Você sabia que para psicanálise não importa se o que o paciente conta são fatos reais? 

Para Freud o psicanalista precisa entender a estrutura do inconsciente, não o seu conteúdo. E ele vai além, para o pai da psicanálise a grande maioria das nossas memórias é atravessada por uma energia muito forte: as emoções, e elas são capazes de turvar e até mesmo modificar completamente nossas impressões sobre as coisas. Ou seja, nossas memórias são ligadas às nossas emoções, não necessáriamente aos fatos!

Tá, mas o que isso tem a ver com Storytelling?

Nossa personalidade é formada em grande parte pela nossa memória, ou seja, pela nossa história pessoal. Através da psicanálise e de outros métodos psicológicos o sujeito pode rescrever sua própria história e através desse processo superar traumas e impasses pessoais... Ou seja, exercitar o storytelling em sua própria alma!




(Voz grave masculina, leve rouquidão, pausadamente anuncia em microfone)
- Quesito samba-enredo... Nota...
Os integrantes de cada escola de samba, em suas mesas, paralisam a espera do anúncio do locutor. Entre eles, 10, 15, 20, uma vida inteira de experiência em desfiles. Cada décimo de nota é crucial. Pode ser céu e inferno. Eles sabem da importância de um bom samba-enredo.
Fantasias, alas, carros alegóricos... Nada disso terá sentido sem uma música que os dê o ritmo. Nada disso será tão bonito sem um bom enredo, cantado em forma de samba, na ponta da língua de cada um dos que desfilam.
Pois o enredo de uma história, seja ela contada no cinema, no livro, no comercial de tevê ou na avenida, é a faísca de lógica e de razão que ascenderá à emoção. É a progressão dos fatos que se reconhecerá em cada um dos que assistem, lêem, consomem ou cantam.
Para os integrantes de cada escola de samba, em suas mesas, paralisados a espera do anúncio do locutor, é também para cada um dos que avaliam. Terá o samba-enredo convencido o jurado, assim como um enredo deve convencer um espectador, um leitor ou um consumidor?



O mito da publicidade contadora de histórias
Publicado inicialmente no Ideia de Marketing por Fernando Palacios

Ao começar um curso eu gosto de perguntar “quem aqui pediria ao gênio da lâmpada o poder de contar bem uma boa história?”. Raramente alguém levanta a mão. Das mais de duas mil pessoas que treinei, não passam de 30 as que pediriam tal poder. O curioso é que ao questionar aqueles que não levantaram a mão as respostas sempre giram em torno de dois motivos.

Grande parte das pessoas preferiria pedir a fortuna do Tio Patinhas. Tudo bem, é um desejo bastante justo. Mas, no entanto, e se no dia seguinte o governo confiscar esse dinheiro? Por outro lado, com o poder de contar uma boa história, a escritora J.K.Rowling conseguiu sagrar-se a mulher mais rica do Reino Unido e caso o governo confisque a fortuna, basta que ela conte a história dos pais ou dos filhos de Harry Potter que estará bilionária novamente.

O ato de contar história nos acompanha desde os tempos mais remotos. Antes de inventar a escrita, antes mesmo de criar as pinturas rupestres, nossos ancestrais já se sentavam ao redor de fogueiras para longas sessões narrativas. Graças a isso que, geração após geração, fomos capazes de acumular conhecimento e aperfeiçoar a nossa condição. Quem trabalha com comunicação sabe disso. Ainda assim, também essas pessoas não pediriam ao gênio esse poder ancestral. Só que nesse caso a justificativa é outra.

Quem trabalha com comunicação e, em especial publicidade, julga que já sabe contar histórias e afirma que pratica storytelling todos os dias no ofício. Engana-se quem acredita que a publicidade sempre fez storytelling, da mesma forma que se engana quem acha que quem escreve emails é um escritor. Storytelling vai muito além de redigir textos e roteiros. Digo isso de experiência própria.  Para afirmar que a publicidade sempre contou histórias é preciso recorrer a um anúncio de 1987. Fica a impressão de que já faz 25 anos que os publicitários estão perdendo a chance de contar boas histórias.

Já trabalhei como redator e sempre ‘soube’ que por ter feito dezenas de roteiros eu dominava a arte da narrativa. Só quando fui escrever a primeira peça teatral que entendi (por) que storytelling é outra coisa.

Não quero dizer que a publicidade brasileira não faz uso da narrativa. Ela o faz na mesma medida em que as pessoas pediriam ao gênio da lâmpada o poder de contar bem uma boa história. É raro, mas acontece. E seria muito melhor se acontecesse mais.

As pessoas não querem mais ser tratadas como target de consumidores. As pessoas – eu que escrevo, você que lê – querem usar o tempo da melhor forma possível. Sempre que possível, evito anúncios. Mas se eu tiver que pagar, pago feliz pelo ingresso do cinema. Também não me importo em pagar para ter acesso a livros, games e revistas em quadrinhos. Esses são os lugares onde estão as boas histórias e é aí que devemos recorrer para aprender como manter acesa a chama milenar do poder de contar bem boas histórias. O segredo é que não é dom, tampouco inspiração. Para fazer um bom storytelling qualquer comunicador pode contar com técnicas narrativas para parar de depender do acaso.

Isso é um pouco do que abordamos nos Cursos de Storytelling


Dentro de algumas horas mais uma premiação do Oscar acontece no antigo Kodak Theatre, em Hollywood. Quem gosta de cinema e gosta de pôr suas opiniões à prova, sabe que em 2014 o páreo não está fácil. Nos momentos mais esperados da noite, na hora do famoso “and the Oscar goes to”, nomes como Christian Bale, Leonardo di Caprio, Sandra Bullock e Meryl Streep estarão disputando pelos principais prêmios da noite. Em meio à tamanha lista de peso, surge uma questão: 
Há espaço para inocentes na premiação do Oscar?
Voltando no tempo entre as premiações da Academia, estamos no ano de 1995. Em meio a grandes indicações para melhor filme, como Pulp Fiction e Um Sonho de Liberdade, nomes de renome para melhor diretor, como Woody Allen e Quentin Tarantino, e monstros da atuação para melhor ator, como Morgan Freeman, Paul Newman e John Travolta; era outro o nome que se destacaria ao fim da noite.


Tom Hanks como Forrest Gump, no filme que leva o mesmo nome, é o perfeito arquétipo do inocente. Marcado pela pureza e por um otimismo quase que utópico, o inocente conquista (ao menos para o autor que vos fala) pela forma simples com que vê o mundo ao seu redor. Numa analogia a tão compartilhada Jornada do Herói de Campbell, podemos dizer que em filmes como “Forrest Gump” temos a verdadeira Jornada do Inocente.
Mas o que isso tem a ver com a premiação do Oscar em 2014?



Quase 20 anos depois de “Forrest Gump”, entre – mais uma vez – grandes nomes no páreo como Meryl Streep e Cate Blanchett para melhor atriz, Christian Bale e Di Caprio para melhor ator, Steve McQueen e Scorcese para diretor e superproduções como Gravidade para melhor filme; mais uma vez 2 personagens inocentes merecem atenção na premiação.
Judi Dench como Philomena no filme de mesmo nome e Bruce Dern como Woody Grant em “Nebraska” são dois ótimos representantes do arquétipo do inocente, bem como seus filmes retratam o que seria a verdadeira jornada de um personagem inocente. Com conceitos bastante semelhantes, ambos retratam idosos que decidem, ao fim da vida, ir atrás do que, de uma forma ou de outra, sempre sonharam em ter.
Ainda que “Nebraska” e “Philomena” possam não levar uma estatueta sequer na noite de hoje, e esse texto só sirva como prova dos palpites do autor que vos escreve: “Que belo inocente, esse Pedro! Apostando nos mais improváveis!”; a resposta para a pergunta do começo do texto, “há espaço para inocentes na premiação do Oscar?”, estará respondida com a mesma certeza desde 1995: Sim!


Aonde há pessoas há histórias. Elas são a ferramenta mais poderosa de transmissão de informação que a humanidade já desenvolveu. Se não fossem os mitos, talvez nossa sociedade não tivesse as bases que tem hoje.

Por muitas vezes as histórias são criadas para preencher lacunas que a mente humana é incapaz de solucionar racionalmente, então para suprir a angústia os mitos entram em jogo.

O ser humano é visto muitas vezes como incapaz de dar certas respostas sobre determinados acontecimentos. Apesar de todo o nosso conhecimento as vezes é impossível explicar certas atitudes de nossos semelhantes ou até mesmo eventos incalculáveis como tragédias e desastres naturais. O problema é que nós não fomos feitos para aceitar que certas perguntas ainda não possuem respostas conhecidas. É aí que o storytelling entra em ação, mesmo que de forma inconsciente, gerando novos mitos, e até mesmo universos fictícios complexos para consolar a angústia das perguntas sem resposta.

Basta haver uma questão nebulosa que logo um mito surge para tapar esse buraco, esta lacuna que causa angústia. Pode-se dizer que as teorias de conspiração são de certa forma "mitos modernos" gerados pela sociedade para cumprir esta função de dar explicação para o que parece ser apenas fruto do caos ou da coincidência. Mas o importante é que estas histórias sobre Aliens, Illuminati e outras são tão poderosas que conseguem se tornar a realidade de muitas e muitas pessoas. Afinal de contas, as vezes a ficção é mais sedutora que a realidade, e por isso é mais fácil acreditar que existe um "plano mestre" por trás de tudo do que pensar que estamos a mercê do caos.