Era uma vez um jovem que tinha medo. Um tipo de medo diferente que não era do escuro, nem de nenhum inseto. O jovem tinha medo de errar. Pois é meus amigos, vejam vocês, com tantas coisas no mundo para se ter medo, entre os desconhecidos segredos do escuro, animais famintos de presas enormes e seres humanos que mais parecem ter saído de histórias de terror, aquele jovem e inocente rapaz escolheu o erro como seu maior fantasma.

"Errar é humano" - dizia sua avó para acalmar o coração aflito do jovem - "Todos erramos e devemos aprender com os nossos erros" - continuava a senhora com um sorriso calmo no rosto tentando amenizar os efeitos do pânico que se estampavam na face do pobre neto. E assim o tempo passou, entre muitas crises de pânico e discursos tranquilizantes. 

O fato é que o mundo é um amontoado de erros, uma sucessão de desentendimentos e, hora ou outra, um pequeno acerto, aqui ou ali e por causa de tudo isso não demorou para que o mundo se tornasse por inteiro um lugar apavorante para o pequeno Luis. Com o risco de um erro a cada palavra, decisão e pensamento o jovem vivia assustado, com medo de que um daqueles pequenos erros do dia a dia fosse o definitivo, o erro que acabaria com a sua vida, com a sua carreira. Mas, em uma noite qualquer de janeiro o garoto conheceu o storytelling, uma maluquice bem do tipo que ele gostava e no meio de seus estudos e aprendizados ele percebeu que uma narrativa só faz sentido quando o personagem é imperfeito. 

Olha o que a vida faz, deixou como se fosse de propósito um recado para o garoto nas entrelinhas de sua própria função profissional, ensinou-lhe com a sua história que errar não só é humano como dizia a sua avó, mas que é o de erro que nascem as melhores e mais interessantes mudanças, lições, aprendizados e história. O erro definitivo do jovem Luis  era, na verdade, ter errado pouco por ter tanto medo de errar. 


Escrevo contos e alguns poemas há um tempo, com a intenção de expressar o que estou sentido e, às vezes, tentar responder algumas perguntas que estão me rondando. Porém, fazia isso naturalmente, por “instinto”, sem me atentar necessariamente para técnicas. Então, em determinado momento descobri que era possível, de certa forma, “racionalizar” essa escrita - e sendo o meu primeiro texto aqui, escrevo sobre isso que foi o que me despertou interesse em Storytelling.
Apesar de a escrita autoral ser uma descarga do que se está sentindo, de experiências vividas, referências pessoais, ou seja, em essência particular e criada naturalmente, é possível encarar a criação como um projeto, com etapas definidas e com elementos narrativos que, se não necessários, são aconselháveis que sejam incluídos no texto. Assim, fazer uso de um “plano de escrita”.
Um plano de escrita, fazendo uso das técnicas de storytelling, deve considerar alguns aspectos como, por exemplo, a existência de “brain rules”, que nos dão um caminho de como capturar a atenção das pessoas, nos mostrando que estamos mais propensos a nos atentar a questões de ameaça (instinto de sobrevivência), sexo (instinto de reprodução) e emoções (que é aquilo que nos faz humano).
Com esses elementos chamando atenção das pessoas, alguma coisa tem que acontecer na história. Algo tem que ser transformado: o personagem, o universo onde ele está inserido, um modelo pelo qual ele lutou contra etc. Se uma história merece ser contada, é porque algo aconteceu, é porque alguma coisa mudou do início para o seu fim.
Essa mudança pode ser a superação de uma rivalidade que o personagem enfrenta no decorrer da história, podendo ser com outro personagem, com um objeto, com o status quo, entre outros.
Outro elemento auxiliador é o cronograma. Podemos tirar dos projetos empresarias esse ensinamento, que conta com um cronograma em todo projeto bem estruturado. Encarar a escrita como algo planejado, então, faz necessário uma pequena organização das datas: o que pretendo ter em determinado dia, quais avanços devo fazer hoje, quando pretendo ter o projeto finalizado etc.
Vale lembrar que na criação de uma história não existe fórmula e nada está totalmente certo nem errado, e que as técnicas não se esgotam nessa breve pincelada apresentada. Até as brain rules podem ser desconsideradas. Também, mesmo que com um projeto estruturado, o “instinto” pode tomar conta e se entregar a ele seja o melhor caminho para a sua história. Contudo, pensar a escrita como um projeto pode ajudar na medida em que torna o processo, de certa maneira, mais estruturado.





Em sua recente passagem pelo Brasil, Storytelvis, o rei do plot, emprestou uma das mais famosas canções de seu repertório para retratar a emoção que sentiu diante das técnicas do Storytelling. Considerado ele próprio uma história que nunca morreu, o artista maneja a guitarra com habilidade única na redação dos capítulos sob forma de acordes. Verso por verso, expressa, ainda, por meio de uma nova letra as sábias e míticas lições que aprendeu com a eternidade de sua obra.

Storytelvis pede apenas que os fãs deixem tocar "Love me Tender" no vídeo abaixo, enquanto leem a letra de "Storytelvis, the King of Plot".



Com vocês.............Storytelvis!!!!

Storytelling
Story is sweet
Never let me go.
You have made my brand complete
And I love you so.

Storytelling
Fiction’ true?
All my dreams fulfilled.
My high-concept I love you,
And I always will.

Storytelling
Short or long,
Let me stay and write
This so cute and lovely song
For us to sing tonight.

Storytelling
Story, dude
All my dreams fulfilled.
For my storycraft I love you
And I always will.

Storytelling
Story dear,
Tell me you are fine
To be heard through all the years
Till the end of times.

Storytelling
In Hollywood
All my dreams fulfilled.
Storytelling  I love you
And I always will.


Se você não estiver muito familiarizado com alguns termos usados na música, vamos dar uma mãozinha:

Brand: a marca de uma empresa.

High-Concept:
 a ideia capaz de gerar uma narrativa interessante. Mais detalhes sobre a expressão você encontra em um post do Stories We Like de novembro de 2011: Já ouviu falar em High-Concept?

Plot:  trama, ou enredo.

Storycraft: ajuda a definir o High Concept, como base em perguntas como "e se não existisse internet?", "e se eu pudesse voltar no tempo?", "e se os vampiros existissem?".




Ultimamente tenho pesquisado histórias africanas. De repente, um interesse foi despertado. Talvez seja pela descendência, uma vez que meu avô materno é filho de uma escrava com um português. Comecei a pensar o que eu sei sobre a África. Fiquei envergonhada... É pouco demais... E você, o que sabe sobre esse continente?

Nessas buscas reencontrei esse TED, que já tinha visto há um tempo, mas nem de longe naquela época ele fez o sentido que hoje ele faz. Está aí um dos atributos do storytelling: as histórias são capazes de ressignificar e quando se encontra um significado que faz sentido a atenção é capturada.




NO TED a romancista nigeriana Chimamanda Adichie nos faz um alerta: "A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história."

Assim como muitos de vocês, eu também tinha uma única história sobre a África antes de começar a pesquisar as histórias daquele continente, que são riquíssimas e inspiradoras, diga-se. Chimamanda tem uma fala que me remete à única história que os estrangeiros têm do nosso país: samba, futebol, carnaval, favelas, corruptos... É o retrato boa parte dos filmes nacionais passa. E esse retrato é o que fica também para nós, afinal o país tem dimensões continentais e nem todos têm a possibilidade (e até interesse) de conhecer tudo.  

Nas andanças pelo universo das histórias conheci uma escritora tocantinense. E lá veio a pergunta martelando internamente: o que eu sei sobre o Tocantins, seu povo, sua história? Mais uma vez era pouco... Com a leitura de dois de seus livros descobri algumas coisas, inclusive que o pirarucu -- um peixe típico da região -- pode chegar a 250 quilos! 

Para alguns isso pode soar como cultura inútil. Eu não acredito nisso. Acho que o storyteller tem o dever de saber mais e mais sobre tudo e sobre todos. Quanto mais referência, melhor. E como bem pontuado nesse TED, que sejam referências diversas e não apenas uma única história, imposta como verdade absoluta e enfiada goela abaixo. 


Há um mês ministrei um workshop profissional de Storytelling na PUC del Peru e uma coisa ficou clara: mesmo com toda a barreira linguística e cultural entre os países, o fascínio e das boas histórias permanece. Talvez mais do que isso. Posso arriscar a dizer que é justamente o poder de se contar bem uma boa história que ultrapassou as barreiras.