
Foto: ONM, O Novo Mercado.
Em novembro de 2007, um estudante defendeu na ECA USP o primeiro estudo acadêmico sobre storytelling no Brasil e tirou Suma Cum Laude. Em 2010, o mesmo estudante abriu o primeiro curso de storytelling da ESPM. Entre uma coisa e outra, começou a ser chamado para falar sobre isso em auditório, e não parou mais.
Durante quatro rodadas de vasculhada em arquivo próprio, e-mail, contrato e nota fiscal, a Storytellers catalogou o que Fernando Palacios de fato realizou como palestrante e professor, linha por linha, cada uma com a fonte ao lado. O resultado são 204 realizações documentadas pela régua da vasculhada de setembro de 2026, sendo 133 palestras e realizações próprias e 71 treinamentos corporativos, contados em separado justamente para não inflar a conta.
O número é piso. Ele para onde a fonte primária para.
O que a nota fiscal sabia e o arquivo não contava
A parte interessante do levantamento não foi somar. Foi descobrir por onde procurar.
As duas primeiras rodadas varreram o óbvio: site, blog, imprensa, garimpo de nome em buscador. Renderam bem, e mesmo assim deixaram dezenas de clientes na condição mais incômoda que existe para quem preza evidência, o nome que a Storytellers repetia há nove anos sem uma data ao lado. Nike era um deles.
A terceira rodada mudou de eixo e foi atrás das notas fiscais emitidas. Nota fiscal existe por obrigação legal mesmo quando o e-mail do evento sumiu, e ela carrega os quatro campos juntos: data, cliente, valor e descrição do serviço. Sozinho, esse eixo rendeu mais realizações novas que as duas rodadas anteriores somadas, e datou trinta clientes que até então eram só afirmação. A Nike ganhou data: 27 e 28 de março de 2017, programa de dois dias pela ESPM Educação Executiva.
A quarta rodada corrigiu a régua da terceira, e essa correção vale mais que qualquer número. Notas emitidas por outra pessoa jurídica tinham sido descartadas como trabalho de terceiro, quando na verdade eram trabalho realizado por ele. A nota pode nomear outro prestador e o trabalho continuar sendo dele. E palestra institucional a convite pode não faturar nada, então ausência de nota nunca prova ausência de palestra.

Documento: Fundação Arquivo e Memória de Santos, ofício 316/2013.
Ofício 316/2013, de 22 de outubro, assinado pela diretora-presidente da Fundação Arquivo e Memória de Santos, convidando "para participar, como conferencista, do VIII Seminário Regional de Memória, Arquivo, Biblioteca e Museu do Litoral Paulista e Vale do Ribeira". Nenhum centavo faturado, e uma prova de realização que nenhum recibo daria.
Vinte anos em três escalas de sala
Quem contrata palestra costuma imaginar uma coisa só, o palco grande. O acervo mostra três formatos diferentes, e o ofício vive nos três.
O palco grande é o mais fotografado. Na convenção da Associação Brasileira de Franchising, em 22 de junho de 2017, foi um salão com plateia em mesas de banquete.

Foto: ABF, Associação Brasileira de Franchising.
Em Ouro Preto, em 7 de junho de 2016, foram mais de trezentas pessoas para ouvir "Storytelling aplicado a negócios e promoção de destinos: o caso de Ouro Preto", palestra que coroou a residência na cidade e o lançamento do portal da Marca-Destino, anunciada como gratuita no blog da Storytellers dias antes.

Foto: acervo do autor.

Foto: acervo do autor.
A segunda escala é o palco médio, o auditório de instituição, com plateia contável e conversa possível.

Foto: acervo do autor, organização Praticom.

Foto: acervo do autor.
O slide dessa última foto guarda a abertura que ele usa há anos, "quem já ouviu falar em storytelling, levante a mão". A pergunta parece cortesia e é diagnóstico: a resposta define qual das versões da palestra vem a seguir.
A terceira escala é a que quase nunca aparece em foto de divulgação, e é onde mora a metade do trabalho.

Foto: acervo do autor.
Quatro pessoas em volta de uma mesa, com o tabuleiro do método aberto. Foi assim com Itaú, com EDP e com a Trussardi tentando contar os 120 anos da própria marca em 17 de abril de 2018. Setenta e um treinamentos corporativos catalogados, e a maioria aconteceu em sala fechada, sem foto de palco, sem plateia de trezentos.

Foto: acervo do autor.

Foto: acervo do autor.
Se contratar storytelling para palestras adianta, o inventário acima responde: adianta em escalas diferentes, por motivos diferentes.
O Estado, o Judiciário e a sala de aula
Em 14 de junho de 2011, o Senado Federal recebeu uma palestra sobre liberdade de expressão e novas mídias, com entrevista de trinta minutos na TV Senado, e a Storytellers publicou o registro na época.
Depois vieram o Ministério Público do Paraná em 13 de setembro de 2019, o Ministério Público de Goiás em 24 de fevereiro de 2021 com "Podemos inovar contando histórias?", tribunais de Minas, Santa Catarina e Pernambuco, a ENAP, a Prefeitura de Fortaleza abrindo o segundo dia do 5o Seminário Internacional de Políticas Públicas para Cidades em 1o de setembro de 2023.

Foto: ExpoJud, organização do evento.
Na docência, a conta é outra: dezessete instituições de ensino com realização própria, onze delas acadêmicas. A ESPM é a casa mais antiga, com vinte turmas em três formatos e mais de mil alunos desde 2010. A FIA veio em fevereiro de 2015, e a Learning Week de outubro de 2016 virou o formato "Storytelling para liderança". A FGV CPDOC trouxe a oficina "Digital Storytelling nas Humanidades" em outubro de 2022, por edital FAPERJ, a masterclass "Sala de Histórias" em novembro de 2023 e o programa "Professor de Professores", que é storytelling com inteligência artificial para quem já tem mestrado e doutorado.
O primeiro curso fora do Brasil foi em Lima, em 2012, na Pontificia Universidad Católica del Perú.

Foto: PUCP, Escuela de Posgrado, organização do curso.

Foto: PUCP, Escuela de Posgrado, organização do curso.
O que terceiros escreveram, e quando
A parte do levantamento que não depende de arquivo próprio é a que mais interessa a quem desconfia de currículo. Em agosto de 2012, a revista Gestão Educacional publicou entrevista nas páginas 20 e 21 e o apresentou como "um dos fundadores do primeiro escritório de storytelling no País".

Reprodução: revista Gestão Educacional, agosto de 2012.
Em maio e em julho de 2013, a Dirigente Lojista, do Sistema CNDL, publicou dois artigos assinados por ele, os dois fechando com o mesmo boxe: "sócio-fundador do primeiro escritório de Storytelling no Brasil e ministra cursos regulares sobre o assunto na ESPM-SP".

Reprodução: revista Dirigente Lojista, Sistema CNDL, número 463, maio de 2013.

Reprodução: revista Dirigente Lojista, Sistema CNDL, número 465, julho de 2013.
Em 27 de outubro de 2016, o Jornal do Commercio de Manaus estampou na capa "Histórias para encantar e vender" e escreveu que "o professor Fernando Palacios se tornou o storyteller (contador de histórias) pioneiro no Brasil". Em setembro de 2012, a Gazeta do Povo já tinha dedicado página à viagem em que ele escreveu o livro no celular.

Reprodução: Gazeta do Povo, edição de 8 a 14 de setembro de 2012.
Todas saíram de veículos, em datas distintas, ao longo de quatro anos.
Mumbai, duas vezes
Em fevereiro de 2018, no Taj Lands End, em Mumbai, o World HRD Congress realizou o 2nd World Storytelling Congress. O crachá do dia 16 traz impresso o papel, o nome e a empresa.

Foto: World HRD Congress e Times Ascent, organização do evento.

Foto: acervo do autor; certificados emitidos por CHRO Asia e Times Ascent.
Dois certificados, duas edições, 2017 e 2018. Em 2019, foram dois meses de residência no Madeira Startup Retreat, em Funchal.

Foto: Madeira Startup Retreat e Turismo de Portugal, organização do evento.
A frase que ele projeta, e que a imprensa confirmou antes
Há uma foto no acervo que resume por que este levantamento existe.

Foto: acervo do autor.
O slide diz: "não inventei o conceito, mas em 2007 fui o primeiro a trazer para o Brasil". É uma afirmação forte, do tipo que costuma morrer sem prova. Acontece que a Gestão Educacional escreveu o equivalente em 2012, a Dirigente Lojista repetiu em 2013, e o Jornal do Commercio cravou em 2016. Três veículos, três datas, nenhum deles cita o slide.
Dezenove anos depois da fundação da Storytellers, em dezembro de 2006, o tema virou palco grande de novo. Em 2025, no ONM Ao Vivo, o título no telão era "A Palestra dos Arquétipos".

Foto: ONM, O Novo Mercado.

Foto: ONM, O Novo Mercado.

Foto: ONM, O Novo Mercado.
Duzentas e quatro realizações com fonte primária, e ainda assim o levantamento se declara incompleto: dezenas de datas seguem ausentes, mais de quatrocentas fotos do acervo continuam por ler, e a varredura do que terceiros publicaram sobre esses mesmos eventos nem começou. Um número que se sabe piso vale mais que um número redondo que ninguém consegue conferir. Os temas e os formatos que esse arquivo sustenta hoje estão reunidos na página de palestras.
Comentários