Escrevo contos e alguns poemas há um tempo, com a intenção de expressar o que estou sentido e, às vezes, tentar responder algumas perguntas que estão me rondando. Porém, fazia isso naturalmente, por “instinto”, sem me atentar necessariamente para técnicas. Então, em determinado momento descobri que era possível, de certa forma, “racionalizar” essa escrita - e sendo o meu primeiro texto aqui, escrevo sobre isso que foi o que me despertou interesse em Storytelling.
Apesar de a escrita autoral ser uma descarga do que se está sentindo, de experiências vividas, referências pessoais, ou seja, em essência particular e criada naturalmente, é possível encarar a criação como um projeto, com etapas definidas e com elementos narrativos que, se não necessários, são aconselháveis que sejam incluídos no texto. Assim, fazer uso de um “plano de escrita”.
Um plano de escrita, fazendo uso das técnicas de storytelling, deve considerar alguns aspectos como, por exemplo, a existência de “brain rules”, que nos dão um caminho de como capturar a atenção das pessoas, nos mostrando que estamos mais propensos a nos atentar a questões de ameaça (instinto de sobrevivência), sexo (instinto de reprodução) e emoções (que é aquilo que nos faz humano).
Com esses elementos chamando atenção das pessoas, alguma coisa tem que acontecer na história. Algo tem que ser transformado: o personagem, o universo onde ele está inserido, um modelo pelo qual ele lutou contra etc. Se uma história merece ser contada, é porque algo aconteceu, é porque alguma coisa mudou do início para o seu fim.
Essa mudança pode ser a superação de uma rivalidade que o personagem enfrenta no decorrer da história, podendo ser com outro personagem, com um objeto, com o status quo, entre outros.
Outro elemento auxiliador é o cronograma. Podemos tirar dos projetos empresarias esse ensinamento, que conta com um cronograma em todo projeto bem estruturado. Encarar a escrita como algo planejado, então, faz necessário uma pequena organização das datas: o que pretendo ter em determinado dia, quais avanços devo fazer hoje, quando pretendo ter o projeto finalizado etc.
Vale lembrar que na criação de uma história não existe fórmula e nada está totalmente certo nem errado, e que as técnicas não se esgotam nessa breve pincelada apresentada. Até as brain rules podem ser desconsideradas. Também, mesmo que com um projeto estruturado, o “instinto” pode tomar conta e se entregar a ele seja o melhor caminho para a sua história. Contudo, pensar a escrita como um projeto pode ajudar na medida em que torna o processo, de certa maneira, mais estruturado.





Em sua recente passagem pelo Brasil, Storytelvis, o rei do plot, emprestou uma das mais famosas canções de seu repertório para retratar a emoção que sentiu diante das técnicas do Storytelling. Considerado ele próprio uma história que nunca morreu, o artista maneja a guitarra com habilidade única na redação dos capítulos sob forma de acordes. Verso por verso, expressa, ainda, por meio de uma nova letra as sábias e míticas lições que aprendeu com a eternidade de sua obra.

Storytelvis pede apenas que os fãs deixem tocar "Love me Tender" no vídeo abaixo, enquanto leem a letra de "Storytelvis, the King of Plot".



Com vocês.............Storytelvis!!!!

Storytelling
Story is sweet
Never let me go.
You have made my brand complete
And I love you so.

Storytelling
Fiction’ true?
All my dreams fulfilled.
My high-concept I love you,
And I always will.

Storytelling
Short or long,
Let me stay and write
This so cute and lovely song
For us to sing tonight.

Storytelling
Story, dude
All my dreams fulfilled.
For my storycraft I love you
And I always will.

Storytelling
Story dear,
Tell me you are fine
To be heard through all the years
Till the end of times.

Storytelling
In Hollywood
All my dreams fulfilled.
Storytelling  I love you
And I always will.


Se você não estiver muito familiarizado com alguns termos usados na música, vamos dar uma mãozinha:

Brand: a marca de uma empresa.

High-Concept:
 a ideia capaz de gerar uma narrativa interessante. Mais detalhes sobre a expressão você encontra em um post do Stories We Like de novembro de 2011: Já ouviu falar em High-Concept?

Plot:  trama, ou enredo.

Storycraft: ajuda a definir o High Concept, como base em perguntas como "e se não existisse internet?", "e se eu pudesse voltar no tempo?", "e se os vampiros existissem?".




Ultimamente tenho pesquisado histórias africanas. De repente, um interesse foi despertado. Talvez seja pela descendência, uma vez que meu avô materno é filho de uma escrava com um português. Comecei a pensar o que eu sei sobre a África. Fiquei envergonhada... É pouco demais... E você, o que sabe sobre esse continente?

Nessas buscas reencontrei esse TED, que já tinha visto há um tempo, mas nem de longe naquela época ele fez o sentido que hoje ele faz. Está aí um dos atributos do storytelling: as histórias são capazes de ressignificar e quando se encontra um significado que faz sentido a atenção é capturada.




NO TED a romancista nigeriana Chimamanda Adichie nos faz um alerta: "A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história."

Assim como muitos de vocês, eu também tinha uma única história sobre a África antes de começar a pesquisar as histórias daquele continente, que são riquíssimas e inspiradoras, diga-se. Chimamanda tem uma fala que me remete à única história que os estrangeiros têm do nosso país: samba, futebol, carnaval, favelas, corruptos... É o retrato boa parte dos filmes nacionais passa. E esse retrato é o que fica também para nós, afinal o país tem dimensões continentais e nem todos têm a possibilidade (e até interesse) de conhecer tudo.  

Nas andanças pelo universo das histórias conheci uma escritora tocantinense. E lá veio a pergunta martelando internamente: o que eu sei sobre o Tocantins, seu povo, sua história? Mais uma vez era pouco... Com a leitura de dois de seus livros descobri algumas coisas, inclusive que o pirarucu -- um peixe típico da região -- pode chegar a 250 quilos! 

Para alguns isso pode soar como cultura inútil. Eu não acredito nisso. Acho que o storyteller tem o dever de saber mais e mais sobre tudo e sobre todos. Quanto mais referência, melhor. E como bem pontuado nesse TED, que sejam referências diversas e não apenas uma única história, imposta como verdade absoluta e enfiada goela abaixo. 


Há um mês ministrei um workshop profissional de Storytelling na PUC del Peru e uma coisa ficou clara: mesmo com toda a barreira linguística e cultural entre os países, o fascínio e das boas histórias permanece. Talvez mais do que isso. Posso arriscar a dizer que é justamente o poder de se contar bem uma boa história que ultrapassou as barreiras.




Há pouco tempo um amigo enviou um e-mail para mim e para mais algumas pessoas, pedindo ajuda na divulgação de uma vaga para redator publicitário em sua agência. Na descrição da vaga lia-se: "Precisamos de alguém que não se atenha a títulos e chamadas, alguém que goste mesmo de escrever". Dentre tantas outras coisas foi essa frase que me chamou mais a atenção por um motivo simples.

Quando uma agência começa a salientar a importância do desenvolvimento de textos e não apenas de títulos e chamadas para uma vaga de redator, podemos ver, a partir desse pedido um sintoma de algo que está acontecendo na publicidade. Não cabe a mim, com a minha pouca experiência avaliar os motivos pelos quais isso ocorre, mas o fato é que, os redatores, ao que me parece, sofrem de um vício, ou mania, de contenção de palavras. Vários foram os livros que eu li sobre o assunto em que o autor enfatiza a importância do talento de dizer muito com poucas palavras no mundo publicitário. Acho até que é ai que entra o talento do redator, o poder de economizar o tempo do consumidor sem deixar de dizer o que deve ser dito.

Já o escritor literário, aquele que investe seu tempo e trabalho sob o olhar e os cuidado da imaginação, sofre da síndrome oposta. A arte é difícil de ser controlada e muitas vezes a economia de texto não é o forte de um romancista. Apesar de ser uma habilidade bastante salientada pelos maiores mestres da literatura. Como já devo ter mencionado nesse mesmo blog em algum outro post, Hemingway dizia que o bom escritor publica apenas 10% daquilo que escreveu sem deixar nada importante de fora, é claro.

Quando falamos do storyteller, tratamos de uma criatura curiosa, que vive entre os desafios mercadológicos enfrentados pelo redator publicitário e as nuances imprevisíveis da imaginação. Um romancista, acostumado a liberdade da arte teria dificuldades em se manter dentro das linhas bem definidas de um briefing, assim como, um desses publicitários de títulos apenas, talvez se demorasse para encontrar seu caminho por entre tantos parágrafos e capítulos que se fazem necessários para um conto ou romance.

Devo dizer, que é corajoso esse tal storyteller que escolhe se aventurar em uma jornada em um lugar de riscos mil, divididos entre a imaginação do romancista e a criatividade econômica do redator. O escritor que se aventura a dar vida aos cinquenta anos de uma empresa, sem perder de vista a complexidade de um herói romântico capaz de tirar das pessoas, ao unir ambas as habilidades, não apenas suas emoções mais profundas como também o desejo ao consumo.