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Caros leitores, amigos e "especnautas"*,

Quando um ano sai e o outro entra, são muitas as promessas de transformação. E foi neste meio-tempo que o Stories We Like passou por uma espécie de revolução silenciosa. O blog vinha sendo um espaço para teorizar sobre as muitas possibilidades de comunicação e marketing presentes nas boas histórias. Mas a partir de agora a transformação poderá ser lida.

Empresto dos ingleses a ótima expressão "walk the talk" - algo como "botar a conversa pra andar" - para explicar a nova fase. Chegou a hora de nos lançarmos na jornada da aplicação prática, na qual iremos criar histórias pra falar de histórias.

Parte dessas histórias serão reais e irão narrar os causos que compõem o repertório da Storytellers. As demais serão obras de ficção, pequenos trechos ou recortes de histórias que sempre terão um propósito, além de entreter: uma mensagem a ser expressa, uma informação a ser difundida, um interesse a ser promovido, um ponto de vista a ser compreendido, enfim, sempre haverá um pensamento a ser assimilado por meio da metodologia do Storyplacement.

Pelos aprendizados obtidos e insights gerados, a discussão sobre marketing e histórias não irá cessar, apenas mudar de endereço. As teorias e novidades sobre Storyplacement poderão ser acompanhadas e discutidas no nosso egroup, que apesar de recente já conta com interessantes participações. Para que você também tenha acesso e colabore com esse conhecimento, basta clicar aqui. Até breve.

*o termo "especnauta" é uma mistura de "espectador" com "internauta" e nos foi apresentado pelo Felipe Moreno do programa Letras Criativas.

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Era quase meia-noite e eu voltava de um desses compromissos noturnos que acontecem no meio da semana. Compromissos profissionais, diga-se de passagem. Quase sempre isso significa trocar um jantar de verdade por algum petisco, e uma bebida saudável por algo alcóolico. Como se essa quebra de rotina não tivesse um lado bastante prazeroso. A quem estou tentando enganar?

No caminho, dirigindo por uma grande avenida de São Paulo, me deparo com um Habib´s. A relação entre o cérebro e o estômago, ligeiramente abalada por causa do chopp, faz com que eu ligue os pontos apenas um quarteirão depois. Sim, eu definitivamente estava com fome.

"Obrigado" a retroceder em marcha ré pelo quarteirão a mais, como se a possibilidade de dar a volta fosse instransponível, finalmente estaciono o carro e, algumas chances de acidente depois, já estou dentro do restaurante esperando pelo pedido. Quatro esfihas, duas de carne, duas de queijo.

Impressionante como um pedido simples pode demorar tanto. Quanto maior a fome e a vontade de chegar em casa logo, mais tempo tem um minuto. Mas de repente meu fluxo de pensamentos inúteis é interrompido por um garçom que nota minha camisa e faz uma pergunta.

"Essa camiseta é daquele filme Laranja Mecânica?" Considerando que parecia ser um cara humilde, do tipo que nunca imaginamos vendo um filme desses, tomei um susto. Preconceituoso? Pode ser, mas as vezes a vida prega boas surpresas.

E segue o diálogo:
- Você já viu esse filme?
- Nunca vi.
- Então como você sabe?
- Ah, já ouvi falar muito sobre o laranja lá na Galeria do Rock.
- Legal, você deveria ver, é muito bom.
- É, mas não passa na Globo, eles não passam filme bom, né?

Deveria ter anotado seu nome e levado uma cópia do filme no dia seguinte. Ainda fui ingênuo em indicar uma locadora ali do lado cujo aluguel custa quase 10 reais. Eu matando a fome com quatro esfihas, e uma população inteira por aí com fome de boas histórias.

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Já faz algum tempo que saiu essa notícia no Game Reporter. A Ubisoft, uma das maiores desenvolvedoras de videogames do mundo, anunciou que colocará legendas em seus jogos. Se você acha que eles querem traduzir os jogos para alcançar novos mercados, errou. A princípio trata-se de uma tentativa para melhor atender os deficientes auditivos dos mercados em que já atuam.

Muito louvável por sinal. Mas o mais interessante é que isso só passou a ser uma preocupação por um motivo simples: os jogos de hoje têm histórias cada vez mais elaboradas. É verdade que muitos dos videogames de "navinha" de outrora também tinham um contexto, mas em termos de jogabilidade bastava sair atirando e explodindo meia galáxia sem precisar saber os motivos disso. Agora a história é outra. Videogames modernos cada vez mais apresentam narrativas complexas, onde cada fase geralmente é precedida por longos vídeos que explicam de onde os personagens vieram e para onde estão indo.

O entendimento dessas passagens se torna cada vez mais importante para que o jogador tenha um bom desempenho e complete os objetivos. Não entender o que está acontecendo pode ter o efeito de perder um capítulo no meio do livro, ou 20 minutos de filmes.

Final Fantasy 7 é um dos melhores exemplos do nível de profundidade a que uma história de um jogo pode chegar. A cena que você vê no vídeo abaixo, a morte da personagem Aeris, é tão impactante para quem está acompanhando a trama que (sem exagero) arrancou lágrimas de muito marmanjo. O jogador entrando na história no papel do protagonista, e não de um mero espectador passivo, explica parte desse fenômeno.

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Já faz um tempinho que repercutiu na blogosfera um vídeo sobre o dia em que Homer Simpson é convencido pela Marge a fazer uma colonoscopia. Para quem não sabe, colonoscopia é um tipo de exame do toque retal, só que com uma câmera.

Essa analogia obviamente não serve do ponto de vista clínico, uma vez que, imagino eu, o teste da câmera deva ser bem mais completo do que o do dedo. Mas a comparação não é por aí. O ponto é que ambos ferem o orgulho do macho, principalmente o macho ocidental médio, o macho tipo Homer Simpson.

Então, colocar o próprio enfrentando esse difícil momento, e vendo a tragicidade da coisa ser transformada em piada atrás de piada, foi uma boa sacada da Stand Up 2 Cancer, uma iniciativa que envolve três das principais redes de TV americanas.

Toda história parte de uma ruptura no cotidiano, de algo inusitado, e nada mais inusitado do que Homer Simpson fazendo o tal do exame. Essa história, por si só, já seria capaz de, se não convencer, pelo menos provocar reflexões positivas em muito marmanjo por aí.

Mas a verdadeira genialidade do episódio está no modo como a história é construída. O óbvio seria transformar a saga de Homer Simpson em um tipo de "jornada do herói" (ou do anti-herói?), onde ele, um cara comum, enfrentaria todas as dificuldades, do modo mais dramático possível, até atingir seu objetivo, ou seja, fazer o exame.

Assim até poderia ser interessante, mas reforçaria o martírio mental de todo macho médio que passa pelo dilema entre salvar a própria vida e não perder o orgulho. Indo por outro caminho, nesse episódio a narrativa se desenvolve de uma forma fluída, cômica e, de certa forma, até absurda. Homer Simpson até resiste um pouco no início, mas enfrenta seu destino com relativa tranquilidade, mostrando que, no fundo (sem trocadilhos) não há dilema a ser enfrentado. Não é uma história de como as coisas são, mas sim de como elas deveriam ser. E, por ser protagonizada por um personagem capaz de gerar identificação, tenho certeza que a mensagem foi assimilada por muita gente. Inclusive por mim. ;-)



Em tempo, em uma rodada de discussão sobre o vídeo achamos que o final poderia ser um pouquinho menos exagerado. Existiam outras possibilidades para terminar o episódio de uma forma bem humorada. Mas tudo bem, a iniciativa foi ótima. Prevenção por meio de histórias pode ser uma mão na roda para questões de saúde pública.

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Em todas as épocas, os autores sempre tiveram suas influências. O leitor mais atento já deve ter percebido que cultivamos uma certa admiração pelo JJ Abrams, o cara responsável por Lost (além de outras séries e filmes). Eu mesmo já escrevi sobre Cloverfield, seu último filme, e a "mystery box", um conceito que ele utiliza em suas histórias. O Palacios já o usou como assunto entre dois personagens, em uma história sobre os 6 graus de separação e, recentemente, fez um link entre isso e sua mais nova série, Fringe.

Pois bem, venho nesse post retomar Fringe e, pra variar, falar de JJ Abrams. Antes mesmo do seriado estrear, os fãs mais atentos viram pelo trailer que logo no primeiro episódio havia um desastre de avião, assim como em Lost. Seria JJ Abrams obcecado por desastres de aviões?

A partir daí o Palacios desenvolveu uma ótima teoria capaz de explicar essa coincidência. Em resumo, avião é um bom recurso para juntar gente de tudo quanto é canto do mundo em uma história.

E é mesmo. Mas, no momento que escrevo esse post já vi até o terceiro episódio e, sem prejudicar quem ainda não passou por essa experiência, adianto que, ao contrário de Lost, em Fringe o avião é só mais elemento, um caso a ser solucionado que acaba ali mesmo, no único episódio em que aparece.

Mas não se preocupe, JJ Abrams revela, logo de cara, que o padrão de suas séries é outro: grandes organizações. Assim como a misteriosa Iniciativa Dharma em Lost, e a Tagruato, empresa que está ligada aos acontecimentos de Cloverfield, uma tal de Massive Dynamic logo de cara aparece em Fringe.


Organizações e empresas fazem parte da vida das pessoas, e por isso não teriam como não fazer parte da vida de personagens contemporâneos. A novidade é que JJ Abrams explora essa dimensão com maestria, fazendo com que empresas fictícias deixem de ser apenas cenários, tornando-as parte importante da trama.

Da Massive Dynamics ainda não dá para falar muito, a não ser que eu já estou intrigado, mas pegando a Iniciativa Dharma como exemplo é fácil entender a metodologia. Muito mais do que um simples dado do contexto, JJ Abrams trata do assunto com incrível detalhamento. Logomarca, uniforme, filosofia, objetivos. Está tudo lá, e cada uma dessas coisas tem seu motivo de ser.

Uma organização bem construída sempre pode ajudar no desenvolvimento da história. Quem já trabalhou em empresa sabe que o ambiente corporativo é uma rica fonte de conflitos, intrigas e toda sorte de gatilhos para as mais variadas emoções. Grande parte da população urbana passa pelo menos um terço do dia em escritórios, portanto, além do trabalho, é lá que muitas vezes as pessoas vivenciam romances, vinganças, dilemas etc.

Fugindo um pouco da órbita do JJ Abrams, é possível citar pelo menos mais dois exemplos disso. Ainda no campo dos seriados, o impagável The Office já diz tudo pelo título. Para quem não conhece, basta dizer que é protagonizado pelo Steve Carell, novo queridinho das (boas) comédias pastelônicas americanas. E, no campo da literatura, One Night @ the Call Center é um romance do escritor indiano Chetan Bhagat, que curiosamente também trabalha em um banco de investimentos. A trama se desenvolve em torno de seis funcionários de um call center no subúrbio de uma cidade indiana.

E você? Se lembra de mais algum exemplo de história onde a empresa praticamente torna-se um personagem? E de que forma empresas reais podem utilizar esse recurso?