Criar um personagem é uma jornada, precisamos conhecer o personagem como conhecemos aos nossos amigos mais íntimos, saber como eles reagiriam em certas situações. Imagine o Dr. House em uma festa infantil, por exemplo. O personagem é como uma pessoa qualquer e quanto mais íntimos estamos melhor sabemos o que a pessoa faria em certas situações. Mas não basta um personagem para termos uma história.  

O lugar é como um personagem, faz parte da sua história e deve ter suas características próprias. Imaginem Lost, por exemplo, se eles estivessem em uma ilha qualquer, ou o que seria de jogos mortais sem as salas especiais para tortura. O próprio House não poderia trabalhar em um hospital publico qualquer. O lugar é o espaço onde a sua história acontece e se o autor não souber o que está por detrás de cada uma das portas ninguém saberá o que acontece na história. Viaje pelo seu lugar, conheça os espaços, salas e caminhos pelos quais os personagens terão que passar. Assim, quando você quiser criar mistério, pode colocar o seu personagem em uma sala que o leitor não pode ver. 

O que seria de Willy Wonka sem a sua fábrica fantástica, repleta de surpresas, cada sala com uma função para a fabricação do chocolate e com uma função na história. Hemingway dizia que devemos deixar para os leitores 20% da história, o resto precisamos saber para o bem da veracidade. Quando falamos de lugares eu penso nisso, penso que se o meu personagem entrou em uma piscina eu não preciso mostrá-lo nadando, mas ele precisa sair molhado de lá. 

Eu gosto de acreditar que escrever é uma aventura, então eu gosto de me aventurar pelos lugares dos quais escrevo, reais ou não, é sempre bom saber o que nos espera na próxima esquina. 





Vou entrar na onda da nossa amiga Renata Rossi que publicou este ótimo texto sobre "de onde vem as histórias" e tentar fazer uma reflexão também. A pergunta da vez é: quanto vale uma história?

Diferente da Renata, que se perguntava sobre as origens das histórias, eu sempre me perguntei sobre o valor dessas histórias. Na verdade eu sempre quis saber como é que nós medimos esse valor, afinal a J.K Rowling se tornou a mulher mais rica da Inglaterra e levou na mesma viagem uma onda que formou a editora mais rica da Inglaterra e chegou no cinema para fazer de Daniel Radcliffe o jovem mais rico da Inglaterra.

É claro que isso não é regra, afinal quantos não foram os autores e histórias que se perderam na genialidade para ganhar o reconhecimento séculos depois de sua criação? Pensar em contar histórias para o mercado, para marcas, como fazemos no storytelling me causou, devo admitir, um certo estranhamento logo de início. Refletindo sobre o assunto eu acabei me perguntando o valor de histórias como os contos de fada atemporais que permeiam o imaginário das crianças de todo o mundo, ou até mesmo o valor das histórias contadas pela bíblia que, crenças a parte, mudaram a história da humanidade. Qual seria o valor de mercado, por exemplo, das histórias marcadas dos sumérios dentre as quais podemos encontrar a receita da cerveja. No melhor estilo storyteller termino essa pequena reflexão com: E SE os sumérios não tivessem escrito a receita da cerveja em uma história e a cerveja não existisse nos dias de hoje?








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Desde que comecei a pesquisar storytelling, algo me intriga: de onde vêm as histórias?

Da criatividade do autor? Sim.
De suas experiências vividas e sonhadas? Sim.
Da pesquisa de arquétipos, mitos e lendas? Sim.

Para todas essas questões a resposta é sim, mas acima delas, está uma fonte onde todo bom contador de histórias ou storyteller, como queira, bebe: a tradição oral. É graças a essa passagem de sabedoria de geração em geração que conhecemos tantas histórias. Os contos de tradição oral não ser perderam no tempo porque preservam uma estrutura narrativa, a jornada do herói, descrita por Joseph Campbell em O Herói de Mil Faces. Em cada cultura os mitos, as lendas e os contos aparecem com detalhes específicos e em variadas versões, mas a estrutura, se mantém.

Em Acordais, Regina Machado, afirma: São tantos os escritores que beberam e continuam bebendo dessa fonte [os contos de tradição oral], que é impossível conhecê-los todos. Há também os afluentes na superfície da terra, representados pelos autores contemporâneos que escrevem histórias recriando a estrutura e os temas dos contos tradicionais. O grande romance épico Senhor dos Anéis, que Tolkien elaborou durante anos, tem a estrutura narrativa moldada no modelo do conto tradicional. Os episódios sucedem-se combinando rigorosa pesquisa de fontes com a criação de inúmeras imagens poéticas e situações de forte impacto narrativo. A influência dessa história se expandiu em outras inúmeras produções como jogos e desenhos. (Olha só a transmídia aparecendo aí...)  

Quem acredita que Cinderela foi uma criação de Walt Disney está enganado. A história dessa princesa é um conto da tradição oral. No século passado foram coletadas 345 versões desta história. Pesquisadores localizaram versões contadas até na China e no Vietnã. Talvez à Disney coube o mérito de popularizar uma versão, a sua versão. Mas a origem do conto vem de um tempo imemorial que assim como local de origem, não se pode precisar. É assim com tantas outras histórias.

A nós, storytellers, fica uma lição: beber na fonte das histórias para que possamos conhecer suas versões e suas nuances. Para que cada conto lido ou ouvido e cada filme assistido seja nossa fonte de inspiração para criar e contar nossas próprias histórias.

By Daniel Souza



Essa semana nós tivemos mais um curso de Transmidia Storytelling no CIC-ESPM e mais uma vez eu me lembrei do primeiro curso que eu fiz, das primeiras histórias que mudaram a minha vida. Me lembrei o quanto eu amo essas histórias e percebi a sorte que eu tenho de estar aprendendo tanta coisa com pessoas tão boas e esforçadas.

O blog é sobre Storytelling, eu sei, e eu mesmo já contei por aqui muitas da minhas histórias, mas hoje eu queria aproveitar esse espaço para agradecer aos personagens que tem participado desses últimos meses da minha história. 

Quando entrei pela porta de madeira me deparei com um mundo novo, não sabia muito bem o que esperar daqueles três professores, andando de um lado para o outro. O de cabelo mais cumprido e barba me parecia meio desconfortável, assim como eu, por estar de camisa em um local assim. Acho que era coisa da minha cabeça, mas o lugar parecia combinar muito mais com a professora, imponente, séria porém simpática do que com os outros dois professores. As pessoas iam chegando depois de mim e se sentando nas cadeiras do auditório. Todos de terno, ou com jeito de executivo de revista tipo a veja, vocês sabem como é. 

Nos pediram para escrever sobre como chegamos até lá e eu escrevi um bocado de besteiras, estava meio acuado, com medo de ser eu mesmo, sei lá. O ano ainda não tinha começado direito e eu queria mudar vida. Pois é, mudei de vida naquela semana. As histórias inspiradoras dos mestres Martha Terenzzo, Fernando Palacios e Bruno Scartozzoni, me ensinaram que é possível ser feliz e que eu podia sim estudar e me tornar escritor. Muitas novas histórias começaram a partir desse primeiro curso, na verdade foi nesse momento que eu, como "herói" da minha própria história, conheci meu mestre e recebi o meu "convite" para embarcar em uma nova aventura. 

Ontem eu tive o prazer de estar ao lado dos mestres enquanto ouvíamos as histórias dos storytellers que nos acompanharam essa semana. Vou admitir que me emocionei e muito com muitas das histórias que ouvi. Foram relatos de suas próprias vidas, defesas de causas sociais, histórias sobre amor, compaixão, histórias honestas e autênticas como devem ser todas elas. Então, hoje, além de agradecer aos meus mestres, professores e, se me permitem, amigos eu queria também agradecer aos alunos do curso de storytelling, não apenas os dessa edição, mas de todas das quais eu participei, pois por mais incrível que pareça, em cada curso eu aprendo mais sobre storytelling ouvindo as histórias desses colegas e percebendo que a jornada de todos nós fica mais fácil e divertida quando dividimos nossas histórias com os outros. 

Obrigado à todos por mais um ótimo Curso de Transmidia Storytelling no CIC-ESPM e que venham outros cursos, outras e pessoas e principalmente outras histórias para todos nós.  



Num tempo que não havia tempo, num lugar que não era lugar nenhum uma menina caminhava saltitante pelo bosque, com uma cesta cheia de guloseimas, a caminho da casa da vovozinha. Quem já não ouviu essa história inúmeras vezes?

Conto de fada dos mais conhecidos, Chapeuzinho Vermelho data do século 17, com versões de Charles Perrault e dos irmãos Grimm. Em ambos a estrutura da narrativa se mantém, mas na versão dos Grimm há um desfecho feliz, com a ajuda do caçador que abre a barriga do lobo e salva a vovó e a menina.

Por ser tão conhecido, o conto já ganhou inúmeras versões. Encontrei uma que me surpreendeu. A inocência da Chapeuzinho Vermelho foi por água abaixo na animação RED, de Jorge Jaramillo e Carlo Guillot. Talvez uma mistura de Matriz com Kill Bill? Um toque de Tim Burton?

A estrutura da narrativa original se perdeu nesta adaptação. Talvez tenha sido a intenção dos autores. A ideia pode ter sido apenas fazer uma referência a essa história, que é universal. Se eles queriam tornar a menina contemporânea, conseguiram. Caçador pra que mesmo?