Num tempo que não havia tempo, num lugar que não era lugar nenhum uma menina caminhava saltitante pelo bosque, com uma cesta cheia de guloseimas, a caminho da casa da vovozinha. Quem já não ouviu essa história inúmeras vezes?

Conto de fada dos mais conhecidos, Chapeuzinho Vermelho data do século 17, com versões de Charles Perrault e dos irmãos Grimm. Em ambos a estrutura da narrativa se mantém, mas na versão dos Grimm há um desfecho feliz, com a ajuda do caçador que abre a barriga do lobo e salva a vovó e a menina.

Por ser tão conhecido, o conto já ganhou inúmeras versões. Encontrei uma que me surpreendeu. A inocência da Chapeuzinho Vermelho foi por água abaixo na animação RED, de Jorge Jaramillo e Carlo Guillot. Talvez uma mistura de Matriz com Kill Bill? Um toque de Tim Burton?

A estrutura da narrativa original se perdeu nesta adaptação. Talvez tenha sido a intenção dos autores. A ideia pode ter sido apenas fazer uma referência a essa história, que é universal. Se eles queriam tornar a menina contemporânea, conseguiram. Caçador pra que mesmo?





Enquanto abria o velho portão de entrada a moça se lembrou de tudo de um vez só. Lembrou de quando voltava da escola e corria para a cozinha sentindo o cheiro do almoço escapar pela janela. Pensou em todas as dificuldades que passou, e ainda passa, quando decidiu mudar para a cidade grande. Imaginou como seria a vida, hoje, se ela ainda morasse com os pais. 

- Filha! Ah! Que saudades meu amor! Vem, entra que o almoço já está quase pronto! 

- Oi, mãe? Tudo bem? - disse a moça com um sorriso no rosto enquanto corria para abraçar a senhora que a recebia de braços verdadeiramente abertos na porta da sala. 

- Tudo bem... e com você filha? Nossa! Como você tá magrinha, minha flor? Não tem comida naquela sua casa não? 

- Tem sim mãe, não estou tão magra assim, vai... cadê o pai mãe? 

- O pai tá lá dentro, cuidando do almoço... esse homem não me deixa mais cozinhar, sabia? 

- Calma mãe, ele só quer que você descanse... afinal você cozinhou pra gente a vida toda. Deixa ele fazer alguma coisa pra você de vez em quando vai.

- Oi filha! Vem cá, vem, prova esse molho, me diz se tá bom de sal. 

- Oi, pai! Tudo bem? - disse moça enquanto experimentava o molho direto da colher de pau que seu pai segurava na direção de sua boca. 

Aquele molho de tomate a fez lembrar um pouco mais da sua infância. Dos domingos de sol em que toda a família se reunia para preparar o almoço. Lembrou de Lucas. 

- Mãe, o Lucas vem hoje? 

- Não filha, ele está viajando de novo. Ele veio mês passado... - a mãe de Monica sempre justificou a falta do filho usando suas viagens de trabalho, mas a menina nunca acreditou. 

- Sei, sei. Mãe, eu queria ver umas fotos antigas, preciso de fotos minhas pequena para o meu próximo livro, você ainda tem aqueles álbuns de quando eu era pequena. 

Nunca ouvi falar de uma mãe que perdeu os álbuns de foto dos filhos. Logo chegaram álbuns e mais álbuns nas mãos de Mônica que olhava para as fotos e era atacada por um série de perguntas sobre o passado e o futuro. Em uma das fotos Monica estava ao lado de Bruno, um namoradinho da adolescência, e pensou - "e se eu tivesse aceitado o pedido de casamento dele? Onde será que estaríamos?" - tremeu de calafrios só de imaginar uma vida como a de sua mãe, para sempre na mesma casa, com a mesma rotina. 

- Venham, a comida está pronta! - anunciou o pai de Monica com orgulho do seu próprio trabalho. 

Seu Pedro, pai de Monica e Lucas, sempre disse que se pudesse teria se tornado chefe de cozinha. Aos fins de semana adorava cozinhar para os filhos, mas só sabia fazer uma receita de macarrão e alguns lanches. Hoje a mesa estava diferente, a panela deixava escapar um cheiro forte de camarão e as torradas com alho estavam excelentes. A aposentadoria tinha mesmo feito a diferença na vida culinária de Seu Pedro. A menina comia e pensava - "E se meu pai fosse mesmo chefe de cozinha?". Sonhou com uma infância diferente, como a filha de um chefe famoso, dono de um lindo restaurante na área nobre de São Paulo. - "Alex Atala que nada, o nome do momento ia ser Pedro Karr" - comentou a menina como se todos pudessem ouvir seus pensamentos. Mais e mais perguntas vinham a sua mente enquanto a menina revisitava o seu passado. 

E se o Lucas estivesse aqui ainda? E a se meu livro não ficar bom? E se descobrirem que o último livro é horrível? E se eu não conseguir terminar essa nova história? E se a minha vida mudasse por completo? E se...? 

No meio do último pedaço de torrada, Monica percebeu, que não conseguia mais não pensar nas possibilidades. Um hábito que adquirimos quando escrevemos muito. O "e se" é um bom jeito de criarmos novas situações e histórias para nossos personagens. 

E se a sua empresa usasse storytelling? Quem sabe não aumentavam as vendas, o engajamento? Quem sabe tem alguém no mundo que precisava ouvir a sua história para mudar de vida? 



No fim das contas a minha participação foi a menor, mas o meu sorriso de felicidade com toda certeza foi o maior de todos. Dividir aquilo tudo com pessoas tão admiráveis me fez perceber que estou no caminho certo para me tornar, um  dia, um bom storyteller.

Ontem a storytellers participou do KM Brasil, o maior evento de RH da América Latina. Começamos a palestra com o Fernando Palacios, autor do livro "A Próxima Maravilha", e a Martha Terenzzo, fundadora da Inova360, dizendo o que é e o que não é storytelling.

Eles explicaram que storytelling deve ser visto em duas partes: o "story" E O "telling" e depois de desmitificar boa parte desse maravilhoso processo eles deixaram com o Bruno Scartozzoni (Sócio da Ativa Esportes) a missão de mostrar como as histórias podem ser usadas em endo-marketing. Para cumprir essa missão ele apresentou o case de como eles transformaram mais de 1000 slides de power point em uma peça de teatro para explicar aos funcionários de um grande grupo do setor alimentício quais eram os novos posicionamentos das suas marcas.

A Renata Rossi que, além de escrever aqui storieswelike, está usando as suas histórias para divulgar o portfólio de educação do Hospital Albert Einstein usou a sua experiência com educação para reforçar o poder dessas histórias no mundo corporativo. O Marco Franzolin (Sócio-diretor da MonkeyBusiness) entrou logo depois da Renata e mostrou para todo mundo como transformar uma simples apresentação em um show capaz até de engajar adolescentes na hora do recreio. Eu vim por último, como devia ser desde o início, falei um pouco sobre as dificuldades que as empresas encontram quando usam storytelling e tentei dividir a minha pouca experiência com quem estava por lá.  

O texto ficou técnico, eu sei, mas se você não entendeu do que eu estou falando e quer saber mais sobre como as histórias podem mudar a sua vida e a sua empresa? Entra nesse link e se inscreve nessa edição super especial do curso de Inovação em Storytelling do CIC-ESPM. Estarei por lá e prometo que eles vão explicar tudo isso e um pouco mais.



- Luis, eu me interessei muito por essa coisa de storytelling, mas não acho que eu consigo. - disse uma das meninas da minha sala de aula enquanto discutíamos um texto que eu publiquei no grupo do face para ajudar na divulgação do próximo curso de storytelling do CIC-ESPM. 

- Como assim, não sabe se conseguiria? - perguntei genuinamente curioso.

- Não sei se eu consigo escrever uma história porque alguém mandou. Sabe? Tipo "escreve sobre isso ai..."- disse a menina como quem realmente pensa no assunto. 

- Então, isso na verdade é costume, prática e algumas regras. Essa parte é mais publicidade do que escrita, está mais relacionado ao que chamamos de "storyplacement" e "productplacement" do que a narrativa realmente. Mas consegue sim, todos nós conseguimos. Contar histórias é da nossa natureza, fazemos isso desde que se tornou possível desenhar, falar e escrever, para transmitir conhecimentos e nos comunicar. É mesmo difícil lidar com o briefing, com essa coisa do "escreve sobre isso...". Mas eu acho que é esse o desafio, escrever bem apesar dos limites que temos que seguir. 

Me lembrei imediatamente de um texto que li na internet enquanto pesquisava storytelling logo depois do primeiro curso que fiz. O texto dizia que um bom escritor e principalmente um bom redator, deve saber lidar com limites e não adianta reclamar deles, ou achar que são eles que seguram a criatividade. Na verdade esse texto me fez perceber que é no limite que encontramos as ideias mais criativas. Afinal é fácil pensar fora da caixa se a caixa está desmontada. Os limites servem para que possamos contorná-los e provarmos que somos criativos mesmo com pouca liberdade. Como diz um amigo meu "as melhores músicas brasileiras foram escritas durante a ditadura porque os músicos trabalhavam o dobro para driblar as regras." 








No começo éramos apenas homens e mulheres, barulhentos e pouco sociáveis, mas logo aprendemos a desenhar, escrever e nos comunicar. Logo nos tornamos Aladim, Peter Pan, Chapeuzinho Vermelho. Logo nos tornamos lendas e viramos história. Histórias que vivem para sempre.

Criamos histórias, primeiramente, para passar o conhecimento. Um sumério, em um dia de inspiração e com o objetivo de registrar e transmitir seu conhecimento, deixou desenhado em uma pedra a receita de um bebida: a cerveja. É graças a uma história, gravada em pedra, que podemos aproveitar nossos "happy hours" e dizemos, cada dia mais, que cerveja faz parte da nossa brasilidade.

Muitos homens e mulheres alcançaram a eternidade e hoje ocupam um espaço na imaginação coletiva. Muitas histórias estão dependuradas em prateleiras por todo o mundo, o país das maravilhas de Alice divide o mesmo espaço no meu quarto que o fascinante universo de Douglas Adams e o seu guia dos mochileiros da galáxia. O mundo das histórias é infinito e todos temos permissão de entrada.

Eu, que já era fascinado pelas palavras, entrei nesse mundo pela sala de aula. Ouvindo as histórias de quem sabe o que faz simplesmente por ter praticado, errado e aprendido. Histórias tão inspiradoras que se tornaram curso e foi nesse curso e eu encontrei uma nova direção para a minha história. Este texto, apesar de não ser storytelling, é apenas um "extra" para avisar quem ainda não sabe que o Fernando Palacios, a Martha Terenzzo e o Bruno Scartozoni, mestres do storytelling publicitário, irão iniciar no dia 27 de Agosto mais um curso, abrindo as portas desse maravilhoso universo para que mais pessoas possam mudar suas vidas e começar novas páginas. Vamos aprender juntos os segredos do storytelling? Ainda tem vaga, aproveitem e entrem no link: http://bit.ly/storyclass 




Começar uma história não é fácil, mas terminar parece sempre mais complicado. Fugir do desfecho óbvio e surpreender a audiência está entre os objetivos de todo storyteller. Nesse caso, o “foram felizes para sempre” não é a melhor alternativa. Para fugir do óbvio é preciso despistar a preguiça. Essa foi a primeira lição que aprendi com Hemingway.

O autor norte-americano, vencedor do Pulitzer de 1953 e do Nobel de Literatura em 1954, escreveu 47 finais para o romance A Farewell to Arms, publicado em 1929. Imagine a gama de possibilidades para a mesma história. Os desfechos variavam de uma ou duas curtas sentenças – bem característico do estilo enxuto de Hemingway – a diversos parágrafos. Em uma entrevista décadas depois, disse que tinha feito tantas tentativas para conseguir as palavras certas.

A segunda lição foi manter a capacidade de ouvir. Olhos atentos e ouvidos abertos. Assim é possível captar detalhes aqui e acolá, os quais um dia servirão para a história em que você estiver trabalhando. Hemingway falou sobre isso em uma carta que escreveu em resposta ao seu amigo F. Scott Fitzgerald, sobre um romance que ele acabara de publicar, em 1934.

“Há muito tempo você parou de ouvir, exceto as respostas às suas próprias perguntas. Isso é o que ‘seca’ um escritor, não ouvir. É de onde vem tudo, de ver, de ouvir. Você vê muito bem, mas parou de ouvir. [...] Apenas escreva sem se preocupar com o que vão dizer, se vai ser uma obra-prima ou não. Eu escrevo uma página de obra-prima depois de noventa páginas de merda e tento colocar essa merda no lixo.

Depois desse tapa na cara de Fitzgerald (e de qualquer um que se propôs a escrever uma história alguma vez na vida), Hemingway volta ao seu estilo conciso e finaliza:

Go on and write.

Imagem: http://problogservice.com/images/ernest-hemingway.jpeg





Eu sempre estive em sala de aula, ou como aluno, ou como professor. Acabei me acostumando com aquele lugar único em nossa sociedade. Ensinar é arte, é quase como atuar, cada dia somos uma coisa, amigo, psicologo, conselheiro, líder e até professor. No fim das contas as salas de aula não são mesmo, assim tão diferentes dos palcos de teatro, salas de cinema e prateleiras de livrarias. Na verdade é na sala de aula que isso tudo deve se unir para permitir que nossos alunos criem seus próprios mundos, com as peças, livros e filmes que escolherem carregar consigo em suas jornadas.

Porém, enquanto as novas gerações reaprendem a importância da leitura com livros como Harry Potter, Guerra dos Tronos e Crepúsculo. O cinema bate mais um recorde de bilheterias quase todo semestre. Enquanto os teatros voltam para ficar e começam a faltar ingressos para os musicais em São Paulo, por exemplo e a indústria do entretenimento cresce e cada vez mais pessoas prestam mais atenção nessas histórias, o professor está em sala de aula reclamando que o aluno o trocou pelo celular ou computador.



Não é verdade que o jovem de hoje em dia não consegue prestar atenção nas coisas, aliás, pelo contrário, o jovem da sociedade em que vivemos é capaz de prestar atenção em várias coisas e desenvolve cedo em sua vida, um senso crítico em relação a informação que nós demorávamos anos para desenvolver. Se os jovens de hoje não fossem capazes de prestar atenção as indústrias do cinema, teatro e literatura estariam em crise, afinal se isso fosse verdade, sagas de 5 ou 6 livros, cada um com 300 ou mais páginas, jamais seriam best-sellers. O desafio não está em encontrar a atenção que o jovem perdeu, o desafio está em perceber que a atenção do seu aluno está em algum lugar e que nós temos que achar um jeito de fazer com que esse lugar seja a sala de aula.

Nossos alunos ficam horas sentados em silêncio no cinema e não conseguem ficar 50 minutos parados em suas carteiras de escola, afinal no cinema a tela é grande e o som é de qualidade. Mas na verdade, a diferença que importa mesmo é que as histórias estão melhores no cinema e nas redes sociais do que nas salas de aula. Storytelling, apropriando-se de suas características publicitárias é capaz de trazer  atenção do seus alunos para a sala de aula. O que falta na educação hoje, além de investimento, cuidado e outros aspectos "políticos" da coisa é um pouco de marketing: estude o seu público alvo, conheça o seu produto, crie seu personagem, prepare sua apresentação e conte a sua história. Assim podemos finalmente fazer os alunos abaixarem seus smartphones e levantarem suas orelhas. Na publicidade não falamos mais apenas de consumidores, falamos de atentos e engajamento e é hora da educação aprender um pouco com a propaganda.




As taças estavam erguidas em comemoração e as palavras afiadas do primo Joca cortavam o silêncio que existia entre uma risada ou outra.


- Não faz assim com ela, você vai machucar a menina - dizia tia Cida, mãe de primeira viagem, tipicamente desesperada. 


- Cida, fica calma... amor, eu também sou pai dela e sei o que estou fazendo.

- Bruninho, não brinca com a mamadeira, você não tem mais idade pra essas coisas... - completa tia Cida.

Mariana, recém nascida, era o motivo de tanta felicidade. Ela era especial, não apenas porque  a tia Cida e o tio Carlinhos estavam tentando "engravidar' há anos, havia algo de especial naqueles olhos claros e espertos.

Não demorou muito para que Mariana conhecesse todos os médicos da cidade, afinal, aos três anos de vida já se imaginava que a pobre garota estivesse, ao menos, falando algumas poucas palavras.

- Eai doutor? Alguma novidade?

- Sinto muito Carlinhos, nada... não há nada de errado com a menina. Acho que ela gosta do silêncio.

- Mas não é possível doutor, nada? Alguma coisa está errada, o Pedrinho, filho da minha irmã já falava tudo com 3 anos...

- Pois é, mas não há nada de errado, e não adianta a gente ficar examinando, vamos acabar irritando a menina e não vamos achar nada...

Mariana, com o tempo, aprendeu a escrever, mas nunca falou, era como se o silêncio fosse seu esconderijo do mundo. Tentaram de tudo, até os chás de casca de maracujá com pimenta da vó Gilda, mas nada parecia fazer a menina quebrar o silêncio.

Os rapazes da escola, todos em seus melhores ternos esperavam uma oportunidade de dançar com a debutante mais linda e misteriosa da cidade. Para eles o silêncio era um mistério atraente.

Mariana dançava com seu pai a última valsa da noite e sorria. Sorria um sorriso sem fim, como quem sorri sem motivo algum. Até que, assim, quase que do nada a última luz se acende e ilumina  um rapaz encostado em uma coluna como quem cansou de carregar o peso do próprio corpo. Também sorrindo, um sorriso ainda mais simples do que o da debutante.

A música parou e Carlinhos começava a se distanciar da filha, quando, assim do nada, sem motivo aparente o silêncio é quebrado... Ela disse "oi"... e com um ato tão banal o mundo parecia mudar por inteiro e todos os corações que se importavam, que a amavam, que pareciam conformados com o silêncio da vida, todos eles pararam de bater por alguns segundos. Não se sabe até hoje o que houve, alguns dizem, pelas praças da cidade, que a menina não falava por falta de amor, outros gostavam de imaginar tudo isso como uma versão interiorana de "A bela adormecida", mas no fim das contas o que ficou mesmo para a história não foi o silêncio e sim a história do dia em que ela disse "oi".


Dizemos oi todos os dias de nossas vidas, para pessoas que nem conhecemos, como a coisa mais banal do mundo, porém, quando falamos de storytelling tudo é contexto e até um simples "oi" pode ser a mudança que você precisa na vida do seu personagem para que tudo mude e jornada se inicie.


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Os Jogos Olímpicos são um espetáculo: superação, derrota, vitória e patriotismo caminham juntos. Um milésimo de segundo pode determinar o sucesso ou o fracasso de um atleta que se preparou arduamente nos últimos quatro anos. Um dos momentos mais mágicos dos jogos é a abertura. Um misto de cores, luzes e performances anunciam dias de torcida para centenas de nações. Neste ano, havia um componente mágico na abertura que ia muito além das coreografias. Em Londres falou-se de histórias, por alguém que entende muito bem do assunto: Danny Boyle foi o diretor artístico da cerimônia de abertura. Ele é conhecido pela direção de filmes como Trainspotting, Por uma Vida Menos Ordinária, 127 horas e Quem Quer ser Milionário?, este último vencedor de oito Oscars.  

O tema da cerimônia era “This is for everyone”. Assim como os jogos olímpicos, as histórias são para todos. E Boyle aproveitou o poder das histórias para contar o legado e os valores do povo inglês. A proposta era mostrar o que os britânicos ofereceram ao mundo, nos esportes, na sociedade, nas artes... Passaram pelo estádio olímpico personagens memoráveis como o agente secreto James Bond, que “contracenou” com a rainha Elisabeth. Para alguns soou exagerado, para outros funcionou. Ele não criou personagens, valeu-se dos que fizeram a história da Inglaterra, em uma combinação que agradou à maioria.

Um dos maiores orgulhos britânicos, o National Health Service, que seria como o nosso SUS, foi retratado por crianças e enfermeiras. Os vilões criados na terra da rainha como Malvina Cruela, dos 101 Dálmatas, Capitão Hook, de Peter Pan e Voldemort de Harry Potter perturbaram o sono das crianças e nem as mais destemidas enfermeiras foram capazes de espantar os malfeitores. Até que Mary Poppins chegou e colocou ordem na casa. Foi construído um mundo de fantasia ao vivo, diante dos olhos.

JK Rowling, em uma de suas raras aparições públicas esteve presente, mais uma vez para mostrar o poder das histórias. Afinal, não é qualquer um que consegue vender mais de 450 milhões de exemplares e ter sua saga traduzida em mais de 70 idiomas. Ela leu um trecho da obra Peter Pan, do autor britânico J.M. Barrie. Aliás, no âmbito das artes há de se concordar que os ingleses deixaram um bom legado ao mundo: The Beatles, Queen e David Bowie e suas canções imortais, JK Rowling com sua saga Harry Potter e por que não Danny Boyle e seus filmes?

Embora a cerimônia não tenha sido construída em cima da estrutura da narrativa -- estava mais para histórico do que para história -- ainda assim havia elementos de uma história sob a batuta de Boyle. Foi isso que transformou a cerimônia de um amontoado de coreografias em um evento memorável. 

Isso me fez pensar no papel do Brasil nos eventos esportivos que estão por vir. Que narrativa iremos construir? Estamos preparados para mostrar nosso legado de uma forma tão criativa como fez a Inglaterra? 



Já imaginou se você perdesse a memória? Acordar pela manhã e não reconhecer seu pai, nem sua mãe, nem seus amigos ou irmãos? Olhar no espelho e não saber quem é?

O que nos faz ser o que somos é o passado e o passado é feito de histórias. Aquela vez que vez que fomos a praia com os amigos e machucamos o pé tentando jogar bola descalço. O dia do seu aniversário em que a luz acabou e festa no fliperama virou um jantar a luz de vela com direito a história de terror. O dia em que saímos do trabalho e fomos beber com o chefe. Tudo o que somos hoje é resultado de uma história, afinal não existe jeito melhor de lembrar do passado, nem de sonhar com o futuro. 

O facebook está tentando há algum tempo mexer com essas histórias. Recentemente trocaram o "no que você está pensando" pelo "conte a sua história" e a própria linha do tempo se revelou uma ferramenta interessante para contadores de histórias criativos. Agora, para promover uma de suas ferramentas o facebook decidiu brincar com a questão das histórias e dessa vez eles acertaram no storytelling. 



A história é boa, rápida e bem contada, o vídeo começa mostrando o personagem andando de costas o que  mostra o seu "uniqueness", ou seja, aquilo que é característica única daquele personagem. A ferramenta e a marca entram sem forçar a barra, mas sem se esconder, de maneira natural, como algo que faz parte da vida de todos. Após sofrer e buscar maneiras de lidar com a sua situação o rapaz descobre uma maneira nova de usar a ferramenta. Achei legal a ideia de mostrarem um utilidade diferente para a "produto" sem querer fazer com o que ele seja o salvador absoluto da pátria mas mostrando claramente o que ele realmente é: uma ferramenta que depende do usuário para se tornar extraordinária.

Temos conflito e personagem, temos a jornada desde o mundo "normal" pela transformação e a volta ao mundo "normal" com o personagem agora transformado. Temos o produto e a marca bem posicionados na narrativa e somos envolvidos pela trama. O Facebook realmente mandou bem nesse case! 




Pulei de site em site, como de galho em galho, me dependurando em manchetes e twites em busca de um parágrafo mais doce que ainda não houvesse caido da arvore lá pra página 20 do google. Lá de longe, nem lembro onde, encontrei uma frase bonita, que me chamou a atenção, não dava muito bem para ver o que era, mas três palavras eram claras: "ballantine's", "quadrinhos" e "história", algo me chamou a atenção e eu decidi buscar mais informação sobre aquilo. 

A antecipação era grande, uma marca de whisky, o meu predileto, contando uma história, o sorriso escapava por entre os pensamentos cautelosos capazes de prever possíveis decepções com horas de antecedência. Mas não consegui evitar, a curiosidade criou expectativas, mais algumas páginas, mais alguns pulos e tropeços causados pela pressa e pronto. A página do Ballantine's Brasil no Facebook. 

Estou chateado, de verdade. Magoado. Quem sabe um dia eu entendo o descaso, o desapego, a "desvontade" desse povo para com as palavras. Não é assim, bagunçado, nem tão simples... história... não basta dizer o que aconteceu, basta? Não basta, escrever em um balão e desenhar... cada coisa mais descabida que colocam no balão desses desenhos hoje em dia... não basta fazer quadrinho e dizer que é história, o manual da TV tem quase 200 páginas e não é livro, não é literatura. É claro que esse sentimento todo é culpa minha, um tanto de exagero de um escritor que ainda romantiza o que não conhece. Talvez seja a falta de experiência que me deixe tão exagerado. 

Pois é, meus amigos, o manual não está errado em ser um manual e eu juro, em um momento de ócio, eu já o li, do começo ao fim. O problema é dizer que o manual é a história da TV. A forma tanto faz, o que importa no fim das contas é o conteúdo. Nem todo vídeo é um filme assim como as instruções de segurança do avião, apesar de terem quadrinhos, não são nem revista, nem história. Pois é, procurei e procurei um pouco mais, mas no fim eu só achei os quadrinhos e me perdi em mais e mais galhos e páginas do facebook procurando a história. Não estou dizendo que é errado usar outros formatos para falar da sua empresa ou se comunicar com o seu público, estou apenas dizendo que as instruções de voo em um avião estão em quadrinhos e nem por isso são uma história. Não que a campanha não seja boa, mas não sei se a palavra "história" é adequada para a situação. "Quadrinhos com certeza" mas a história deixou a desejar e acabou se revelando apenas tirinhas com piadas e pequenas situações bastante óbvias falando de consumo consciente. Não achei o conflito e os personagem vão assim como aparecem, vivem no máximo por três quadrinhos, assim não dá tempo de conhecer ninguém, muito menos de criar laços. Não que eu quisesse uma saga de heróis, mas talvez uma série de tirinhas. Eu diria até, ousadamente, que manter o personagem por mais de um tirinha seria interessante, faria com que nos conectássemos melhor, lembrei da Mafalda e pensei: "Que graça teria a Mafalda se amanhã fosse Joaninha e depois Gabriela?" 









Artigo escrito por Martha Terenzzo e Fernando Palacios, publicado originalmente no Portal HSM

O próximo filme do diretor Ridley Scott vai aos cinemas em junho, mas a história já começou na internet. A campanha de divulgação na web é no mínimo inusitada. Digo inusitada para não parecer que estou fazendo propaganda do filme. A verdade é que a estratégia é genial.

A indústria do cinema convive com a questão do sucesso ou fracasso imediato. Todos os anos de trabalho da concepção do roteiro à pós-produção e os milhões de dólares investidos são medidos em apenas dois dias: o fim de semana de estreia. Não é por menos que a turma dos trailers tenha se tornado quase tão importante quanto à do filme em si. Foi nessa antecipação que a equipe de Ridley Scott surpreendeu.

O trailer é um TED Talk, organização especializada em encontrar, promover e divulgar palestras curtas e inspiradoras. O TED existe no mundo real e adquiriu status de alto prestígio e reputação. Não basta ser famoso para palestrar. É preciso ter algo profundo e impactante para compartilhar. E ter dinheiro não é o suficiente para estar na plateia. A audiência é pinçada entre milhares de interessados que preenchem uma ficha contando suas histórias de vida. Muitas vezes, eles reúnem no auditório inúmeras pessoas com histórias tão boas quanto as dos palestrantes. A palestra vai para a internet e lá ganha uma audiência de milhões de pessoas em todo o mundo. Pois com o Ridley Scott as histórias de vida deram espaço à ficção.

O primeiro trailer-teaser da nova produção de Ridley Scott é justamente uma palestra TED... no ano 2023. Em três minutos, o personagem fictício Peter Weyland fala sobre nossa primeira tecnologia, que inclusive não fomos nós que inventamos. Veio dos deuses. Ou melhor, foi roubada deles por Prometheus: o fogo. Depois disso uma tecnologia levou a outra e ela está para falar que em breve irá lançar androides indistinguíveis de nós. E, com isso, viraremos os deuses.
Só que não foi o fogo em si que iniciou a revolução da humanidade, foi o controle sobre ele. Por isso a imagem da fogueira é tão poderosa. É um ícone universal que remete a conforto, calor, segurança, comida e, tudo isso junto, com boas histórias.

Algo tão ancestral não pode ser uma simples ferramenta. Storytelling vai muito além de realizar uma tarefa. É usado para liderar equipes, inspirar plateias, vender produtos, imortalizar um acontecimento e transmitir conhecimento.

Temos então uma nova questão. Como o simples ato de contar histórias pode realizar tantas coisas, inclusive fazer a mulher, o jovem e o editor mais ricos da Inglaterra? Simples? Não é tão simples assim. Ainda mais quando em vez de intuitivo, o processo tenha que ser planejado.

Storytelling tem tudo a ver com o símbolo da fogueira. O fogo é o “story”, a substância imaterial, a versão mental que temos de uma história. A madeira é o “telling”, sendo que cada graveto atua como uma narrativa. O fogo só ganha forma visível quando um autor narra sua versão daquela história. Primeiro é preciso ter algo a dizer (story), para depois encontrar a melhor forma de expressar (telling).

Finalmente entra em cena o conceito de transmídia. O raciocínio é de fragmentar partes da história por meio de múltiplos formatos. Cada graveto possui o seu formato e, à sua maneira, contribui para aumentar o fogo. É como o trailer do filme de Ridley Scott que simplesmente não vai aparecer na película. É uma extensão, um complemento, mas que vai além de uma tocha perdida, já que enriquece a experiência como um todo.

Qual é a genialidade do cineasta Ridley Scott? Ora, em vez de ficar criando dezenas tochas, ele cria fogueiras bem estruturadas. Anos depois é capaz de alimentar a fogueira com novos gravetos. Portanto, o fogo fica cada vez mais forte e acaba sendo visto por mais pessoas. Como ele chegou a esse trailer? Graças ao pensamento por trás do filme. De forma indireta, Prometheus é o antecessor de Alien. Já havia fogo. E Ridley Scott só aumentou a fogueira.

Imagine se as empresas tivessem este pensamento: criar histórias fascinantes que vão muito além de um simples herói da marca ou do consumidor-padrão e criar universos imersivos ricos e complexos. E assim como Ridley Scott transformou o que poderia ter sido um mero trailer num curta-metragem de três minutos, também as empresas muito além dos anúncios de situações de cotidiano e criar narrativas que ninguém quisesse pular depois de cinco segundos. Talvez até envolver, de tal maneira que as pessoas se dispusessem a pagar para ver sua mensagem corporativa. O processo é simples. Basta juntar gravetos e fazer fogo.


Martha Terenzzo e Fernando Palacios, ambos professores de Inovação e Storytelling da ESPM.
Para saber mais sobre o assunto, acesse o link