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Em dezembro de 2006 a Storytellers tinha domínio próprio. Em fevereiro de 2008 o site dela mandava e-mail para outra empresa. O que era, então, essa empresa? A resposta tem quatro andares, e este texto sobe um por vez.

Em fevereiro de 2007 o site da Storytellers tinha uma imagem, um clique, e o clique mandava e-mail para outra empresa: oi@oitentaeum.com.br.

Quem datou a página foi o Internet Archive, e você pode abrir a captura.

O domínio storytellers.com.br já era meu: registrado na véspera de Natal de 2006, às cinco e quarenta e dois da tarde, quando eu abri a primeira empresa de storytelling do Brasil. A empresa existia antes de ter caixa postal.

O que era, então, essa empresa?

A caixa postal que não era nossa

O domínio oitentaeum.com.br foi registrado em 12 de outubro de 2005, no nome de uma organização de eventos, e o registro.br guarda isso até hoje. Em julho de 2007 a chamada da home da Oitenta e Um era "Ativação de idéias". Eventos, ativação, o que acontece fora da mídia comprada.

O site de 2007 era em Flash e não roda mais. O que sobrou legível é a página quem somos, guardada pelo arquivo em 20 de novembro de 2016, e ela diz agência de marketing promocional, plataformas BTL.

Captura da página "somos.html" do site oitentaeum.com.br guardada pelo Internet Archive, com a barra do Wayback Machine marcando "NOV 20 2016" e "4 captures". No menu do site: "quem somos", "trabalhos", "POR QUE A OITENTAEUM?". Sob o título "QUEM SOMOS", o texto: "Somos uma agência de MKT Promocional. Trabalhamos com as marcas através de plataformas BTL, com planejamento que busca usar a comunicação integrada da forma correta, atingindo o consumidor com estímulos que realmente o influenciam. Nosso Know How em planejamento e produção é o que faz a oitentaeum se destacar quando estamos em contato com os clientes. Seja bem vindo a nos conhecer, mas lembre-se: nada melhor que um bom papo para você saber mais sobre nosso trabalho." À esquerda, o logotipo "oitentaeum" com o subtítulo "Marketing Promocional". Nenhum elemento foi escondido.

Foi dentro dessa agência que a Storytellers nasceu, e nasceu agência: campanha de promoção com história dentro. A caixa postal do site era a caixa postal de quem incubava. Uma empresa dentro de outra empresa.

Captura do código-fonte da página storytellers.com.br arquivada pelo Internet Archive, exibida pelo navegador com numeração de linhas. Na linha 152, o comentário "END WAYBACK TOOLBAR INSERT". Na linha 154, a tag de imagem com "moleskine.jpg", largura 740 e altura 555, com o mapa "Map". Na linha 156, a área clicável com o atributo href "https://web.archive.org/web/20080210005229/mailto:oi@oitentaeum.com.br" e o alt "escreve pra gente!". Nas linhas 162 e 163, o carimbo do arquivo: "FILE ARCHIVED ON 00:52:29 Feb 10, 2008 AND RETRIEVED FROM THE INTERNET ARCHIVE ON 23:58:31 Sep 04, 2026". Nas linhas 164 a 167: "JAVASCRIPT APPENDED BY WAYBACK MACHINE, COPYRIGHT INTERNET ARCHIVE. ALL OTHER CONTENT MAY ALSO BE PROTECTED BY COPYRIGHT (17 U.S.C. SECTION 108(a)(3))". O quadro mostra o código-fonte, não a página renderizada, porque a única imagem da página não foi guardada pelo arquivo; nenhuma linha foi alterada.

A única imagem daquela página o arquivo não guardou. O endereço, sim. E a chamada em cima dele: "escreve pra gente!".

Os projetos dessa era foram para a Fraiha, para a Sarah Chofakian e para a Camper. Isso é memória minha, e fica declarado como memória, porque o site que listaria esses trabalhos é o mesmo Flash que não abre.

Uma empresa nasce onde consegue ser encontrada. A Storytellers foi encontrada, nos primeiros meses, numa caixa que tinha o nome de outra.

E quem nasce dentro de uma agência conhece um mercado antes de todos os outros: o das agências.

O primeiro projeto morreu antes de estrear

Em 1º de junho de 2007 a Storytellers fez a primeira proposta da vida dela, para a Lew Lara: pegar os slides de PowerPoint de uma convenção e transformar aquilo num espetáculo teatral. Não havia prazo, e morreu.

Em 4 de setembro de 2007 veio o primeiro projeto aprovado e realizado, as Aventuras no Livro de Mini Schin, com a Id/TBWA. A Lew'Lara trouxe o cliente, a Id, do mesmo grupo, fez a plataforma, e a Storytellers fez o roteiro e a mecânica narrativa.

Se você for procurar essa história em jornal, vai achar uma nota de 3 de abril de 2008 creditando a Lew'LaraTBWA, e eu credito a Id/TBWA. As duas estão certas: a Id era um spin-off da Lew'LaraTBWA, a nota escreveu a marca-mãe, e eu escrevo o nome do time com quem eu sentei.

Captura do site Acontecendo Aqui, com o logotipo e o menu "Vagas", "Parceiros", "Podcasts", "Colunistas". A data "03/04/08". O subtítulo em negrito "Projeto foi desenvolvido pela agência Lew'LaraTBWA". O primeiro parágrafo: "Um site onde crianças podem viajar por um mundo fantástico de mistério e aventura com o objetivo de se divertir. Este é o mote central do novo site do Mini Schin, marca de refrigerantes para crianças do Grupo Schincariol, que entrou no ar em março." O título da matéria, "Mini Schin leva crianças a mundo de aventuras em site", fica acima do quadro. Os anúncios e a foto ilustrativa da página foram ocultados na captura; nenhuma palavra do texto foi alterada.

O Mini Schin foi finalista do Cannes Lions de 2008. A Storytellers não está na ficha porque quem inscreve é a agência, e fornecedor de criação não entra. Na nota de abril, o nome dela também não está.

Lew Lara e Id/TBWA são agências.

Três datas na mesma primavera

10 de fevereiro de 2008: a caixa postal do site ainda era a da Oitenta e Um.

3 de abril de 2008: a nota credita a agência pelo site do Mini Schin. A camada de servir agências estava no ar, e estava invisível.

26 e 27 de abril de 2008: dentro da quarta Virada Cultural de São Paulo, quase mil pessoas passaram das onze da noite de sábado às oito da manhã de domingo dentro do HSBC Belas Artes, com três sessões de filme e quatro de degustação entre elas, cada prato inspirado na história da telona. Chamava Virada Cine-Gastronômica.

As fotos daquela noite estão no Flickr desde 9 de maio de 2008.

Captura da página de uma foto no Flickr, na conta "Stories We Like", usuário "storieswelike". A foto mostra uma fila de pessoas, de costas, na entrada de um cinema à noite, sob a marquise "HSBC BELAS ARTES", com o letreiro "BILHETERIA" ao fundo e o cartaz do filme "Estômago" à direita. Na coluna ao lado, o título "Virada Cine-Gastronômica, Fila" e a legenda: "1.000 é um número mítico. Chegamos perto dele, e poderíamos ter ultrapassado, mas nesse caso o evento teria virado um inferno. Preferimos ficar no paraíso, e fomos recompensados com milhares de sorrisos." Abaixo, "155 visualizações", "0 favoritos", "0 comentários", "Carregado em 9 de maio de 2008" e "Tirada em 26 de abril de 2008". A barra de navegação do Flickr e a área de comentários ficaram fora do quadro; nenhuma palavra foi alterada.

O texto que a gente publicou em maio de 2008 descreve o arranjo assim: "evento contado pela Storytellers e viabilizado pelo HSBC Belas Artes, que entrou com o cinema, e pela Petybon, que entrou com a comida". O nome da empresa está na frase. Pela primeira vez num documento, está na frase.

Em 2 e 3 de maio de 2009 a segunda edição rodou no mesmo cinema, e o texto de 2009 escreve que a Storytellers criou e produziu a primeira. Petybon como patrocínio, Dona Benta como apoio.

Em 2008, com a Lew Lara, a ideia que tinha morrido em junho de 2007 nasceu de novo para a J. Macêdo e virou o Filhas do Dodô.

Petybon e Dona Benta são marcas da J. Macêdo. O mesmo cliente, no mesmo ano, de dois jeitos: por dentro de uma agência, e sem agência nenhuma no meio. A camada nova não substituiu a anterior. Foi um cliente que atravessou as duas.

A revista escreveu sobre o professor

Em 16 de junho de 2015 a Revista Direcional Escolas chamou o curso Inovação em Storytelling da ESPM de "o mais tradicional sobre o tema no Brasil" e escreveu "os professores que trouxeram o Storytelling ao Brasil". Antes disso, em janeiro de 2014, a Meio & Mensagem tinha noticiado a décima primeira edição do mesmo curso e me posto entre os três professores, com nome e sobrenome.

Captura da Revista Direcional Escolas, com a data "Em 16 jun, 2015" e a etiqueta de seção "INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO". O título é "ESPM lança edição histórica do curso inovação em storytelling" e o subtítulo, em itálico: "Para comemorar a décima quinta edição do curso mais tradicional sobre o tema no Brasil, a ESPM fará uma edição especial com workshop no sábado". No corpo, a revista escreve: "A partir do dia 22 de junho, os professores que trouxeram o Storytelling ao Brasil vão explicar por que esse termo tem sido tão usado por empresas e publicitários, para o bem e para o mal." E adiante: "Ao longo da semana, o autor e professor Fernando Palacios fica encarregado de ensinar como as técnicas utilizadas por escritores, roteiristas, quadrinistas, dramaturgos e gamers podem ser aplicadas na hora de se contar uma história." As fotos da página foram ocultadas na captura para caber o texto; nenhuma palavra foi alterada.

As duas saíram assinadas pelas redações, não por mim.

O nome Storytellers não está na matéria, como não estava na nota de 2008. Numa era era a regra do festival, na outra é o jeito da imprensa: escreve-se sobre a agência, ou sobre o professor.

As datas dessa camada são cruas: 2010, o primeiro curso de storytelling na ESPM; 2011, a frente de consultoria, com palestras e depois treinamentos. Os documentos de 2014 e 2015 provam o curso vivo anos depois.

A matéria escreve sobre pessoas, não sobre a empresa. E a pergunta da primeira linha volta inteira: o que é, afinal, a Storytellers?

Duas palavras no mesmo texto

O único documento em que o nome aparece colado ao que ela é foi escrito pela própria firma, em 9 de março de 2020. E ele diz duas palavras onde a linha do tempo sugeria uma: agência, e consultoria.

Virou consultoria e não apagou agência. A Storytellers é agência e é consultoria, e faz treinamento, e faz projeto especial. Servir agência, criar projeto próprio, dar aula: a gente ainda faz as três. A camada mais antiga é de 2007 e continua ligada.

Que as camadas seguem vivas hoje é palavra minha, não documento. Este texto vai até 2011, onde elas se formaram. Os quinze anos seguintes, de 2012 a 2026, são o próximo texto desta série, e é lá que cada uma delas vai ter que aparecer em documento de novo.

Para onde ia o clique

Em fevereiro de 2007, quem clicava no site da Storytellers e escrevia para aquele endereço não estava escrevendo para outra empresa. Estava escrevendo para a Storytellers, no único endereço em que ela existia: o da casa onde tinha nascido. O domínio era dela. A caixa postal era de casa.

oi@oitentaeum.com.br

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