Ultimamente tenho pesquisado histórias africanas. De repente, um interesse foi despertado. Talvez seja pela descendência, uma vez que meu avô materno é filho de uma escrava com um português. Comecei a pensar o que eu sei sobre a África. Fiquei envergonhada... É pouco demais... E você, o que sabe sobre esse continente?

Nessas buscas reencontrei esse TED, que já tinha visto há um tempo, mas nem de longe naquela época ele fez o sentido que hoje ele faz. Está aí um dos atributos do storytelling: as histórias são capazes de ressignificar e quando se encontra um significado que faz sentido a atenção é capturada.




NO TED a romancista nigeriana Chimamanda Adichie nos faz um alerta: "A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história."

Assim como muitos de vocês, eu também tinha uma única história sobre a África antes de começar a pesquisar as histórias daquele continente, que são riquíssimas e inspiradoras, diga-se. Chimamanda tem uma fala que me remete à única história que os estrangeiros têm do nosso país: samba, futebol, carnaval, favelas, corruptos... É o retrato boa parte dos filmes nacionais passa. E esse retrato é o que fica também para nós, afinal o país tem dimensões continentais e nem todos têm a possibilidade (e até interesse) de conhecer tudo.  

Nas andanças pelo universo das histórias conheci uma escritora tocantinense. E lá veio a pergunta martelando internamente: o que eu sei sobre o Tocantins, seu povo, sua história? Mais uma vez era pouco... Com a leitura de dois de seus livros descobri algumas coisas, inclusive que o pirarucu -- um peixe típico da região -- pode chegar a 250 quilos! 

Para alguns isso pode soar como cultura inútil. Eu não acredito nisso. Acho que o storyteller tem o dever de saber mais e mais sobre tudo e sobre todos. Quanto mais referência, melhor. E como bem pontuado nesse TED, que sejam referências diversas e não apenas uma única história, imposta como verdade absoluta e enfiada goela abaixo. 


Há um mês ministrei um workshop profissional de Storytelling na PUC del Peru e uma coisa ficou clara: mesmo com toda a barreira linguística e cultural entre os países, o fascínio e das boas histórias permanece. Talvez mais do que isso. Posso arriscar a dizer que é justamente o poder de se contar bem uma boa história que ultrapassou as barreiras.




Há pouco tempo um amigo enviou um e-mail para mim e para mais algumas pessoas, pedindo ajuda na divulgação de uma vaga para redator publicitário em sua agência. Na descrição da vaga lia-se: "Precisamos de alguém que não se atenha a títulos e chamadas, alguém que goste mesmo de escrever". Dentre tantas outras coisas foi essa frase que me chamou mais a atenção por um motivo simples.

Quando uma agência começa a salientar a importância do desenvolvimento de textos e não apenas de títulos e chamadas para uma vaga de redator, podemos ver, a partir desse pedido um sintoma de algo que está acontecendo na publicidade. Não cabe a mim, com a minha pouca experiência avaliar os motivos pelos quais isso ocorre, mas o fato é que, os redatores, ao que me parece, sofrem de um vício, ou mania, de contenção de palavras. Vários foram os livros que eu li sobre o assunto em que o autor enfatiza a importância do talento de dizer muito com poucas palavras no mundo publicitário. Acho até que é ai que entra o talento do redator, o poder de economizar o tempo do consumidor sem deixar de dizer o que deve ser dito.

Já o escritor literário, aquele que investe seu tempo e trabalho sob o olhar e os cuidado da imaginação, sofre da síndrome oposta. A arte é difícil de ser controlada e muitas vezes a economia de texto não é o forte de um romancista. Apesar de ser uma habilidade bastante salientada pelos maiores mestres da literatura. Como já devo ter mencionado nesse mesmo blog em algum outro post, Hemingway dizia que o bom escritor publica apenas 10% daquilo que escreveu sem deixar nada importante de fora, é claro.

Quando falamos do storyteller, tratamos de uma criatura curiosa, que vive entre os desafios mercadológicos enfrentados pelo redator publicitário e as nuances imprevisíveis da imaginação. Um romancista, acostumado a liberdade da arte teria dificuldades em se manter dentro das linhas bem definidas de um briefing, assim como, um desses publicitários de títulos apenas, talvez se demorasse para encontrar seu caminho por entre tantos parágrafos e capítulos que se fazem necessários para um conto ou romance.

Devo dizer, que é corajoso esse tal storyteller que escolhe se aventurar em uma jornada em um lugar de riscos mil, divididos entre a imaginação do romancista e a criatividade econômica do redator. O escritor que se aventura a dar vida aos cinquenta anos de uma empresa, sem perder de vista a complexidade de um herói romântico capaz de tirar das pessoas, ao unir ambas as habilidades, não apenas suas emoções mais profundas como também o desejo ao consumo. 



Há quem defenda o uso de storytelling baseado apenas em histórias reais, há quem diga que a ficção pode ser enganosa, ou até desonesta. No entanto há também quem acredite no poder da ficção para engajar as pessoas, há aqueles que gostam dos mundos mágicos criados para as marcas.

Eu, bom, eu tenho um opinião bastante simples sobre o assunto. Acredito que seja o trabalho do storyteller saber rechear a realidade com a ficção, romancear, sem exageros, o histórico é uma habilidade que exige cuidado e conhecimento. Há cases em que a ficção pode mesmo atrapalhar a opinião pública em relação a um produto ou marca, a ficção pode gerar um certo desconforto se for tomada como real. Em um exemplo recente em que a ficção se confundiu com a realidade e resultou em uma euforia negativa dos consumidores podemos citar a Nokia, com o case "perdi o meu amor na balada". Porém como case de sucesso e totalmente ficcional podemos falar da coca-cola e do seu maravilhoso universo em "A Fábrica da felicidade", criado para fantasiar o que acontece dentro de uma de suas vending-machines, distribuídas por todo o mundo. 

Desde o começo de minha jornada o Fernando Palacios me diz que o que foi pro papel é, no mínimo, uma interpretação da realidade. Esse conceito, apesar de chegar até mim pelo Fernando, é trabalhado no filme Storytelling de maneira bastante forte e impactante. A verdade é que enquanto escritores e artistas fica difícil realmente afastar a obra do autor. Toda obra tem um pouco de quem a escreveu, seja no estilo, no enredo, ou em um personagem apenas, o que escrevemos é na verdade uma interpretação do que vemos, ou vivemos, mesmo que seja ficcional ou distante da nossa realidade. 

No fim das contas o que importa para que uma história seja boa, é a honestidade, tanto ética quanto literariamente, devemos ser honestos com nossos leitores sabendo onde está e como cruzar sem truques nem enganações a linha entre a realidade e a ficção. 



E se existisse uma história esperando por você em cada lugar que você passasse? Não existe? Você pode até não perceber que ela está ali ansiosa para ser contada, mas existe. As histórias estão acontecendo aos milhões, o tempo inteiro, em todas as épocas e países. Atrás da porta, pelo buraco da fechadura ou a olhos vistos.

Observá-las, em muitos casos, é insuficiente para elas saírem do esconderijo. Será necessário partir para a ação. Organizar as ideias, planejar os capítulos, montar um roteiro e construir a narrativa – escrita, falada, encenada, em animação, formato de game, do jeito que for melhor. Ou, até, mandar um especialista fazer tudo isso por você. Só não vale deixar uma boa história passar sem ser registrada.

Em seu poema “Procura da poesia”, o escritor Carlos Drummond de Andrade recomendou:

Penetra surdamente no reino das palavras 
Lá estão os poemas que esperam ser escritos(...) 
Chega mais perto e contempla as palavras 
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta, 
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Um dos maiores erros do mercado, em geral, é acreditar que as histórias servem apenas aos poetas e sonhadores. Esse é um velho preconceito. As histórias e as técnicas de Storytelling são importantes, inclusive, para promover as empresas e valorizar as marcas, aumentando a interatividade com os clientes e os resultados corporativos. Há diversos modos de isso ser feito.

As melhores histórias sobre o seu negócio são capazes de estar próximas ou muito além dele. Podem ser explícitas ou aparecer nas entrelinhas, vai saber... De preferência com a ajuda de um ótimo storyteller, cabe a você percebê-las o quanto antes e usá-las em benefício da empresa. Trouxeste a chave?