Os perigos do apocalipse zumbi não se aplicam apenas aos personagens. Muitas vezes escrever é um processo "orgânico" e cronológico, uma brincadeira de personagens e uma sucessão de "e se"s que acabam se transformando em uma narrativa. Esse processo arriscado de construção narrativa já custou dois showrunners (responsáveis criativos da série) em 18 meses. Eu sei que estou simplificando muito o processo, mas foi basicamente assim que a AMC conseguiu quebrar todos os recordes de audiência de séries com The Walking Dead.

CUIDADO COM AS PROMESSAS

Uma das coisas mais importantes em uma narrativa, seja ela série ou livro, é o que chamamos por aqui na storytellers de Grã-conceito, ou seja, aquela promessa que fazemos ao espectador quando apresentamos a nossa história. Quando falamos de The Walking Dead o grã-conceito é bem simples "Um xerife norte americano que acorda de um coma no meio do apocalipse zumbi e começa uma jornada para proteger e salvar sua família, encontrando no caminho, além dos obstáculos apocalíticos, muitos outros sobreviventes" ou simplesmente "Uma história sobre sobre o apocalipse zumbi".

Com um grã-conceito assim, precisamos apenas de bons personagens e alguma imaginação. Conhecendo nossos personagens somos capazes de prever o que eles fariam em certas situações e é ai que entra o "e se..." na brincadeira. Dai pra frente é só continuar escrevendo e se perguntando, "e se eles fossem atacados por 100 zumbis ao mesmo tempo, o que fariam?", " e se eles forem atacados por um grupo de humanos?", "mas e se a mulher estivesse grávida?" e imaginar as respostas de cada personagem para cada uma dessas situações. Pronto, temos uma história... ou não... 


PENSE NAS PESSOAS

Um bom personagem é para o autor como um de seus melhores amigos já que é preciso ter a capacidade de descrever o que ele faria em determinada situação. Pense no seu melhor amigo e tente imaginá-lo no apocalipse zumbi, o que ele faria? Será que ele seria um sobrevivente? Como ele morreria? Qual seria a fraqueza dele que o levaria a morte? Ou qual seria qualidade que garantiria sua sobrevivência? 

Pense nas pessoas, o público tem que entender os personagens como você os entende, se relacionar com eles. Fazê-los acreditar que o personagem é real e humano, vai te ajudar a fazê-los acreditar que todo o resto também é real. 

NÃO SE ESQUEÇA DOS ZUMBIS 

Um dos perigos de seguir a regra de cima é que nós podemos nos esquecer das nossas promessas, então vamos lembrar que: se você prometeu uma história sobre o apocalipse zumbi entregue uma história, no mínimo, sobre zumbis. Pensar nas pessoas é importante, saber o que elas fariam também é, mas no fim das contas o que deve determinar suas ações na história, assim como na vida, deve ser a situação em que estão inseridas, portanto, os zumbis devem fazer parte do "e se..." e ao invés de reagirem eles devem forçar reações, invadir áreas desconhecidas do acampamento supostamente seguro de seus personagens, vez ou outra pegar a menininha loirinha que vocês estava começando a conhecer e se apaixonar e quem sabe até atacar o líder da turma só pra criar um conflito.


Um dos problemas desse tipo de processo é que podemos nos perder no meio do caminho e, ao invés de escrever sobre os zumbis, transformamos a história em um relato sobre um grupo de pessoas forçadas a viverem juntas, dramas pessoais entre eles tomam conta da narrativa enquanto o apocalipse se torna uma desculpa para a união dos personagens, com uma ou outra aparição de um zumbi.  






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As grandes tempestades dão destaque a um velho companheiro que anda esquecido das manchetes: o rádio. Você até pode sacar o telefone celular do bolso para escapar de rios transbordando, queda de árvores e engarrafamento. Comentar no Facebook a respeito de raios e trovões. Nada, porém, tira do radinho aquela cobertura dinâmica sobre os estragos da chuva nos diversos pontos da cidade.

Alimentado pelas grandes tempestades, o rádio é um difusor de alertas à população, tragédias e feitos heroicos. Há desde a turista eletrocutada ao homem que sobreviveu aos alagamentos agarrado às grades do prédio.

Ouve-se a narrativa daquele que perdeu a casa inteira e do que chegou a tempo de salvar mulher e filhos. De gente que atravessou a rua em cima de uma prancha, com a água nos joelhos, o guarda-chuva quebrado, o laptop novo, o sanduíche de mortadela intacto, o cachorro de estimação da vizinha. Sem energia elétrica, do sujeito que ficou preso no elevador com a amante, o pior inimigo, um síndico tagarela, o tablet sem bateria.

O Rio de Janeiro sofreu ontem com uma forte tempestade, que poderia ter atingido qualquer município brasileiro. Qual a sua história desta ou de outras chuvas? Valem os fatos reais ou imaginários, claro.  Sintonize o seu rádio interior antes que a pilhe acabe e mande brasa – ou melhor, pingo.

Para inspirar, vale dar uma olhada na galeria de fotos do jornal O Globo: http://ow.ly/iroza    

Foto: Zero Hora


Certa vez ouvi dizer que a maior invenção do ser humano até hoje, ou até a data na qual ouvi dizer, foi o controle remoto. Incerto se concordo ou discordo dessa proposição, faço uso do mesmo controle remoto e pulo direto à cena em que me apresento ao blog: Olá, eu sou Pedro Kastelic e estou oficialmente me apresentando como colaborador do Stories We Like.


O botão “fast forward” nos trouxe até aqui, o momento em que você lê sem muito entender aonde eu quero chegar e eu torço para que você tenha paciência de lê-lo até o fim. Para isso vamos deixar o controle remoto de lado e começar onde tudo começou.
Meus pais eram um tanto bairristas e não quiseram que eu nascesse na pequena e pitoresca Maracaju, no Mato Grosso do Sul. Assim correram contra as luas da gestação rumo à São Paulo, onde eu deveria nascer. Por um triz - quase na divisa - fui nascer em Presidente Prudente. Essa é a história que ouvi por toda a minha infância e que, mal sabiam eles, faria todo sentido quando alguns anos depois, em resposta à clássica pergunta “O que você vai ser quando crescer?”, eu dizia: Presidente!
E da maternidade já saí trajado como um bom fanático que um dia viria ser: de Corinthians da cabeça aos pés. Pra tirar qualquer sombra da dúvida, assim que cheguei em casa já recebia uma bola de futebol, meu primeiro presente. Tiro e queda, anos mais tarde minha resposta à clássica pergunta passou a ser: Jogador de futebol!
Filho único, durante boa parte de minha infância meu maior medo era irônico: ficar sozinho. Desta forma ia “trabalhar” com os pais e minha distração era papel, caneta e tesoura. Não tardou e a resposta aos colegas de trabalho de meu pai ou de minha mãe já era outra: Quero ser artista!
A magia de minhas respostas parou por aí por muitos e muitos anos, até que há pouco tempo encontrei um fim onde toda esta trama se encaixa a formar a primeira parte de minha história. Onde eu posso ser presidente da república, jogador de futebol e artista com apenas algumas páginas escritas, ou tão só um clique em meu controle remoto. E que quando me perguntarem, responderei sem titubear: Quando crescer quero ser um storyteller!


Ninguém viu a principal técnica de Storytelling das Aventuras de Pi. Literalmente. Ela não pode ser vista nem pelos olhos de quem apreciou o filme na maior das telas de cinema. Nem os óculos do Google seriam capazes de revelar esse segredo bem oculto.

Pois é, apesar de todo aplauso para os elementos estéticos e visuais, desde os efeitos especiais alucinógenos até a fotografia hipnótica. Ainda que a direção atenciosa seja digna de Oscar. Mesmo com toda a estética capaz de traduzir imaginação, a principal técnica de Storytelling do filme é invisível aos olhos.

A técnica tigre de Pi está presente desde o livro, mas também não pode ser vista nas palavras. Aliás, é o contrário disso. Assim como um ninja ou uma mensagem escrita em entrelinhas, a técnica em questão não quer ser vista e vai fazer de tudo para se camuflar. É isso que confere seu poder.

Assim que a Storytellers vai revelar dentro de algumas linhas que técnica é essa. Mas não sem antes alertar que o post só deve continuar sendo lido por aqueles que viram o filme e/ou leram o livro, sob pena de estragar a experiência de uma grande história.

A técnica tigre de Aventuras de Pi é chamada de diegese. Ainda falando tecnicamente, é tudo aquilo que não extrapola os limites da quarta parede. São todas as coisas que nascem dentro do próprio universo da história.

Começando pelo próprio autor. Yann Martel. Ele existe no mundo real, mas ele também está presente na ficção. O motivo é simples: ele diz que é mais barato viver na Índia do que no Canadá enquanto ganha tempo para escrever um romance.

Depois vem a questão do barco com os animais, incluindo nosso amigo, o tigre Richard Parker. Um tigre com nome e sobrenome, que para alguns é uma metáfora, mas que faz sentido no universo da história... afinal, tanto o menino quanto o tigre compartilhavam o navio que naufragou pelo mesmo motivo: o Zoológico fechou.

Uma técnica fundamental para quem quer inserir marcas e produtos numa narrativa. Uma forma simples e eficiente para melhorar numa numa escala geométrica o chamado product placement, também conhecido como merchandising de novela. Se não fizer sentido para a história, então, qual o sentido?