http://cache.daylife.com/imageserve/0cMzeUzcK82Uc/613x459.jpg?fit=scale&background=000000




Os Jogos Olímpicos são um espetáculo: superação, derrota, vitória e patriotismo caminham juntos. Um milésimo de segundo pode determinar o sucesso ou o fracasso de um atleta que se preparou arduamente nos últimos quatro anos. Um dos momentos mais mágicos dos jogos é a abertura. Um misto de cores, luzes e performances anunciam dias de torcida para centenas de nações. Neste ano, havia um componente mágico na abertura que ia muito além das coreografias. Em Londres falou-se de histórias, por alguém que entende muito bem do assunto: Danny Boyle foi o diretor artístico da cerimônia de abertura. Ele é conhecido pela direção de filmes como Trainspotting, Por uma Vida Menos Ordinária, 127 horas e Quem Quer ser Milionário?, este último vencedor de oito Oscars.  

O tema da cerimônia era “This is for everyone”. Assim como os jogos olímpicos, as histórias são para todos. E Boyle aproveitou o poder das histórias para contar o legado e os valores do povo inglês. A proposta era mostrar o que os britânicos ofereceram ao mundo, nos esportes, na sociedade, nas artes... Passaram pelo estádio olímpico personagens memoráveis como o agente secreto James Bond, que “contracenou” com a rainha Elisabeth. Para alguns soou exagerado, para outros funcionou. Ele não criou personagens, valeu-se dos que fizeram a história da Inglaterra, em uma combinação que agradou à maioria.

Um dos maiores orgulhos britânicos, o National Health Service, que seria como o nosso SUS, foi retratado por crianças e enfermeiras. Os vilões criados na terra da rainha como Malvina Cruela, dos 101 Dálmatas, Capitão Hook, de Peter Pan e Voldemort de Harry Potter perturbaram o sono das crianças e nem as mais destemidas enfermeiras foram capazes de espantar os malfeitores. Até que Mary Poppins chegou e colocou ordem na casa. Foi construído um mundo de fantasia ao vivo, diante dos olhos.

JK Rowling, em uma de suas raras aparições públicas esteve presente, mais uma vez para mostrar o poder das histórias. Afinal, não é qualquer um que consegue vender mais de 450 milhões de exemplares e ter sua saga traduzida em mais de 70 idiomas. Ela leu um trecho da obra Peter Pan, do autor britânico J.M. Barrie. Aliás, no âmbito das artes há de se concordar que os ingleses deixaram um bom legado ao mundo: The Beatles, Queen e David Bowie e suas canções imortais, JK Rowling com sua saga Harry Potter e por que não Danny Boyle e seus filmes?

Embora a cerimônia não tenha sido construída em cima da estrutura da narrativa -- estava mais para histórico do que para história -- ainda assim havia elementos de uma história sob a batuta de Boyle. Foi isso que transformou a cerimônia de um amontoado de coreografias em um evento memorável. 

Isso me fez pensar no papel do Brasil nos eventos esportivos que estão por vir. Que narrativa iremos construir? Estamos preparados para mostrar nosso legado de uma forma tão criativa como fez a Inglaterra? 



Já imaginou se você perdesse a memória? Acordar pela manhã e não reconhecer seu pai, nem sua mãe, nem seus amigos ou irmãos? Olhar no espelho e não saber quem é?

O que nos faz ser o que somos é o passado e o passado é feito de histórias. Aquela vez que vez que fomos a praia com os amigos e machucamos o pé tentando jogar bola descalço. O dia do seu aniversário em que a luz acabou e festa no fliperama virou um jantar a luz de vela com direito a história de terror. O dia em que saímos do trabalho e fomos beber com o chefe. Tudo o que somos hoje é resultado de uma história, afinal não existe jeito melhor de lembrar do passado, nem de sonhar com o futuro. 

O facebook está tentando há algum tempo mexer com essas histórias. Recentemente trocaram o "no que você está pensando" pelo "conte a sua história" e a própria linha do tempo se revelou uma ferramenta interessante para contadores de histórias criativos. Agora, para promover uma de suas ferramentas o facebook decidiu brincar com a questão das histórias e dessa vez eles acertaram no storytelling. 



A história é boa, rápida e bem contada, o vídeo começa mostrando o personagem andando de costas o que  mostra o seu "uniqueness", ou seja, aquilo que é característica única daquele personagem. A ferramenta e a marca entram sem forçar a barra, mas sem se esconder, de maneira natural, como algo que faz parte da vida de todos. Após sofrer e buscar maneiras de lidar com a sua situação o rapaz descobre uma maneira nova de usar a ferramenta. Achei legal a ideia de mostrarem um utilidade diferente para a "produto" sem querer fazer com o que ele seja o salvador absoluto da pátria mas mostrando claramente o que ele realmente é: uma ferramenta que depende do usuário para se tornar extraordinária.

Temos conflito e personagem, temos a jornada desde o mundo "normal" pela transformação e a volta ao mundo "normal" com o personagem agora transformado. Temos o produto e a marca bem posicionados na narrativa e somos envolvidos pela trama. O Facebook realmente mandou bem nesse case! 




Pulei de site em site, como de galho em galho, me dependurando em manchetes e twites em busca de um parágrafo mais doce que ainda não houvesse caido da arvore lá pra página 20 do google. Lá de longe, nem lembro onde, encontrei uma frase bonita, que me chamou a atenção, não dava muito bem para ver o que era, mas três palavras eram claras: "ballantine's", "quadrinhos" e "história", algo me chamou a atenção e eu decidi buscar mais informação sobre aquilo. 

A antecipação era grande, uma marca de whisky, o meu predileto, contando uma história, o sorriso escapava por entre os pensamentos cautelosos capazes de prever possíveis decepções com horas de antecedência. Mas não consegui evitar, a curiosidade criou expectativas, mais algumas páginas, mais alguns pulos e tropeços causados pela pressa e pronto. A página do Ballantine's Brasil no Facebook. 

Estou chateado, de verdade. Magoado. Quem sabe um dia eu entendo o descaso, o desapego, a "desvontade" desse povo para com as palavras. Não é assim, bagunçado, nem tão simples... história... não basta dizer o que aconteceu, basta? Não basta, escrever em um balão e desenhar... cada coisa mais descabida que colocam no balão desses desenhos hoje em dia... não basta fazer quadrinho e dizer que é história, o manual da TV tem quase 200 páginas e não é livro, não é literatura. É claro que esse sentimento todo é culpa minha, um tanto de exagero de um escritor que ainda romantiza o que não conhece. Talvez seja a falta de experiência que me deixe tão exagerado. 

Pois é, meus amigos, o manual não está errado em ser um manual e eu juro, em um momento de ócio, eu já o li, do começo ao fim. O problema é dizer que o manual é a história da TV. A forma tanto faz, o que importa no fim das contas é o conteúdo. Nem todo vídeo é um filme assim como as instruções de segurança do avião, apesar de terem quadrinhos, não são nem revista, nem história. Pois é, procurei e procurei um pouco mais, mas no fim eu só achei os quadrinhos e me perdi em mais e mais galhos e páginas do facebook procurando a história. Não estou dizendo que é errado usar outros formatos para falar da sua empresa ou se comunicar com o seu público, estou apenas dizendo que as instruções de voo em um avião estão em quadrinhos e nem por isso são uma história. Não que a campanha não seja boa, mas não sei se a palavra "história" é adequada para a situação. "Quadrinhos com certeza" mas a história deixou a desejar e acabou se revelando apenas tirinhas com piadas e pequenas situações bastante óbvias falando de consumo consciente. Não achei o conflito e os personagem vão assim como aparecem, vivem no máximo por três quadrinhos, assim não dá tempo de conhecer ninguém, muito menos de criar laços. Não que eu quisesse uma saga de heróis, mas talvez uma série de tirinhas. Eu diria até, ousadamente, que manter o personagem por mais de um tirinha seria interessante, faria com que nos conectássemos melhor, lembrei da Mafalda e pensei: "Que graça teria a Mafalda se amanhã fosse Joaninha e depois Gabriela?" 









Artigo escrito por Martha Terenzzo e Fernando Palacios, publicado originalmente no Portal HSM

O próximo filme do diretor Ridley Scott vai aos cinemas em junho, mas a história já começou na internet. A campanha de divulgação na web é no mínimo inusitada. Digo inusitada para não parecer que estou fazendo propaganda do filme. A verdade é que a estratégia é genial.

A indústria do cinema convive com a questão do sucesso ou fracasso imediato. Todos os anos de trabalho da concepção do roteiro à pós-produção e os milhões de dólares investidos são medidos em apenas dois dias: o fim de semana de estreia. Não é por menos que a turma dos trailers tenha se tornado quase tão importante quanto à do filme em si. Foi nessa antecipação que a equipe de Ridley Scott surpreendeu.

O trailer é um TED Talk, organização especializada em encontrar, promover e divulgar palestras curtas e inspiradoras. O TED existe no mundo real e adquiriu status de alto prestígio e reputação. Não basta ser famoso para palestrar. É preciso ter algo profundo e impactante para compartilhar. E ter dinheiro não é o suficiente para estar na plateia. A audiência é pinçada entre milhares de interessados que preenchem uma ficha contando suas histórias de vida. Muitas vezes, eles reúnem no auditório inúmeras pessoas com histórias tão boas quanto as dos palestrantes. A palestra vai para a internet e lá ganha uma audiência de milhões de pessoas em todo o mundo. Pois com o Ridley Scott as histórias de vida deram espaço à ficção.

O primeiro trailer-teaser da nova produção de Ridley Scott é justamente uma palestra TED... no ano 2023. Em três minutos, o personagem fictício Peter Weyland fala sobre nossa primeira tecnologia, que inclusive não fomos nós que inventamos. Veio dos deuses. Ou melhor, foi roubada deles por Prometheus: o fogo. Depois disso uma tecnologia levou a outra e ela está para falar que em breve irá lançar androides indistinguíveis de nós. E, com isso, viraremos os deuses.
Só que não foi o fogo em si que iniciou a revolução da humanidade, foi o controle sobre ele. Por isso a imagem da fogueira é tão poderosa. É um ícone universal que remete a conforto, calor, segurança, comida e, tudo isso junto, com boas histórias.

Algo tão ancestral não pode ser uma simples ferramenta. Storytelling vai muito além de realizar uma tarefa. É usado para liderar equipes, inspirar plateias, vender produtos, imortalizar um acontecimento e transmitir conhecimento.

Temos então uma nova questão. Como o simples ato de contar histórias pode realizar tantas coisas, inclusive fazer a mulher, o jovem e o editor mais ricos da Inglaterra? Simples? Não é tão simples assim. Ainda mais quando em vez de intuitivo, o processo tenha que ser planejado.

Storytelling tem tudo a ver com o símbolo da fogueira. O fogo é o “story”, a substância imaterial, a versão mental que temos de uma história. A madeira é o “telling”, sendo que cada graveto atua como uma narrativa. O fogo só ganha forma visível quando um autor narra sua versão daquela história. Primeiro é preciso ter algo a dizer (story), para depois encontrar a melhor forma de expressar (telling).

Finalmente entra em cena o conceito de transmídia. O raciocínio é de fragmentar partes da história por meio de múltiplos formatos. Cada graveto possui o seu formato e, à sua maneira, contribui para aumentar o fogo. É como o trailer do filme de Ridley Scott que simplesmente não vai aparecer na película. É uma extensão, um complemento, mas que vai além de uma tocha perdida, já que enriquece a experiência como um todo.

Qual é a genialidade do cineasta Ridley Scott? Ora, em vez de ficar criando dezenas tochas, ele cria fogueiras bem estruturadas. Anos depois é capaz de alimentar a fogueira com novos gravetos. Portanto, o fogo fica cada vez mais forte e acaba sendo visto por mais pessoas. Como ele chegou a esse trailer? Graças ao pensamento por trás do filme. De forma indireta, Prometheus é o antecessor de Alien. Já havia fogo. E Ridley Scott só aumentou a fogueira.

Imagine se as empresas tivessem este pensamento: criar histórias fascinantes que vão muito além de um simples herói da marca ou do consumidor-padrão e criar universos imersivos ricos e complexos. E assim como Ridley Scott transformou o que poderia ter sido um mero trailer num curta-metragem de três minutos, também as empresas muito além dos anúncios de situações de cotidiano e criar narrativas que ninguém quisesse pular depois de cinco segundos. Talvez até envolver, de tal maneira que as pessoas se dispusessem a pagar para ver sua mensagem corporativa. O processo é simples. Basta juntar gravetos e fazer fogo.


Martha Terenzzo e Fernando Palacios, ambos professores de Inovação e Storytelling da ESPM.
Para saber mais sobre o assunto, acesse o link




Na última terça-feira, Ariano Suassuna falou a uma plateia lotada sobre tradição oral. Ele e Guimarães Rosa foram nomeados expoentes da reinvenção da oralidade na literatura brasileira pela Mostra Sesc de Artes. Em sua fala, ele deixou bem claro a importância do personagem. A consistência em sua construção é fundamental para a história. O herói ali descrito foi Riobaldo, o narrador de Grande Sertão: Veredas, obra de Guimarães Rosa. 

Riobaldo foi estudado e reestudado pelos mais diversos críticos literários, escritores, professores de literatura. Eu, que não me enquadro em nenhuma dessas categorias, tomo a liberdade de fazer minha própria análise. Para mim ele é um ótimo personagem porque é capaz de conduzir pela história. Ele levou – e leva – diversos leitores com ele pelas paisagens, pelos conflitos, pelas tristezas do sertão com um jeito e falas característicos que o revelam por inteiro. A sua simplicidade faz quem acompanha a narrativa se compadecer da sua causa, faz torcer para que ele descubra o que o atormenta na amizade com Diadorim, com aqueles olhos de onda do mar, como ele dizia. O que ele tem é verdade humana. Simples assim.  

Um personagem como esse pode custar a “nascer”. É um exercício, um desafio para o autor. Mas quando bem pensado, bem desenhado, bem construído, ele vem e mostra a que veio. No mundo das histórias, a gente vê todo tipo de personagem, mas sempre tem um que deixa sua lembrança. Para mim, há uma dupla que causa muitas reflexões a cada conto que leio ou ouço: Sherazade e o inflexível Rei Shariar, de As Mil e Uma Noites. Ele era perseguido pelo fantasma de uma traição, enquanto ela estava em busca da redenção. Através das histórias – muitas histórias, há que se ressaltar – ela venceu.  

Essa consistência do personagem, que causa vontade de caminhar com ele, de torcer, de se compadecer da sua causa e até de sentir seu amigo é resultado da construção baseada nos arquétipos, os personagens maiores que a vida. Eles fazem parte do inconsciente coletivo, se repetem nas mais diversas culturas e servem como fonte de inspiração de forma atemporal.  O arquétipo do amante te leva de volta à sua primeira paixão, o do guerreiro te põe frente a frente com teu maior medo e te ajuda a encará-lo. Esses padrões nos ajudam a construir novas histórias e ao beber dessa fonte é que construímos nossa própria história.

Diante de toda tecnologia e conteúdo com que somos soterrados, sobra informação e falta tempo para absorver, digerir, internalizar e até mesmo botar pra fora. É nesse cenário que os arquétipos entram como valioso trunfo para quem quer criar histórias. É a partir desses personagens maiores que a vida que se criam narrativas críveis e recheadas de verdade humana. Eles dão vida às histórias desde os tempos mais remotos, como os heróis da mitologia grega Zeus, Eros, Afrodite...                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     


imagem: http://wallsdl.com/wp-content/uploads/2012/06/Greek-God-Zeus.jpg