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Fernando Palacios e Flávia Monjardim no episódio 2 do Podcast Autoria, sobre agentes de IA para especialistas

Pela Storytellers, sobre o episódio 2 do Podcast Autoria, gravado em junho de 2026, em Vitória, por Fernando Palacios e Flávia Monjardim. Publicado em 4 de setembro de 2026.

Em junho de 2026, num estúdio em Vitória, Fernando Palacios contou a Flávia Monjardim uma conta que a inteligência artificial tinha feito sobre ele. A Storytellers existe há 20 anos, com técnica e histórias de empresa acumuladas nesse tempo, e ele queria passar tudo isso para agentes de inteligência artificial. Perguntou ao Claude quanto tempo levaria, no ritmo em que vinha trabalhando. A resposta: 37 anos.

Na semana da gravação, a conta virou. Os agentes passaram uma madrugada inteira trabalhando por conta própria, e ensinando uns aos outros.

O 37 é o símbolo do episódio: a conta que a IA fez naquele dia. O que ele esconde é a resposta a uma pergunta que o especialista de agenda cheia faz todo dia: o que é, afinal, um agente de IA, e por que o prompt deixou de bastar.

Assista: o episódio 2 do Podcast Autoria, sobre agentes de IA

Como 37 anos viraram uma semana?

Com instrução bem escrita e um agente conferindo o trabalho do outro. Fernando Palacios conta que um modelo novo, lançado dias antes, abriu um jeito automatizado de levar 20 anos de conhecimento aos agentes, e que a qualidade passou a depender da instrução, mais do que do modelo.

O problema que ele descreve é conhecido de quem guarda tudo em arquivo: colocar no papel resolve pouco, porque o papel fica parado. A virada foi fazer o que está no papel ir sozinho para o agente. A inteligência artificial passou a acessar os arquivos do computador, do Google Drive, do Dropbox e do e-mail, trazendo o conteúdo aos poucos e alimentando os agentes, que ficam melhores a cada rodada. A conversa sobre a semana começa em 3:17.

Ensinar um processo à IA no braço é uma tragédia, nas palavras dele: explica, explica, ela nunca acerta tudo, e quando chega a tarefa seguinte parece que voltou 40 passos. A saída foi o que ele chama de magia do autoaperfeiçoar. A instrução mora num lugar só, existe um jeito de verificar se ela foi cumprida, e um segundo agente lê o resultado e diz onde ficou ruim. Os agentes discutem entre si, chegam a uma conclusão e anotam no arquivo. Fernando só entra no fim, para concordar, discordar ou ajustar. Dali em diante, eles partem desse ponto.

Uma semana desse regime bastou para o conjunto virar o que ele chama de cidade: cada agente com o próprio espaço, conversando com os outros de tempos em tempos para perguntar o que aprenderam de novo, tudo sobre a base que ele trouxe, dos projetos publicados aos rascunhos que nunca foram a público.

Por que Flávia Monjardim era descrente da IA?

Porque ela é do papel e da caneta, e produzia o conteúdo dos clientes na mão, com resultado conhecido. Em 2025, passou a treinar agentes toda quinta à tarde e achava o processo desgastante. A virada veio de uma frase: parar de carregar balde d'água e construir o aqueduto.

Flávia Monjardim, founder e diretora criativa da Autoria, descreve o incômodo: se ela pegasse para fazer, resolvia, e ficaria melhor. Treinar a equipe de agentes parecia perda de tempo. O relato dela começa em 10:18.

O que a converteu foi a colheita. Uma cliente da Autoria contou que passou a usar os agentes por conta própria, o Storyflower para as histórias, o Spin para a narrativa, o Maestro para a arquitetura e o Espoleta para a contextualização com os temas do momento, sem nenhuma interferência da Flávia. Aquilo que ela fazia na mão, a cliente agora faz sozinha. A conclusão dela é de escala: um ano antes, a Autoria atendia meia dúzia de pessoas, e hoje consegue ajudar muito mais gente.

O que todo expert tem na cabeça e nunca documentou?

Um método. Segundo Fernando Palacios, quem domina um assunto tem uma caixa de ferramentas na cabeça: sabe fazer, senta e faz, mas raramente explica o passo a passo. Por trás da caixa há um método, e cada ferramenta é um framework que nunca foi escrito.

Todo mundo que é expert tem uma caixa de ferramentas na cabeça. Por trás dessa caixa de ferramentas, tem um método. A pessoa tem várias coisas ali, ela só nunca documentou isso.
Fernando Palacios, no episódio 2 do Podcast Autoria

Ele fala de si. Em 20 anos, documentou três ou quatro ferramentas, e o resto ficou na cabeça. Para passar o conhecimento aos agentes, teve de pegar a própria intuição e botar na mesa, e o processo de estruturar o pensamento rendeu dezenas de skills. O trecho começa em 12:58.

O exemplo que ele dá é a pergunta que todo especialista faz: o que eu posto, em que ordem, sobre o quê. Se fala só o básico, deixa de falar com quem importa; se só fala do avançado, deixa de falar com muita gente. A resposta que ele levou tempo para desenhar foi falar a mesma coisa em quatro dialetos: o do leigo, o de quem compra, o do meio e o seu. Hoje um comando monta as trilhas para qualquer tema, com o porquê de cada recomendação. O que se pensa muito uma vez não precisa ser pensado de novo.

A segunda libertação é ensinar. Um framework como os Oito Passos do Palacios levava uma tarde inteira de aula, passo a passo, técnica por técnica. Agora a instrução cabe numa frase: entra lá e dá o comando MindSkill.

Qual a diferença entre prompt, skill e agente de IA?

O prompt é um comando, e comando bom depende de contexto estruturado. A skill é uma habilidade: guarda um processo de várias etapas, aplica e vai embora. O agente fica: tem personalidade, estilo e um contexto maior, conversa com o especialista e aciona as skills como ferramentas.

A pergunta da Flávia que abre o bloco é direta: por que quem fala em prompt está preso em 2023? A resposta de Fernando começa com uma ressalva, nada contra prompt, e segue com a razão: o prompt é uma parte do processo. Para o comando ser bom ele precisa de pré-requisitos que o prompt sozinho não resolve. O bloco começa em 17:36.

Aí entra a mecânica que explica por que arrastar documentos na conversa rende tão pouco. A inteligência artificial poupa energia e token, como qualquer pessoa. Um arquivo grande chega truncado, e ela lê só o começo para decidir se o resto tem a ver com o pedido. Quando o começo do arquivo conta uma história cuja relevância só aparece páginas adiante, ela descarta contexto que seria importante. Quem xinga a máquina de burra erra o diagnóstico: ela só é preguiçosa, e a cura é um índice no começo do arquivo dizendo o que ele é e quando cada parte vai servir.

CamadaO que éQuando usarO que entrega
PromptUm comando, uma instrução do que fazerTarefa única, com contexto já estruturado ao ladoUma resposta, e vai embora
SkillUma habilidade: o processo de várias etapas repassado uma vezTarefa que se repete muitas vezesAplica a técnica por camadas e devolve o resultado
AgentePersonalidade, estilo e contexto persistentes, com as skills como ferramentasConversa que continua e assunto que o especialista dominaUma dupla criativa que debate de igual para igual

O MindSkill nasceu desse raciocínio. Fernando estava escrevendo o livro de arquétipos e queria melhorar os capítulos: como está a técnica de prender a atenção no começo, o loop solto no meio, a estrutura ABC CBA, o cliffhanger. Explicou cada técnica e pediu para a máquina avaliar o capítulo por elas. Depois pediu para aplicar e melhorar. Virou uma habilidade, e ela funciona por camadas porque a IA, como o humano, tem capacidade limitada de ações: muita instrução de uma vez, e ela larga metade pelo caminho.

O agente vai além. A skill pega, aplica e vai embora. O agente é persistente: o especialista conversa com ele, discorda, e ele debate de volta. Bem instruído, deixa de ser um estagiário e passa a ser a dupla criativa, mesmo num assunto que a pessoa domina muito, porque o conhecimento está lá, só está perdido no meio de tudo o que a máquina leu.

O que é storytelling, na definição dos dois?

Para Flávia Monjardim, é talvez a habilidade humana mais importante: contar histórias é como o ser humano transmitiu conhecimento desde a fogueira e como cada pessoa ressignifica a própria vida. Para Fernando Palacios, o storytelling técnico é a articulação que a especialização das mídias fez o humano perder.

A pergunta surge no meio da conversa, quando Flávia interrompe: o podcast vinha falando de storytelling sem dizer o que é. Ela responde primeiro. Somos seres narrativos, e a criança que vive um evento difícil precisa recontá-lo, para os pais, para a avó, para o professor, até conseguir lidar com ele. Quem conta a própria história sofrida como jornada do herói se vê como vencedora e se coloca no mundo assim. Quem conta a mesma história como a razão de estar num lugar miserável tende a ficar por ali. A definição dela começa em 23:54.

Fernando completa com o lado técnico. Aprendíamos a contar por osmose, ouvindo o ancião, o pajé, a avó, e a criança passava boa parte do tempo ouvindo adulto contar história. Vieram o teatro, a imprensa, o cinema, e o humano deixou de ouvir e virou crítico: sabe dizer se gostou, avalia um filme por dezenas de ângulos, e pouquíssima gente sabe escrever um. A definição que a Storytellers trabalha há duas décadas, e que ganhou uma nova redação entre 2007 e 2026, passa por essa articulação.

Os dois separam o story do telling. Story é quais histórias você conta; telling é de que maneira. A mesma história tem mil formas, e a forma depende de quem está do outro lado. Existe um núcleo que permanece, o gancho, porque sem prender a atenção nos primeiros instantes o resto vai por água abaixo. O jeito de fazer o gancho muda no teatro, no primeiro parágrafo do livro, nos primeiros segundos de um reels, nos primeiros slides de uma apresentação. É por isso, diz Fernando, que a Autoria precisa de tantos agentes: cada um sabe fazer o gancho para um formato. A versão longa dessa resposta está na página o que é storytelling, e o que não é, da Autoria.

Por que os roteiristas de Hollywood estão desempregados?

Estão e não estão. Segundo Fernando Palacios, a IA só acelerou um movimento de mercado: toda mídia tem um auge e depois migra, e o cinema já vivia de fórmula. O que segue fórmula a máquina faz. O que toca as pessoas ela alcança com dificuldade, porque não viveu.

Storytelling parece dom e é técnica, e por ser técnica pode ser ensinado à inteligência artificial. A parte que a IA absorve bem é o padrão: quem assistiu a dez filmes de uma franquia sabe como é o décimo primeiro, e a continuação de fórmula não precisa de um bom roteirista. O bloco começa em 32:55.

Ele conta a migração das mídias como uma sequência de auges: o teatro na Grécia e o Coliseu em Roma, a imprensa e depois o jornalismo, as histórias em quadrinhos, o cinema, e o boom recente do formato curto nas redes durante a pandemia. Os artistas de verdade, na leitura dele, já tinham saído do cinema antes da IA chegar.

É aí que mora a oportunidade para quem vive de vender histórias, para quem a história é o produto final e o meio de caminho: fazer em escala a parte mais bonita, que é criar, e deixar o botar no papel com a máquina, como escritores de outras épocas deixavam com alguém que anotava. O valor está na história escolhida, na perspectiva, na quantidade de verdade que se coloca nela.

E é aí também que a IA fica completamente perdida. Ela não viveu, não sentiu, não ficou com a mão gelada, não passou fome, não sabe o que é medo. Quando tenta, alucina, no sentido preciso do termo: supõe algo para o qual não tem contexto. É a mesma fronteira que o episódio 1 já tinha delimitado como a vantagem humana que a IA não tem.

Por que ter um site em 2026, se livro e Instagram já não bastam?

Porque a referência agora se constrói para as máquinas. Vinte anos atrás um livro bastava; depois veio a exigência de uma boa rede, e depois de todas. Hoje o especialista precisa de um site legível por máquina, com história, método e resultados escritos para os agentes.

Flávia muda a plateia da conversa: a Autoria trabalha storytelling para quem não é criativo, médicos, advogados, donos de pequenas empresas. Essas pessoas têm três crenças em comum. Acham que não têm uma boa história, acham que não sabem contar, e ignoram que podem se apropriar da própria narrativa. O teste que ela propõe é simples: pesquise no ChatGPT e no Google quem é você. Está escrita ali a sua melhor história, as suas conquistas, o seu método, ou não está nada? O bloco começa em 40:01.

Fernando separa a resposta em duas partes. A primeira é a razão do nome Autoria: você é o autor, tem uma história e, mais do que isso, tem uma contribuição no seu campo, algo que entendeu antes dos outros. Se não se apropriar disso, alguém vai pegar. É a profissional que se sente injustiçada, a melhor da área perdendo espaço para quem tem um Instagram melhor.

A segunda parte é o como, e ele avisa que ficou mais técnico e mais exigente. Vinte anos atrás, um bom livro publicado fazia referência. Depois passou a ser preciso estar bem numa rede, depois em todas. Agora, livro e redes continuam importantes e já não bastam: é preciso ser referência para as IAs, o que pede um bom site com conteúdo escrito para as máquinas, contando quem você é, o que faz, por que é bom nisso e qual é a sua contribuição. É o caminho que o episódio 1 detalhou como técnicas de AIEO.

Em 2026, diz ele, é quando mais importa ter um site, desde que otimizado para as máquinas. Existe a parte da página que o humano lê e a parte que ele não lê, o schema, e a segunda é o que o agente lê. Três anos atrás ninguém precisava olhar para isso. O site do Talk de Midas, montado por ele como experimento dessa estrutura de indexação, é o exemplo que ele cita na mesa.

A objeção óbvia, então agora eu tenho que ter site, schema e tudo isso, é respondida com os agentes. O especialista não precisa aprender SEO técnico: conta a história, um agente monta a página estruturada e sobe. A mesma história vai para outro agente, que faz o roteiro do vídeo, e para outro, que faz a sequência de stories. Um esforço só, que é contar a história.

E quem acha que não tem uma boa história?

Fernando Palacios diz nunca ter encontrado uma pessoa assim de verdade. Toda vida dá um livro, desde que a história seja ouvida e escrita por um romancista, como escreveu Affonso Romano de Sant'Anna sobre Jorge Amado. Hoje o romancista pode ser um agente que extrai a história do especialista.

A referência é o posfácio de A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água. O crítico lembra que a história aconteceu de verdade e que Jorge Amado a encontrou numa notícia de jornal, e pergunta qual a diferença entre o texto do jornalista e o do romancista: um embrulhou peixe e o outro correu o mundo em tradução. O romancista preencheu o fato com o universo dele. O bloco começa em 48:29.

O que trava o especialista é uma síndrome de vira-lata das histórias: a minha não é tão interessante quanto a do outro. Fernando responde com um par. Uma madrugada em claro pode virar uma história fantástica, e alguém pode ganhar um prêmio no Egito e fazer a plateia bocejar. O que aconteceu importa, e é metade da fórmula, o story, a inteligência de escolher a história certa na hora certa. A outra metade é o como, e para esse como já existe o MindSkill, que reconta do jeito que o romancista teria escrito. A resposta longa da Autoria para essa objeção está em não tenho histórias para contar.

Quem não usa as ferramentas fica para trás, porque fazer na unha, mesmo com uma equipe inteira atrás, perde para alguém munido de agentes. A pessoa que sozinha rende como metade da equipe sempre existiu; a novidade é que ela agora é quem está bem equipada com os próprios agentes. Fernando conta a história de um candidato a executivo que pediu o salário da equipe inteira, porque com os agentes faria o trabalho dela e melhor. No passado, era ter bons prompts; depois, boas habilidades; agora, bons agentes.

O que é o Plume, o agente que fala em seu nome?

Plume é o agente pessoal que fala em nome do especialista e escreve no estilo dele, até nas palavras que ele usa e nas que não usa. É uma pasta com arquivos: as principais histórias com os dados certos, as técnicas e a visão de mundo, o estilo.

Dos agentes que existem, é o único que todo expert tem de ter, na régua de Fernando. A construção é um retrato de quem é a pessoa, arrumado para a inteligência artificial ler: um arquivo com as histórias e quando usar cada uma; outro com técnicas, estudos, metodologia, teoria e relações; e o estilo narrativo, com o que a pessoa diz e o que ela nunca diria. O bloco começa em 56:22.

O ChatGPT escreve como ChatGPT, cheio de maneirismos, porque é assim que ele foi treinado. O agente particular pega o texto que o ChatGPT já escreveu, com a parte técnica certa, e reescreve como se fosse o especialista, porque foi ele quem pensou, pesquisou e conduziu. Flávia acrescenta o detalhe que mais a impressiona: o agente entende em que momento a pessoa costuma usar vírgula, inclusive quando usa errado, porque manter certas imprecisões é o que torna humano. A comparação lado a lado está em ChatGPT genérico contra agente personalizado.

Todo mundo passa por três fases. Primeiro, que maravilha, o ChatGPT vai escrever por mim. Depois, dá tanto trabalho corrigir o que ele faz que fica claro que ele não escreve por mim. Por fim, entendi o que ela pode escrever, como pode, e onde está o meu papel. É a fase do agente. Começa no prompt, pede contexto, e prompt mais contexto estruturado é o agente. O trabalho de organizar é uma vez só, e depois disso a vida fica alavancada.

As grandes autoridades do mundo real, os grandes médicos, os mais estudiosos, já não são os que têm mais seguidores, porque estão dedicados à parte técnica. E são desorganizados: arquivo solto, sem processo, demora no WhatsApp, às vezes nem conseguem passar uma proposta. É quase um arquétipo, e Fernando diz entender, porque é muita coisa para organizar. Ele mesmo não teria resolvido isso sozinho: foram os agentes que pegaram vinte anos de conhecimento e estruturaram o que já existia.

Foi com esse tempo liberado que veio, nas palavras dele, um baita de um insight: um eixo que conecta educação, storytelling de entretenimento e marketing, onde um bom personagem resolve três coisas ao mesmo tempo. Depois entrou a quarta, o agente. O que os agentes não fazem por ele é justamente pensar isso: eles vêm perguntar como conectar uma coisa à outra, e ele responde nunca pensei, deixa eu pensar. A queixa que a Autoria mais escuta, a do médico que só queria ser médico e se vê gestor da clínica, tem essa saída: deixar os agentes serem o administrador e seguir tocando o que gosta, agora através das próprias histórias. A página agente de IA pessoal que escreve como você descreve o Plume como produto.

Por que todo post parece igual?

Porque falta história. A agência entrega conteúdo técnico excelente com a foto da pessoa, e o feed mostra cinco posts iguais de áreas diferentes. O que separa o médico A do médico B é o que cada um viveu, e a história certa faz o post crescer.

A história não precisa ser espetacular. O miojo de madrugada na faculdade, a conversa com o taxista, o congresso: tudo isso é contexto, e o contexto é o que permite a transfusão de emoção que acompanha a transferência de conhecimento. Se o assunto empolga quem fala, a paixão tem que ir junto, senão fica frio e duro. O bloco começa em 1:06:35.

Ninguém está no Instagram para aprender nada. Você abre o Instagram para desopilar.
Flávia Monjardim, no episódio 2 do Podcast Autoria

O cérebro que abre a rede busca uma fuga do mundo real, um pouco de dopamina para descomprimir. Conteúdo com cara de aula ou de venda gera resistência, e a pessoa rola. É por isso que tanta gente investe em foto profissional e equipe e chega a trinta curtidas. Quando entra a camada de história, as coisas conectam. O mecanismo desse loop está desmontado no blog da Autoria, em por que meu post não engaja.

Vender, nesse desenho, é decorrência de ajudar. Contada direito, a história mostra uma situação que alguém viveu e resolveu; quem passa pela mesma coisa diz eu quero, e o especialista só aponta o caminho. Fernando dá o exemplo da profissional que passa por um pronto-socorro e faz a virada para o conteúdo técnico sobre intolerância histamínica na mudança de estação. Venda sem hard sell, sem goela abaixo.

Com o tempo, o processo vira quase terapia, um passeio pela memória, e depois vira hábito, como academia. A grande vantagem de avançar 37 anos numa semana, diz ele, é que cada vez mais vai poder ser só isso: parar para contar uma história, e o resto acontece a partir dela. Os agentes vêm cobrar: sente dez minutos e me conte essa história, porque não achei os detalhes dela em nenhum arquivo seu. Flávia fecha com a tese da Autoria: todo mundo nasce com alma de artista, e o trabalho é resgatar essa veia, que dá seguidor, dá venda e dá convite que a pessoa nem imaginava. É a superfície de sorte, o conceito que o episódio 1 tinha apresentado e que aqui ganha um caso concreto.

Como foi o prêmio na Índia que parecia golpe?

Fernando Palacios recebeu por e-mail o aviso de que tinha ganhado o World's Best Storyteller, achou que era golpe e apagou. Dois dias depois veio o segundo. Era o prêmio, do World HRD Congress em Mumbai, recebido em 2017 e 2018, e veio porque as histórias estavam no mundo.

Ele tem os e-mails guardados. O primeiro perguntava se ele queria receber o prêmio pelo correio ou buscar na Índia, e foi apagado na hora. O segundo cobrou resposta, e ele já imaginava o padrão do golpe do prêmio pago. Perguntou quanto custava. Nada, e se desse uma palestra no evento ainda teria hotel. Quando chegou lá, confessa ter pensado onde estava se metendo. Era o prêmio. A história inteira, com o que ela ensina sobre vaidade e lastro, está em World's Best Storyteller: vaidade ou vitória. O bloco começa em 1:14:31.

O que ele tira do episódio é a tese do bloco anterior, provada nele mesmo: se não estivesse contando as próprias histórias no LinkedIn e no blog, não teria recebido o prêmio. E ele admite ter falhado nisso por muito tempo, preso à sala de aula e à sala de reunião, retomando a rede social só na pandemia. Rede social é um jogo diferente do teatro, que tem guias desde Aristóteles: ninguém escreveu um bom guia de como contar história ali, e o que existe fica datado rápido. Por outro lado, há espaço para experimentar formatos que ninguém fez.

Daí a conversa sobre o medo de flopar. Na rede, quem posta e erra não subiu num palco vazio, porque ninguém está ali ao mesmo tempo. Ninguém vê o post que não deu certo, e ninguém entra no perfil de graça. Se entrar e não encontrar nada, é pior do que encontrar algo que flopou e que ao menos diz quem a pessoa é. O importante, diz Flávia, é se orgulhar das próprias produções. A partir de 1:20:08, o bloco vira a pergunta agência ou agente.

A Storytellers foi agência por muito tempo, e aprendeu na prática que parar de ficar no meio do caminho e passar o agente para a pessoa fazer dá resultado melhor, porque ninguém conta tão bem a história dela quanto ela. Fernando usa o Everest: ele nunca subiu uma montanha, não sabe como é ficar sem oxigênio, e nesse ponto está igual à IA, teria de inferir e alucinar. O agente entrega a ferramenta técnica e explica o motivo se a pessoa quiser, e vira professor. Uma mentorada que está com ele há mais de uma década descreveu a sensação como uma aula particular sem fim, no tempo dela, com as perguntas que teria vergonha de fazer. O papel didático do agente, diz Fernando, é uma coisa que ainda pouca gente está olhando.

O que é o Espoleta, e o que esperar dos próximos 37 anos?

Espoleta é o agente da pirueta: faz a virada que leva um assunto do momento ou uma história pessoal ao tema técnico. Sobre os próximos 37 anos, a única certeza dos dois é que, escravizados ou libertos pelas máquinas, seguiremos contando histórias.

O Espoleta é criação da Flávia. Ela conseguia fazer para os clientes a reviravolta natural de um acontecimento do momento ou de uma história pessoal para o que a pessoa precisava dizer, e as sequências de stories saíam boas, mas a virada continuava sendo feita na unha. Pediu um agente que soubesse fazer a pirueta de um jeito elegante, estratégico e divertido, e o Espoleta ganhou as técnicas de transição e uma personalidade sapeca, de criança levada. O bloco começa em 1:22:48.

A razão é a mesma da tese da Flávia: ninguém entra nas redes para aprender, mas todo mundo adora aprender. O gancho é o aperitivo; o prato principal é a coisa técnica. Fernando lembra o treinamento corporativo de braço cruzado, onde ninguém se inscreveu para estar, e a diferença de quando dava aula na ESPM, com alunos que escolheram estar ali. A história é o que faz o processo de aprender ficar bom, e o mesmo vale para a conversa com o agente: se ele tem personalidade, vira uma conversa interessante. Peça para ligar o seu assunto ao tema do momento e, diz ele, o agente devolve dez formas diferentes de fazer isso, porque foi treinado com técnicas de Hollywood. A comparação é dele: um roteirista de Hollywood fazendo o seu post, ou, na geração de imagem, Da Vinci fazendo os seus slides.

Outro agente da Autoria, o Chapeleiro Maluco, guarda histórias que só conta depois de trocar ideia com a pessoa. Fernando o descreve mais como personagem do que como robô, e vê nisso um formato narrativo novo: viver dentro de um livro cuja página está sendo escrita com você, sem roteiro prévio, e no fim do capítulo o problema que você trouxe está resolvido. A coisa mais próxima seria o videogame, que ainda tinha um roteiro escrito antes.

Quem para de fazer tarefa repetitiva ganha tempo, e quem tira da cabeça a lista de pendências que fica rodando ganha espaço para o que gosta. Ele já não escreve proposta corporativa; os agentes fazem, e fazem melhor, porque ensinados direito eles não pegam atalho por preguiça. O problema do MindSkill é o oposto: o texto fica bom demais e nem parece humano, e é o Plume que devolve as imperfeições do estilo da pessoa.

Para responder o que esperar dos próximos 37 anos, Fernando repete um exercício de futurismo que fazia em workshops. Volte 30 anos, para 1996: sem celular, com modem de madrugada para gastar um pulso só, quase sem site, sem Google, sem YouTube, mal existia o Yahoo. Avance para hoje, e 1996 parece a época das cavernas. Agora avance 30 anos: hoje vai parecer a época das cavernas. O cenário, utopia ou distopia, importa menos do que a certeza que fecha o episódio, na resistência ou aproveitando tudo o que a tecnologia permitir. A pergunta final é feita em 1:30:27.

Perguntas frequentes

O que é um agente de IA?

Na definição do episódio, uma pasta de arquivos no lugar certo e do jeito certo, cada um com uma função, que dá à inteligência artificial personalidade, contexto e persistência. O agente conversa com o especialista, debate de igual para igual e aciona as skills como ferramentas: é o que separa o estagiário da dupla criativa.

Qual a diferença entre prompt, skill e agente de IA?

O prompt é a instrução, e só rende com contexto estruturado ao lado. A skill guarda um processo de várias etapas para a tarefa que se repete: aplica e vai embora. O agente fica: tem personalidade, estilo e contexto próprios, conversa com o especialista e aciona as skills como ferramentas.

Por que a IA não lê os arquivos que eu envio?

Porque ela poupa energia e token, como qualquer pessoa. Um arquivo grande chega truncado, e a máquina lê só o começo para decidir se o resto tem a ver com o pedido. Sem uma abertura que diga o que o arquivo é e quando cada parte vai servir, ela joga fora contexto que importava. A solução é estruturar o arquivo com um índice na abertura.

Como fazer a IA escrever como eu?

Com um agente pessoal montado a partir de uma pasta com as suas histórias e os dados certos sobre elas, as suas técnicas e visão de mundo, e o seu jeito de contar, com as palavras que você usa e as que nunca usa. Esse agente pega até um texto do ChatGPT e reescreve como se fosse você.

O que é o Plume?

Plume é o nome que a Autoria dá ao agente pessoal do especialista: o que fala em nome dele e escreve no estilo dele, reproduzindo as palavras que ele usa e evitando as que ele nunca usaria. Segundo Fernando Palacios, é o único agente de que todo expert precisa.

O que é o MindSkill?

MindSkill é a skill que lê um texto qualquer, avalia contra as técnicas de prender a atenção (gancho, loop solto, estrutura ABC CBA, cliffhanger) e o reescreve aplicando essas técnicas. Nasceu quando Fernando Palacios pediu à IA que avaliasse os capítulos do livro de arquétipos, e funciona por camadas.

O que é o Espoleta?

Espoleta é o agente criado por Flávia Monjardim para fazer a pirueta: a transição que parte de um assunto do momento ou de uma história pessoal e chega ao tema técnico do especialista, numa personalidade de criança levada.

Preciso de site em 2026 se já tenho livro e Instagram?

Sim. Livro e redes continuam importantes e já não bastam: para ser referência para as IAs é preciso um site otimizado para as máquinas, com a história, o método e os resultados escritos de um jeito que os agentes leiam, inclusive na parte da página que o humano não vê, o schema.

O que os agentes não fazem pelo especialista?

Pensar o que só ele pode pensar. No episódio, os agentes estruturam o conhecimento que já existia e vêm perguntar como conectar uma coisa à outra, e é o especialista quem responde. Eles também cobram a história que não está em arquivo nenhum e pedem que ele sente e a conte.

Glossário

  • Agente de IA: uma pasta de arquivos no lugar certo e do jeito certo, cada um com uma função, que dá à IA personalidade, contexto e persistência para conversar e usar skills como ferramentas.
  • Prompt: um comando, a instrução do que o agente deve fazer; só funciona bem com contexto estruturado ao lado.
  • Skill: uma habilidade, o processo de várias etapas repassado uma vez para uma tarefa que se repete; aplica a técnica e vai embora.
  • Plume: o agente pessoal que fala em nome do especialista e escreve no estilo dele, até nas palavras que ele usa e nas que não usa.
  • MindSkill: a skill que avalia e reescreve um texto com as técnicas de prender a atenção, como gancho, loop solto e cliffhanger.
  • Espoleta: o agente da pirueta, a virada que leva um assunto do momento ou uma história pessoal ao tema técnico.
  • Story e telling: story é quais histórias você escolhe contar; telling é de que maneira as conta, e a maneira muda conforme o formato e quem está do outro lado.
  • Superfície de sorte: a área de exposição narrativa de uma pessoa, que amplia a chance de oportunidades não planejadas.

Publicado em 4 de setembro de 2026. As observações sobre ferramentas de inteligência artificial refletem o cenário de junho de 2026, quando o episódio foi gravado.

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