ou explica para o público como está se sentindo ou conta sobre seu plano maligno, temos também algumas falas de personagem que expressam a opinião do autor sobre determinado assunto. O uso desse artifício é completamente perceptível, pois as palavras ditas não cabem na boca e caem no monólogo. No Storytelling, o personagem é tão bem trabalhado que parece ter vida própria independente de seu autor, de modo que podemos retirar os nomes dos personagens de um roteiro e ainda conseguir identificar quem está falando qual fala.


7. Usar atores famosos de filmes ou novelas conhecidas


Utilizar atores famosos é um dos artifícios mais manjados no entretenimento. Afinal, se é um filme com o Bradley Cooper deve ser bom. No entanto em filmes ou séries que dependem somente da reputação dos atores, a narrativa pode deixar a desejar, apresentando enredo e conflitos fracos.


8. Adaptar histórias que já funcionaram para campanhas publicitárias.




Pegar carona em uma história que já funciona, é um artifício com grandes chances de dar certo. Isso ocorre, pois as referências e o sentimento buscado pela marca já foram colocados pela história. Apesar de funcionar, torna-se perigoso se a marca tentar se adequar à história sem que essa faça sentido para a sua comunicação. O ideal é que a história se adeque a marca, ou seja, que a empresa crie suas próprias narrativas.


9. Usar metáforas visuais


As metáforas visuais traduzem um conceito em imagem de modo prático simples, para que a mensagem seja entendida imediatamente. São um tipo de artifício efetivo, dependendo do propósito da comunicação. No entanto, torna-se fácil de cair no clichê. É bonito, pode ser forte, mas não é Storytelling, já que não tem nem um personagem central, mas sim uma pessoa que poderia ser qualquer um. Podendo ser qualquer um, acaba sendo ninguém. E sabemos que a audiência só se relaciona com alguém.


10. Recorrer a mascotes 


Mascotes podem ser utilizados, mas devem ter um propósito. Criar um mascote apenas pelo simples fato de ter um, ou de ter um apelo mais visual não é um motivo forte o suficiente. Normalmente os mascotes sem propósito levam o nome de “Super-Nome Da Marca No Diminutivo” e não agregam nenhum contexto ao produto.


Reconheceu esses artifícios usados pelas marcas e pelas indústrias de entretenimento?  Quer saber como não usá-los na sua marca e construir uma narrativa forte e consistente capaz de criar maior engajamento?

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