Eu sempre estive em sala de aula, ou como aluno, ou como professor. Acabei me acostumando com aquele lugar único em nossa sociedade. Ensinar é arte, é quase como atuar, cada dia somos uma coisa, amigo, psicologo, conselheiro, líder e até professor. No fim das contas as salas de aula não são mesmo, assim tão diferentes dos palcos de teatro, salas de cinema e prateleiras de livrarias. Na verdade é na sala de aula que isso tudo deve se unir para permitir que nossos alunos criem seus próprios mundos, com as peças, livros e filmes que escolherem carregar consigo em suas jornadas.

Porém, enquanto as novas gerações reaprendem a importância da leitura com livros como Harry Potter, Guerra dos Tronos e Crepúsculo. O cinema bate mais um recorde de bilheterias quase todo semestre. Enquanto os teatros voltam para ficar e começam a faltar ingressos para os musicais em São Paulo, por exemplo e a indústria do entretenimento cresce e cada vez mais pessoas prestam mais atenção nessas histórias, o professor está em sala de aula reclamando que o aluno o trocou pelo celular ou computador.



Não é verdade que o jovem de hoje em dia não consegue prestar atenção nas coisas, aliás, pelo contrário, o jovem da sociedade em que vivemos é capaz de prestar atenção em várias coisas e desenvolve cedo em sua vida, um senso crítico em relação a informação que nós demorávamos anos para desenvolver. Se os jovens de hoje não fossem capazes de prestar atenção as indústrias do cinema, teatro e literatura estariam em crise, afinal se isso fosse verdade, sagas de 5 ou 6 livros, cada um com 300 ou mais páginas, jamais seriam best-sellers. O desafio não está em encontrar a atenção que o jovem perdeu, o desafio está em perceber que a atenção do seu aluno está em algum lugar e que nós temos que achar um jeito de fazer com que esse lugar seja a sala de aula.

Nossos alunos ficam horas sentados em silêncio no cinema e não conseguem ficar 50 minutos parados em suas carteiras de escola, afinal no cinema a tela é grande e o som é de qualidade. Mas na verdade, a diferença que importa mesmo é que as histórias estão melhores no cinema e nas redes sociais do que nas salas de aula. Storytelling, apropriando-se de suas características publicitárias é capaz de trazer  atenção do seus alunos para a sala de aula. O que falta na educação hoje, além de investimento, cuidado e outros aspectos "políticos" da coisa é um pouco de marketing: estude o seu público alvo, conheça o seu produto, crie seu personagem, prepare sua apresentação e conte a sua história. Assim podemos finalmente fazer os alunos abaixarem seus smartphones e levantarem suas orelhas. Na publicidade não falamos mais apenas de consumidores, falamos de atentos e engajamento e é hora da educação aprender um pouco com a propaganda.




As taças estavam erguidas em comemoração e as palavras afiadas do primo Joca cortavam o silêncio que existia entre uma risada ou outra.


- Não faz assim com ela, você vai machucar a menina - dizia tia Cida, mãe de primeira viagem, tipicamente desesperada. 


- Cida, fica calma... amor, eu também sou pai dela e sei o que estou fazendo.

- Bruninho, não brinca com a mamadeira, você não tem mais idade pra essas coisas... - completa tia Cida.

Mariana, recém nascida, era o motivo de tanta felicidade. Ela era especial, não apenas porque  a tia Cida e o tio Carlinhos estavam tentando "engravidar' há anos, havia algo de especial naqueles olhos claros e espertos.

Não demorou muito para que Mariana conhecesse todos os médicos da cidade, afinal, aos três anos de vida já se imaginava que a pobre garota estivesse, ao menos, falando algumas poucas palavras.

- Eai doutor? Alguma novidade?

- Sinto muito Carlinhos, nada... não há nada de errado com a menina. Acho que ela gosta do silêncio.

- Mas não é possível doutor, nada? Alguma coisa está errada, o Pedrinho, filho da minha irmã já falava tudo com 3 anos...

- Pois é, mas não há nada de errado, e não adianta a gente ficar examinando, vamos acabar irritando a menina e não vamos achar nada...

Mariana, com o tempo, aprendeu a escrever, mas nunca falou, era como se o silêncio fosse seu esconderijo do mundo. Tentaram de tudo, até os chás de casca de maracujá com pimenta da vó Gilda, mas nada parecia fazer a menina quebrar o silêncio.

Os rapazes da escola, todos em seus melhores ternos esperavam uma oportunidade de dançar com a debutante mais linda e misteriosa da cidade. Para eles o silêncio era um mistério atraente.

Mariana dançava com seu pai a última valsa da noite e sorria. Sorria um sorriso sem fim, como quem sorri sem motivo algum. Até que, assim, quase que do nada a última luz se acende e ilumina  um rapaz encostado em uma coluna como quem cansou de carregar o peso do próprio corpo. Também sorrindo, um sorriso ainda mais simples do que o da debutante.

A música parou e Carlinhos começava a se distanciar da filha, quando, assim do nada, sem motivo aparente o silêncio é quebrado... Ela disse "oi"... e com um ato tão banal o mundo parecia mudar por inteiro e todos os corações que se importavam, que a amavam, que pareciam conformados com o silêncio da vida, todos eles pararam de bater por alguns segundos. Não se sabe até hoje o que houve, alguns dizem, pelas praças da cidade, que a menina não falava por falta de amor, outros gostavam de imaginar tudo isso como uma versão interiorana de "A bela adormecida", mas no fim das contas o que ficou mesmo para a história não foi o silêncio e sim a história do dia em que ela disse "oi".


Dizemos oi todos os dias de nossas vidas, para pessoas que nem conhecemos, como a coisa mais banal do mundo, porém, quando falamos de storytelling tudo é contexto e até um simples "oi" pode ser a mudança que você precisa na vida do seu personagem para que tudo mude e jornada se inicie.


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Os Jogos Olímpicos são um espetáculo: superação, derrota, vitória e patriotismo caminham juntos. Um milésimo de segundo pode determinar o sucesso ou o fracasso de um atleta que se preparou arduamente nos últimos quatro anos. Um dos momentos mais mágicos dos jogos é a abertura. Um misto de cores, luzes e performances anunciam dias de torcida para centenas de nações. Neste ano, havia um componente mágico na abertura que ia muito além das coreografias. Em Londres falou-se de histórias, por alguém que entende muito bem do assunto: Danny Boyle foi o diretor artístico da cerimônia de abertura. Ele é conhecido pela direção de filmes como Trainspotting, Por uma Vida Menos Ordinária, 127 horas e Quem Quer ser Milionário?, este último vencedor de oito Oscars.  

O tema da cerimônia era “This is for everyone”. Assim como os jogos olímpicos, as histórias são para todos. E Boyle aproveitou o poder das histórias para contar o legado e os valores do povo inglês. A proposta era mostrar o que os britânicos ofereceram ao mundo, nos esportes, na sociedade, nas artes... Passaram pelo estádio olímpico personagens memoráveis como o agente secreto James Bond, que “contracenou” com a rainha Elisabeth. Para alguns soou exagerado, para outros funcionou. Ele não criou personagens, valeu-se dos que fizeram a história da Inglaterra, em uma combinação que agradou à maioria.

Um dos maiores orgulhos britânicos, o National Health Service, que seria como o nosso SUS, foi retratado por crianças e enfermeiras. Os vilões criados na terra da rainha como Malvina Cruela, dos 101 Dálmatas, Capitão Hook, de Peter Pan e Voldemort de Harry Potter perturbaram o sono das crianças e nem as mais destemidas enfermeiras foram capazes de espantar os malfeitores. Até que Mary Poppins chegou e colocou ordem na casa. Foi construído um mundo de fantasia ao vivo, diante dos olhos.

JK Rowling, em uma de suas raras aparições públicas esteve presente, mais uma vez para mostrar o poder das histórias. Afinal, não é qualquer um que consegue vender mais de 450 milhões de exemplares e ter sua saga traduzida em mais de 70 idiomas. Ela leu um trecho da obra Peter Pan, do autor britânico J.M. Barrie. Aliás, no âmbito das artes há de se concordar que os ingleses deixaram um bom legado ao mundo: The Beatles, Queen e David Bowie e suas canções imortais, JK Rowling com sua saga Harry Potter e por que não Danny Boyle e seus filmes?

Embora a cerimônia não tenha sido construída em cima da estrutura da narrativa -- estava mais para histórico do que para história -- ainda assim havia elementos de uma história sob a batuta de Boyle. Foi isso que transformou a cerimônia de um amontoado de coreografias em um evento memorável. 

Isso me fez pensar no papel do Brasil nos eventos esportivos que estão por vir. Que narrativa iremos construir? Estamos preparados para mostrar nosso legado de uma forma tão criativa como fez a Inglaterra? 



Já imaginou se você perdesse a memória? Acordar pela manhã e não reconhecer seu pai, nem sua mãe, nem seus amigos ou irmãos? Olhar no espelho e não saber quem é?

O que nos faz ser o que somos é o passado e o passado é feito de histórias. Aquela vez que vez que fomos a praia com os amigos e machucamos o pé tentando jogar bola descalço. O dia do seu aniversário em que a luz acabou e festa no fliperama virou um jantar a luz de vela com direito a história de terror. O dia em que saímos do trabalho e fomos beber com o chefe. Tudo o que somos hoje é resultado de uma história, afinal não existe jeito melhor de lembrar do passado, nem de sonhar com o futuro. 

O facebook está tentando há algum tempo mexer com essas histórias. Recentemente trocaram o "no que você está pensando" pelo "conte a sua história" e a própria linha do tempo se revelou uma ferramenta interessante para contadores de histórias criativos. Agora, para promover uma de suas ferramentas o facebook decidiu brincar com a questão das histórias e dessa vez eles acertaram no storytelling. 



A história é boa, rápida e bem contada, o vídeo começa mostrando o personagem andando de costas o que  mostra o seu "uniqueness", ou seja, aquilo que é característica única daquele personagem. A ferramenta e a marca entram sem forçar a barra, mas sem se esconder, de maneira natural, como algo que faz parte da vida de todos. Após sofrer e buscar maneiras de lidar com a sua situação o rapaz descobre uma maneira nova de usar a ferramenta. Achei legal a ideia de mostrarem um utilidade diferente para a "produto" sem querer fazer com o que ele seja o salvador absoluto da pátria mas mostrando claramente o que ele realmente é: uma ferramenta que depende do usuário para se tornar extraordinária.

Temos conflito e personagem, temos a jornada desde o mundo "normal" pela transformação e a volta ao mundo "normal" com o personagem agora transformado. Temos o produto e a marca bem posicionados na narrativa e somos envolvidos pela trama. O Facebook realmente mandou bem nesse case! 




Pulei de site em site, como de galho em galho, me dependurando em manchetes e twites em busca de um parágrafo mais doce que ainda não houvesse caido da arvore lá pra página 20 do google. Lá de longe, nem lembro onde, encontrei uma frase bonita, que me chamou a atenção, não dava muito bem para ver o que era, mas três palavras eram claras: "ballantine's", "quadrinhos" e "história", algo me chamou a atenção e eu decidi buscar mais informação sobre aquilo. 

A antecipação era grande, uma marca de whisky, o meu predileto, contando uma história, o sorriso escapava por entre os pensamentos cautelosos capazes de prever possíveis decepções com horas de antecedência. Mas não consegui evitar, a curiosidade criou expectativas, mais algumas páginas, mais alguns pulos e tropeços causados pela pressa e pronto. A página do Ballantine's Brasil no Facebook. 

Estou chateado, de verdade. Magoado. Quem sabe um dia eu entendo o descaso, o desapego, a "desvontade" desse povo para com as palavras. Não é assim, bagunçado, nem tão simples... história... não basta dizer o que aconteceu, basta? Não basta, escrever em um balão e desenhar... cada coisa mais descabida que colocam no balão desses desenhos hoje em dia... não basta fazer quadrinho e dizer que é história, o manual da TV tem quase 200 páginas e não é livro, não é literatura. É claro que esse sentimento todo é culpa minha, um tanto de exagero de um escritor que ainda romantiza o que não conhece. Talvez seja a falta de experiência que me deixe tão exagerado. 

Pois é, meus amigos, o manual não está errado em ser um manual e eu juro, em um momento de ócio, eu já o li, do começo ao fim. O problema é dizer que o manual é a história da TV. A forma tanto faz, o que importa no fim das contas é o conteúdo. Nem todo vídeo é um filme assim como as instruções de segurança do avião, apesar de terem quadrinhos, não são nem revista, nem história. Pois é, procurei e procurei um pouco mais, mas no fim eu só achei os quadrinhos e me perdi em mais e mais galhos e páginas do facebook procurando a história. Não estou dizendo que é errado usar outros formatos para falar da sua empresa ou se comunicar com o seu público, estou apenas dizendo que as instruções de voo em um avião estão em quadrinhos e nem por isso são uma história. Não que a campanha não seja boa, mas não sei se a palavra "história" é adequada para a situação. "Quadrinhos com certeza" mas a história deixou a desejar e acabou se revelando apenas tirinhas com piadas e pequenas situações bastante óbvias falando de consumo consciente. Não achei o conflito e os personagem vão assim como aparecem, vivem no máximo por três quadrinhos, assim não dá tempo de conhecer ninguém, muito menos de criar laços. Não que eu quisesse uma saga de heróis, mas talvez uma série de tirinhas. Eu diria até, ousadamente, que manter o personagem por mais de um tirinha seria interessante, faria com que nos conectássemos melhor, lembrei da Mafalda e pensei: "Que graça teria a Mafalda se amanhã fosse Joaninha e depois Gabriela?"