- O caminho da floresta é mais rápido, ela queria chegar logo na casa da vovó. No meio do caminho tinha um barulho vindo de dentro da floresta, parecia que alguém estava seguindo ela.

- Seguindo? Por que seguindo? Era lobo mau?

- Ela começou a correr bem rápido e o barulho mas o barulho continuava seguindo ela. Até que o lobo mau pulou de dentro da floresta bem pro meio do caminho. Ele era enorme, preto, e com dentes afiados que pareciam facas, olhou para ela e disse que nem adiantava correr.

- O lobo fala?

- Fala!

- E o que ele disse?

- Ele disse que nem adiantava correr e perguntou pra onde ela estava indo. Ela respondeu que ia visitar a vovó. Ai, o lobo perguntou o que ela tinha na cesta e ela disse que eram doces para a vovó e ofereceu um doce pro e disse que só daria o doce se ele fechasse os olhos e abrisse a boca. O lobo estava com fome e obedeceu, fechou os olhos e abriu a boca enorme, ela deixou uns doces no chão e saiu correndo, bem rápido, bem rápido mesmo! 

- E o lobo?

- O lobo abriu os olhos depois de muito tempo esperando e viu os doces no chão, procurou a menina, mas não achou, comeu os doces e correu bem rápido também pra chegar na casa da vovó antes dela.

- E quem chegou primeiro? 

- Ele chegou primeiro e enganou a vovó pra ela abrir a porta e quando ela abriu ele comeu a vovó da menina, que já estava chegando lá também. O lobo vestiu a camisola da vovó e deitou na cama, quando a menina chegou ele disse pra ela entrar e fingiu ser a vovó.

- E ai? Ele comeu ela também?

- A menina entrou e olhou pro lobo na cama e começou a perguntar um monte de coisa, que nem você, sabe?

"Vovó, por que suas orelhas são tão grandes?" e o lobo respondeu "Pra te ouvir melhor minha filha!" "Por que seus olhos são tão grandes?" "Para te ver melhor..." e ela continuou perguntando "Por que sua boca é tão grande vovó?" ...

E assim vai a história, o lobo come a menina e o Caçador aparece para salvar as duas, mata o lobo e todos ficam felizes.

Por que contar a história da chapeuzinho vermelho aqui?

Bom, storytelling é mais sobre perguntas do que respostas, é sobre fazer o atento querer saber o porque de tudo até chegar no final da história. Eu podia ter usado Lost para este post, mas gosto de ideia de conhecer uma história como uma criança, inocente e curiosa, procurando motivos para tudo o que acontece. Enquanto escrevo me pergunto tantos "porques", quanto perguntava para a minha mãe, quando eu era pequeno, para não correr o risco de deixar as coisas simplesmente acontecerem.  


- Eai, como vai?
- Estou bem e você? Olha, eu trouxe esse vinho, espero que vocês gostem.
- Ótimo, a Fátima já tá terminando a janta, a gente pode sentar e tomar seu vinho! Por aqui!
- Ok! Bonita sua casa! Adorei! - O rapaz estava tão nervoso que tomou um susto com a moça entrando na sala com taças de vinho na mão.  

- Oi Juca, tudo bem?
- Tudo sim, e com você?
- Tudo ótimo, tirando aquele urso horrível na sala! Não sei de onde ele tirou essa ideia!

Juca olhou com cuidado para sala, preparado para não ter nenhuma reação que causasse problemas com seu chefe e avistou, no chão da sala, entre o sofá e a televisão, um enorme tapete de pele de urso, daqueles que ainda tem a cabeça e as patas. "Coisa de filme." - pensou o jovem - "Espera um pouco... filme? É isso!"

Esse texto surgiu depois de assistir o vídeo abaixo, que levou um leão de ouro em Cannes, na tentativa de entender como é que alguém chegaria naquela ideia, ou melhor dizendo: de onde é que vem a inspiração para algo do tipo?

Na minha humilde opinião a inspiração pode vir de qualquer lugar, alguns poetas modernos até diziam que era ela, a própria inspiração, a maior de todas as musas. A verdade é que a inspiração vem quando quer e de onde bem entender.





Uma das maiores vantagens do storytelling é que histórias acabam se reproduzindo rapidamente, através de uma boa história bem contada somos capazes de criar campanhas com alto valor de marketing “boca-a-boca” afinal, todos gostamos de contar boas histórias mesmo que a fogueira tenha sido substituída por uma mesa de reunião ou de bar.

Me lembro que no ultimo curso de storytelling que tivemos no CIC – ESPM acabou rolando uma discussão um tanto acalorada sobre os limites éticos do Storytelling. Alguns alunos questionaram os professores sobre a responsabilidade do storyteller em cases como o da Dilleto, por exemplo, que criou uma história fictícia para a marca onde os sorvetes são feitos de uma fórmula especial de frutas naturais e um toque de neve. 

Qual é o limite entre ficção e mentira?

Esse ano, no Festival de Cannes, a Mr. Pizza, uma marca coreana de pizzas apresentou uma ação muito inteligente que pode entrar nessa discussão. Pensando na expansão da rede de pizzarias para os Estados Unidos eles perceberam um problema: Como é que uma marca Coreana irá se posicionar como especialista em pizza em um mercado onde já existe um certo conhecimento sobre o assunto?”. E foi assim que os Coreanos criaram uma teoria da conspiração sobre a origem da pizza.




  



For the last month or so I’ve been watching the TV series MadMen, both because I was told to do so and also because it is a really good series. I’ve also been reading a lot about advertising nowadays and suddenly the two things merged in one single thought: Have we, the MadMen of our times gone really mad now?

When you watch MadMen, just by the third season you understand the market changes they are living, the TV is the newest and most important media and the characters insist on repeating to clients that the important thing for a brand to do is to buy media. I feel that was true for a long time and some of us still believe that time in media, whatever media it is, should solve the problem for a great campaign. But time has changed and with the internet we’re working in world full of information where the boring part of it does not survive. As uncle Ben said to Peter Parker “Great powers come with great responsibilities” but more than that they come with great challenges, after all it is not storytelling if the hero is not transformed by the end of it.

One of the first concepts of storytelling you learn is “plot” which is, superficially speaking, an idea that evolves every beat and every scene of a story to make it become more real and interesting. Why not do the same with a brand?

The plot of a company or brand should be able to make people relate to it, feel something about it and eventually, if that’s you purpose, buy it. It is not a lie when marketers say that TV commercials are going down the road to inexistence. I, for instance, when getting into a supermarket want my refrigerator to look like Steve Jobs’ even if I haven’t ever seen his refrigerator. It is natural to want to be part of something we like and to belong to the group of people we admire. The best way to make us feel that is to tell a good story about the day Steve Jobs drank a can of Pepsi to freshen up. Product Placement has evolved to Story Placement and all of it in a plot.

Maybe it is time for us to understand that the challenge in advertising now is the same as it is in storytelling: to find the human truth in our brands which should be shared with everyone and let our hero/brand grow on people’s heart and not just on their minds. Have the media supported strategy of the Madison Avenue in the 60’s became so crazy it sounds mad? Or it is just me being mad now?   





Logo nas primeiras páginas do “Mochileiro das Galáxias” é possível perceber uma aula de storytelling digna de adoração. Mas não adianta eu ficar falando e falando sem mostrar nada, então, aqui vai uma das primeiras cenas do livro “O Mochileiro das Galáxias” de Douglas Adams.

“Às oito horas da manhã de quinta-feira, Arthur não estava se sentindo muito bem. Acordou com os olhos  turvos,  levantou-se,  andou  pelo  quarto  sem  enxergar  direito,  abriu  uma  janela,  viu  um  trator, encontrou os chinelos e foi até o banheiro. 

Pasta na escova de dentes – assim.

Escovar. Espelho móvel – virado para o teto. 

Arthur  ajustou-o.  Por  um  momento,  o  espelho  refletiu  um  segundo  trator  pela  janela  do  banheiro. 

Arthur reajustou-o, e o espelho passou a refletir o rosto barbado de Arthur Dent. Ele fez a barba, lavou o rosto, enxugou-o e foi até a cozinha em busca de alguma coisa agradável para pôr na boca. 

Chaleira, tomada, geladeira, leite, café. Bocejo. 

A palavra trator vagou por sua mente, procurando algo com o que se associar. 

O trator que estava do outro lado da janela da cozinha era dos grandes. 
Arthur olhou para ele. 

"Amarelo", pensou, e voltou ao quarto para se vestir. Ao passar pelo banheiro, parou para tomar um copo d'água, e depois outro. Começou fa desconfiar que estava de ressaca. Por que a ressaca? Teria bebido na véspera? Imaginava que sim. Olhou de relance para o espelho móvel. "Amarelo", pensou, e foi para o quarto.”

Grande parte do processo de aprendizado e do trabalho de um storyteller está em ler e assistir coisas e o Douglas Adams sempre foi referência para todos os storytellers, cineastas e leitores fanáticos que eu conheço, mas até ganhar uma edição especial com seus 5 livros eu não tinha lido nada e conhecia muito pouco sobre sua obra.
Ao ler o trecho acima eu não pude evitar pensar na frase de Mark Twain que diz “Não diga que a senhora gritou. Chame-a e deixe-a gritar”. Essa ideia de “Mostrar e não contar” a que somos submetidos quando começamos a estudar e entender o que torna uma narrativa agradável e atraente é uma difícil lição para mim. Ao invés de dizer que Arthur Dent é intelectualmente “lento”, Adams, faz com que o atento perceba os fatos sem que ele precise explicá-los. Adams é um mestre nisso e por todo o primeiro livro de sua obra podemos perceber que tudo é assim, pouco explicado, mas fácil de entender. Pensei em várias maneiras de escrever esse post, queria criar um texto novo para demonstrar isso tudo, mas às vezes só os mestres conseguem mostrar o que devemos aprender.
Primeira regra do storytelling que eu aprendi: “Show, don’t tell”.