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Quando alguém conhece um escritor é normal ter curiosidade sobre a tal da escrita. Escrever parece fácil, mas na prática é tão difícil. Até porque a beleza do texto, diferente de uma imagem, é mais subjetiva. Demora mais pra saber se um texto é gostoso ou bonito. Quando as pessoas encontram uma fonte de bons textos, elas não entendem exatamente o que fascina tanto. Só sabem que querem ler mais e mais. Um vício saudável. Aí começa a fase das perguntas, do querer entender. Depois vem a fase do querer tentar por conta. De querer escrever também.

Resolvi escrever esse post no meio da viagem porque pareceu importante. A pergunta "sobre o que eu escrevo?" é bem típica, mas na última semana foi como se entrasse em ebulição. Apareceu por email, em conversas no face, na página e até ao vivo. Se você também está se perguntando isso, vale a leitura e se quiser ir mais a fundo, recomendo o Curso de Inovação em Storytelling na ESPM.

Escreva sobre aquela cicatriz que você tem. Mesmo que seja aquela cicatriz que ninguém nunca tenha visto, porque não fica na pele.

Escreva sobra o seu melhor amigo de infância, aquele que só você conhecia. Ou sobre a baleia que está presa em sua imaginação e louca para sair.

Escreva sobre todas as coisas que te fascinam. Sobre as maravilhas do mundo, as maravilhas da vida. Mesmo que seja o  pão com azeite e sal que seu avô preparava antes das refeições.

Escreva sobre o seu primeiro beijo. Sobre a primeira vez que suas pernas tremeram na presença de alguém. Sobre o último beijo seu que alguém recebeu.

Escreva sobre aquela sua viagem por um país exótico. Conte os detalhes do cenário. Mesmo que a jornada tenha sido durante um sonho.

Escreva sobre um belo dia de Sol que começou a chover.

Escreva sobre a chuva que parou.

Escreva sobre escrever.

Escreva.



O vídeo a seguir é a história de um cara que perdeu o telefone de uma menina que conheceu na balada. Pois é, com uma sinopse dessas eu não imaginava o quanto de atenção ele conseguiria, mas depois de ignorar o link, que pipocava na minha timeline de tempos em tempos, comecei a ler sobre esse vídeo em blogs de publicidade e os números são assustadores, 706.270 views no youtube (até o momento em que escrevi este post), 78.793 pessoas no grupo do facebook e por aí vai. Até o segundo vídeo aparecer e tudo ficar um pouco estranho, os números baixaram e as teorias da conspiração (justificáveis) começaram a aparecer. 

Pensando bem, a história nem é tão ruim assim e está começando a ficar interessante, pelo menos a história de "de onde veio isso?" ou "qual é a marca responsável?". 

Assistam ao vídeo e vamos ao Story e Telling da coisa:


Daniel Alcantara, 20 e poucos anos de idade, é simples (talvez simples demais) e simpático, leva sua vida entre a balada com os amigos e o trabalho do dia-a-dia (Pelo menos é isso que o vídeo deu a entender). Até que um dia, numa noite de balada, damos início ao conto de fada dos tempos modernos, o jovem se apaixona pela moça (Até ai a história vai quase bem...) e pega o telefone dela, em um guardanapo (OPS! Tem coisa errada ai, afinal, alguém que frequenta um lugar como a "Casa 92" em 2012, com toda certeza do mundo tem um celular no bolso. Quando as ações de um personagem não condizem com as situações em que o colocamos a história fica confusa e o personagem superficial. (Sem contar que se o amor era tanto assim, mesmo que o número estivesse em um guardanapo o rapaz teria copiado pro celular, talvez até usando a câmera de 41 MP do novo aparelho da nokia...) Mas a história de amor dos tempos modernos cativou muita gente e por enquanto (mesmo sem aparecer nada da marca) é o que conta. 

Ainda falando de personagens podemos partir do amante para a amada e ai, meu amigo, temos um problema sério. A descrição da garota segue abaixo: 


Fernanda, pele clara, olhos verdes ou azuis, aproximadamente 1,70, magra, cabelos longos, lisos e escuros e idade APARENTE 28 anos. Tudo bem que para o bem da história ele realmente não teria muitas informações sobre a garota que conheceu na balada, mas espera um pouco, nenhum comentário sobre uma mania? Nenhuma tatuagem, cicatriz ou qualquer outra característica que a torne especial? Nem a cor do olho ele lembrava? (talvez isso seja justificável pelo fato deles estarem em uma balada, mas mesmo assim, sinto falta de algo especial na descrição da moça). Com essa descrição eu conheço milhões de garotas que poderiam ser a Fernanda. O objetivo do storytelling é sim fazer com as pessoas se relacionem com os personagens, podemos sim olhar para um personagem e pensar "nossa sou eu", mas será que alguém no mundo não quer ser especial? O que é que me faria querer ser essa Fernanda no final das contas?

A história continuou, o segundo vídeo forçou a barra, mas ainda deixou a dúvida na cabeça de muita gente: real ou não?

E é ai que entra outro erro da história, quando falamos de storytelling para marcas devemos ter em mente o objetivo principal de um publicitário: vender. Sim, é lindo poder ser artista e escrever belíssimas histórias com ótimas artes, mas não somos apenas escritores ou pintores, somos publicitários e comunicamos marcas. O celular, no terceiro vídeo (veja a abaixo) foi apresentado como um artefato solucionador de problemas. Usar o produto como artefato pode funcionar, mas um artefato também tem que ser especial, é só pensar na varinha do Harry Potter ou na lâmpada do Aladim. Ainda no terceiro vídeo houve outro erro e talvez o mais sério de todos eles: eles pararam de mostrar a história e começaram a contar uma história nova. (Show, don't tell é a primeira coisa que me vem a mente quando penso em storytelling). 



A história, que virou um vírus na internet pode acabar sendo uma gripe, das fortes para a Nokia, já que a falta de presença da marca desde o início da ação causou um sentimento de traição nos consumidores e ao invés de "Nokia, a marca daquele case muito bom de storytelling, uma linda história de amor" ganhamos um "A Nokia, aquela empresa que mentiu pra todo mundo no facebook."

Pois é, meus amigos, a ação da Nokia tinha tudo pra dar certo, mas o erro aconteceu no StoryPlacement e a maneira como a marca apareceu frustrou a atenção de todos, ou quase todos. Antes de terminar devo dizer que esse case me serviu de aviso sobre algo que eu ainda não tinha pensado:

Youtube, Facebook, Twitter e tantas outras redes podem ser ótimas mídias para publicarmos uma história, e o tom de realidade também, mas devemos tomar cuidado para não deixar a nossa história se perder entre todas as outras e por consequência a nossa marca perder a chance de virar um mito nesses novos e turbulentos tempos da publicidade.



Monica Karr nasceu de parto normal e na escola nunca foi 0 nem dez, levou tudo na base do 7,0. Faculdade, bem no meio da lista, nem em baixo nem no topo. Não era o tipo de parar o trânsito, mas nunca passou despercebida. Nada extravagante acontecia na vida da jovem, nada fora do comum, e ela gostava assim. Virou escritora meio que sem querer, na verdade ela queria mudar tudo aquilo, palavra após palavra procurando por um grande acontecimento que mudasse aquele café com leite, nem claro nem escuro, com cara de boteco sem gosto nenhum, que ela chamava de vida.

Madrugada de sábado pra domingo e única luz ligada vinha do computador, o café, servido em copo da starbucks mas feito em casa, forte e morno, a janela aberta pra enganar a claustrofobia e quem sabe aumentar um pouco a sensação de espaço do seu apartamento. Mão no rosto, olhando pro computador e pensando que suas palavras eram tão sem graça quanto um pão frio com manteiga de pouca qualidade.

- Para de reclamar... e pensa menos, ninguém quer saber do teu colegial, era melhor ter tirado zero naquela prova de matemática, a história seria mais interessante.

Karr ouviu as palavras mas se recusou a acreditar, não ouvia a voz de Joana desde os quinze anos, quando as duas brigaram por causa de uma prova de matemática. Passou a mão no rosto de novo, tomou um gole do café e tentou voltar a escrever.

- Sério, nem teu personagem consegue tirar uma nota maior que 7,0? Ninguém quer saber sobre um nerd nota 7.0.

Monica, lembrou dos remédios, escondidos atrás dos produtos de higiene no armário do banheiro, pensou nas datas de válidade que já deviam ter se expirado desde a casa de seus pais.

Vodka! Sim, a vodka não estava vencida. Rodou a cadeira de escritório com um leve impulso com as duas mãos apoiadas na mesa, como sempre fez desde que brincava no escritório do pai. Levantou, andou apenas alguns passos ao redor da cama para alcançar a geladeira, pegou a garrafa de vodka no congelador e tomou o caminho do volta, mas parou antes do primeiro passo, olhando para cama como quem vê um fantasma. Joana sentava na cama, de saia e com um travesseiro no colo. O tempo não a afetou, ainda tinha os mesmos 12 anos de idade que sempre teve.

- Oi!

- Oi? Como assim oi? O que você está fazendo aqui? Me livrei de você faz dez anos. Volte pro lugar de onde veio. - respondeu Monica enquanto pegava o copo do café e servia uma dose generosa.

- Pois é! Você se livrou mesmo de mim, não foi? Mas eu te perdoo...

- me perdoa? Como assim? ... quer saber, você não existe, é só a minha cabeça... de novo...

- me diz uma coisa, só me responde uma pergunta e eu vou embora.

- tá...

- como está a sua vida depois que você "se livrou de mim"?

- Como assim? Está ótima! Eu durmo a noite, nunca mais tive problemas na escola, as pessoas não dizem mais que eu sou louca. Minha vida é ótima sem você! Pronto, respondi, agora vai embora...

- Tá bom, eu vou, mas antes me diz outra coisa... como é que estão os seus textos depois que eu fui embora?

- meus textos? Você não tem nada com meus textos... some daqui! AGORA!

- Fica calma, assim, gritando sozinha nesse apartamento deprê, todo mundo vai achar que você é louca, sabia?

- Culpa sua! De novo, a culpa é sua, amanhã não vou poder nem olhar na cara dos meus vizinhos...

- Moni, presta atenção, olha pra esse cara, esse tal de João... que história mais sem graça, um taxista que não dirige nem bem, nem mal, que fica o dia todo contando as fofocas que escuta que no táxi, não tem nenhuma paixão, nenhum grande sonho, até o carro do cara é um qualquer... Ninguém quer saber de uma história dessas... e vamos combinar que depois de mim a sua história foi bem assim... nota 7... nem zero, nem 10, nem nada, tudo com você é morno, até o seu café... mas fui eu aparecer que você pegou a vodka, mudou o a rotina e a sua história ficou boa...

- Agora você é escritora? Só faltava essa...

- Ou você aprende que a historia só fica legal quando o cara não consegue entrar pela porta da frente e tem que pular a janela ou não vai mais sair do caixa da livraria para as estantes...

- Do que você está falando?

- Olha aqui, você sempre quis escrever... e até agora o mais perto disso que chegou foi gerente de livraria... suas histórias são chatas porque você tem medo de falar das coisas estranhas, daquelas que acha que ninguém vai gostar, das tuas manias...

- Semana passada eu postei no blog sobre comer leite condensado direto da latinha... viu como você tá errada?

- E esse leite condensado, ele te fez esquecer um coração partido?

- Não...

- Ele te fez lembrar da sua mãe morta ou do seu pai violento?

- credo! Não... minha mãe está viva e meu pai é um anjo...

- Ninguém é santo... o leite condensado salvou a vida de alguém ou te deixou doente no hospital?

- Não!

- Então foi chato... todo mundo come leite condensado o tempo todo, se o seu leite condensado não é diferente, é chato... você já escreveu sobre a gente? Ou publicou alguma coisa do nosso diário?

- Não, nem vou! Você é louca e eu quero que você vá embora...

- Ok, se você não quer ajuda, eu vou...
Monica sentou na frente do computador enrijecida por uma mistura saudosa e angustiante de raiva, medo e inspiração, serviu mais uma dose de vodka e começou a escrever sem nem mesmo ler as próprias palavras...

Um ano depois, Monica Karr estava trabalhando em uma livraria, sentada na cadeira olhando ao redor e assinando livros, sempre com a frase "a vida não é uma prova, às vezes tirar 0 dá uma história mais interessante do que tirar 10"

A história de Joana, a amiga imaginária de 12 anos que nunca envelheceu, de uma escritora sem talentos, virou um bestseller traduzido em 4 idiomas e Monica, finalmente descobriu que para contar uma boa história era preciso ter coragem de expor o que mais te incomoda.




Como pessoas normais costumam ver:

Luis Mathias dos Santos Ferreira, R.G. 23.456.456-7, C.P.F. 234.567.678-43, nascido em São Paulo, 20 de Julho de 1989. Mãe: Eunice Evangelista dos Santos. Solteiro. Estudante de publicidade.

Como um storyteller vê:

Um garoto perdido, como tantos outros, por entre documentos e números que nada dizem. Nascido em uma noite fria de inverno que parecia chover ansiedade por toda a sua família. Anda pelas ruas, as velhas e as novas, da grande selva cinza brasileira, procurando por histórias que não tenham se perdido nos papéis molhados e desfeitos da terra da garoa. Trocou a escola pela vida, mas se formou. Trocou a porta pela janela, o vinho pela cerveja, as horas pela deadline e o que é pelo que vê.

Como um aprendiz de feiticeiro, tenta todo dia uma nova magia, cria novos mundos e aprende aos poucos que para contar uma boa história tem trocar o conveniente pelo não convencional. Caiu da janela e voltou pela porta, tentou beber vinho de novo e perdeu alguns parágrafos de futuro e presente. Parou de procurar, mas um dia encontrou, com a ajuda de um amigo, outra história para escrever, ou será que é a mesma história com jeito diferente de escrever? Tem coisas que o Luis Mathias vive, mas só o Gaspar que pode ver.
  




- O caminho da floresta é mais rápido, ela queria chegar logo na casa da vovó. No meio do caminho tinha um barulho vindo de dentro da floresta, parecia que alguém estava seguindo ela.

- Seguindo? Por que seguindo? Era lobo mau?

- Ela começou a correr bem rápido e o barulho mas o barulho continuava seguindo ela. Até que o lobo mau pulou de dentro da floresta bem pro meio do caminho. Ele era enorme, preto, e com dentes afiados que pareciam facas, olhou para ela e disse que nem adiantava correr.

- O lobo fala?

- Fala!

- E o que ele disse?

- Ele disse que nem adiantava correr e perguntou pra onde ela estava indo. Ela respondeu que ia visitar a vovó. Ai, o lobo perguntou o que ela tinha na cesta e ela disse que eram doces para a vovó e ofereceu um doce pro e disse que só daria o doce se ele fechasse os olhos e abrisse a boca. O lobo estava com fome e obedeceu, fechou os olhos e abriu a boca enorme, ela deixou uns doces no chão e saiu correndo, bem rápido, bem rápido mesmo! 

- E o lobo?

- O lobo abriu os olhos depois de muito tempo esperando e viu os doces no chão, procurou a menina, mas não achou, comeu os doces e correu bem rápido também pra chegar na casa da vovó antes dela.

- E quem chegou primeiro? 

- Ele chegou primeiro e enganou a vovó pra ela abrir a porta e quando ela abriu ele comeu a vovó da menina, que já estava chegando lá também. O lobo vestiu a camisola da vovó e deitou na cama, quando a menina chegou ele disse pra ela entrar e fingiu ser a vovó.

- E ai? Ele comeu ela também?

- A menina entrou e olhou pro lobo na cama e começou a perguntar um monte de coisa, que nem você, sabe?

"Vovó, por que suas orelhas são tão grandes?" e o lobo respondeu "Pra te ouvir melhor minha filha!" "Por que seus olhos são tão grandes?" "Para te ver melhor..." e ela continuou perguntando "Por que sua boca é tão grande vovó?" ...

E assim vai a história, o lobo come a menina e o Caçador aparece para salvar as duas, mata o lobo e todos ficam felizes.

Por que contar a história da chapeuzinho vermelho aqui?

Bom, storytelling é mais sobre perguntas do que respostas, é sobre fazer o atento querer saber o porque de tudo até chegar no final da história. Eu podia ter usado Lost para este post, mas gosto de ideia de conhecer uma história como uma criança, inocente e curiosa, procurando motivos para tudo o que acontece. Enquanto escrevo me pergunto tantos "porques", quanto perguntava para a minha mãe, quando eu era pequeno, para não correr o risco de deixar as coisas simplesmente acontecerem.