Um jovem apresentou uma ideia. O investidor ouviu à explicação atônito. Sentenciou ao final:
"Deixe eu ver se entendi direito. Eu vou ter que pagar. Pagar dinheiro. Pra ir até uma sala fechada e escura e ficar esperando ao lado de um monte de gente que eu não conheço. Se eu quiser levar um amigo eu terei que pagar o dobro. Ou o triplo se convidar a minha mulher e a minha filha. E tudo isso pra quê? Pra ficar vendo imagens em sequência. E daí que estão sincronizadas com som? E você ainda quer me submeter a isso por mais de uma hora! Ora faça-me o favor. Não quero ser desanimador, meu caro, mas ninguém vai querer saber dessa coisa aí, como é que você chamou? Isso,cinema. Esse cinema aí não tem futuro."
Pois é. Tem inovação que não dá para explicar sem demonstrar. Nem que seja com uma história.
Um post em homenagem à especialista em inovação @marthaterenzzo9 que já vivenciou tantas histórias como essa...
A J.K.Rowling finalmente anunciou o mistério por trás de seu novo projeto, o Pottermore. A autora tem se mostrado grande estrategista de marketing. Já havia usado o último livro para promover o 'spin-off': Contos do Beedle, o Bardo.
Agora ela aproveita toda a expectativa em torno do último filme para lançar um novo projeto. Ao que tudo indica vai ser algo muito parecido com o projeto que a Storytellers fez em parceria com a ID\TBWA: O Mistério das Cidades Perdidas, realizado para a Mini-Schin.
A experiência vai além da linearidade da leitura, já que o leitor assume um papel na narrativa. O curioso é que quando fomos escrever o roteiro 3 anos atrás, Harry Potter foi uma das inspirações. Agora o ciclo se fecha e Pottermore é como se fosse inspirado no projeto.
Se quiser se aventurar pelo Mistério das Cidades Perdidas, é só entrar clicar aqui, selecionar o livro sob a cama e depois clicar quando ele estiver sobre a mesa.
Para conhecer o anúncio sobre o Pettermore, clique aqui.
" Vouconfessar umsegredo: a maioria dos publicitáriosnãosabe criar nem bem contaruma boahistória. Uma afirmação polêmica que sustento com a propriedade da experiência. Passei 6 anos nosmaisdiferentestipos e tamanhos de agência. Da construção de plataformas de comunicação de empresas como a FIAT, passando pela concepção de grandes eventos como o Nokia Trends, avançando sobre a redação de anúncios em rádio, revistas e TV, para finalmente chegar em cases premiados, com milhões de views.
Em 2005 todos os sites de tendência - do trendwatch ao WGSN - apontavam para storytelling como futuro da comunicação. Resolvi me aventurar pelo fabuloso mundo das narrativas. Já tendo escrito dezenas filmes para TV e roteiros de eventos, tinha certeza que seria fácil, fácil. #gentequeseengana
No final de 2007 nasce a Storytellers, primeiro escritório brasileiro de storytelling. Vender a primeirapeça de teatrofoifácil… Mas e entregar? Saiuquasequepormilagre. Depois do susto, comecei a estudarmaissobre o 'craft' e fuireparandoque o problemanão era sócomigo... a maioria dos amigos publicitáriostem medo de muitotexto e parágrafoslongos. "Quanto mais palavras, pior, ninguém lê texto longo!". Imagine o Machado de Assis ouvindo uma dessas.
Conforme fui aprendendo toda a arte de contar uma história ficou evidente que o problema não são os textos grandes, mas a qualidade curta da narrativa. Chega a ser covardia comparar as peças clássicas, os blockbusters e os bestsellers com as histórias que os publicitários contam. A carência de boas narrativas impera até mesmo nos Festivais de Publicidade em que participam as melhores histórias das maiores agências do mundo. Para não ficar no nível do discurso, basta uma rápida análise com base no quehá de melhorna propaganda mundial: osintervalos do final do Super Bowl.
“More than 100 million people are expected to tune in to Super Bowl XLV this weekend, but only some of them are football fans. Thanks to pregame hype and Hollywood-quality production values, Super Bowl commercials have become the main attraction for many viewers.”
Vale observarquenãoestoudizendoquepublicitáriosnãosaibamfazeranúncio, ouqueanúnciosnãofuncionem… estoudizendoque a maiorianãosabecontarumahistória – e, assim, nãoconseguemtirar o máximo de proveito dos seus 30 segundos.
“Regular television commercials are usually part of a cluster of multiple ads. But commercials can never grab us and involve our hearts in the same way as when the product is interwoven into a story which commands our intellectual and emotional attention consciously or otherwise.” Alyssa Sparacino do CNN
A análise abaixo foi feita com base nos anúncios da edição XLV na categoria automobilística.
O ÓBVIO
O primeiro é o exemplo ‘ordinário’, no sentido literal do termo. É o que há de mais básico, e até por isso, de mais comum no mundo da propaganda.
Um narrador em ‘off’ lê um texto escrito sobre um conceito que é repetido várias vezes. No caso, ‘does it makesense?’, ou seja, ‘faz algum sentido?’. E assim o narrador tenta justificar o apelo impossível... de que essa indústria alemã é, na verdade, ‘da América’.
O cliente errou no briefing e a agência deu continuidade ao erro na criação. Um grande case de ‘o que não fazer’, mas que costuma ser feito na maioria das vezes. No, it doesn't make sense.
O NARRATIVO
Dando continuidade ao bairrismo batido do ‘made in America’, tivemos também o caso da Chrysler.
A velha receita de umvoice-over sério impondo ‘a realidade’, belas cenas ilustram o texto recheado de clichês como ‘essa é a nossa história’ e ‘o fogo mais quente faz o metal mais forte’. Terminar com o endosso sem propósito de uma celebridade aleatória.
UM POUCO MAIS DE IMAGINAÇÃO
Esse da Kia embarcou o cliente na onda do storytelling que vem sido martelada ano após ano no Festival de Cannes... Certamente vendeu que tratava-se de uma posicionar o carro numa narrativa épica. Bacana!
Começa direitinho, na vida de pessoas comuns... um casal, vítima de um policial corrupto, é algemado enquanto o policial rouba o carro. Mas a justiça não tarda e o vigarista cai no mar, enquanto o carro é surrupiado por uma espécie de caçador de recompensas, que pretende levar o carro para um marajá que vive em altomar. O plano fracassa quando Poseidon – sim, o próprio, surge e clama o veículo. Mas a alegria do Deus Grego dura pouco, muito pouco, já que o carro é abduzido por uma nave espacial. O ET é visto como herói acelerando pelas planícies de seu planeta natal. Mas o desfecho da história não é feliz para aquele que trocou um disco voador pelo carro terráqueo. Uma espécie de buraco negro suga o carro e o transporta para o centro de um ritual Asteca.
Legal, mas nenhum outro carro da concessionária vai acreditar nessa história... Na tentativa de agradar o seu cliente, a agência esquece de agradar o cliente do cliente. Enquanto o carro é disputado por diversas entidades, o comprador do carro é o coadjuvante posicionadono mais baixo patamar: enganado pelo policial. Afinal, qual é a mensagem que o anúncio quer passar?
Eis uma possibilidade: se todo o universo está disposto a (inclusive roubar para) ter, então é melhor nem comprar...
UM QUE MERECE UMA SALVA DE PALMAS
Comecei o post confessando que a maioria dos publicitários não sabem contar uma história... Isso quer dizer que existe uma minoria que sabe. É o caso dos criadores do anúncio da Audi.
Ele começa em um lugar inusitado: uma prisão de altíssimo luxo que enquadra os bilionários. Três andares de jaulas com grades de ouro, obras originais dos grandes mestres das artes, barcos engarrafados. Dois detentos conseguem fugir. Os demais se rebelam e denunciam os fugitivos tilintando colheres de prata nas taças de cristal.
O diretor da prisão é avisado e manda soltar os cachorros. Vários fluffys correm em disparada. A dupla consegue penetrar em um ambiente seguro. O diretor então ordena que eles sejam atacados pelo Kenny G. A música Songbird começa a tocar. Todos os detentos entram em estado de hipnose. Um dos fugitivos quase cai na armadilha, mas o herói puxa-o de volta ao foco.
Finalmente chegam ao jardim da prisão-mansão. Um carro com chofer aguarda. O fugitivo distraído não percebe a armadilha ao dizer que seu pai tinha um igualzinho... acaba sendo levado de volta à prisão. O outro entra em um Audi A8 e escapa. No final, o que escapou dirige sorrindo e surge o texto ‘Escape the confines ofoldluxury”. Perfeito.
E o mais interessante de tudo é acompanhar a evolução do conceito. Antes de chegarem ao storytelling propriamente dito, construíram todo o conceito de ‘oldluxury’ com o anúncio ‘Goodnight’, veiculado um mês antes.
Fica ainda melhor se comparado ao da Chrysler com o Eminem: produtos concorrentes nas mesmas categorias, anúncios veiculados seguidos, ambos utilizando o conceito de luxo. Em um o carro só serve para ‘ilustrar uma narrativa’, no outro se torna a chave para fechar uma pequena ficção.
A melhor história ganha!
E O PRÊMIO POPULAR VAI PARA...
A grande sensação entre todos os anúncios - não só automobilísticos - foi a do mini Darth Vader. O comercial é simpático, viralizou e até a Marvel quis pegar carona para divulgar o filme Thor. A única ironia é que o comercial de maior sucesso só foi possível porque os publicitários que criaram usaram um personagem de uma outra história. Como diriam por lá 'I rest my case'.
Aproveitando que o assunto tem sido os Cursos de Storytelling, vamos a mais um tema... dessa vez, polêmico: storytelling e política.
Tem gente que se arrepia só de ouvir a palavra política. Se juntar com 'contar histórias' sai briga. Nunca faltam pessoas para gritar a todo pulmão:
'política não me interessa porque não serve pra nada',
'político é sinônimo de ladrão',
'de que interessam os partidos políticos? Quer o fantoche na direita ou na esquerda?',
'política é uma sujeira que não meto a mão.'
Eu também pensava assim. Cinco anos atrás eu estudava comunicação na USP. A aula de semiótica chegou ao fim. A noite era estrelada e convidava qualquer tipo de filosofia. Falei alguma dessas frases para um amigo. Esse amigo, por acaso, era um analista político. Ele refletiu, respirou e disse que não sabia ao certo se fora Platão ou Brecht que disse algo mais ou menos assim:
"Não tem problema algum não gostar de política. Você apenas será governado por aqueles que gostam."
Essa frase me marcou como ferro quente. Doeu aceitar aquela verdade: não é que eu não gostava de política, eu simplesmente não entendia. Mas pelo menos fiquei com uma cicatriz que não me deixa esquecer. Ninguém gosta daquilo que mal conhece.
Se tudo o que dizem sobre política estivesse certo, a lógica cartesiana seria que os envolvidos na política fariam o possível para manter afastados todos os demais. Quem não gosta continua a reclamar. Quem gosta, a governar.
Eis o twist: a assessoria do Senado está fazendo justamente o contrário. Na semana que vem vai promover um evento com especialistas para ensinar os políticos a usar novas mídias e antigos formatos (as histórias). O objetivo é permitir aos governantes atrair o interesse da população para os assuntos políticos. Quanto mais pessoas gostarem de política, mais ela será debatida e melhorada.
Histórias são a resposta para o Paradoxo do Gostar: > para gostar tem que entender -> para entender precisa dedicação -> só se dedica quem gosta -
As narrativas falam de vários assuntos ao mesmo tempo. Daí dá pra usar um assunto popular como isca. O futebol seria perfeito para isso. No meio da trama do futebol é possível demonstrar a como a política influencia a vida de todos, começando pelo boleiro.
Serei o palestrante sobre storytelling. Na volta faço um post com o resumo do que foi dito.
Até lá deixo a questão: que história você contaria para quem te representa?
Marcas não contam histórias. O narrador é quem faz isso. O problema é que narrador não sabe vender marcas. Escritores, romancistas, dramaturgos, cineastas e contadores de histórias narram bem seus próprios contos. Nem adianta pedir para enredar mensagens corporativas. Tanto que são raras as marcas sendo contadas nas histórias autorais.
Estou falando dos casos em que uma marca protagonize parte de uma história. Que sem ela a história seria outra, pior. Quantos exemplos você consegue pensar além da bola Wilson, do Fusca que só falta falar e da moça que namora a vitrine da Tiffany? Pode contar nos dedos que não enche uma mão.
Na maioria das vezes as marcas e produtos ‘participam’ como meros cenários, desnecessários para histórias. Passam despercebidos, disfarçados no ambiente. Quantas marcas você consegue lembrar do último filme que viu no cinema? Pois saiba que a maioria dos filmes de Hollywood têm mais de 25 marcas identificáveis. O Iron Man 2 foi o campeão do ano passado com 64. O recorde é do Alta Velocidade (2001) com 102 marcas!
Mas pior do que ser ignorado é quando interrompem a história para empurrar um intervalo comercial escancarado. Você sabe do que estou falando... e sabe por experiência própria que isso não é bom nem pra empresa, nem pra história.
Da mesma forma que há técnicas para uma história cair no gosto do público, existe um procedimento específico para fazer a inserção de uma mensagem corporativa. É uma técnica que fica no epicentro do triângulo: ‘merchã de novela’, conteúdo próprio e marca-cenário. Falei disso nos cursos que ministrei na ESPM, GV e USP e agora começo a publicar por aqui.