Em janeiro de 2017, um e-mail me chamou de melhor contador de histórias do planeta. A história da minha desconfiança, da pergunta que fiz e da viagem a Mumbai para buscar o troféu com as próprias mãos está no episódio anterior, vaidade ou vitória. Ele toca a régua de passagem, num parágrafo de fecho; aqui ela vem inteira. Quem dava o prêmio, com que critério, quem julgava, a que custo e onde conferir tudo hoje, que o domínio do World HRD Congress já morreu e já voltou. Eu guardei cada papel. Esta é a régua que me encontrou, linha por linha.
O convite que listava os critérios
O e-mail de origem chegou em 16 de janeiro de 2017, assinado por Michael McDonald, Chairman do World HRD Congress, com o assunto "CHRO ASIA Presents THE WORLD'S BEST STORY TELLERS AWARD". Não era um parabéns seco. O corpo trazia o processo de seleção inteiro: o organizador publicava a própria régua no convite.
As oito competências avaliadas
Oito competências, no inglês do documento: Strategic Perspective, Track Record, Future Orientation, Integrity and Ethics, Thought Leadership, Emulates the Vision, Broad Vision & Focused, Creative/Innovative. Em português de avaliador: leitura estratégica do mercado, histórico de realizações, orientação para o futuro, integridade e ética, liderança de pensamento, fidelidade a uma visão, visão ampla com execução focada e criatividade de inovação. Nenhum critério pedia curtida, seguidor ou celebridade. A régua media carreira e coerência, o que faz sentido num congresso que reúne executivos de recursos humanos de mais de 60 países.
A célula de pesquisa e o júri
Antes do júri, o e-mail descrevia a etapa que monta a lista curta: uma célula de pesquisa vasculha nomes e prepara a relação que chega aos avaliadores. O meu entrou por essa porta, e é por isso que o prêmio não se inscreve, se atrai. A lista curta seguia para um júri de nove membros, cada um com nome e cargo declarados no corpo do e-mail. Entre eles, o ex-presidente e CEO do Economic Times da Índia e um membro fundador da NASSCOM. Júri decorativo esconde os nomes. Este assinava.
A pergunta que desmonta ou confirma
Fiz a única pergunta que separa prêmio de armadilha: quanto custa. Em 17 de janeiro de 2017, às 20h43, mandei a minha resposta perguntando se havia algum custo no processo. A resposta veio assinada pelo próprio Michael McDonald: "There is no cost involve to attend the event." Na mesma mensagem, ele descreveu um congresso independente e sem fins lucrativos, ofereceu o passe gratuito de três dias e anunciou o premiado como palestrante do World Storytelling Congress. As duas noites no Taj Lands End ficaram por conta do congresso. A passagem aérea, por conta de cada premiado. Custo zero declarado por escrito, com data e remetente, é o documento que eu levei a sério antes de embarcar.
O teste que o golpe não passa
Em 2018, o convite voltou. De novo sem custo, de novo com hospedagem paga. Um golpe não repete a dose de graça: o retorno financeiro já teria sido extraído na primeira edição. E a programação daquele ano, preservada no arquivo do congresso, mostrava o calibre do palco: Marshall Goldsmith no topo dos keynotes, Michelle e Dennis Reina, Grant Herbert e Tony Buzan, o inventor do mapa mental. Na mesma programação, o meu nome entre a executiva de talento da IBM para a Ásia-Pacífico, os CHROs do bKash e da SP Setia e a diretora de talento da Merck. Sou o 2x World's Best Storyteller do World HRD Congress, Mumbai, 2017 e 2018, único brasileiro na lista, atribuído à fonte, como manda a minha própria régua de atribuição.
O que sobreviveu ao organizador
O domínio do World HRD Congress já morreu e já voltou, e é aqui que a régua vira serviço: o microsite do prêmio sobreviveu em capturas do Internet Archive, a lista do prêmio em que o meu nome aparece está lá, e a minha página de evidências guarda as comprovações de terceiro que a auditoria externa pediu. Nos anos seguintes, o mesmo remetente seguiu mandando call-for-entries de outras categorias para outros profissionais, edições de 2019 a 2021: o sistema que me encontrou opera em escala, e saber ler a régua dele virou ofício para qualquer um que receba um convite desses.
Moral da história
Um prêmio que se pode citar tem cinco marcas, e todas cabem num e-mail: régua escrita, júri nomeado, custo respondido por escrito, retorno sem taxa e rastro público que sobrevive ao organizador. Faltou uma das cinco, desconfie. Estavam nas cinco, suba ao palco.
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